Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
O refluxo vesicoureteral é o retorno anormal da urina da bexiga para os ureteres e rins. Sozinho, raramente causa sintomas — sua importância nasce do encontro com a infecção urinária: juntos, podem levar à pielonefrite e à lesão renal e, a longo prazo, à doença renal crônica. A maioria dos casos resolve espontaneamente, e o manejo moderno tornou-se mais seletivo e individualizado.
1. O que é e por que importa
O refluxo vesicoureteral (RVU) é o fluxo retrógrado da urina da bexiga em direção a um ou ambos os ureteres e ao sistema coletor renal. Normalmente, o trajeto oblíquo do ureter na parede vesical funciona como válvula: ao encher, a bexiga comprime o segmento intramural contra o detrusor e impede o refluxo. Quando esse segmento é curto ou insuficiente, a válvula falha.
- RVU primário: anomalia congênita da junção ureterovesical, sem doença vesical. É a forma mais comum e tende a melhorar com o crescimento.
- RVU secundário: decorre de distúrbios miccionais, disfunção vesical ou obstrução (ex.: válvula de uretra posterior). Aqui, tratar a causa de base é parte essencial do manejo.
O eixo do problema é a tríade RVU → ITU febril → lesão renal . Nem todo refluxo gera dano, e a relação entre refluxo e lesão não é de um para um, mas a associação existe e justifica investigar e acompanhar a criança certa.
2. Epidemiologia
Na população geral, o RVU está presente em cerca de 1% das crianças, mas essa frequência sobe muito em grupos de risco: aproximadamente 40% das crianças com história de ITU febril e cerca de 20% das que têm hidronefrose diagnosticada no pré-natal . Há forte agregação familiar — o risco chega a 14–27% entre irmãos de pacientes e a cerca de 36% entre filhos de pais com refluxo conhecido. Cerca de um terço das crianças com RVU tem um distúrbio do trato urinário inferior associado, fator de risco para refluxo persistente e lesão renal.
3. Fisiopatologia e lesão renal do refluxo
A lesão renal associada ao refluxo — a nefropatia do refluxo — tem duas origens que convém distinguir:
- Lesão congênita (displasia): alteração do desenvolvimento renal na vida fetal, frequentemente associada ao refluxo de alto grau e presente já ao nascimento, independentemente de qualquer infecção.
- Lesão adquirida (cicatriz): consequência de episódios de pielonefrite. A infecção do parênquima provoca inflamação, isquemia e, quando a recuperação é incompleta, perda definitiva de tecido funcionante. Essa cicatriz é justamente o achado que a cintilografia com DMSA investiga e que sinaliza o acometimento renal pelas infecções.
São fatores de risco clássicos para lesão renal após pielonefrite: refluxo de alto grau, disfunção miccional/intestinal, pielonefrites de repetição e atraso no início do antibiótico. O refluxo intrarrenal — o retorno da urina das papilas para o interstício — é hoje reconhecido como marcador de risco adicional, correlacionando-se com áreas de dano no parênquima.
4. Classificação (Comitê Internacional de Estudo do Refluxo)
A graduação mais usada vai de I a V, definida pela uretrocistografia miccional conforme o quanto a urina reflui e o grau de dilatação do sistema coletor. Quanto maior o grau, menor a chance de resolução espontânea.
| Grau | Achado | Implicação prática |
|---|---|---|
| I | Refluxo limitado ao ureter, sem atingir a pelve | Alta chance de resolução espontânea |
| II | Refluxo até a pelve e cálices, sem dilatação | Conduta geralmente conservadora |
| III | Dilatação leve a moderada do ureter e do sistema coletor | Acompanhamento; intervenção em casos selecionados |
| IV | Dilatação moderada com tortuosidade ureteral | Maior risco; vigilância mais próxima |
| V | Dilatação acentuada, ureter tortuoso, perda das impressões papilares | Menor resolução espontânea; cirurgia mais frequente |
Como referência: cerca de 80% dos refluxos de baixo grau resolvem-se ao longo de aproximadamente cinco anos, contra 30–50% dos de alto grau . Por isso a paciência, sobretudo nos lactentes, costuma ser estratégia válida.
