Neonatologia · Malformações, Genética e Cirurgia

Avaliação Dismorfológica do RN

Abordagem do RN com malformações e síndromes

Revisão: outubro de 2026. Resumo para revisão e prova. A versão completa do tema, com o exame dismorfológico passo a passo e casos interativos, está em Avaliação do Recém-Nascido com Dismorfismos; os dois documentos seguem as mesmas fontes e a mesma conduta.

1. Importância do tema na Pediatria

A avaliação dismorfológica organiza o raciocínio diante do RN com anomalias congênitas: classificar os achados, reconhecer padrões (síndromes) e orientar a investigação e o aconselhamento genético. Os conceitos (malformação, deformação, disrupção, displasia; sequência × síndrome × associação) e as principais cromossomopatias são clássicos de prova. Desde janeiro de 2026, as anomalias congênitas são de notificação obrigatória (compulsória) no Brasil, feita pela Declaração de Nascido Vivo (Portaria GM/MS nº 10.175/2026; Nota Técnica nº 3/2026-SVSA/MS).

2. Avaliação inicial

História gestacional e familiar (consanguinidade, perdas, exposições, oligo/polidrâmnio, achados do pré-natal), exame físico SISTEMÁTICO (medidas, fácies, mãos e pés, coluna, genitália, órgãos internos por imagem) e a distinção entre anomalias MAIORES (impacto funcional ou cirúrgico) e MENORES (pistas diagnósticas). Fotografar e medir ajuda a reconhecer padrões. O Ministério da Saúde orienta exame na sala de parto e exame completo entre 12 e 24 h de vida, com a DNV preenchida ou qualificada, de preferência, entre 24 e 48 h, descrevendo todas as anomalias, com posição e lateralidade, sem agrupá-las (NT nº 3/2026-SVSA/MS). A SBP pede que malformações maiores e menores sejam reavaliadas e registradas antes da alta, com os achados descritos mesmo sem diagnóstico definido (Manual de Seguimento do RN de Alto Risco, 2ª ed., 2024).

3. Conceitos fundamentais

TermoDefinição
MalformaçãoDefeito intrínseco da morfogênese (ex.: cardiopatia, fenda)
DeformaçãoForma alterada por força mecânica externa sobre estrutura normal (ex.: pé torto posicional por oligoâmnio — ver Deformidades Posicionais e Estruturais)
DisrupçãoDestruição de tecido previamente normal (ex.: bridas amnióticas)
DisplasiaOrganização anormal das células em tecidos (ex.: displasias esqueléticas)
SequênciaCascata de eventos a partir de UMA anomalia inicial (ex.: Pierre Robin; sequência de Potter)
SíndromeConjunto de anomalias com causa comum conhecida (ex.: Down; CHARGE, hoje ligada ao gene CHD7)
AssociaçãoAnomalias que ocorrem juntas mais que o acaso, sem causa única (ex.: VACTERL)

4. Diagnóstico — investigação

ExameUtilidade
CariótipoSuspeita de aneuploidia (Down, Edwards, Patau, Turner); identifica trissomia livre, translocação ou mosaicismo — base do aconselhamento (SBP 2020; AAP 2022). O microarray não substitui o cariótipo no Down, porque não distingue a translocação (AAP 2022)
Microarray cromossômico (CMA)Malformações múltiplas sem padrão reconhecível: microdeleções/duplicações não vistas no cariótipo
Exoma / genomaDoenças monogênicas; o ACMG (2021) os indica como 1º ou 2º exame em anomalias congênitas; no Reino Unido, genoma rápido no RN grave em UTI (NHS, teste R14). Disponibilidade no SUS conforme o Protocolo do MS (Portaria Conjunta nº 21/2020)
Imagem (ecocardiograma, US de abdome e rins, neuroimagem, radiografias)Anomalias internas e esqueléticas associadas; ecocardiograma em todo RN com Down, mesmo sem sopro (SBP 2020; AAP 2022)

5. Conduta e fluxograma

  1. Passo 1 — descrever e classificar: descrever objetivamente os achados (sem “rotular” precocemente), classificar (maior/menor; malformação, deformação, disrupção, displasia) e registrar na DNV.
  2. Passo 2 — reconhecer o padrão e investigar: sequência, síndrome ou associação → cariótipo (aneuploidia suspeita), microarray (polimalformado sem padrão), exoma/genoma conforme a hipótese e a disponibilidade; imagem para anomalias internas; envolver a genética clínica.
  3. Passo 3 — manejar, aconselhar e seguir: tratar as anomalias com risco de vida, comunicar o diagnóstico com empatia, oferecer aconselhamento genético e seguimento multidisciplinar.

