Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Hipoglicemia Neonatal

Distúrbio metabólico mais comum no RN

Em resumo — posição do site (SBP, DC nº 16, 09/05/2022)

Triar somente o RN de risco (pré-termo tardio, PIG, GIG, filho de mãe diabética e, ainda, asfixia, sepse, hipotermia) ou com sinais clínicos — não o RN a termo saudável. A primeira intervenção no assintomático é mamar, apoiada pelo gel de dextrose 40% 200 mg/kg (0,5 mL/kg) na mucosa jugal. RN sintomático com glicemia < 40 mg/dL, ou assintomático com < 25 mg/dL nas primeiras 4 h ou < 35 mg/dL entre 4 e 24 h apesar da mamada: SG 10% 2 mL/kg EV seguido de infusão de glicose 5–8 mg/kg/min 🔴. Metas: ≈ 47–50 mg/dL até 48 h, 60 mg/dL após 48 h e 70 mg/dL após 72 h ou na suspeita de distúrbio persistente.

1. Importância do tema

A hipoglicemia é o distúrbio metabólico mais comum do RN. Como o cérebro depende da glicose, a hipoglicemia grave ou prolongada pode causar lesão neurológica permanente (padrão parieto-occipital na ressonância). Reconhecer os grupos de risco, monitorizar corretamente e tratar com as doses adequadas é determinante para o prognóstico — e tema frequente de prova.

A hipoglicemia assintomática também importa

Na coorte CHYLD (McKinlay et al., JAMA Pediatr 2017), a hipoglicemia neonatal — inclusive a detectada só pela triagem e tratada — associou-se a pior função executiva e visuomotora aos 4,5 anos. A meta-análise atualizada de Diggikar et al. (Life, 2024; 17 estudos) encontrou associação entre hipoglicemia neonatal, sintomática ou não, e comprometimento do neurodesenvolvimento, com evidência de baixa qualidade. Por isso o RN de risco é rastreado e tratado pelo limiar do protocolo, sem esperar sintomas; o limiar exato e a duração que causam dano continuam incertos.

2. Quem triar e quando

3. Fisiopatologia aplicada

Ao nascer, cessa o aporte materno de glicose e o RN passa a depender da glicogenólise e da gliconeogênese até estabelecer a alimentação; uma queda transitória nas primeiras horas é fisiológica. A hipoglicemia patológica surge por reservas insuficientes (PIG/RCIU, prematuro), por hiperinsulinismo (filho de mãe diabética, GIG, Beckwith-Wiedemann, hiperinsulinismo congênito) ou por maior consumo/causas mistas (asfixia, sepse, hipotermia, policitemia). Implicação: o hiperinsulinismo exige taxa de infusão de glicose (VIG) mais alta e raramente responde só à dieta; reservas baixas melhoram com aporte enteral ou venoso.

4. Diagnóstico e limiares

SituaçãoConduta (SBP 2022, a partir da AAP 2011)
Sintomático com glicemia < 40 mg/dLGlicose EV imediata
Assintomático, 0–4 h de vida< 25 mg/dL: mamar (± gel) e repetir; persiste < 25 → glicose EV. 25–40 mg/dL: nova mamada (± gel) e repetir
Assintomático, 4–24 h< 35 mg/dL: mamar (± gel) e repetir; persiste < 35 → glicose EV. 35–45 mg/dL: nova mamada (± gel) e repetir
Após 24 hManter glicemias antes das mamadas enquanto < 47 mg/dL
Metas (AAP/PES, citadas pela SBP)Até 48 h: 47 (AAP) a 50 mg/dL (PES); > 48 h: 60 mg/dL; > 72 h: 70 mg/dL

O Ministério da Saúde (2014) define hipoglicemia como glicose plasmática < 45 mg/dL (sangue total < 40): assintomático entre 25 e 45 mg/dL → alimentar e repetir em 30–60 min; sintomático ou < 25 mg/dL → glicose EV. A PES (2015) recomenda manter > 50 mg/dL nas primeiras 48 h e > 60 mg/dL depois, e > 70 mg/dL quando há suspeita de distúrbio persistente.

