Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Doença Metabólica Óssea da Prematuridade

Osteopenia da prematuridade

Revisão: outubro de 2026. Conduta alinhada ao capítulo "Avaliação da doença metabólica óssea" do Manual de Seguimento do Recém-nascido de Alto Risco da SBP (DC de Neonatologia, 2ª ed., 2024), que segue o algoritmo da AAP (Abrams, 2013), com comparação com ESPGHAN, SENeo, Johns Hopkins (2025) e demais referências.

1. Importância do tema na Pediatria

A doença metabólica óssea (DMO) da prematuridade é a hipomineralização óssea decorrente do aporte inadequado de cálcio (Ca) e fósforo (P) nos períodos pré e pós-natal, associado a múltiplos fatores. A SBP (2024) recomenda evitar os termos "osteopenia da prematuridade" e "raquitismo da prematuridade" como sinônimos: são condições distintas, que podem coexistir com a DMO (a osteopenia é o achado radiológico; o raquitismo, a forma grave, com fraturas). Pode causar fraturas e prejuízo do crescimento se não rastreada e tratada. Atinge sobretudo o muito baixo peso, em nutrição parenteral prolongada.

2. Avaliação inicial

Identificar os RN de risco (SBP 2024): muito baixo peso (< 1.500 g); 1.500–1.800 g com oferta mineral abaixo do ideal (por exemplo, leite humano exclusivo não aditivado); nutrição parenteral por mais de 4 semanas; displasia broncopulmonar tratada com diurético de alça e restrição hídrica; enterocolite necrosante prévia; corticoide prolongado; também cafeína e imobilidade. O quadro é oligossintomático até a fase tardia — fraturas de ossos longos podem ser achado acidental, e fraturas de costela podem causar desconforto respiratório. Por isso o diagnóstico depende da triagem bioquímica com 4 semanas de vida.

3. Fisiopatologia aplicada

No 3º trimestre, o feto incorpora grande quantidade de Ca e P; o prematuro perde esse aporte placentário e, após o nascimento, é difícil manter ofertas comparáveis às intrauterinas. A hipocalcemia estimula o PTH, que mobiliza Ca e P do osso, aumenta a reabsorção renal de Ca e a excreção de P — daí a hipofosfatemia e o aumento do remodelamento (fosfatase alcalina elevada). A suplementação isolada de P reduz o Ca iônico, estimula o PTH e causa hiperparatireoidismo secundário. A deficiência de vitamina D reduz a absorção intestinal de Ca e P, mas, no prematuro, a principal causa é a falta de Ca e P, não de vitamina D (SBP 2024). Diuréticos (perda urinária de Ca), corticoides e a ausência da atividade física intrauterina agravam. Implicação: garantir oferta adequada de Ca e P (e vitamina D) e monitorar.

4. Diagnóstico

Marcadores bioquímicos (SBP 2024) — não há marcador específico; triar com 4 semanas de vida.

MarcadorInterpretação
Fosfatase alcalina (FA)Sobe fisiologicamente entre a 4ª e a 6ª semana (pico 400–800 UI/L) e cai entre a 8ª e a 10ª. Persistentemente > 800 UI/L associa-se a DMO; ≥ 1.000 UI/L sugere desmineralização com indicação de tratamento específico
Fósforo séricoMarcador precoce (pode cair entre 7 e 14 dias). < 5,6 mg/dL no muito baixo peso associa-se fortemente a raquitismo na radiografia; < 4 mg/dL persistente com FA normal geralmente indica saúde óssea normal, mas pede reposição de P até > 5 mg/dL
Cálcio séricoFrequentemente normal (mobilizado do osso) — mau parâmetro de DMO
25(OH) vitamina DPode estar normal, baixa ou alta na DMO; nível adequado ≈ 20 ng/mL; não é necessária a dosagem de rotina no prematuro em dieta enteral plena com 400 UI/dia
Radiografia de punho e joelhoSó detecta a desmineralização quando já há perda de 20–40% — achado tardio; indicada com FA ≥ 800 UI/L e em ascensão
DEXA / ultrassom quantitativoDEXA é o padrão-ouro, mas de uso rotineiro difícil; ultrassom da tíbia ainda sem parâmetros definidos

Combinação de maior valor: FA elevada + fósforo baixo. Na FA persistentemente elevada, a investigação ampliada (PTH, magnésio, Ca/P/creatinina urinários, reabsorção tubular de fosfato) segue o protocolo da unidade (Johns Hopkins 2025).

