Neonatologia · Neurologia

Asfixia Perinatal e Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica

EHI e hipotermia terapêutica

Asfixia perinatal e encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI): fases da lesão, critérios de hipotermia terapêutica da SBP, cuidados durante o resfriamento, doses com fonte e comparação das 9 referências. Revisão: outubro de 2026.

1. Dados rápidos

ItemConteúdo
DefiniçãoLesão cerebral por hipóxia-isquemia perinatal, com encefalopatia clínica
GravidadeSarnat modificado (leve, moderada, grave) — pelo menos 3 de 6 categorias alteradas para moderada/grave (SBP, DC nº 4/2020)
Janela terapêuticaHipotermia iniciada nas primeiras 6 horas de vida; decidir na unidade neonatal, não na sala de parto (PRN-SBP 2026)
Alvo e duraçãoTemperatura central (esofágica ou retal) de 33,5 °C por 72 h; reaquecer 0,2–0,5 °C por hora até 36,5 °C (SBP, DC nº 4/2020)
Idade gestacional≥ 35 semanas (SBP 2020); AAP 2026 e BAPM 2025: ≥ 36 semanas, com 35 semanas em decisão individual com a família

2. Fisiopatologia

A lesão cerebral na EHI evolui em fases. A hipóxia-isquemia inicial desencadeia falência energética, entrada de cálcio, excitotoxicidade pelo glutamato, estresse oxidativo, inflamação e morte celular por necrose e apoptose. Entender as fases explica a janela terapêutica da hipotermia.

FaseTempoEventos principais
Falência energética primáriaDurante e logo após o insulto (minutos)Queda de ATP, metabolismo anaeróbio e acidose lática, despolarização de membrana, entrada de cálcio, liberação de glutamato (excitotoxicidade), edema citotóxico
Fase latente≈ 1 a 6 horasRecuperação parcial do metabolismo e estresse oxidativo da reperfusão; as cascatas de morte celular já se ativam — é a janela terapêutica da hipotermia
Falência energética secundária≈ 6 a 48 horas (pico 24–48 h)Disfunção mitocondrial, novo edema citotóxico, excitotoxicidade, estresse oxidativo, inflamação e apoptose — responde por grande parte da lesão e se correlaciona com o prognóstico
Lesão terciáriaDias a meses/anosInflamação persistente, alterações epigenéticas, prejuízo da neurogênese e do remodelamento — influencia o desfecho a longo prazo

A hipotermia terapêutica atua na fase latente e atenua a falência energética secundária (reduz o metabolismo cerebral, a excitotoxicidade, o estresse oxidativo e a apoptose). Por isso deve começar dentro da janela de cerca de 6 horas.

3. Diagnóstico

ExameAchado esperado / utilidade
Gasometria de cordão ou da 1ª horaAcidose metabólica (pH < 7,0 ou BE ≤ −15 — critério da SBP)
aEEG / EEG contínuoAtividade de base deprimida, surto-supressão, crises (muitas só eletrográficas); indicado desde o início do resfriamento (SBP, MO 2020). A falta de aEEG não deve atrasar a hipotermia (BAPM 2025)
Ressonância magnéticaLesão de núcleos da base e tálamo, cápsula interna, substância branca ou córtex; após o reaquecimento — 4º–5º dia (SBP 2020), até o 14º dia com melhor valor prognóstico (SBP, MO 2020)
Ultrassonografia de crânioDisponível à beira do leito; pode ser feita cedo e repetida após o reaquecimento
Função orgânicaLesão renal, hepática e miocárdica; coagulopatia; hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia

4. Hipotermia terapêutica

Indicação (SBP, DC nº 4/2020): RN com idade gestacional ≥ 35 semanas, que preencha, antes das 6 primeiras horas de vida, o critério A e o critério B:

CritérioConteúdo
A — asfixia perinatal (pelo menos um)Gasometria arterial do cordão ou da 1ª hora com pH < 7,0 ou BE ≤ −15; OU história de evento agudo perinatal; OU Apgar ≤ 5 no 10º minuto; OU ventilação com pressão positiva além do 10º minuto de vida
B — encefalopatia moderada ou gravePelo menos 3 das 6 categorias alteradas (consciência, atividade espontânea, postura, tônus, reflexos primitivos, sistema autonômico) ou convulsões
ContraindicaçãoCondição de pré-óbito ou malformações complexas/anomalias genéticas com plano de cuidados paliativos já discutido com os pais