5. Conduta e tratamento

  1. Assintomático acima do limiar de glicose EV: mamada (de preferência leite materno; fórmula se necessário) e gel de dextrose 40% 200 mg/kg na mucosa jugal, antes da mamada (SBP 2022); repetir a glicemia em 30–60 min. Limite: até 2 doses de gel por episódio e 6 em 48 h (BAPM 2024; SIN 2025); sem resposta após 2 doses → glicose EV. Não usar gel de forma profilática (BAPM 2024).
  2. Sintomático, abaixo do limiar ou sem resposta à mamada/gel: SG 10% 2 mL/kg (200 mg/kg) EV a 1 mL/min (MS 2014; dentro dos 2–4 mL/kg da SBP), seguido sempre de infusão contínua com VIG 5–8 mg/kg/min (SBP 2022; MS: 6–8). Glicemia 30 min após o bolus e depois a cada hora até estabilizar (MS).
  3. Titular a VIG: aumentar 1–2 mg/kg/min conforme a glicemia (AEP 2008: + 2 mg/kg/min a cada 20 min se necessário). Em veia periférica, SG até 12,5% (MS 2014); a SBP exige acesso central acima de 15–20%. Hiperinsulinismo pode exigir VIG de 15–20 mg/kg/min (SBP).
  4. Desmame: com glicemias estáveis, reduzir 1 mg/kg/min por vez, com intervalos de pelo menos 1 h (MS 2014), mantendo a alimentação enteral.
  5. Refratária (não mantém > 45 mg/dL após 24 h com VIG de 8 mg/kg/min): considerar fortemente hiperinsulinismo (SBP); colher a amostra crítica antes de qualquer medicamento e discutir com o endocrinologista pediátrico.

VIG (mg/kg/min) = [volume (mL/kg/dia) ÷ 144] × concentração de glicose (%) (BAPM 2024).

MedicamentoDose e viaFonteObservações
Gel de dextrose 40%200 mg/kg (≈ 0,5 mL/kg) na mucosa jugal, antes da mamada; até 2 doses por episódio, 6 em 48 hSBP 2022 (dose); BAPM 2024 (limites)Sempre com plano de alimentação
Glicose — bolusSG 10% 2 mL/kg (200 mg/kg) EV a 1 mL/minMS 2014; SBP 2022 (2–4 mL/kg); padrão do siteSempre seguido de infusão contínua
Glicose — infusãoVIG inicial 5–8 mg/kg/min (80–100 mL/kg/dia de SG 10%)SBP 2022; MS 2014 (6–8)Periférica até SG 12,5% (MS)
Glucagon0,03 mg/kg/dose IM ou SCSBP 2022Resgate na urgência sem acesso venoso, enquanto se obtém o acesso; uso neonatal fora da bula (bula brasileira sem dose neonatal). MS: 0,025–0,3 mg/kg EV (máx. 1 mg); BAPM: 200 mcg/kg IM (máx. 1 mg)
Diazóxido5 mg/kg/dia VO em 2–3 tomadas; aumentar 5 mg/kg/dia a cada 4 dias; máx. 15 mg/kg/diaSBP 20221ª escolha no hiperinsulinismo, pelo especialista; importado (liberado pela Anvisa); restrição hídrica e hidroclorotiazida (retenção hídrica, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar)
Octreotida5 mcg/kg/dia SC (infusão ou a cada 6–8 h); aumentar 5 mcg/kg/dia a cada 2–3 dias; máx. 35 mcg/kg/diaSBP 20222ª linha, pelo especialista; taquifilaxia, QT longo, enterocolite necrosante
HidrocortisonaNão usar de rotinaSBP 2022; PES 2015Só na suspeita de insuficiência adrenal, após a amostra crítica, conforme o endocrinologista. O MS (2014) ainda prevê 5 mg/kg/dose EV 12/12 h se VIG > 12 mg/kg/min (divergência)

6. Hipoglicemia persistente e alta

7. Gravidade e encaminhamento

GravidadeCritériosConduta
🟢 LeveAssintomático, glicemia acima do limiar de glicose EV, responde à mamada ± gelAlojamento conjunto, apoio à amamentação, manter a triagem até o fim do período de risco
🟡 ModeradaNecessidade repetida de gel; glicemias limítrofes recorrentes; RN de risco que não mama bemAvaliação pelo pediatra/neonatologista com prioridade; considerar sonda ou glicose EV; não dar alta
🔴 GraveSintomas (sobretudo convulsão, apneia, letargia); glicemia < 25 mg/dL (0–4 h) ou < 35 mg/dL (4–24 h) apesar da mamada; necessidade de glicose EV ou VIG > 8–10 mg/kg/min; hipoglicemia após a altaUTI neonatal imediata (transferência se fora de unidade neonatal): glicose EV conforme a seção 5 antes e durante o transporte; amostra crítica se persistente

8. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 16 (Endocrinologia), 09/05/2022Atenção à Saúde do RN, v. 3, 2ª ed., 2014Adamkin/COFN, Pediatrics 2011 (+ PES 2015)NG3, atualizada em 16/12/2020 (só filho de mãe diabética)SEN-AEP nº 18, 2008All Children's: transicional 05/03/2026; persistente 01/2024Sem protocolo público localizadoSeguem NICE e BAPM (framework 2024, rev. 16/09/2024)
1ª glicemiaNão define (adota quadro da AAP)1 h (GIG) ou 2 h (PIG)30 min após a 1ª mamada2–4 h1ª hora30 min após a 1ª mamada—Antes da 2ª mamada (2–4 h)
Limiar de glicose EV< 40 sintomático; < 25 (0–4 h) / < 35 (4–24 h)Sintomático ou < 25Igual à SBP< 36 (2,0 mmol/L) em 2 medidas ou sinaisManter > 45< 25 / < 35 / < 45 (24–48 h)—< 18 (1,0 mmol/L) ou sinais com < 45
Gel 40%200 mg/kgNão prevêSem posição formalNão mencionaNão (2008)0,2 g/kg; 2 doses em 24 h—200 mg/kg; 2/episódio, 6 em 48 h
Bolus / VIG2–4 mL/kg; 5–82 mL/kg; 6–82 mL/kg; 5–8Glicose EV, sem dose2 mL/kg; 6–82 mL/kg—2,5 mL/kg; 60 mL/kg/dia
Glucagon / corticoideGlucagon 0,03 mg/kg IM/SC; corticoide nãoHidrocortisona 5 mg/kg/dose 12/12 h; glucagon 0,025–0,3 mg/kg EVPES: glucagon 0,5–1 mg; corticoide não——Corticoide não—Glucagon 200 mcg/kg IM (máx. 1 mg)
Meta de altaNão defineNão definePES: > 50 (até 48 h) e > 60≥ 24 h de vida, mamando, glicemia mantida—24 h sem EV; 3 glicemias > 60—2 glicemias > 36 (2,0 mmol/L); ≥ 24 h

Leitura: todas as referências concordam em triar só o RN de risco ou sintomático, em alimentar primeiro o assintomático e em tratar com SG 10% 2 mL/kg seguido de infusão de 5–8 mg/kg/min; o gel de 200 mg/kg tem a mesma dose na SBP, na BAPM e na Johns Hopkins. As divergências estão no momento da 1ª glicemia (30 min após a mamada nos EUA e na SBP; 2–4 h no Reino Unido), nos limiares (≈ 36 mg/dL no Reino Unido; 45–50 mg/dL no Brasil e nos EUA), no glucagon (dose por kg da SBP e da BAPM, dose fixa da PES), no corticoide (previsto pelo MS 2014, desaconselhado pela SBP 2022 e pela PES) e na meta de alta (36 mg/dL no Reino Unido; 60 mg/dL na PES e na Johns Hopkins). Posição do site: a da SBP (quadro AAP, gel, bolus, VIG, glucagon 0,03 mg/kg, sem corticoide de rotina); o bolus de 2 mL/kg segue o MS e o padrão do site; onde a SBP não detalha (limite de gel, alta), BAPM e PES, conforme indicado.

