Neonatologia · Crescimento e Prematuridade

Peso ao Nascer — PIG, AIG e GIG

Classificação, restrição de crescimento e macrossomia

Revisão: outubro de 2026. Atualizado com o DC "Hipoglicemia neonatal" da SBP (Endocrinologia, 09/05/2022), o Manual de Seguimento do RN de Alto Risco da SBP (2ª ed., 2024), a posição da SBP sobre curvas (INTERGROWTH-21st), e AAP, BAPM/NICE, RCOG (2024, revisado em 07/2026), SIN, SENeo e Johns Hopkins — em coerência com o Tema atualizado Hipoglicemia neonatal.

1. Importância do tema na Pediatria

A classificação do peso ao nascer em relação à idade gestacional (PIG, AIG, GIG) orienta o risco de complicações imediatas (hipoglicemia, hipotermia, policitemia, asfixia, tocotraumatismo) e o seguimento a longo prazo (crescimento, neurodesenvolvimento, risco metabólico). É a base para antecipar problemas na sala de parto e nas primeiras horas — tema clássico de prova.

2. Avaliação inicial

Determinar a idade gestacional (ultrassonografia precoce, DUM, Capurro/New Ballard) e plotar peso, comprimento e perímetro cefálico na curva por sexo e idade gestacional. Classificar em PIG (< p10), AIG (p10–p90) e GIG (> p90). No PIG, definir se é simétrico (precoce, proporcional) ou assimétrico (tardio, poupa o crânio). Antecipar a triagem de glicemia e a prevenção da hipotermia. Medir o perímetro cefálico após 24 h de vida (SBP, DC nº 230/2025).

3. Fisiopatologia aplicada

O PIG decorre de restrição do crescimento intrauterino por causas fetais (cromossomopatias, síndromes genéticas, infecções congênitas), placentárias (insuficiência placentária, pré-eclâmpsia) ou maternas (hipertensão, tabagismo, álcool e outras drogas, desnutrição). No PIG assimétrico, a insuficiência placentária tardia reduz o aporte e o feto redistribui o fluxo para o cérebro (brain sparing), poupando o crânio e reduzindo fígado e tecido adiposo — daí as reservas baixas de glicogênio (hipoglicemia) e a policitemia (hipóxia crônica → eritropoetina). O PIG também tem maior risco de síndrome de realimentação quando recebe nutrição parenteral (SBP 2023). O GIG associa-se ao diabetes materno: a hiperglicemia materna gera hiperinsulinismo fetal (fator de crescimento), com macrossomia, hipoglicemia pós-natal (queda abrupta da glicose com insulina alta) e risco de tocotraumatismo. Implicação no manejo: triar glicemia em PIG e GIG, vigiar policitemia e prevenir hipotermia.

4. Diagnóstico e curvas

5. Classificação

ClasseDefinição (peso × IG)
PIGPeso < percentil 10 para a IG
AIGPeso entre os percentis 10 e 90
GIGPeso > percentil 90 para a IG (macrossomia: peso ≥ 4.000 g, independentemente da IG)

PIG simétrico × assimétrico

TipoInício / causaCaracterísticas
SimétricoPrecoce (1º/2º trimestre): cromossomopatias, síndromes genéticas, infecções congênitas (TORCHS, CMV, Zika), drogasPerímetro cefálico, peso e comprimento proporcionalmente reduzidos
AssimétricoTardio (3º trimestre): insuficiência placentária, pré-eclâmpsiaPoupa o crânio (brain sparing); reduz peso/abdome

PIG e prematuridade são eixos distintos: um RN pode ser pré-termo e AIG, ou a termo e PIG.

