Neonatologia · Nutrição e Aleitamento

Aleitamento Materno e Nutrição do RN

Da amamentação à nutrição do prematuro

Revisão: outubro de 2026. Atualizado com o Guia Prático de Aleitamento Materno da SBP (nº 165, 26/08/2024), o Manual de Seguimento do RN de Alto Risco da SBP (2ª ed., 2024), o DC de Hipovitaminose D da SBP (nº 181, 04/11/2024), o Caderno de Atenção Básica nº 23 e o PCDT de Transmissão Vertical do Ministério da Saúde, e as posições da AAP (2022 e 2024), NICE, AEP e demais referências.

1. Importância do tema na Pediatria

O aleitamento materno é a intervenção isolada com maior impacto na saúde infantil: reduz mortalidade, infecções, enterocolite necrosante (ECN) e reinternações, e tem benefícios maternos. A nutrição adequada — incluindo a do prematuro — é determinante do crescimento e do neurodesenvolvimento. É tema de altíssimo rendimento em prova, com pegadinhas sobre contraindicações.

2. Avaliação inicial

Apoiar o início precoce (1ª hora de vida), o contato pele a pele, o alojamento conjunto e a livre demanda (em geral 8–12 mamadas em 24 h); avaliar pega e posicionamento observando uma mamada completa, o peso, a diurese e as evacuações. Identificar as situações que contraindicam ou restringem a amamentação (ver adiante) e os RN que precisam de complementação ou de nutrição especial (prematuro, instável).

3. Fisiopatologia aplicada

A sucção estimula a liberação de prolactina (produção de leite) e ocitocina (ejeção, a "descida"). A composição muda ao longo da mamada (leite anterior, mais aquoso → posterior, mais gorduroso e calórico) e da lactação (colostro, rico em IgA, lactoferrina e fatores de crescimento → leite maduro). O leite humano fornece imunoglobulinas, lactoferrina, oligossacarídeos e células de defesa, além de favorecer a colonização intestinal benéfica — o que reduz a ECN. No prematuro, as necessidades de proteína, cálcio e fósforo são altas e o leite materno não aditivado não as supre: costuma exigir fortificação (aditivo). Implicação: estimular o leite da própria mãe, fortificá-lo no prematuro e usar nutrição parenteral enquanto a enteral é insuficiente.

4. Diagnóstico / classificação dos tipos

TermoDefinição
Aleitamento exclusivoApenas leite materno (direto da mama ou ordenhado), sem água, chás ou outros alimentos — exceto gotas/xaropes de vitaminas, sais de reidratação ou medicamentos (MS, CAB 23). Recomendado até os 6 meses
PredominanteLeite materno + água/chás/sucos (não recomendado)
ComplementadoLeite materno + alimentos sólidos/semissólidos (a partir dos 6 meses), mantido até 2 anos ou mais
Misto/parcialLeite materno + outros leites (fórmula)

Contraindicações e restrições ao aleitamento (Ministério da Saúde, CAB 23, 2015; PCDT de Transmissão Vertical, 2022)

TipoSituações
Não amamentar — maternasInfecção pelo HIV (no Brasil: não amamentar, inibir a lactação com cabergolina 1 mg VO dose única após o parto; contraindicados aleitamento cruzado, aleitamento misto e leite humano com pasteurização domiciliar — PCDT TV 2022); HTLV 1/2 (inibidores da lactação e fórmula — PCDT TV 2022); medicamentos incompatíveis (antineoplásicos, radiofármacos — consultar o manual do MS "Amamentação e uso de medicamentos")
Não amamentar — neonatalGalactosemia clássica (fórmula isenta de lactose/galactose). Na fenilcetonúria, o leite materno pode ser mantido de forma parcial, com fórmula isenta de fenilalanina e controle dos níveis pelo serviço de referência em triagem neonatal
Interrupção temporáriaLesões herpéticas na mama (manter na mama sadia); herpes-zóster com lesões na mama; varicela materna de 5 dias antes a 2 dias após o parto (isolamento até as crostas; RN recebe imunoglobulina antivaricela-zóster, até 96 h); doença de Chagas aguda ou com sangramento mamilar; drogas de abuso (ordenhar e descartar conforme a droga)
Não contraindicamTuberculose (mãe bacilífera amamenta com máscara; RN com isoniazida conforme o MS), hanseníase, hepatite B (vacina e imunoglobulina ao nascer), hepatite C (cuidado com fissuras), dengue, tabagismo (orientar cessação), mastite, a maioria dos medicamentos