5. Suporte e doses

MedicaçãoDoseFonteObservações
Fenobarbital (1ª linha nas crises)Ataque 20 mg/kg IV (1 mg/kg/min); se persistir, 10 mg/kg e mais 10 mg/kg (máx. 40 mg/kg em 24 h); manutenção 5 mg/kg/dia, 12/12 hSBP, DC nº 4/2020 (ataque e manutenção); MS, 2014 (doses adicionais)Tratar só crises clínicas ou eletrográficas; ver “Convulsão neonatal”
Morfina (conforto)5–10 mcg/kg/h IV contínuaSBP, DC nº 4/2020Avaliar dor com N-PASS (SBP, DC nº 191/2025)
Fentanil (alternativa)1 mcg/kg/h IV contínuaSBP, DC nº 4/2020Fentanil é o opioide de escolha no Brasil (SBP, DC nº 191/2025)
Dexmedetomidina (adjuvante)Conforme protocolo da UTI neonatal (Johns Hopkins 2025: 0,2–0,5 mcg/kg/h)SBP, DC nº 191/2025 (indicação, sem dose)Johns Hopkins evita benzodiazepínicos; BAPM aceita midazolam com cautela

6. Gravidade e encaminhamento

🔴 Transferência imediata para UTI neonatal com hipotermia terapêutica

Todo RN ≥ 35 semanas com critério de asfixia e sinais de encefalopatia moderada ou grave ou convulsões: estabilizar, não aquecer demais (evitar > 38 °C), não iniciar a hipotermia na sala de parto e acionar a regulação para a unidade de referência com prioridade — a decisão deve ocorrer dentro das 6 horas. O resfriamento passivo no transporte só com temperatura central contínua, para não cair abaixo de 33,5 °C (BAPM 2025); a SBP (2020) aceita a hipotermia passiva no transporte, mas alerta para o controle difícil. Toda maternidade deve ter plano para iniciar a hipotermia ou transferir (AAP 2026).

7. Complicações e prognóstico

Convulsões, lesão de múltiplos órgãos, hipertensão pulmonar, coagulopatia; sequelas (paralisia cerebral, déficit cognitivo, surdez, epilepsia) e óbito. A hipotermia reduz morte ou incapacidade grave aos 18–24 meses (ensaios citados pela SBP). A RM entre o 4º e o 14º dia e o padrão do aEEG orientam o prognóstico. Em países de baixa e média renda, o ensaio HELIX não mostrou benefício e registrou mais mortes — a hipotermia deve ser feita em rede com UTI estruturada, monitorização e seguimento.

8. Comparação das 9 referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 4, Hipotermia terapêutica (jun/2020); MO Monitoramento do RN com asfixia (set/2020); Diretrizes PRN-SBP (12/06/2026); DC nº 191 (20/02/2025)Atenção à Saúde do RN, v. 3 (2014)Clinical report, Pediatrics 2026;157(2) (26/01/2026)Sem orientação própria atualizada; Reino Unido = BAPM, Framework (mar/2025)Protocolo SENeo de asfixia e EHI (2008)JHACH, Therapeutic Hypothermia pathway (12/11/2025)Sem protocolo público localizadoSeguem o BAPM 2025
Idade gestacional mínima≥ 35 semanasNão define≥ 36; 35 individualizadoBAPM: ≥ 36; < 36 normotermiaNão define≥ 35 e ≥ 1.800 g—≥ 36
Critério de acidosepH < 7,0 ou BE ≤ −15pH < 7,0 (diagnóstico de asfixia)EHI moderada/graveBAPM: pH < 7,00 ou déficit de base > 16 em 60 min—pH < 7,0 ou BD > 16 (A1) ou pH 7,01–7,15 com evento (A2/A3)—BAPM
Alvo e duração33,5 °C, 72 h32–34 °C, 72 h (texto de 2014, antes da recomendação formal)33,5–34,5 °C, 72 hBAPM: 33–34 °C, 72 h33,5–35 °C, 72 h33,5 °C esofágica, 72 h—BAPM
Janela e EHI leve≤ 6 h; não na sala de parto< 6 h≤ 6 h; 6–24 h pequeno benefício; leve nãoBAPM: ≤ 6 h; 6–24 h a critério; leve só em ensaio< 6 h≤ 6 h; leve não (observar 6 h)—BAPM
SedaçãoMorfina 5–10 mcg/kg/h ou fentanil 1 mcg/kg/h; dexmedetomidina adjuvante——BAPM: opiáceo; midazolam com cautela—Morfina ou dexmedetomidina; sem benzodiazepínico—BAPM

Leitura: há consenso no núcleo da hipotermia — EHI moderada ou grave, início em até 6 horas, 33,5 °C por 72 horas, reaquecimento lento, em centro com monitorização, RM e seguimento — e em não resfriar a EHI leve. A divergência principal é a idade gestacional mínima: a SBP (2020) e a Johns Hopkins (2025) aceitam 35 semanas; AAP (2026) e BAPM (2025) passaram a exigir 36 semanas, com 35 semanas em decisão compartilhada com a família (o BAPM recomenda normotermia abaixo de 36 pelo ensaio em 33–35 semanas). Diferem também o critério de acidose (BE ≤ −15 na SBP; déficit de base > 16 no BAPM e na Johns Hopkins), a conduta entre 6 e 24 horas e o resfriamento passivo no transporte. Posição do site: a da SBP (≥ 35 semanas; critérios A + B; 33,5 °C por 72 h; não iniciar na sala de parto), informando à família, no RN de 35 semanas, que AAP e BAPM consideram a evidência inconclusiva nessa idade. O texto do MS (2014) é anterior à recomendação formal e foi superado pela SBP.

