Patologias do consultório · Urinário e genital

Infecção urinária

Coleta correta de urina, pontos de corte da urocultura, antibiótico oral na pielonefrite, duração do tratamento, quem vai ao hospital e quais exames de imagem pedir

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A ITU deve ser lembrada em todo lactente com febre sem foco e em toda criança com disúria, polaciúria, dor lombar ou incontinência nova. O diagnóstico exige exame de urina sugestivo e urocultura colhida por método confiável (jato médio; cateterismo ou punção suprapúbica no lactente). O saco coletor só serve para descartar ITU; se alterado, confirmar por método invasivo antes do antibiótico. A via oral é a preferida acima de 2–3 meses e é tão eficaz quanto a parenteral (AAP, SBP): cefalosporinas orais ou amoxicilina-clavulanato, conforme a resistência local. A ITU febril é tratada por 10 dias (SBP; NICE e AEP aceitam 7–10 dias); a cistite, por 3–5 dias. Tratam-se em casa (🟢/🟡) as crianças maiores de 2–3 meses em bom estado, hidratadas e que aceitam a via oral, com reavaliação em 48–72 h. Lactentes < 2–3 meses, toxemia, vômitos persistentes, desidratação, uropatia obstrutiva ou falha em 48–72 h vão ao hospital (🔴); exceção (AAP 2021): de 29 a 60 dias, bem aparente, com marcadores inflamatórios normais, boa aceitação oral e seguimento garantido, admite-se antibiótico oral em casa com reavaliação próxima. A ultrassonografia de rins e vias urinárias é indicada após a primeira ITU febril abaixo de 2 anos; a uretrocistografia miccional é seletiva.

Veja também, nesta Biblioteca: Refluxo Vesicoureteral e ITU em Crianças (Nefrologia e Urologia).

1.O que é e como se apresenta

  • Definição: crescimento de uropatógeno único na urina colhida adequadamente, associado a sintomas e a alteração do exame de urina (piúria e/ou bacteriúria). Divide-se em ITU febril/pielonefrite (acometimento do parênquima renal; febre — axilar ≥ 37,5 °C (SBP; NICE/AAP: ≥ 38 °C) —, dor lombar, toxemia) e cistite (sintomas miccionais sem febre).
  • Etiologia: Escherichia coli na maioria; Klebsiella, Proteus, Enterococcus e Pseudomonas são mais frequentes em uropatias e após antibiótico ou internação.
  • Faixa etária: maior prevalência no primeiro ano de vida (meninos não circuncidados nos primeiros meses) e, depois, em meninas.
  • Quadro clínico:
    • Lactente: febre sem foco, irritabilidade, recusa alimentar, vômitos, baixo ganho de peso; icterícia prolongada no recém-nascido. A ITU é a causa bacteriana mais frequente de febre sem sinais localizatórios nessa idade (ver Como Conduzir uma Criança com Febre, em Urgências e Emergências).
    • Pré-escolar e escolar: disúria, polaciúria, urgência, incontinência diurna ou enurese secundária, dor abdominal ou lombar, urina com odor forte.
  • Fatores predisponentes: refluxo vesicoureteral (RVU), uropatias obstrutivas, disfunção vesical e intestinal (constipação, adiamento da micção), fimose com balanopostites, sinéquia de pequenos lábios, cateterismo, bexiga neurogênica.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Cistite (sem febre) em criança com controle esfincteriano; ou ITU febril em criança > 3 meses com bom estado geral, hidratada, sem vômitos, aceitando via oral e com família capaz de retornar Urocultura antes do antibiótico; antibiótico oral em casa; revisar com o antibiograma e reavaliar em 48–72 h
🟡 Moderada ITU febril com febre alta, dor lombar ou vômitos ocasionais; lactente de 2–6 meses em bom estado; uropatia conhecida sem obstrução; ITU recorrente; dúvida sobre adesão Iniciar via oral (ou 1ª dose de ceftriaxona IM/IV no consultório ou PS e seguir via oral); reavaliação obrigatória em 24–48 h; internar se não tolerar ou piorar
🔴 Grave Idade < 2–3 meses, inclusive o lactente de 29–60 dias bem aparente com exame de urina alterado (leucocitúria) e marcadores inflamatórios normais (SBP/Rochester: internar; a AAP 2021 admite tratamento oral em casa, divergência em "Quando encaminhar"); aspecto toxêmico ou sinais de sepse; vômitos persistentes ou desidratação; impossibilidade de via oral; suspeita de uropatia obstrutiva, rim único ou RVU grau III–V; imunossupressão; falha clínica após 48–72 h de antibiótico adequado Encaminhar ao pronto-socorro/hospital para antibiótico parenteral, exames (hemograma, função renal, hemocultura) e ultrassonografia na fase aguda

