Neonatologia · Malformações, Genética e Cirurgia

Displasia do Desenvolvimento do Quadril (DDQ)

Displasia do quadril no RN e lactente

Revisão: outubro de 2026. Documento de referência do site sobre o quadril do RN e do lactente. O resumo da DDQ em Deformidades Posicionais e Estruturais segue esta mesma conduta.

1. Importância do tema na Pediatria

A displasia do desenvolvimento do quadril abrange desde a instabilidade até a luxação. No RN ela não tem manifestação externa: não deforma, não dói e não limita movimentos, e só é diagnosticada se pesquisada ativamente (MS, 2014). O diagnóstico e o tratamento PRECOCES (suspensório de Pavlik) evitam sequelas graves (claudicação, artrose, encurtamento). O exame do quadril no RN e os fatores de risco são cobrança certa em puericultura e prova.

2. Avaliação inicial

Examinar o quadril de TODO RN (manobras de Ortolani e Barlow) e repetir o exame na alta, sobretudo se a apresentação foi pélvica ou há história familiar (SBP, Manual de Seguimento do RN de Alto Risco, 2024), e em todas as consultas de puericultura até os 6 meses, porque há casos de manifestação tardia (MS, 2014), mantendo o exame periódico nas consultas seguintes (AAP, 2016). Pesquisar os fatores de risco (quadro abaixo). Sinais mais tardios: assimetria de pregas, limitação da abdução (em geral após os 3 meses) e sinal de Galeazzi (encurtamento aparente do fêmur).

Fator de riscoPeso nas referências
Apresentação pélvica (3º trimestre, qualquer via de parto) e história familiar de 1º grauOs dois mais importantes — indicam ultrassom mesmo com exame normal (MS 2014; AAP 2016; NIPE 2025; PrevInfad 2026)
Sexo femininoRisco aumentado, mas sozinho não indica ultrassom (AAP; PrevInfad); 75% dos casos são meninas sem outro fator (AAP)
Instabilidade prévia, exame duvidoso, preocupação dos pais, enfaixamento apertado dos membrosIndicam ultrassom seletivo (AAP 2016)
Pé calcaneovalgo, torcicolo congênito, geno recurvadoIndicam ultrassom no MS (2014); para a AAP e o PrevInfad, torcicolo, deformidades do pé, oligoâmnio e primogenitura não são fatores comprovados ou não justificam o exame sozinhos

3. Fisiopatologia aplicada

Há um espectro de instabilidade entre a cabeça femoral e o acetábulo, por frouxidão capsular e acetábulo raso e aberto. A posição fetal (pélvica) e o espaço reduzido favorecem; os hormônios maternos aumentam a frouxidão. Se a cabeça permanece fora ou instável, o acetábulo não se molda, perpetuando a displasia. Implicação: manter o quadril em flexão e abdução (Pavlik) favorece a contenção e a remodelação acetabular; o enfaixamento dos membros em extensão e adução tem o efeito oposto.

4. Diagnóstico

Manobras (no RN)

ManobraO que avalia
OrtolaniREDUZ um quadril luxado (sente-se o “clunk” de entrada); positivo faz o diagnóstico clínico, mas negativo não descarta a DDQ. Não confundir com estalidos de tendões
BarlowLUXA/subluxa um quadril instável (provoca a saída)
Galeazzi / abdução limitadaSinais mais tardios (encurtamento aparente; limitação), quando o Ortolani perde sensibilidade

Imagem

ExameQuando / utilidade
Ultrassonografia do quadril (método de Graf)Método de escolha até ~4–6 meses, antes da ossificação da cabeça femoral. Não fazer nas primeiras semanas de vida, quando a imaturidade fisiológica gera falsos positivos: MS a partir de 3 semanas; AAP a partir de 6 semanas; NIPE e PrevInfad entre 4 e 6 semanas. No Ortolani positivo, o ultrassom caracteriza o grau e acompanha o tratamento (MS)
Radiografia de baciaApós ~4–6 meses (núcleo de ossificação visível); a AAP aceita a partir dos 4 meses