9. Complicações e erros comuns

10. Pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipoglicemia neonatal. Documento Científico nº 16, 09 maio 2022. Disponível em: sbp.com.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, cap. 25 (Distúrbios da glicose). 2. ed. atual. Brasília, 2014. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  3. ADAMKIN, D. H.; COMMITTEE ON FETUS AND NEWBORN (AAP). Postnatal glucose homeostasis in late-preterm and term infants. Pediatrics, 2011. doi:10.1542/peds.2010-3851.
  4. THORNTON, P. S. et al. (Pediatric Endocrine Society). Recommendations from the Pediatric Endocrine Society for evaluation and management of persistent hypoglycemia in neonates, infants, and children. J Pediatr, v. 167, n. 2, p. 238-245, 2015. doi:10.1016/j.jpeds.2015.03.057.
  5. NICE. NG3 — Diabetes in pregnancy: management from preconception to the postnatal period. Atualizada em 16 dez. 2020. nice.org.uk.
  6. BAPM. Identification and management of neonatal hypoglycaemia in the full term infant (birth–72 hours). Framework for practice, jan. 2024, rev. 16 set. 2024. PDF.
  7. FERNÁNDEZ LORENZO, J. R.; COUCE PICO, M.; FRAGA BERMÚDEZ, J. M. Hipoglucemia neonatal. Protocolos diagnóstico-terapéuticos SEN-AEP nº 18, 2008. seneo.es.
  8. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. NICU — Neonatal Transitional Hypoglycemia. Clinical pathway, 05 mar. 2026. PDF; Neonatal Prolonged Persistent Hypoglycemia, jan. 2024. PDF.
  9. MAGGIO, L.; PAVIOTTI, G.; CRESI, F. (SIN). Raccomandazioni per la gestione dell'ipoglicemia neonatale nelle prime 48 ore nei neonati > 34 settimane. v1, 01 set. 2025. PDF.
  10. HARRIS, D. L. et al. Dextrose gel for neonatal hypoglycaemia (the Sugar Babies Study). Lancet, 2013. doi:10.1016/S0140-6736(13)61645-1.
  11. McKINLAY, C. J. D. et al. (CHYLD Study Team). Association of neonatal glycemia with neurodevelopmental outcomes at 4.5 years. JAMA Pediatr, 2017. PubMed 28783802.
  12. DIGGIKAR, S. et al. Neonatal hypoglycemia and neurodevelopmental outcomes — an updated systematic review and meta-analysis. Life (Basel), v. 14, n. 12, 1618, 2024. doi:10.3390/life14121618.

Veja também: Hipoglicemia neonatal — Temas atualizados em Neonatologia e Filho de mãe diabética (nesta área).

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN GIG, 4.200 g, filho de mãe com diabetes gestacional. Na 2ª hora, assintomático, glicemia de 32 mg/dL.

Questão 1. Conduta inicial mais adequada? (A) Bolus de glicose imediato (B) Mamada, gel de dextrose 40% 200 mg/kg e nova glicemia em 30–60 min (C) Insulina subcutânea (D) Apenas observar sem alimentar (E) Iniciar hidrocortisona

Questão 2. Mecanismo da hipoglicemia nesse RN? (A) Reservas baixas de glicogênio (B) Hiperinsulinismo (hiperglicemia materna → hiperinsulinismo fetal) (C) Sepse (D) Erro inato do metabolismo (E) Insuficiência adrenal

Questão 3. Se evoluísse com tremores e glicemia de 22 mg/dL? (A) Só aumentar a dieta (B) SG 10% 2 mL/kg EV seguido de infusão contínua (C) Glucagon oral (D) Nova aferição em 2 h (E) Soro sem glicose

Caso 2. RN PIG, pré-termo tardio, mantém glicemias baixas apesar da infusão, com VIG crescente (> 12 mg/kg/min).

Questão 4. O que essa refratariedade sugere? (A) Diabetes neonatal (B) Hiperinsulinismo (C) Desidratação (D) Hipernatremia (E) Hipotireoidismo isolado

Questão 5. Qual medicamento é a 1ª escolha no hiperinsulinismo, segundo a SBP? (A) Insulina (B) Diazóxido, pelo especialista (C) Hidrocortisona de rotina (D) Salbutamol (E) Manitol

Questão 6. Investigação apropriada na hipoglicemia persistente? (A) Apenas radiografia (B) Amostra crítica com glicemia < 50 mg/dL (insulina, peptídeo C, beta-hidroxibutirato, ácidos graxos livres, acilcarnitinas, amônia, lactato) (C) Somente hemograma (D) Nenhuma (E) Apenas glicemia capilar

Gabarito comentado. Q1 — B: assintomático e acima de 25 mg/dL nas primeiras 4 h: mamar (± gel) e repetir. Q2 — B: hiperinsulinismo fetal persistente. Q3 — B: sintomático com < 40 mg/dL: bolus seguido de infusão. Q4 — B: VIG alta sugere hiperinsulinismo. Q5 — B: diazóxido (SBP 2022); a SBP não recomenda corticoide fora da insuficiência adrenal. Q6 — B: amostra crítica durante a hipoglicemia.

Revisão: outubro de 2026.