5. Conduta e nutrição

  1. RN a termo estável: início na 1ª hora, livre demanda, alojamento conjunto e correção da técnica (pega/posição); desaconselhar chupeta e bicos enquanto a amamentação se estabelece (SBP, GP nº 165/2024).
  2. Necessidade de complemento (após avaliação da mamada, das mamas e das eliminações): 1º leite materno ordenhado; 2º leite de banco de leite humano; 3º fórmula infantil — de preferência por translactação, copinho ou colher, evitando mamadeira, e reavaliando sempre a necessidade (SBP, GP nº 165/2024).
  3. Prematuro/instável: colostroterapia (gotas de colostro cru na cavidade oral, iniciada nas primeiras 96 h, SBP 2024) e dieta enteral trófica desde o 1º dia; leite da própria mãe → leite humano doado pasteurizado → fórmula para pré-termo; fortificante quando a dieta progride (SBP 2023: aditivo a partir de 80 mL/kg/dia). Ver Leite humano e nutrição do prematuro (Temas atualizados).
  4. Nutrição parenteral enquanto a enteral for insuficiente — ver Nutrição Parenteral em Neonatologia.
  5. Suplementos de rotina: vitamina K 1 mg IM ao nascer para todos (MS); vitamina D 400 UI/dia no 1º ano (SBP, DC nº 181/2024); ferro conforme a SBP 2026 (abaixo).

Referências nutricionais e suplementos (com fonte)

ItemValor de referênciaFonte
Energia enteral — RN a termo~100–120 kcal/kg/diaValor clássico de referência; individualizar pelo crescimento
Energia enteral — prematuro115–140 kcal/kg/dia, com 150–180 mL/kg/dia (ESPGHAN); a SBP suspende a NP quando a enteral atinge ~135 mL/kg/dia ou 110 kcal/kg/diaESPGHAN 2022 (Embleton, JPGN 2023); SBP, Guia Prático nº 108/2023
VIG inicial na NP do prematuro4–6 mg/kg/min; 7–10 na estabilidadeSBP, Guia Prático nº 108/2023
Vitamina K1 mg IM, dose única ao nascerMinistério da Saúde; AAP 2022 (nas primeiras 6 h)
Vitamina D400 UI/dia, da 1ª semana até 1 ano; 600 UI/dia de 1 a 18 anosSBP, DC nº 181/2024
Ferro — termo sem risco10–12,5 mg/dia de ferro elementar em dois ciclos (6–9 meses e 12–15 meses); aos 4 meses se receber leite de vacaSBP 2026
Ferro — pré-termo/baixo peso2–4 mg/kg/dia a partir de 30 dias até 12 meses; 1 mg/kg/dia dos 12 aos 24 mesesSBP 2026

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma (resumo)

  1. RN estável → aleitamento exclusivo precoce + apoio à técnica.
  2. Dúvida sobre ingestão → observar mamada, peso, fraldas e evacuações antes de complementar; se preciso, leite ordenhado → banco de leite → fórmula, sem mamadeira.
  3. Prematuro/instável → colostroterapia, leite materno fortificado ± nutrição parenteral; avançar a enteral.
  4. Checar contraindicações; vitamina K ao nascer; vitamina D 400 UI/dia; ferro conforme SBP 2026.

6. Comparação das referências

TemaSBPMSAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão e dataGP Aleitamento nº 165 (26/08/2024); DC Vit. D nº 181 (04/11/2024)CAB 23, 2ª ed. (2015); PCDT TV, 2ª ed. rev. (2022)Policy Statement (2022); Clinical Report HIV (2024)NG194 Postnatal care (2021)Comité de Lactancia, Recomendaciones (2012); SEIP-AEP/SEGO/GeSIDA, VIH (2024)Sem documento institucional público localizado (prática dos EUA referida à AAP)Sem documento institucional público localizado (prática dos EUA referida à AAP)Hospitais do NHS: seguem NICE NG194 e BHIVA
AME 6 meses e continuado ≥ 2 anosSimSimSimApoio estruturado à amamentaçãoSim——= NICE
HIV maternoNão amamentarNão amamentar; cabergolina; fórmula garantidaEvitar é a única opção de risco zero; apoiar quem deseja, se TARV com CV < 50 cópias/mL sustentadaBHIVA: apoiar se CV suprimidaFórmula recomendada; considerar com supressão sustentada e adesão——= BHIVA
HTLV 1/2ContraindicaContraindica; inibir lactaçãoContraindica—————
ComplementoOrdenhado → BLH → fórmula, sem mamadeiraIdem (CAB 23)Só com indicação médica—————
Vitamina D400 UI/dia < 1 ano—400 UI/diaReino Unido: 8,5–10 µg/dia (340–400 UI)400 UI/dia——= Reino Unido

Leitura. Há convergência no aleitamento exclusivo até 6 meses e continuado até 2 anos ou mais, na proteção contra ECN, na fortificação do leite do prematuro, na vitamina D de rotina e na contraindicação pelo HTLV. A divergência relevante é o HIV: a AAP (2024) e a BHIVA (Reino Unido) passaram a apoiar a mãe com TARV e carga viral indetectável sustentada que deseja amamentar, a AEP (2024) mantém a fórmula como recomendada e admite a decisão compartilhada sob condições estritas, e o Ministério da Saúde mantém a contraindicação, com fórmula garantida e inibição da lactação. Posição adotada: SBP e Ministério da Saúde — no Brasil, a mãe com HIV não amamenta. As posições da AAP/BHIVA são citadas para o leitor entender o debate internacional, não como conduta.