5. Infecção do trato urinário: quando suspeitar e como investigar
A ITU é a porta de entrada habitual para o diagnóstico do refluxo e o principal evento a prevenir. No lactente, costuma ser inespecífica — muitas vezes a febre sem foco é a única manifestação; podem ocorrer irritabilidade, recusa alimentar, vômitos e baixo ganho de peso. Na criança maior, surgem disúria, polaciúria, urgência, dor lombar e febre nas formas altas (pielonefrite).
Coleta de urina (o passo que define tudo)
O diagnóstico depende de uma amostra confiável, porque a urocultura é o exame definidor:
- Criança sem controle esfincteriano: cateterismo vesical ou punção suprapúbica são os métodos fidedignos. A amostra de saco coletor presta-se apenas a afastar ITU (alto índice de falso-positivo) — uma cultura positiva por saco deve ser confirmada por método estéril.
- Criança continente: jato médio, após higiene.
Exames que confirmam
- Urina tipo I (EAS): piúria, esterase leucocitária e nitrito sugerem ITU, mas não a confirmam isoladamente.
- Urocultura com contagem de colônias: padrão diagnóstico; a interpretação do ponto de corte depende do método de coleta. Sempre antes de iniciar o antibiótico, sempre que possível.
- Marcadores inflamatórios (PCR, hemograma) e, em lactentes pequenos ou toxêmicos, avaliação para bacteremia, conforme o quadro.
Regra de ouro Colete a urocultura por método adequado antes do antibiótico. Uma amostra mal colhida gera diagnóstico errado, tratamento desnecessário e investigação equivocada de refluxo.
6. Tratamento da ITU: protocolo e doses
A via e o local de tratamento dependem da idade e da gravidade. Crianças bem, hidratadas e maiores de 2–3 meses geralmente são tratadas por via oral em ambulatório. Reservam-se a via parenteral e a internação para os menores de 2 meses , toxêmicos, com vômitos persistentes ou desidratação. Quando se inicia por via parenteral, troca-se para oral assim que houver melhora clínica (em geral 24–48 h afebril), completando o curso por via oral.
Duração
- Cistite / ITU baixa: 3–5 dias (NICE: 3 dias; AEP: 3–4 dias).
- ITU febril / pielonefrite: 10 dias (SBP, DC nº 7/2021, alinhada a NICE e às diretrizes italiana e australiana); AAP 2011: 7–14 dias; NICE e AEP: 7–10 dias. Ver Infecção urinária (Patologias do consultório).