5. Conduta e tratamento

  1. Prevenção: nutrição parenteral precoce com Ca e P (fosfato orgânico, via central) — ver Nutrição Parenteral; dieta enteral o mais cedo possível com leite humano aditivado ou fórmula para prematuro; o muito baixo peso em NP por mais de 2 semanas deve receber suplementação enteral de Ca e P quando a dieta estiver estabelecida. Em dieta plena (150–160 mL/kg/dia) de leite aditivado ou fórmula de prematuro, o RN recebe ~150–220 mg/kg/dia de Ca, 90–140 mg/kg/dia de P e 300–400 UI/dia de vitamina D, suficientes para prevenir a DMO (SBP 2024). Vitamina D 400 UI/dia.
  2. Doença estabelecida: garantir Ca e P nos valores mais altos preconizados e vitamina D 800 UI/dia; nunca repor fósforo isolado sem cálcio em proporção adequada (hipocalcemia e hiperparatireoidismo secundário).
  3. Rever agravantes (reduzir diuréticos/corticoides quando possível); fisioterapia com exercícios passivos e compressões articulares suaves; monitorização seriada de FA e P.

Doses (com fonte)

ItemDoseObservaçõesFonte
Meta de oferta enteral total de mineraisCa 150–220 mg/kg/dia; P 75–140 mg/kg/dia (relação Ca:P 1,5–1,7:1 em mg)Limite superior na DMO radiológica ou bioquímica (FA alta ou P baixo). ESPGHAN: Ca 120–140 e P 65–90 mg/kg/diaSBP 2024 (segundo AAP 2013)
Cálcio adicional (restrição hídrica/intolerância)Iniciar 20 mg/kg/dia e aumentar até 70–80 mg/kg/dia, em 2–4 dosesSomado ao Ca da dieta (sem descontar)SBP 2024
Fósforo adicionalIniciar 10–20 mg/kg/dia e aumentar até 40–50 mg/kg/dia, em 2–3 dosesSempre com Ca em proporção adequada; nunca isoladoSBP 2024
Fosfato tribásico de cálcio 3,19% (1 mL = 12,3 mg de Ca)100–200 mg/kg/dia de Ca, de 6/6 h; pode iniciar com 150 mg/kg/diaCalcular pela dose de cálcioSBP 2024
Vitamina D — prevenção400 UI/diaSem dosagem de rotina da 25(OH)DSBP 2024 (cap. DMO); SBP, DC nº 181/2024
Vitamina D — DMO estabelecida/rarefação óssea800 UI/diaManter com fisioterapia; reavaliar radiografiaSBP 2024

Evitar Ca e P suplementares por mais de 4–6 meses, pelo risco de nefrocalcinose (SBP 2024). As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

6. Fluxograma (SBP 2024, segundo a AAP)

  1. RN de risco → leite humano aditivado ou fórmula para prematuro + vitamina D 400 UI/dia; FA e P com 4 semanas de vida.
  2. Pico de FA < 800 UI/L em queda e P ≥ 4 mg/dL → continuar e otimizar o aditivo de Ca e P; vitamina D 400 UI/dia; FA e P a cada 2 semanas.
  3. FA ≥ 800 UI/L e em ascensão, ou FA 800–1.000 estável, ou P < 4 mg/dL → possível DMO: radiografia de punho e joelho; aumentar o aditivo de Ca e P; vitamina D 800 UI/dia; FA e P a cada 2 semanas; repetir a radiografia em 6 semanas.
  4. FA ≥ 1.000 UI/L ou DMO confirmada na radiografia → tratamento com Ca e P nos valores mais altos (tabela de doses) e vitamina D 800 UI/dia.
  5. Sem evidência radiológica → reduzir ou suspender o aditivo de Ca e P quando atingir 2.000 g; vitamina D 400 UI/dia; FA < 600 UI/L encerra o monitoramento; FA ≥ 600 UI/L mantém monitoramento mensal.