7. Gravidade e encaminhamento

8. Complicações

Do desmame precoce: mais infecções, ECN (no prematuro), desnutrição ou sobrepeso e icterícia/desidratação por baixa oferta. Da técnica inadequada: fissuras, ingurgitamento e mastite (a mastite não contraindica a amamentação).

9. Erros comuns

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Aleitamento Materno. Guia Prático de Aleitamento Materno — atualizado. Guia Prático nº 165, 26 ago. 2024. sbp.com.br
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico, tratamento e prevenção — atualização. Documento Científico nº 181, 04 nov. 2024. sbp.com.br
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. sbp.com.br
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Recomendações para nutrição parenteral em recém-nascidos pré-termo. Guia Prático de Atualização nº 108, 09 out. 2023. sbp.com.br
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar. Cadernos de Atenção Básica nº 23. 2. ed. Brasília, 2015. bvsms.saude.gov.br
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais. 2. ed. rev. Brasília, 2022. gov.br
  7. MEEK, J. Y.; NOBLE, L.; AAP Section on Breastfeeding. Policy statement: breastfeeding and the use of human milk. Pediatrics, v. 150, n. 1, e2022057988, 2022. doi
  8. ABUOGI, L. et al.; AAP. Infant feeding for persons living with and at risk for HIV in the United States: clinical report. Pediatrics, v. 153, n. 6, e2024066843, 2024. publications.aap.org
  9. HAND, I. et al.; AAP. Vitamin K and the newborn infant. Pediatrics, v. 149, n. 3, e2021056036, 2022. publications.aap.org
  10. NICE. Postnatal care. NICE guideline NG194, 2021. nice.org.uk
  11. ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE PEDIATRÍA. Comité de Lactancia Materna. Recomendaciones sobre lactancia materna. aeped.es
  12. SAINZ, T. et al.; SEIP-AEP, SEGO, SEIMC-GeSIDA. Lactancia materna en el recién nacido expuesto al VIH: recomendaciones y seguimiento madre-hijo. Out. 2024. gesida-seimc.org

Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. Puérpera com sorologia positiva para HTLV deseja amamentar. O RN é a termo e está bem.

Questão 1. Qual a orientação correta quanto ao aleitamento, no Brasil?
(A) Amamentar livremente (B) Contraindicar o aleitamento materno (HTLV), inibir a lactação e orientar fórmula (C) Amamentar só por 6 meses (D) Ordenhar e oferecer o leite cru (E) Amamentar em dias alternados

Questão 2. Outra condição materna que também contraindica o aleitamento no Brasil?
(A) Mastite (B) Infecção por HIV (C) Diabetes gestacional (D) Hepatite B com vacina e imunoglobulina no RN (E) Uso de paracetamol

Questão 3. Condição NEONATAL que contraindica o aleitamento?
(A) Icterícia fisiológica (B) Galactosemia clássica (C) Refluxo fisiológico (D) Cólica do lactente (E) Baixo peso isolado

Caso 2. Prematuro de 30 semanas em uso de leite materno da própria mãe, com ganho ponderal insuficiente e necessidades elevadas de cálcio e fósforo.

Questão 4. Qual a conduta nutricional mais adequada?
(A) Trocar por fórmula de partida (B) Acrescentar aditivo (fortificante) ao leite materno (C) Suspender o leite materno (D) Oferecer apenas água glicosada (E) Iniciar alimentos sólidos

Questão 5. Enquanto a via enteral é insuficiente, o que se utiliza?
(A) Jejum prolongado (B) Nutrição parenteral (glicose, aminoácidos, lipídios, eletrólitos) (C) Apenas soro fisiológico (D) Sonda nasogástrica com água (E) Nada

Questão 6. Suplementos de rotina recomendados a esse lactente?
(A) Vitamina A em megadose (B) Vitamina D e ferro conforme protocolo (SBP) (C) Cálcio oral em altas doses sem fósforo (D) Complexo B isolado (E) Nenhum

Gabarito comentado

Q1 — B. No Brasil, a infecção materna por HTLV 1/2 contraindica o aleitamento; inibe-se a lactação e orienta-se fórmula (PCDT TV 2022). Q2 — B. A infecção materna por HIV também contraindica o aleitamento no Brasil (a AAP 2024 admite apoiar mães com carga viral indetectável — divergência internacional, não conduta no Brasil). Hepatite B não contraindica. Q3 — B. Galactosemia clássica é contraindicação neonatal ao leite materno. Q4 — B. No prematuro, acrescenta-se aditivo ao leite materno. Q5 — B. Nutrição parenteral enquanto a via enteral é insuficiente. Q6 — B. Vitamina D (400 UI/dia; o Manual de Seguimento da SBP 2024 admite 400–1.000 UI/dia no prematuro) e ferro 2–4 mg/kg/dia a partir de 30 dias (SBP 2026).

Revisão: outubro de 2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de prescrever.