Fatores de risco que elevam a gravidade ou a chance de complicação

  • Idade < 3 meses, sobretudo o período neonatal.
  • Uropatia conhecida (hidronefrose pré-natal, RVU de alto grau, válvula de uretra posterior), rim único, doença renal crônica, bexiga neurogênica.
  • ITU febril recorrente; antibiótico nos últimos 30–90 dias ou internação prévia (maior risco de resistência, SBP).
  • Imunodeficiência; contexto social que dificulte o retorno.

3.Diagnóstico no consultório

Coleta da urina (o passo mais importante)

  • Com controle esfincteriano: jato médio após higiene com água (SBP, NICE, AEP).
  • Sem controle esfincteriano:
    • Cateterismo vesical ou punção suprapúbica para a urocultura (AAP; SBP; AEP em situações urgentes).
    • Clean catch (coleta "no voo"), preferida pelo NICE: a SBP descreve oferecer 25 mL/kg de líquidos e, após cerca de 25 minutos, estimular a micção por percussão suprapúbica ou massagem lombar (útil sobretudo abaixo de 6 meses, AEP).
    • Saco coletor: alta taxa de falso-positivos. Serve para triagem em quadro leve, quando a demora não prejudica a criança: se o exame for negativo, afasta ITU; se for positivo, repetir por método confiável antes de iniciar o antibiótico (SBP, AAP, AEP). Nunca tratar com base em urocultura de saco coletor.

Exame de urina e fita reagente

  • Sugestivos: esterase leucocitária positiva, nitrito positivo, piúria (> 5–10 leucócitos/campo, SBP) e bacteriúria à bacterioscopia.
  • O nitrito positivo é muito específico, mas frequentemente negativo no lactente, que urina com frequência. Fita negativa não exclui ITU no lactente febril.
  • Fita isolada é confiável a partir de 2–3 anos (NICE ≥ 3 anos; AEP > 2 anos): com esterase e nitrito negativos, procurar outra causa. Abaixo dessa idade, preferir microscopia e cultura; abaixo de 3 meses, o NICE encaminha sem se basear na fita.

Urocultura — pontos de corte

Método SBP (2023) AAP (2011) AEP (2024)
Punção suprapúbica Qualquer contagem — Qualquer crescimento
Cateterismo vesical > 50.000 UFC/mL ≥ 50.000 UFC/mL + piúria (cateterismo ou punção) ≥ 10.000 UFC/mL
Jato médio > 100.000 UFC/mL — ≥ 50.000–100.000 UFC/mL

O documento da SBP de 2021 aceitava contagem acima de 1.000 UFC/mL por cateterismo; o de 2023 adotou 50.000 UFC/mL.

Outros exames: hemograma e PCR são dispensáveis na criança em bom estado; creatinina se houver uropatia, recorrência ou hipertensão.

Investigação por imagem

  • Ultrassonografia de rins e vias urinárias: após a primeira ITU febril em menores de 2 anos (AAP; SBP). O NICE a faz na fase aguda na ITU atípica (sepse, jato fraco, massa, creatinina elevada, falha em 48 h, germe não E. coli) e em até 6 semanas abaixo de 6 meses.
  • Uretrocistografia miccional: não rotineira. Indicada se a ultrassonografia mostrar hidronefrose, cicatriz ou sinais de RVU de alto grau ou obstrução, e na recorrência da ITU febril (AAP); o NICE acrescenta germe não E. coli e história familiar de RVU.
  • Cintilografia com DMSA: 4–6 meses após a infecção, na ITU atípica ou recorrente (NICE) ou quando houver evidência de acometimento do parênquima (SBP).
  • Encaminhar ao nefrologista pediátrico se houver alteração à imagem, ITU febril recorrente, cicatriz renal, hipertensão ou alteração da função renal.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Vulvovaginite, sinéquia de pequenos lábios, balanopostite, oxiúros (disúria sem ITU).
  • Apendicite (disúria e piúria discreta por contiguidade), pneumonia de base, gastroenterite.
  • Bacteriúria assintomática (não tratar).
  • Abuso sexual em disúria recorrente com corrimento ou lesão genital.
  • Uropatia obstrutiva no lactente com jato fraco, massa abdominal ou falha terapêutica.