Principais cromossomopatias

SíndromeAchados típicos
Down (T21)Hipotonia, fácies típica, prega palmar única, cardiopatia (DSAV, CIA, CIV), risco de atresia duodenal; diagnóstico clínico, cariótipo para o mecanismo e o aconselhamento (SBP 2020; MS NT 3/2026)
Edwards (T18)Mãos cerradas com sobreposição de dedos, pés em mata-borrão, micrognatia; alta letalidade
Patau (T13)Holoprosencefalia, fenda labiopalatina, polidactilia, defeitos de linha média; alta letalidade
Turner (45,X)Menina com linfedema, pescoço alado, coarctação; baixa estatura

6. Gravidade e encaminhamento

7. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC de Genética — Diretrizes de atenção à saúde de pessoas com síndrome de Down, mar/2020; Manual de Seguimento do RN de Alto Risco, 2ª ed., 2024Guia prático: diagnóstico de anomalias congênitas no pré-natal e ao nascimento, 2022; Portaria GM/MS nº 10.175, jan/2026, e NT nº 3/2026-SVSA/MSHealth Supervision for Children and Adolescents With Down Syndrome, mai/2022 (+ ACMG, EUA, nov/2021)Sem diretriz de dismorfologia localizadaPágina de protocolos de Genética e Dismorfologia não acessível; sem posição confirmadaSem posição localizada (páginas institucionais bloqueadas ao acesso)Sem protocolo público localizadoSeguem o NHS England: National Genomic Test Directory, v8.0, 2025
Exame e registroReavaliar e registrar anomalias maiores e menores antes da altaExame na sala de parto e entre 12–24 h; descrever todas as anomalias na DNV; notificação compulsóriaExame físico é o teste mais sensível nas primeiras 24 h (Down)—————
Down no RNDiagnóstico clínico; cariótipo, ecocardiograma e hemograma ao diagnóstico; TSH pelo teste do pezinhoDiagnóstico clínico; cariótipo não é necessário para o registro na DNVCariótipo para confirmar (FISH se urgente); microarray inadequado; eco em todos—————
Polimalformado sem padrãoGenética clínicaMicroarray e exoma (Protocolo do MS, Portaria Conjunta nº 21/2020)ACMG: exoma/genoma como 1º ou 2º exame————Genoma rápido em trio no RN grave em UTI (R14)

Leitura: as referências localizadas concordam no essencial: exame sistemático com medidas, descrição objetiva sem rótulo precoce, busca de anomalias internas e encaminhamento à genética clínica com aconselhamento. Na síndrome de Down, SBP (mar/2020), MS (NT nº 3/2026) e AAP (mai/2022) pedem ecocardiograma para todos; divergem no papel do cariótipo — diagnóstico clínico, com cariótipo para o aconselhamento, na SBP e no MS; cariótipo para confirmar na AAP, que desaconselha o microarray nesse caso. No polimalformado sem padrão, a ordem dos exames varia com a disponibilidade: microarray e exoma no Protocolo do MS (2020), exoma/genoma como 1º ou 2º exame no ACMG (2021) e genoma rápido no RN grave no NHS (2025). NICE, AEP, Johns Hopkins e Harvard não têm documento de dismorfologia neonatal localizado. Posição do site: a da SBP (diagnóstico clínico do Down, cariótipo, ecocardiograma e hemograma; registro das anomalias antes da alta) e, onde ela não detalha, o Ministério da Saúde (notificação na DNV; microarray e exoma conforme o Protocolo de 2020).