| Antibiótico | Dose habitual | Observações |
|---|---|---|
| Amoxicilina-clavulanato (VO) | 20–40 mg/kg/dia (em amoxicilina), 8/8 h (AAP 2011; SBP 2023) | Boa opção oral de 1ª linha; na ITU o alvo é E. coli (a dose alta vale para infecções pneumocócicas) |
| Cefalexina (VO) | 50 mg/kg/dia, 6/6 ou 8/8 h (SBP, DC nº 7/2021); AAP: 50–100 mg/kg/dia | ITU baixa na SBP; 1ª escolha oral do NICE na pielonefrite |
| Cefuroxima axetil (VO) | 30 mg/kg/dia, 12/12 h (SBP, DC nº 7/2021) | Cefalosporina oral para ITU febril |
| Cefaclor (VO) | 40 mg/kg/dia, 8/8 h (SBP, DC nº 7/2021) | Alternativa oral para ITU febril |
| Cefixima (VO) | 8 mg/kg/dia, 1×/dia (AAP 2011) | 1ª escolha da AEP; disponibilidade limitada no Brasil |
| Sulfametoxazol-trimetoprima (VO) | 8–12 mg/kg/dia de TMP (+ 40–60 mg/kg/dia de SMX), 12/12 h (SBP, DC nº 7/2021); AAP: 6–12 mg/kg/dia de TMP | Não indicado antes de 2 meses (SBP; bula brasileira: contraindicado < 6 semanas); só com antibiograma ou resistência local baixa |
| Ceftriaxona (parenteral) | 50 mg/kg/dia, 1×/dia (doses maiores só se suspeita de meningite) — padrão do site (Como Conduzir uma Criança com Febre) | Toxêmico, < 2 meses, intolerância oral |
| Cefuroxima / cefotaxima (parenteral) | Cefuroxima 150 mg/kg/dia, 8/8 h; cefotaxima 150–200 mg/kg/dia, 8/8 h (SBP, DC nº 7/2021) | Alternativas parenterais |
| Gentamicina (parenteral) | 5–7,5 mg/kg/dia, 1×/dia, IV ou IM (SBP, DC nº 7/2021); amicacina 15 mg/kg/dia, 1×/dia (SBP) | Atenção à nefrotoxicidade e à ototoxicidade; ajustar à função renal |
Não esquecer A nitrofurantoína não trata ITU febril/pielonefrite (não atinge concentração tecidual adequada) e não é indicada antes dos 2 meses (SBP; o BNFc/NICE a evita abaixo de 3 meses). As fluoroquinolonas não são primeira escolha em crianças. As doses acima são referência e devem ser confirmadas em protocolo local e ajustadas à função renal e ao peso.
7. A importância de cada exame de imagem
A imagem não é uma bateria fixa: cada exame responde a uma pergunta diferente, e a sequência segue o risco. Dois caminhos coexistem — a estratégia “bottom-up” (começa pela uretrocistografia, em busca do refluxo) e a “top-down” (começa pelo rim, com a cintilografia, em busca de lesão).
Ultrassonografia de rins e vias urinárias
Não invasiva e sem radiação, é o exame inicial após a primeira ITU febril em menores de 2 anos (e em qualquer idade se a ITU for atípica ou recorrente). Avalia anatomia: tamanho renal, hidronefrose, dilatação ureteral, duplicidades e sinais sugestivos de dano. Limitação decisiva: ultrassom normal não exclui refluxo (baixa sensibilidade). Serve para selecionar quem precisa de mais exames, não para descartar a doença.
Uretrocistografia miccional (UCM)
Exame contrastado com radioscopia: a bexiga é preenchida por sonda e, no enchimento e na micção, observa-se o refluxo e seu grau. É o método que define a classificação I–V e avalia a uretra (essencial em meninos, para afastar válvula de uretra posterior). Desvantagens: radiação, cateterismo e desconforto.
Cintilografia renal com DMSA ( 99m Tc-DMSA)
É o exame de referência para investigar a cicatriz renal — o marcador do acometimento do rim pelas infecções — e a pielonefrite aguda. O radiofármaco fixa-se ao córtex funcionante; áreas inflamadas ou cicatriciais aparecem como defeitos fotopênicos . Permite ainda quantificar a função renal diferencial entre os dois rins. Na fase aguda evidencia pielonefrite; repetido meses depois (em geral 4–6 meses após a infecção), confirma a cicatriz definitiva. É o DMSA que responde se as infecções deixaram dano permanente — e quanto.
Pergunta que o DMSA responde: “houve cicatriz e quanto este rim ainda funciona?”
Urossonografia miccional contrastada (ceVUS)
Microbolhas de contraste são instiladas na bexiga e visualizadas em tempo real por ultrassom, detectando e graduando o refluxo sem radiação ionizante . Tem sensibilidade e especificidade comparáveis às da uretrocistografia e detecta melhor o refluxo intrarrenal . Atraente para o seguimento e para meninas; em meninos, não avalia a uretra como a uretrocistografia.