4.Tratamento em casa

  • Colher a urocultura antes da primeira dose e revisar o esquema em 48–72 h pelo antibiograma (descalonar sempre que possível, SBP).
  • Via oral é a preferida acima de 2–3 meses (SBP) e é tão eficaz quanto a parenteral (AAP).
  • Na ITU febril, não usar nitrofurantoína (nem ácido nalidíxico): não atinge concentração no parênquima renal (SBP, NICE).
  • Escolha pela resistência local: a resistência de E. coli a amoxicilina e a sulfametoxazol-trimetoprima costuma ser alta; usá-los apenas com antibiograma favorável.
Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Cefuroxima axetil 30 mg/kg/dia (SBP); 20–30 mg/kg/dia (AAP) 12/12 h Febril: 10 dias (SBP) Opção oral para ITU febril na SBP e na AEP
Cefalexina 50 mg/kg/dia (SBP); 50–100 mg/kg/dia (AAP) 6/6 h ou 8/8 h Febril: 10 dias (SBP); cistite: 3–5 dias Primeira escolha oral do NICE na pielonefrite (doses fixas por idade)
Cefaclor 40 mg/kg/dia (SBP) 8/8 h (SBP 2021; 12/12 h no DC SBP 2023) Febril: 10 dias (SBP) Alternativa oral da SBP
Amoxicilina-clavulanato 20–40 mg/kg/dia de amoxicilina (AAP; SBP 2023) 8/8 h Febril: 10 dias (SBP) Formulação 4:1 (AEP). Na ITU o alvo é E. coli; a regra de dose alta vale para infecções pneumocócicas
Cefixima 8 mg/kg/dia (AAP) 1x/dia Febril: 10 dias (SBP) Primeira escolha na AEP; disponibilidade limitada no Brasil
Sulfametoxazol-trimetoprima 6–12 mg/kg/dia de trimetoprima (AAP; SBP, DC nº 101/2023); 8–12 mg/kg/dia (SBP, atualização 2021) 12/12 h Febril: 10 dias (SBP); cistite: 3–5 dias Só com antibiograma ou resistência local baixa; não indicado antes de 2 meses (SBP/SBU 2019; bula brasileira: contraindicado < 6 semanas)
Nitrofurantoína 5–7 mg/kg/dia (SBP) 6/6 h Cistite: 3–5 dias Apenas cistite; nunca na ITU febril. Idade: a partir de 2 meses (SBP/SBU 2019); BNFc/NICE: a partir de 3 meses; bula brasileira contraindica < 1 mês
Ceftriaxona IM/IV 50 mg/kg/dia (Como Conduzir Febre); doses maiores só se houver suspeita de meningite (esquema de meningite do documento de febre) 1x/dia Até tolerar a via oral (24–48 h) e completar o total por via oral Opção de primeira dose no consultório ou PS quando há vômitos ou dúvida; NICE NG111: 50–80 mg/kg/dia (máx. 4 g/dia); AAP 2011: 75 mg/kg/dia; os documentos de ITU da SBP (2021, 2023) não trazem a ceftriaxona
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Enquanto houver febre ou dor Máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia (bula; padrão do site)
Ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose 6–8 h, conforme bula Enquanto houver febre ou dor A partir de 6 meses; evitar se desidratado ou com função renal alterada; máx. 200 mg/dose acima de 30 kg e 800 mg/dia (SBP, Diretriz nº 177/2024)

Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.