6. Conduta e tratamento

  1. Triagem de glicemia em PIG e GIG (e filho de mãe diabética, pré-termo tardio), não no RN saudável a termo (SBP 2022; AAP 2011). Alimentação precoce (amamentação na 1ª hora). Pela AAP, triar GIG/filho de mãe diabética nas primeiras 12 h e PIG/pré-termo tardio nas primeiras 24 h; o serviço escolhe um algoritmo de horários e o aplica de forma consistente (1ª glicemia 30 min após a 1ª mamada na AAP; antes da 2ª mamada, com 2–3 h, na SIN/BAPM).
  2. Limiares (SBP 2022, alinhada à AAP/PES): manter ≈ 47–50 mg/dL nas primeiras 48 h; ≥ 60 mg/dL após 48 h; > 70 mg/dL se houver suspeita de hipoglicemia persistente.
  3. Tratamento: RN assintomático → mamada e, se disponível, gel de dextrose 40% 200 mg/kg (0,5 mL/kg) na mucosa jugal, seguido de mamada (SBP 2022; BAPM e SIN: até 2 doses por episódio e 6 em 48 h). Hipoglicemia sintomática, < 25 mg/dL ou sem resposta a 2 doses de gel → SG 10% 2 mL/kg (200 mg/kg) IV, seguido de infusão contínua com VIG 5–8 mg/kg/min (padrão do site; SBP 2022). VIG > 10 mg/kg/min ou hipoglicemia além de 72 h (SBP: > 3 dias) → amostra crítica com glicemia < 50 mg/dL e investigação de hiperinsulinismo.
  4. Hipotermia: contato pele a pele, secar e cobrir, touca, ambiente aquecido.
  5. Policitemia no PIG: hematócrito venoso (> 65% define policitemia); tratamento conforme sintomas e protocolo da unidade.
  6. Investigar a causa: PIG — exame da placenta, infecções congênitas (sorologias, CMV na urina nas primeiras 3 semanas), dismorfias, exposição a drogas/álcool; GIG — diabetes materno, tocotraumatismo (clavícula, plexo braquial), cardiomiopatia hipertrófica no filho de mãe diabética.
  7. Seguimento do crescimento e do neurodesenvolvimento: a maioria dos PIG recupera o crescimento nos 2 primeiros anos, mas 10–15% não recuperam a estatura (SBP 2024) → encaminhar ao endocrinologista pediátrico quando não houver recuperação (avaliação de hormônio de crescimento conforme critérios do especialista); vigiar ganho rápido de peso (risco metabólico).

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma (resumo)

  1. Classificar (peso × IG, curva INTERGROWTH-21st ou a do serviço) → PIG/GIG entram em triagem de glicemia.
  2. Alimentação precoce; gel 40% 200 mg/kg se hipoglicemia assintomática; SG 10% 2 mL/kg + VIG 5–8 se sintomática, < 25 mg/dL ou refratária ao gel.
  3. Vigiar hipotermia e policitemia; investigar a causa (PIG: infecções congênitas/placenta/genética; GIG: diabetes/tocotrauma) e seguir o crescimento.

7. Comparação das referências

TemaSBPMSAAPNICE / BAPMAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão e dataDC Hipoglicemia (09/05/2022); Manual de Seguimento, 2ª ed. (2024); DC nº 230/2025Caderneta da Criança (curvas OMS 2006)Adamkin, COFN — Pediatrics 2011; PES 2015BAPM hipoglicemia (2024); NICE NG3 (2020); RCOG GTG 31 (2024, rev. 07/2026)SEN-AEP nº 18 (2008); SENeo 2023 (capítulo não acessado)Transitional hypoglycemia (05/03/2026)Sem documento institucional público localizadoHospitais do NHS: seguem BAPM/NICE
Curva neonatalINTERGROWTH-21st preferida; Fenton aceitaOMS 2006 após 40 sem—RCOG (07/2026): 4 curvas de peso fetal estimado aceitas, sem INTERGROWTH———= Reino Unido
Quem triarPIG, GIG, FMD, prematuro, asfixia—PIG, GIG, FMD, pré-termo tardioRestrição < p2, FMD, betabloqueador (≥ 37 sem)RN de risco≥ 35 sem na UTIN—= BAPM
Limiar 0–48 h≈ 47–50 mg/dL—< 25 / < 35; alvo ≥ 45< 36 mg/dL (2,0 mmol/L)> 45AAP + gel—= BAPM
Gel 40%200 mg/kg—Sem posição formal200 mg/kg; 2/episódio; 6 em 48 hNão (2008)0,2 g/kg; até 2 em 24 h—= BAPM
Glicose IVSG 10% 2 mL/kg + VIG 5–8—SG 10% 2 mL/kg; 5–8Infusão EV conforme protocoloSG 10% 2 mL/kg; 6–8SG 10% 2 mL/kg—= BAPM

Leitura. Há convergência em classificar o peso pela idade gestacional com percentis 10 e 90, em triar a glicemia apenas nos RN de risco (PIG, GIG, filho de mãe diabética, prematuro), em alimentar precocemente, no gel de dextrose 40% 200 mg/kg e no bolus de SG 10% 2 mL/kg seguido de infusão. As divergências estão na curva (SBP: INTERGROWTH-21st; no Reino Unido, a RCOG revisada em 07/2026 deixou de usar a INTERGROWTH para o peso fetal estimado), no momento da 1ª glicemia (30 min após a 1ª mamada na AAP; 2–4 h no Reino Unido e na Itália) e nos limiares (≈ 36 mg/dL no Reino Unido contra 45–50 mg/dL na AAP, SIN e SBP). Posição adotada: SBP — INTERGROWTH-21st, limiares do DC de 2022 e SG 10% 2 mL/kg (padrão do site).

