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Nutrição Parenteral em Neonatologia

1.Importância do tema

A nutrição parenteral (NP) é essencial para o prematuro e o RN gravemente enfermo que não toleram aporte enteral suficiente. O período neonatal é de crescimento acelerado e baixas reservas; o jejum prolongado leva rapidamente a catabolismo, défice de crescimento e pior neurodesenvolvimento. A meta é ofertar energia e proteína suficientes desde as primeiras horas, evitando tanto o subaporte quanto as complicações do excesso.

Revisão: outubro de 2026

Conduta alinhada ao Guia Prático de Atualização da SBP "Recomendações para Nutrição Parenteral em Recém-nascidos Pré-termo" (DC de Suporte Nutricional e DC de Neonatologia, nº 108, 09/10/2023), com NICE NG154 (2020), ESPGHAN/ESPEN/ESPR/CSPEN (2018) e protocolos de 2025–2026 comparados na seção 11. Ver também o Tema atualizado Leite humano e nutrição do prematuro.

2.Indicações

A SBP (2023), adotando os critérios do NICE NG154, indica a NP:

Conceito

NP e nutrição enteral não são excludentes: sempre que possível, mantém-se a dieta enteral mínima (trófica) em paralelo à NP, para estimular o trofismo intestinal e reduzir o tempo de NP.

3.Componentes e metas de aporte

A NP fornece macro e micronutrientes. Metas para o prematuro conforme a SBP (2023); cada serviço adapta ao seu protocolo:

Metas de aporte na NP do prematuro (SBP, Guia Prático nº 108/2023)
ComponenteInícioMeta / limite
Aminoácidos (solução pediátrica, nunca de adulto)1,5–2 g/kg/dia no 1º dia, desde as primeiras horas2,5–3,5 g/kg/dia a partir do 2º dia, com > 65 kcal/kg/dia não proteicas; não ultrapassar 3,5 g/kg/dia (SBP). NICE: 3–4
Lipídios (emulsão 20%)1–2 g/kg/dia desde o 1º diaAumento diário até 3,5–4 g/kg/dia; velocidade ≤ 0,17 g/kg/h
GlicoseVIG 4–6 mg/kg/minVIG 7–10 mg/kg/min na estabilidade (ESPGHAN: 8–10)
Energia total45–55 kcal/kg/dia (taxa metabólica basal)90–120 kcal/kg/dia (ganho de 17–20 g/kg/dia após a perda inicial)
Líquidos (1º → 5º dia)> 1.500 g: 60–80; 1.000–1.500 g: 70–90; < 1.000 g: 80–100 mL/kg/dia5º dia: 140–160 (> 1.500 g) ou 160–180 mL/kg/dia (≤ 1.500 g); fase 2: 140–160

Ajustar líquidos à perda de peso (no termo não deve exceder 10%; no < 1.500 g espera-se 7–10%), à fototerapia (+10–20%) e à asfixia, desconforto respiratório ou ventilação umidificada (−10–20%) (SBP 2023).

Início precoce

Aminoácidos e lipídios devem começar nas primeiras horas de vida no prematuro (aminoácidos na 1ª hora sempre que possível; lipídios desde o 1º dia), sem "esperar" — sem aminoácidos, o prematuro extremo perde ~1,2 g/kg/dia de proteína (SBP 2023). Lipídios também fornecem ácidos graxos essenciais. Emulsão com óleo de peixe (SMOF®) preferida na NP prolongada, sobretudo em < 1.000 g ou < 30 semanas (SBP 2023).

4.Glicose e taxa de infusão de glicose (TIG)

A glicose é a principal fonte energética. Calcula-se a TIG (também chamada VIG, mg/kg/min):

TIG = [glicose (g/L) × velocidade (mL/h)] ÷ (peso × 60)  ou  [glicose (%) × velocidade (mL/h)] ÷ (peso × 6)

5.Eletrólitos, cálcio e fósforo

6.Acesso e monitorização

7.Complicações

TipoExemplos
MetabólicasHiper/hipoglicemia, hipertrigliceridemia, distúrbios eletrolíticos, doença metabólica óssea
Relacionadas ao cateterInfecção de corrente sanguínea associada a cateter, trombose, extravasamento, derrame
HepatobiliaresColestase associada à NP (PNAC/IFALD), sobretudo em NP prolongada e jejum enteral
Colestase associada à NP

Suspeitar quando há elevação de bilirrubina direta em RN sob NP prolongada (colestase associada à NP: bilirrubina direta ≥ 2 mg/dL, segundo Harvard/Boston Children's e Johns Hopkins). Prevenção e manejo: dieta enteral mínima o mais cedo possível; evitar emulsão só de soja (rica em fitosteróis) — emulsão composta com óleo de peixe na NP prolongada; proteger a NP da luz; prevenir e tratar sepse; retirar cobre e manganês; e retirar a NP assim que possível. A SBP não recomenda reduzir rotineiramente os macronutrientes para prevenir colestase. O óleo de peixe puro (Omegaven®, 1 g/kg/dia) é tratamento da colestase estabelecida, não prevenção (Harvard; Johns Hopkins 2026), e fica com o especialista.