9. Pontos-chave

10. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Hipotermia terapêutica. Documento Científico nº 4, jun. 2020. Disponível em: sbp.com.br.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Monitoramento do recém-nascido com asfixia perinatal. Manual de Orientação, set. 2020. Disponível em: sbp.com.br.
  3. ALMEIDA, M. F. B.; GUINSBURG, R. Diretrizes 2026 — Reanimação do recém-nascido ≥ 34 semanas e do prematuro < 34 semanas. Programa de Reanimação Neonatal da SBP, 12 jun. 2026. Disponível em: doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Abordagem da dor no recém-nascido. Documento Científico nº 191, 20 fev. 2025. Resumo em Dor no recém-nascido (Temas atualizados).
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, 2. ed. Brasília: MS, 2014 (cap. 28). Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  6. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Committee on Fetus and Newborn; Section on Neurology. Therapeutic hypothermia for neonatal hypoxic-ischemic encephalopathy. Pediatrics, v. 157, n. 2, e2025073627, 2026. Disponível em: publications.aap.org.
  7. BRITISH ASSOCIATION OF PERINATAL MEDICINE. Therapeutic hypothermia for neonatal encephalopathy — a framework for practice. 2020, atualizado em mar. 2025. Disponível em: bapm.org.
  8. GARCÍA-ALIX, A. et al. Asfixia intraparto y encefalopatía hipóxico-isquémica. Protocolos Diagnóstico-Terapéuticos de la AEP: Neonatología, 2008. Disponível em: seneo.es.
  9. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Therapeutic Hypothermia for Perinatal Hypoxic Encephalopathy — Clinical Pathway. 12 nov. 2025. Disponível em: hopkinsmedicine.org.
  10. THAYYIL, S. et al. Hypothermia for moderate or severe neonatal encephalopathy in low-income and middle-income countries (HELIX). Lancet Glob Health, 2021. Disponível em: doi.org.
  11. Síntese das atualizações 2025–2026: Encefalopatia hipóxico-isquêmica e hipotermia terapêutica (Temas atualizados em Neonatologia).

Revisão: outubro de 2026.

11. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

RN a termo (40 semanas), nascido em parto domiciliar e levado à maternidade, chega com 1 hora de vida hipoativo. Gasometria da 1ª hora: pH 6,95 e BE −18. Ao exame: estupor, flacidez generalizada, sucção e Moro ausentes, pupilas pouco reativas; teve uma convulsão na admissão.

Questão 1. Qual a classificação da encefalopatia e a conduta inicial mais adequada?
(A) Sarnat I (leve); apenas observação, sem hipotermia (B) Encefalopatia grave; indicar hipotermia terapêutica (≥ 35 semanas, dentro das 6 horas), com suporte intensivo e transferência imediata se a unidade não a oferece (C) Encefalopatia não classificável; corticoide em altas doses (D) Encefalopatia moderada; aquecer ativamente até 38 °C (E) Sem indicação de resfriamento, pois há convulsão

Caso 2

RN de 38 semanas com asfixia perinatal e encefalopatia moderada é transferido de outro serviço e chega com 8 horas de vida, estável.

Questão 2. Qual a conduta mais apropriada quanto à hipotermia neste momento?
(A) Iniciar imediatamente, pois não há limite de tempo (B) Iniciar e manter por apenas 24 horas (C) A janela recomendada é de até 6 horas; entre 6 e 24 horas o benefício é pequeno ou incerto (AAP 2026, BAPM 2025) — decisão individualizada com o serviço de referência e a família, mantendo suporte intensivo e evitando hipertermia (D) Resfriar a 30 °C para “recuperar” o tempo (E) Qualquer cuidado neuroprotetor está contraindicado após 6 horas

Gabarito comentado

1 — B. Estupor, flacidez, reflexos ausentes e convulsão caracterizam encefalopatia grave. Com acidose importante (pH 6,95; BE −18 — critério A da SBP: pH < 7,0 ou BE ≤ −15) e encefalopatia moderada/grave (critério B), há indicação de hipotermia em RN ≥ 35 semanas, iniciada em até 6 horas, com suporte intensivo. 2 — C. O benefício está estabelecido até 6 horas; entre 6 e 24 horas é pequeno ou incerto, e a decisão é individualizada. Resfriar abaixo do alvo ou encurtar o tempo não se justifica; temperaturas mais baixas aumentaram a mortalidade.