7. Comparação das referências

TemaSBPMSAAPNICEAEP/SENeoJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão e dataManual de Seguimento do RN de Alto Risco, 2ª ed. (2024)Sem documento específico localizadoAbrams, COFN — Pediatrics 2013Sem diretriz de DMO (NG154, 2020, trata do Ca/P na NP)Protocolo SENeo 2023 (via carta An Pediatr 2025)Vitamin D Deficiency and MBD in NICU (10/10/2025)Sem documento institucional público localizadoSem documento NICE/BAPM localizado
Quem e quando triar< 1.500 g ou outro fator de risco; 4 semanas—MBPN; ~4–5 semanas—< 1.500 g/< 32 sem (prática variável)< 32 sem ou < 1.500 g; 4 semanas——
Critério bioquímicoFA > 800 persistente; ≥ 1.000 trata; P < 4 (e < 5,6 associado a raquitismo)—FA > 800–1.000 com P < 4 (base do algoritmo SBP)—P < 4 + FA > 500FA > 500 + P < 5,5, ou FA > 900——
Vitamina D profilática400 UI/dia (400–1.000 no cap. de nutrição; 800 "mais aceita" após a alta)—200–400 UI/dia—ESPGHAN: 400–700 UI/kg/dia (máx. 1.000)200–300 UI/dia além da dieta——
25(OH)D de rotinaNão; alvo ≈ 20 ng/mL—Não—Pedida em 50% das unidadesUniversal com 2–4 semanas; alvo ≥ 30——
Oferta de Ca/PCa 150–220, P 75–140 mg/kg/dia—Ca 150–220, P 75–140—ESPGHAN: Ca 120–140, P 65–90Otimizada pela nutricionista, sem doses——

Leitura. Todas as referências triam o prematuro de risco com fosfatase alcalina e fósforo por volta de 4 semanas, valorizam a combinação FA alta + P baixo, consideram a radiografia achado tardio e tratam com cálcio e fósforo (nunca fósforo isolado) e vitamina D. As divergências estão nos cortes — FA > 800/≥ 1.000 UI/L na SBP e na AAP contra FA > 500 na SENeo e na Johns Hopkins, e P < 4 contra < 5,5 mg/dL —, na dose profilática de vitamina D (200–400 UI/dia na linha AAP e na SBP; 400–700 UI/kg/dia, máx. 1.000, na ESPGHAN) e na dosagem de 25(OH)D (não rotineira na SBP; universal na Johns Hopkins). Posição adotada: SBP (Manual de Seguimento, 2024) — FA e P com 4 semanas, cortes de 800 e 1.000 UI/L, vitamina D 400 UI/dia na prevenção e 800 UI/dia na DMO. O próprio Manual cita, no capítulo de nutrição após a alta, 400–1.000 UI/dia, sendo 800 UI/dia a dose "mais aceita" no 1º ano de idade corrigida — diferença interna que deixamos registrada.

8. Gravidade, internação e seguimento

9. Complicações

Fraturas (costelas, ossos longos), raquitismo, redução do crescimento linear, desconforto respiratório por instabilidade da caixa torácica e, possivelmente, menor pico de massa óssea futuro. Do tratamento prolongado: nefrocalcinose.