5. Conduta, tratamento e fluxograma

  1. Passo 1 — todo RN: Ortolani e Barlow ao nascer e na alta, fatores de risco anotados; repetir o exame em toda consulta.
  2. Passo 2 — imagem seletiva: exame alterado ou duvidoso, ou fator de risco maior → ultrassom do quadril a partir de 3 semanas de vida (MS) e até 4–6 meses; depois, radiografia de bacia. Ultrassom universal não é recomendado (AAP; NIPE; PrevInfad).
  3. Passo 3 — tratamento (ortopedia pediátrica): instabilidade ou luxação redutível < 6 meses → suspensório de PAVLIK (flexão e abdução), ajustado e monitorado pelo ortopedista, em geral por 2–3 meses (MS 2014; Boston Children's: 8–12 semanas, 24 h/dia), com controle ultrassonográfico; falha do Pavlik ou diagnóstico tardio → redução fechada ou aberta + gesso pelvipodálico, conforme idade e gravidade. Alterações leves do ultrassom entre 6 semanas e 4 meses tendem a se resolver sozinhas; observar ou tratar é decisão do ortopedista (AAP 2016).
  4. Orientar a família: enfaixamento só do tronco e dos braços, deixando quadris e joelhos livres para dobrar e abrir; carregadores de base larga, que mantêm os quadris em flexão e abdução. Não usar “várias fraldas” como tratamento, porque não mantêm a redução (MS 2014).

6. Gravidade e encaminhamento

7. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaManual de Seguimento do RN de Alto Risco, 2ª ed., 2024 (sem documento específico de DDQ localizado)Atenção à Saúde do RN, vol. 3, 2ª ed., 2014 (cap. 30); Guia prático de anomalias congênitas, 2022Clinical report Shaw & Segal, dez/2016, reafirmado em jun/2021Sem diretriz NICE; programa NHS NIPE — handbook atualizado em 10/10/2025PrevInfad/AEPap — Cribado de la displasia evolutiva de cadera, atualizado em ago/2026Pathway institucional não acessível; sem posição confirmadaBoston Children's Hospital — página de displasia do quadril (consultada em out/2026)Seguem o NIPE (NHS)
Exame clínicoAo nascer e repetido na alta (pélvico, história familiar)Ortolani nos 2 primeiros dias e até os 6 mesesExames periódicos nas consultas de puericulturaAo nascer (até 72 h) e às 6–8 semanasExame sistemático em todos (recomendação fraca a favor)—Triagem clínica de rotinaComo o NIPE
Ultrassom: quem—Ortolani +, família, pélvico, calcaneovalgo, torcicolo, geno recurvado, diagnóstico tardioSeletivo; não universal; pélvico, família, instabilidade prévia, pais, enfaixamento, exame duvidosoSeletivo: exame alterado, família de 1º grau, pélvicoDirigido: pélvico, família de 1º grau ou sinais clínicos (forte); não universal (fraca contra)——Como o NIPE
Ultrassom: quando—Após 3 semanas de vida6 semanas a 6 meses; RX após 4 meses4–6 semanas; decisão até 6 semanas; < 34 sem: 38–40 sem corrigidasIdeal 4–6 semanas—Preferido até 6 mesesComo o NIPE
Tratamento—Pavlik o mais cedo possível, de preferência antes da alta; 2–3 mesesÓrtese; não é emergência———Pavlik até ~4–6 meses, 24 h/dia, 8–12 semanas—

Leitura: há concordância em examinar o quadril de todo RN e repetir o exame no 1º semestre, em não fazer ultrassom universal (AAP 2016; NIPE 2025; PrevInfad 2026), em reservar a imagem ao exame alterado e aos fatores de risco maiores (apresentação pélvica e história familiar de 1º grau), em evitar o ultrassom nos primeiros dias, em trocar pela radiografia após ~4–6 meses e no Pavlik como 1ª linha no lactente jovem. As divergências: (1) quando fazer o ultrassom — após 3 semanas no MS, 4–6 semanas no NIPE e no PrevInfad, a partir de 6 semanas na AAP; (2) a lista de fatores — o MS inclui pé calcaneovalgo, torcicolo e geno recurvado, que a AAP e o PrevInfad não consideram suficientes sozinhos; (3) a urgência do tratamento — o MS prefere iniciar antes da alta, a AAP admite a consulta ortopédica ambulatorial. A SBP trata do exame (ao nascer e na alta), mas não da imagem; a SBOT (Rev Bras Ortop 2023) indica ultrassom nos casos suspeitos, pélvicos e com história familiar, que pode ser adiado para 4–6 semanas. Posição do site: exame pela SBP (ao nascer, na alta e em toda consulta) e, onde ela não se posiciona, o Ministério da Saúde: ultrassom após 3 semanas de vida nas indicações do MS, tratamento precoce com Pavlik pelo ortopedista; quem preferir esperar 4–6 semanas segue AAP, NIPE e PrevInfad, com menos falsos positivos por imaturidade.