8. Gravidade e encaminhamento

9. Complicações

PIG: hipoglicemia, hipotermia, policitemia/hiperviscosidade, asfixia perinatal, síndrome de realimentação (se em NP), enterocolite, baixa estatura, alterações do neurodesenvolvimento e maior risco metabólico (resistência à insulina) no futuro. GIG: hipoglicemia, tocotraumatismo (fratura de clavícula, paralisia braquial), asfixia, desconforto respiratório e, no filho de mãe diabética, cardiomiopatia hipertrófica e policitemia.

10. Erros comuns

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipoglicemia neonatal. Documento Científico, 09 maio 2022. sbp.com.br
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. sbp.com.br
  3. VILLAR, J. et al. International standards for newborn weight, length, and head circumference by gestational age and sex: the Newborn Cross-Sectional Study of the INTERGROWTH-21st Project. Lancet, v. 384, n. 9946, p. 857–868, 2014. doi
  4. FENTON, T. R.; KIM, J. H. A systematic review and meta-analysis to revise the Fenton growth chart for preterm infants. BMC Pediatrics, v. 13, 59, 2013. doi
  5. ADAMKIN, D. H.; AAP Committee on Fetus and Newborn. Postnatal glucose homeostasis in late-preterm and term infants. Pediatrics, v. 127, n. 3, p. 575–579, 2011. doi
  6. BAPM. Identification and management of neonatal hypoglycaemia in the full term infant (birth–72 hours). Framework for practice, 2024. bapm.org
  7. MORRIS, R. K. et al.; RCOG. Investigation and care of a small-for-gestational-age fetus and a growth restricted fetus (Green-top Guideline No. 31). BJOG, v. 131, n. 9, e31–e80, 2024 (revisão de 21/07/2026). wiley.com
  8. Tema atualizado do site: Hipoglicemia neonatal (setembro de 2026), com SIN 2025, Johns Hopkins 2025–2026, NICE NG3 e SEN-AEP.

Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN a termo, peso 2.250 g (< p10), filho de mãe hipertensa com pré-eclâmpsia. Ao exame: aspecto emagrecido, crânio relativamente preservado em relação ao corpo.

Questão 1. Classificação e tipo mais provável?
(A) GIG simétrico (B) PIG assimétrico (C) AIG (D) PIG simétrico (E) Pós-termo macrossômico

Questão 2. Complicações precoces a vigiar?
(A) Apenas hiperglicemia (B) Hipoglicemia, hipotermia e policitemia (C) Hipocalemia isolada (D) Hipertensão arterial (E) Hipernatremia

Questão 3. Investigação adequada da causa?
(A) Apenas radiografia de tórax (B) Causas placentárias/maternas e exame da placenta; no PIG simétrico precoce, infecções congênitas e causas genéticas (C) Somente ecocardiograma (D) Nenhuma investigação (E) Apenas USG de quadril

Caso 2. RN GIG, 4.300 g, filho de mãe com diabetes gestacional. Apresenta tremores e glicemia de 30 mg/dL nas primeiras horas; ao exame, dificuldade de movimentação do membro superior direito.

Questão 4. Mecanismo da hipoglicemia nesse RN?
(A) Insuficiência hepática (B) Hiperinsulinismo fetal pela hiperglicemia materna (C) Hipotireoidismo (D) Galactosemia (E) Deficiência de cortisol

Questão 5. A dificuldade de movimentar o membro superior sugere:
(A) Hipoglicemia central (B) Tocotraumatismo (paralisia do plexo braquial ou fratura de clavícula) (C) Sepse articular (D) Osteomielite (E) Artrogripose

Questão 6. Conduta inicial para a hipoglicemia sintomática?
(A) Apenas aumentar a dieta enteral (B) Bolus de glicose IV 200 mg/kg (2 mL/kg de SG 10%) seguido de infusão contínua (VIG 5–8 mg/kg/min) (C) Insulina subcutânea (D) Soro de manutenção sem glicose (E) Observação por 6 horas

Gabarito comentado

Q1 — B. Peso < p10 com crânio preservado em relação ao corpo, em mãe hipertensa, indica PIG assimétrico. Q2 — B. O PIG cursa com hipoglicemia, hipotermia e policitemia. Q3 — B. Investigar causas placentárias/maternas e examinar a placenta; no simétrico precoce, infecções congênitas e causas genéticas. Q4 — B. A hiperglicemia materna gera hiperinsulinismo fetal, que provoca hipoglicemia após o nascimento. Q5 — B. A dificuldade de mobilizar o membro sugere paralisia do plexo braquial ou fratura de clavícula por tocotraumatismo. Q6 — B. Hipoglicemia sintomática: SG 10% 2 mL/kg (200 mg/kg) IV seguido de infusão com VIG 5–8 mg/kg/min (SBP 2022; padrão do site); o RN vai para a unidade neonatal (🔴).

Revisão: outubro de 2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de prescrever.