10. Erros comuns

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. Cap. 20, Avaliação da doença metabólica óssea. sbp.com.br
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Recomendações para nutrição parenteral em recém-nascidos pré-termo. Guia Prático de Atualização nº 108, 09 out. 2023. sbp.com.br
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico, tratamento e prevenção — atualização. DC nº 181, 04 nov. 2024. sbp.com.br
  4. ABRAMS, S. A.; AAP Committee on Nutrition. Calcium and vitamin D requirements of enterally fed preterm infants. Pediatrics, v. 131, n. 5, e1676–e1683, 2013. doi
  5. EMBLETON, N. D. et al. Enteral nutrition in preterm infants (2022): a position paper from the ESPGHAN Committee on Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr, v. 76, n. 2, p. 248–268, 2023. doi
  6. MIHATSCH, W. et al. ESPGHAN/ESPEN/ESPR/CSPEN guidelines on pediatric parenteral nutrition: calcium, phosphorus and magnesium. Clin Nutr, 2018. doi
  7. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Vitamin D Deficiency and Metabolic Bone Disease in NICU. Clinical pathway, 10 out. 2025. hopkinsmedicine.org
  8. CHOVER MARTÍNEZ et al. La paradoja EMOP: ¿sabemos tratarla? (carta). An Pediatr, v. 102, n. 5, 2025 (resume o protocolo SENeo 2023).
  9. Tema atualizado do site: Doença metabólica óssea da prematuridade, vitamina D e profilaxia com vitamina K (setembro de 2026).

Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. Prematuro de 27 semanas, 900 g, após nutrição parenteral prolongada, com 6 semanas de vida. Exames: fósforo 3,5 mg/dL e fosfatase alcalina 1.100 UI/L; cálcio normal.

Questão 1. Diagnóstico mais provável?
(A) Hipotireoidismo (B) Doença metabólica óssea da prematuridade (C) Raquitismo por deficiência isolada de vitamina D (D) Osteomielite (E) Escorbuto

Questão 2. Combinação laboratorial de maior valor?
(A) Cálcio alto + FA baixa (B) Fósforo baixo + fosfatase alcalina elevada (C) Sódio alto + potássio baixo (D) Glicose baixa (E) Bilirrubina alta

Questão 3. Conduta nutricional adequada?
(A) Repor apenas fósforo (B) Otimizar cálcio E fósforo, com vitamina D 800 UI/dia (C) Restringir cálcio (D) Suspender o leite materno (E) Apenas vitamina C

Caso 2. O mesmo prematuro está em uso de diurético e em leite materno sem aditivo, com mineralização insuficiente.

Questão 4. Medida preventiva mais importante?
(A) Manter sem aditivo (B) Fortificar o leite materno (cálcio/fósforo) e suplementar vitamina D (C) Aumentar o diurético (D) Restringir proteínas (E) Iniciar corticoide

Questão 5. Por que NÃO repor fósforo isolado?
(A) Não há risco (B) Pode precipitar hipocalcemia e hiperparatireoidismo secundário (C) Causa hipernatremia (D) Eleva a glicose (E) Reduz a fosfatase alcalina perigosamente

Questão 6. Qual achado é tardio?
(A) Fósforo baixo (B) Desmineralização óssea e fraturas na radiografia (C) Fosfatase alcalina elevada (D) Cálcio normal (E) Acidose

Gabarito comentado

Q1 — B. Prematuro com NP prolongada, fósforo < 4 mg/dL e FA ≥ 1.000 UI/L: doença metabólica óssea (SBP 2024). Q2 — B. Fósforo baixo + FA elevada é a combinação de maior valor. Q3 — B. Otimizar cálcio e fósforo e usar vitamina D 800 UI/dia na DMO estabelecida (SBP 2024). Q4 — B. Fortificar o leite materno e suplementar vitamina D previne e trata. Q5 — B. O fósforo livre se liga ao cálcio iônico, causando hipocalcemia e hiperparatireoidismo secundário. Q6 — B. A radiografia só mostra a desmineralização com perda de 20–40% — achado tardio.

Revisão: outubro de 2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de prescrever.