Resumo da imagem Ultrassom = anatomia e triagem . Uretrocistografia = presença e grau do refluxo . ceVUS = refluxo sem radiação . DMSA = cicatriz e função renal . Cada um responde a uma pergunta distinta.
8. Tratamento clínico do refluxo e profilaxia
O objetivo não é “fazer o refluxo sumir” a qualquer custo, e sim prevenir ITUs febris e nova lesão renal enquanto se aguarda a resolução natural. A conduta é escalonada:
- Vigilância e medidas gerais. Hidratação, higiene, tratamento da constipação e orientação miccional. Em lactentes, dada a alta resolução espontânea, observar costuma ser a melhor escolha.
- Tratamento da disfunção vesical e intestinal (DVI). Atualização-chave das diretrizes recentes: corrigir a disfunção miccional e a constipação é prioritário, pois perpetua o refluxo e eleva o risco de ITU e lesão. Em criança com controle esfincteriano, vem antes de qualquer cirurgia.
- Profilaxia antibiótica contínua (PAC). Antibiótico em dose baixa, uma vez ao dia (de preferência à noite). Indicada de forma seletiva. SBP/SBU (Manual de Uropediatria, 2019): todos os lactentes e crianças sem controle esfincteriano com RVU grau III a V (os graus I e II também parecem se beneficiar), suspendendo, em geral, quando a criança adquire o controle miccional sem disfunção vesical e intestinal. SBP (DC nº 101/2023): também alterações à ultrassonografia, ITU febril com PCR positiva, RVU grau IV–V, uropatias obstrutivas e ITU recorrente, até o término da investigação. Reduz ITUs recorrentes (ver doses abaixo).
- Circuncisão no menino. Reduz o risco de ITU no primeiro ano de vida; integra, de forma seletiva, a abordagem conservadora.
Profilaxia: opções e doses
A profilaxia usa 25 a 50% da dose terapêutica, em tomada única diária, reajustada periodicamente pelo ganho de peso (sobretudo no 1º ano). A escolha considera a idade e o perfil de resistência local: abaixo de 2 meses, cefalexina ou amoxicilina; sulfametoxazol-trimetoprima e nitrofurantoína só a partir de 2 meses (SBP/SBU, Manual de Uropediatria, 2019). O DC nº 101/2023 da SBP usa um terço à metade da dose e admite sulfametoxazol-trimetoprima e nitrofurantoína a partir de 6 semanas — o site mantém a regra de 2 meses do Manual (ver Comparação com as referências).
| Antibiótico | Dose profilática | Observações |
|---|---|---|
| Sulfametoxazol-trimetoprima | ~2 mg/kg/dia (em TMP) — ex.: 2 mg TMP + 10 mg SMX por kg/dia (≈ 25% da dose terapêutica, SBP; AEP 2022: trimetoprima 2 mg/kg/dia) | Agente mais estudado (ensaio RIVUR); a partir de 2 meses (SBP) |
| Trimetoprima (isolada) | ~2 mg/kg/dia | Alternativa onde disponível |
| Nitrofurantoína | 1–2 mg/kg/dia (≈ 25% de 5–7 mg/kg/dia, SBP) | A partir de 2 meses (SBP; o BNFc/NICE evita < 3 meses); não protege o trato alto isoladamente; mais efeitos gastrointestinais |
| Cefalexina | ~12,5 mg/kg/dia (25% de 50 mg/kg/dia, SBP) | Escolha abaixo de 2 meses (SBP) |
| Amoxicilina / amoxicilina-clavulanato | ~10–15 mg/kg/dia (AEP 2022: 10 mg/kg/dia) | Amoxicilina: escolha abaixo de 2 meses (SBP) |
| Cefixima | ~2 mg/kg/dia | Alternativa utilizada em ensaios clínicos |
O ensaio RIVUR demonstrou que a profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprima reduz em cerca de 50% as ITUs recorrentes em crianças com refluxo, embora não tenha demonstrado redução significativa de cicatrizes no período estudado. Ensaios recentes em lactentes com refluxo de alto grau (III–V) reforçam o benefício da profilaxia na prevenção de ITU. O contraponto é sempre o risco de resistência bacteriana — daí a indicação seletiva.