8. Complicações

Luxação não tratada: claudicação, dismetria, artrose precoce; displasia residual pode ficar silenciosa e dar sintomas no adulto jovem (MS 2014). Do tratamento: necrose avascular da cabeça femoral (sobretudo com abdução forçada).

9. Erros comuns

Não examinar o quadril no RN ou não repetir nas consultas; considerar o Ortolani negativo como exclusão; pedir ultrassom nos primeiros dias (falsos positivos) ou radiografia precoce (núcleo não ossificado); enfaixar os membros em extensão e adução; usar “várias fraldas” como tratamento; abdução forçada (risco de necrose avascular).

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN do sexo feminino, nascida de apresentação pélvica, com história familiar de “problema no quadril”. Ao exame, a manobra que provoca a entrada do quadril com um “clunk” é positiva.

Questão 1. Qual manobra está descrita e o que indica?

(A) Barlow; quadril estável (B) Ortolani; redução de um quadril luxado (C) Galeazzi; normal (D) Adams; escoliose (E) Ortolani; quadril normal

Questão 2. Exame de imagem mais adequado para caracterizar e acompanhar o quadril nessa fase?

(A) Radiografia de bacia imediata (B) Ultrassonografia do quadril (C) Tomografia (D) Cintilografia (E) Ressonância com contraste

Questão 3. Tratamento de 1ª linha?

(A) Gesso imediato (B) Suspensório de Pavlik (flexão e abdução) (C) Cirurgia aberta (D) Apenas observação até 1 ano (E) Enfaixar em extensão

Caso 2. Lactente de 5 meses com assimetria de pregas e limitação da abdução de um quadril, não examinado ao nascer.

Questão 4. Qual exame de imagem é mais apropriado a partir de ~4–6 meses?

(A) Ultrassonografia (B) Radiografia de bacia (C) EEG (D) Cintilografia óssea (E) Nenhum

Questão 5. Qual prática de cuidado PIORA a displasia?

(A) Posicionar em flexão e abdução (B) Enfaixar os membros inferiores em extensão e adução (C) Usar o suspensório de Pavlik (D) Trocar fraldas normalmente (E) Carregar com as pernas abertas

Questão 6. Complicação do tratamento com abdução forçada?

(A) Necrose avascular da cabeça femoral (B) Hipoglicemia (C) Surdez (D) Catarata (E) Anemia

Gabarito comentado

Questão 1 — B. O “clunk” de entrada é a manobra de Ortolani, que reduz um quadril luxado. Questão 2 — B. Até ~4–6 meses, a ultrassonografia é o exame de escolha; no Ortolani positivo, ela caracteriza o grau e acompanha o tratamento (MS), e o encaminhamento ao ortopedista não depende do exame. Questão 3 — B. O suspensório de Pavlik é a 1ª linha no lactente jovem. Questão 4 — B. A partir de ~4–6 meses, a radiografia de bacia é apropriada (núcleo de ossificação). Questão 5 — B. Enfaixar em extensão/adução piora a DDQ. Questão 6 — A. A abdução forçada pode causar necrose avascular da cabeça femoral.

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. sbp.com.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, 2. ed. atual. Brasília: MS, 2014 (cap. 30, Problemas ortopédicos). bvsms.saude.gov.br
  3. SHAW, B. A.; SEGAL, L. S.; AAP Section on Orthopaedics. Evaluation and referral for developmental dysplasia of the hip in infants. Pediatrics, v. 138, n. 6, e20163107, 2016 (reafirmado em 2021). doi:10.1542/peds.2016-3107
  4. UK HEALTH SECURITY AGENCY / NHS. Newborn and infant physical examination (NIPE) screening programme handbook. Atualizado em 10 out. 2025. gov.uk
  5. GARCÍA SOTO, L.; GRUPO PREVINFAD (AEPap). Cribado de la displasia evolutiva de cadera. Atualizado em ago. 2026. previnfad.aepap.org
  6. BRAGA, S. R. et al. Displasia do desenvolvimento do quadril – Parte 1. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 58, n. 6, p. 839–846, 2023. doi:10.1055/s-0042-1758371
  7. BOSTON CHILDREN'S HOSPITAL. Hip dysplasia. Consultado em out. 2026. childrenshospital.org

Revisão: outubro de 2026.