8. Complicações

Decorrem das anomalias associadas (cardíacas, gastrointestinais, renais, neurológicas) e do impacto no neurodesenvolvimento; daí a importância do seguimento multidisciplinar e do aconselhamento.

9. Erros comuns

“Rotular” uma síndrome sem exame e investigação; confundir deformação (mecânica) com malformação (intrínseca); não pesquisar anomalias internas associadas; pedir microarray em vez de cariótipo na suspeita de Down; não registrar as anomalias na DNV; não oferecer aconselhamento genético.

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN com hipotonia, fácies característica, prega palmar transversa única e sopro cardíaco. O ecocardiograma mostra defeito do septo atrioventricular.

Questão 1. Hipótese diagnóstica?

(A) Síndrome de Edwards (B) Síndrome de Down (trissomia do 21) (C) Síndrome de Patau (D) Síndrome de Turner (E) Sequência de Potter

Questão 2. Exame que identifica o mecanismo da cromossomopatia e orienta o aconselhamento?

(A) Hemograma (B) Cariótipo (C) Radiografia (D) EEG (E) Dosagem de TSH

Questão 3. Malformação gastrointestinal classicamente associada?

(A) Atresia de esôfago (B) Atresia duodenal (sinal da dupla bolha) (C) Onfalocele (D) Gastrosquise (E) Ânus imperfurado isolado

Caso 2. RN com pé torto bilateral e contraturas, em gestação com oligoâmnio acentuado por agenesia renal; fácies comprimida e hipoplasia pulmonar.

Questão 4. Como classificar o pé torto nesse contexto?

(A) Malformação intrínseca (B) Deformação (força mecânica por oligoâmnio) (C) Disrupção (D) Displasia (E) Associação

Questão 5. Como se chama a cascata de eventos a partir do oligoâmnio por agenesia renal?

(A) Síndrome de Down (B) Sequência de Potter (C) Associação VACTERL (D) Síndrome de Turner (E) Sequência de Pierre Robin

Questão 6. Conjunto de anomalias sem causa única, que ocorrem juntas mais que o acaso, denomina-se:

(A) Síndrome (B) Associação (ex.: VACTERL) (C) Sequência (D) Deformação (E) Displasia

Gabarito comentado

Questão 1 — B. Hipotonia, fácies típica, prega única e DSAV sugerem síndrome de Down. Questão 2 — B. O diagnóstico do Down é clínico (SBP 2020; MS 2026), mas o cariótipo identifica trissomia livre, translocação ou mosaicismo, o que muda o risco de recorrência; a AAP (2022) o usa também para confirmar. Questão 3 — B. A atresia duodenal (dupla bolha) associa-se à síndrome de Down. Questão 4 — B. O pé torto por oligoâmnio é uma deformação (força mecânica sobre estrutura normal). Questão 5 — B. Agenesia renal → oligoâmnio → compressão = sequência de Potter. Questão 6 — B. Anomalias que ocorrem juntas sem causa única são uma associação (ex.: VACTERL).

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Genética. Diretrizes de atenção à saúde de pessoas com síndrome de Down. Mar. 2020. sbp.com.br
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. sbp.com.br
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia prático: diagnóstico de anomalias congênitas no pré-natal e ao nascimento. Brasília: MS, 2022. bvsms.saude.gov.br
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 3/2026-SVSA/MS — notificação compulsória das anomalias congênitas no Sinasc e no SIM (Portaria GM/MS nº 10.175, de 23/01/2026). gov.br/saude
  5. BULL, M. J. et al. Health supervision for children and adolescents with Down syndrome. Pediatrics, v. 149, n. 5, e2022057010, 2022. doi:10.1542/peds.2022-057010
  6. MANICKAM, K. et al. Exome and genome sequencing for pediatric patients with congenital anomalies or intellectual disability: an evidence-based clinical guideline of the ACMG. Genetics in Medicine, v. 23, n. 11, p. 2029–2037, 2021. doi:10.1038/s41436-021-01242-6
  7. NHS ENGLAND. National Genomic Test Directory — Testing criteria for rare and inherited disease, v8.0, 2025 (R14: genoma rápido em crianças gravemente doentes). england.nhs.uk

Revisão: outubro de 2026.