9. Tratamento cirúrgico
A cirurgia é reservada a casos selecionados : refluxo de alto grau persistente apesar do tratamento da disfunção miccional, ITUs febris de repetição (“de escape”) sob profilaxia e surgimento de nova lesão renal. Opções, da menos à mais invasiva:
Injeção endoscópica de agente de volume
Por cistoscopia, injeta-se um material (em geral copolímero de dextranômero/ácido hialurônico) sob o óstio ureteral, reforçando o mecanismo valvular. Rápido e ambulatorial; o sucesso é maior no refluxo que ocorre só na fase miccional e tende a ser menor nos graus mais elevados.
Reimplante ureteral aberto
Considerado o padrão-ouro , com sucesso em torno de 90–95% ou mais. Alonga o trajeto intravesical do ureter, restaurando a válvula. É a referência contra a qual as demais técnicas se comparam.
Reimplante minimamente invasivo (laparoscópico e robótico)
O reimplante extravesical assistido por robô (REVUR) consolidou-se como alternativa de eficácia comparável ao aberto, com menor morbidade e recuperação mais rápida em centros experientes. A escolha depende de idade, grau, anatomia e experiência da equipe.
10. Protocolos de seguimento
O acompanhamento tem duas frentes: confirmar a resposta ao tratamento agudo e vigiar, ao longo dos anos, a função renal e a recorrência.
Após o episódio agudo de ITU
- Resposta clínica em 48–72 h: se a febre persistir ou a criança piorar, reavaliar — repetir o ultrassom e considerar complicações supurativas ou germe resistente.
- Imagem após a primeira ITU febril: ultrassonografia de rins e bexiga em menores de 2 anos (e em qualquer idade se ITU atípica ou recorrente). A uretrocistografia não é rotina após o primeiro episódio: indica-se quando o ultrassom é alterado (hidronefrose, sinais de dano ou de refluxo de alto grau/obstrução) ou quando a ITU febril recorre . Na estratégia “top-down”, o DMSA orienta quem investigar para refluxo.
Na criança com refluxo conhecido
- Clínico e laboratorial: revisões periódicas com exame de urina, controle da pressão arterial, avaliação de proteinúria e da função renal, e acompanhamento do crescimento.
- Reavaliação do refluxo: imagem seriada (ultrassom; uretrocistografia ou ceVUS para checar resolução), espaçada conforme grau e evolução, evitando radiação desnecessária.
- Reavaliação do rim: DMSA para checar a existência de cicatriz e a função diferencial, sobretudo após pielonefrite ou em refluxo de alto grau.
- Educação da família: reconhecer e procurar atendimento precoce (em até 48 h) diante de febre, e manter o tratamento da constipação/disfunção miccional.
A longo prazo
Crianças com cicatriz/lesão renal merecem vigilância prolongada de pressão arterial e proteinúria, com transição organizada para o cuidado do adulto. Em meninas, vale orientar sobre o acompanhamento renal na futura gestação.
1ª ITU febril → ultrassom para todos. Ultrassom alterado ou ITU febril recorrente → uretrocistografia (ou ceVUS). Suspeita de dano ou alto grau → DMSA. Refluxo conhecido → urina, PA, função renal e crescimento periódicos, com imagem espaçada.
11. Complicações
- Pielonefrites de repetição , com morbidade aguda e risco cumulativo de dano.
- Lesão renal e nefropatia do refluxo , sendo a cicatriz o achado melhor caracterizado pelo DMSA.
- Hipertensão arterial , que pode surgir anos após a lesão e exige rastreio periódico.