8.Transição para a dieta enteral

9.Erros comuns

10.Pontos-chave para a prova

11.Comparação das referências

TemaSBPMSAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão e dataGuia Prático nº 108 (09/10/2023)Portaria SVS/MS 272/1998 (regulamento técnico da NP); sem protocolo clínico neonatalSem diretriz específica de NP neonatalNG154 Neonatal parenteral nutrition (2020)Protocolos SENeo 2023 (capítulo de NP não acessado)NICU TPN pathway (07/01/2025); lipídios IV (06/08/2026)BCH/HMS — página de lipídios da NP domiciliarHospitais do NHS: seguem NICE NG154
Aminoácidos1,5–2 → 2,5–3,5; teto 3,5——1,5–2 → 3–4—2 → 3,5 (máx. 4)—= NICE
Lipídios1–2 → 3,5–4; ≤ 0,17 g/kg/h——1–2 → 3–4; considerar emulsão composta—1 ou 2 → 3; SMOF na NP; soja 1ª linha pediátrica geral (2026)Soja limitada a 1 g/kg/dia na NP prolongada= NICE
Glicose (VIG)4–6 → 7–10——4,2–6,2 → até 11,1 (tabela SBP)—3–6,2 → 8–10 (máx. 12)—= NICE
Suspender NPEnteral ~135 mL/kg/dia ou 110 kcal/kg/dia——140–150 (< 28 sem) ou 120–140 mL/kg/dia—Retirar PICC com 120 mL/kg/dia—= NICE
Colestase associada à NPEnteral precoce; óleo de peixe (SMOF); não reduzir macronutrientes————Omegaven 1 g/kg/dia se BD ≥ 2 mg/dLOmegaven 1 g/kg/dia (aprovado FDA 2018) se BD ≥ 2; não previne—

Leitura. As referências convergem no início da NP nas primeiras horas no prematuro com aminoácidos e lipídios desde o 1º dia, na dieta trófica paralela com leite materno, na preferência por emulsão composta com óleo de peixe na NP prolongada e no óleo de peixe puro como tratamento — não prevenção — da colestase. As divergências são de teto: aminoácidos até 3,5 g/kg/dia na SBP contra 3–4 no NICE e até 4 na Johns Hopkins; lipídios até 3,5–4 na SBP contra 3 na Johns Hopkins; e o volume enteral para suspender a NP (135 mL/kg/dia na SBP, 120–150 no NICE conforme a idade gestacional). O protocolo geral de lipídios da Johns Hopkins (2026) coloca a soja como 1ª linha pediátrica, divergindo do próprio protocolo neonatal. Posição adotada: SBP (Guia Prático nº 108/2023). O Ministério da Saúde regula a terapia nutricional (equipe multiprofissional, Portaria 272/1998), mas não tem protocolo clínico de NP neonatal. AAP e AEP não têm diretriz específica acessível.

12.Casos clínicos comentados

Caso 1

Prematuro de 28 semanas, 1.050 g, 6 horas de vida, em ventilação, sem condições de dieta enteral plena. A equipe discute a prescrição da nutrição parenteral inicial.

1.Quanto aos aminoácidos e lipídios, a conduta correta é:
Gabarito: B) O início precoce de aminoácidos e lipídios (já nas primeiras horas) previne o catabolismo. Dose inicial de aminoácidos 1,5–2 g/kg/dia, com progressão a 2,5–3,5 g/kg/dia a partir do 2º dia, sem ultrapassar 3,5 (SBP 2023; o NICE aceita até 4); lipídios 1–2 g/kg/dia desde o 1º dia fornecem ácidos graxos essenciais.
2.A solução prescrita é hiperosmolar (glicose concentrada). Qual o acesso adequado?
Gabarito: C) Soluções acima de 900 mOsm/L exigem acesso central pelo risco de flebite e lesão venosa por via periférica; o PICC é a 1ª escolha e o cateter umbilical serve nos primeiros dias (SBP 2023).
3.Sobre o potássio na NP do primeiro dia:
Gabarito: A) O potássio costuma ser adicionado após a diurese e a função renal estarem estabelecidas, pelo risco de hipercalemia no RN com débito urinário ainda não garantido. A SBP (2023) admite 0–3 mmol/kg/dia nos primeiros dias, guiado por diurese e K sérico, lembrando que aminoácidos precoces podem baixar potássio e fósforo (realimentação), sobretudo no PIG.
0/3 acertos
Caso 2

Prematuro com 3 semanas de NP por intolerância enteral após cirurgia abdominal. Exames mostram elevação progressiva da bilirrubina direta, com transaminases pouco alteradas. Mantém dieta enteral mínima.

1.O diagnóstico mais provável é:
Gabarito: B) Elevação de bilirrubina direta em RN sob NP prolongada e jejum enteral caracteriza a colestase associada à NP. As demais causas cursam tipicamente com hiperbilirrubinemia indireta.
2.Qual a principal estratégia para prevenir/atenuar esse quadro?
Gabarito: A) Progredir a dieta enteral e encurtar a NP é a medida central. Fototerapia/exsanguineo tratam hiperbilirrubinemia indireta, não a colestase. Emulsão composta com óleo de peixe no lugar da soja pura também ajuda; o óleo de peixe puro é tratamento da colestase estabelecida, com o especialista.
3.Além da colestase, qual outra complicação deve ser ativamente vigiada nesse paciente com cateter central?
Gabarito: C) O cateter central é porta de entrada para infecção de corrente sanguínea (sepse associada a cateter), uma das principais complicações da NP, que também agrava a colestase.
0/3 acertos

13.Referências selecionadas