- Proteinúria e queda da função renal , evoluindo, em casos graves, para doença renal crônica e, raramente, terminal.
- Repercussões na gestação em meninas que chegam à idade adulta com lesão renal — outro motivo para o seguimento prolongado.
12. O que mudou nos últimos cinco anos
Abordagem individualizada e baseada em risco. A atualização das diretrizes EAU/ESPU (2024) reforça adaptar diagnóstico e tratamento ao risco de cada criança — idade, sexo, grau, história de pielonefrite, lesão renal e disfunção miccional — em vez de condutas uniformes.
Disfunção vesical e intestinal em primeiro plano. Tratá-la passou a ser pilar do manejo conservador e pré-requisito antes da cirurgia em crianças com controle esfincteriano.
Menos radiação no diagnóstico. A urossonografia contrastada (ceVUS) ganhou espaço como alternativa sem radiação à uretrocistografia, com melhor detecção do refluxo intrarrenal.
Profilaxia reposicionada. Reduz ITUs recorrentes (RIVUR; e ensaios recentes em lactentes com refluxo de alto grau), mas seu impacto sobre as cicatrizes segue em debate — daí a indicação seletiva e a atenção à resistência.
Cirurgia minimamente invasiva consolidada. O reimplante robótico (REVUR) firmou-se como opção de eficácia comparável à do aberto em casos selecionados.
Mensagem para as famílias Refluxo não é sinônimo de cirurgia. A maioria das crianças melhora com o tempo e cuidados simples. O essencial é tratar e prevenir as infecções, cuidar do funcionamento da bexiga e do intestino e manter o acompanhamento — porque proteger os rins é trabalho de anos, não de um único exame.
13. Pérolas clínicas
• Colha urocultura por método adequado antes do antibiótico.
• Ultrassom normal não exclui refluxo — selecione, não descarte.
• O DMSA é quem investiga a cicatriz e mede a função de cada rim.
• Nitrofurantoína não trata pielonefrite e não serve a lactentes pequenos.
• Constipação e disfunção miccional são causas evitáveis de ITU de repetição e de falha terapêutica.
• Pense em refluxo diante de ITU febril em lactente, hidronefrose pré-natal e irmãos de crianças com RVU.
14. Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Versão consultada | SBP/SBU, Manual de Uropediatria (cap. Refluxo vésico-ureteral), 2019; DC Nefrologia nº 7, 22/09/2021 (ITU — atualização); DC nº 101, 13/09/2023 (ITU: diagnóstico, investigação e prevenção) | Sem posição específica localizada | CPG da ITU febril de 2 a 24 meses, Pediatrics 2011;128(3):595–610 (reafirmada em 2016); a nova CPG de 2026 (8 dias a 5 anos) não pôde ser aberta. Referência urológica norte-americana: AUA, 2010 (revisada em 2017) | NG224, Urinary tract infection in under 16s, 27/07/2022 (recomendações de imagem e profilaxia de 2007) | Escribano J, Valenciano B. Reflujo vesicoureteral. Protoc diagn ter pediatr (AEP/AENP) 2022;1:303–15 | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Imagem após a 1ª ITU febril | Ultrassonografia em < 2 anos com pielonefrite; UCM se acometimento do parênquima ou ITU recorrente; DMSA seletivo | Sem posição específica localizada | Ultrassonografia de 2 a 24 meses; UCM só se ultrassonografia alterada ou recorrência | Ultrassonografia na ITU atípica e < 6 meses; DMSA 4–6 meses após na atípica/recorrente; MCUG não rotineira (considerar se dilatação, jato fraco, germe não E. coli ou história familiar) | CUMS para diagnóstico; cistografia isotópica no seguimento; DMSA = padrão-ouro do dano renal | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Profilaxia antibiótica | Manual 2019: RVU III–V em quem não tem controle esfincteriano; 25–50% da dose; < 2 meses cefalexina ou amoxicilina. DC 2023: ⅓–½ da dose; SMX-TMP e nitrofurantoína > 6 semanas | Sem posição específica localizada | 2011: não recomenda de rotina após a 1ª ITU febril; AUA: indicada < 1 ano com RVU e ITU febril | Não de rotina após a 1ª ITU; recorrente: NG112 (2018) | Só alto risco: meninas III–V e meninos IV–V (mínimo 1 ano); qualquer grau com disfunção vesical; I–III só se ITU febril recorrente | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Cirurgia | ITU de escape sob profilaxia; RVU de alto grau persistente | Sem posição específica localizada | AUA: escape febril, nova cicatriz, preferência da família | Sem posição específica localizada | Endoscópica preferida; reimplante se falha ou patologia associada | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
Leitura: há convergência em três pontos: a ultrassonografia como exame inicial após a ITU febril do lactente, a uretrocistografia seletiva (não rotineira após o primeiro episódio) e o tratamento da disfunção vesical e intestinal como base do manejo conservador. A divergência está em quem recebe profilaxia: a SBP/SBU (2019) a indica a todo lactente ou criança sem controle esfincteriano com RVU III–V; a AEP (2022) restringe a meninas com III–V e meninos com IV–V (ou qualquer grau com disfunção vesical); o NICE e a AAP 2011 não a recomendam de rotina após o primeiro episódio. Os ensaios explicam a diferença: o RIVUR (2014) e o PREDICT (Morello, 2023) mostraram menos ITU recorrente com profilaxia, sem redução clara de cicatrizes, à custa de mais resistência — por isso as referências que priorizam a resistência são mais restritivas. Dentro da própria SBP há duas regras de dose e idade (Manual 2019: 25–50% da dose e SMX-TMP/nitrofurantoína só após 2 meses; DC 2023: ⅓–½ da dose e após 6 semanas). Conduta do site: segue a SBP (Manual de Uropediatria 2019 na indicação, dose e idade da profilaxia; DC nº 7/2021 nas doses e na duração do tratamento); o Ministério da Saúde não tem protocolo sobre RVU.
15. Referências selecionadas
- Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Urologia. Manual de Uropediatria — Guia para pediatras (capítulo Refluxo vésico-ureteral), 2019. PDF
- Gnech M, et al. Update and Summary of the EAU/ESPU Paediatric Guidelines on Vesicoureteral Reflux in Children. European Urology . 2024;85:433–442.
- Goulin J, et al. What paediatricians need to know about modern urologic management of vesicoureteral reflux. Frontiers in Pediatrics . 2025;13:1607019.
- Subcommittee on Urinary Tract Infection, American Academy of Pediatrics. Urinary Tract Infection: Clinical Practice Guideline for the Diagnosis and Management of the Initial UTI in Febrile Infants and Children 2 to 24 Months. Pediatrics . 2011;128(3):595–610 (com reafirmação posterior).
- RIVUR Trial Investigators. Antimicrobial prophylaxis for children with vesicoureteral reflux. New England Journal of Medicine. 2014;370:2367–2376.
- Morello W, et al. Antibiotic prophylaxis in infants with grade III, IV, or V vesicoureteral reflux (PREDICT). New England Journal of Medicine. 2023;389:987–997.
- American Urological Association. Management and Screening of Primary Vesicoureteral Reflux in Children — Clinical Guideline, 2010 (revisada em 2017).
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Infecção do Trato Urinário em Pediatria — Existe consenso entre os consensos? Atualização 2021. Documento Científico nº 7, 22/09/2021.
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Infecção urinária: diagnóstico, investigação e prevenção. Documento Científico nº 101, 13/09/2023.
- NICE. Urinary tract infection in under 16s: diagnosis and management (NG224), 27/07/2022.
- Escribano J, Valenciano B. Reflujo vesicoureteral. Protoc diagn ter pediatr. 2022;1:303–315 (AEP/AENP).