Duração do tratamento

  • ITU febril: 10 dias na SBP (alinhada a NICE, sociedade italiana e australiana); 7–14 dias na AAP de 2011; 7–10 dias na AEP e no NICE (pielonefrite). Em 2026 a AAP publicou nova diretriz (8 dias a 5 anos), cujo texto integral não pôde ser consultado nesta revisão.
  • Cistite: 3 dias no NICE (trimetoprima ou nitrofurantoína) e 3–4 dias na AEP.
  • Cursos curtos: o ensaio SCOUT (JAMA Pediatrics, 2023; 664 crianças de 2 meses a 10 anos com melhora clínica no 5º dia) comparou 5 com 10 dias. A falha terapêutica foi baixa com 5 dias (cerca de 4%), mas maior que com 10 dias (0,6%). Na prática, 7 dias é razoável na criança maior com boa resposta; nos lactentes e nas ITU febris com resposta lenta, manter 10 dias.

Não fazer: urocultura de controle durante ou após o tratamento em criança que melhorou (AEP); tratar bacteriúria assintomática; profilaxia de rotina após a primeira ITU.

Medidas de suporte e prevenção

  • Hidratação oferecida com frequência; micção a cada 3 horas na criança maior; tratar a constipação.
  • Higiene genital com água, de frente para trás; tratar balanopostites e sinéquias.
  • Profilaxia antibiótica (SBP): alterações à ultrassonografia, RVU grau IV–V, uropatias obstrutivas e ITU recorrente (dois ou mais episódios de pielonefrite, uma pielonefrite e uma cistite, ou três ou mais cistites); dose de 25–50% da dose terapêutica, uma vez ao dia, à noite, reajustada pelo ganho de peso; abaixo de 2 meses, cefalexina ou amoxicilina; sulfametoxazol-trimetoprima e nitrofurantoína só a partir de 2 meses (SBP/SBU, Manual de Uropediatria, 2019). A AEP (2024) lembra que a profilaxia não previne ITU em crianças sem anomalia estrutural e aumenta a resistência.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Recém-nascido ≤ 28 dias: sempre hospital. Lactente de 29 dias a 2–3 meses com suspeita de ITU (conduzir também como febre no lactente jovem): internar, inclusive o de 29 a 60 dias bem aparente com exame de urina alterado (leucocitúria) e marcadores inflamatórios normais: a leucocitúria tira o lactente do baixo risco de Rochester (SBP), e a conduta é antibiótico intravenoso, com punção lombar conforme os critérios de Como Conduzir uma Criança com Febre. Divergência: a AAP 2021 (lactente febril bem aparente de 8 a 60 dias) admite, de 29 a 60 dias com marcadores inflamatórios normais, antibiótico oral em casa desde a 1ª dose (cefalexina ou cefixima), sem punção lombar, com retorno garantido em 24 h; o site segue a SBP (Rochester), decisão do Dr. Stefani de 03/10/2026.
  • Toxemia, hipotensão, má perfusão, letargia, gemência (sepse urinária).
  • Vômitos persistentes, recusa da via oral ou desidratação.
  • Uropatia obstrutiva suspeita ou conhecida, rim único, RVU grau III–V, doença renal crônica, imunossupressão.
  • Falha clínica após 48–72 h de antibiótico adequado (febre persistente): pedir ultrassonografia para afastar obstrução ou abscesso e ampliar a cobertura (SBP).
  • Impossibilidade de garantir adesão ou retorno.

Como encaminhar

  1. Colher urina por cateterismo (se possível) antes da primeira dose, sem atrasar o antibiótico na criança grave.
  2. Na toxemia ou quando houver demora no transporte, aplicar a primeira dose de ceftriaxona IM ou IV após contato com o serviço.
  3. Oxigênio e acesso venoso com expansão volêmica se houver sinais de choque; controlar a febre.
  4. Contatar o serviço de destino (SAMU 192 se houver instabilidade) e enviar relatório com método de coleta, exame de urina e antibiótico aplicado.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A febre deve ceder em 48 a 72 horas de antibiótico. Se continuar, volte."
  • "Dê o antibiótico no horário e até o fim, mesmo que a criança melhore antes."
  • "Vamos rever o resultado da cultura em 2 a 3 dias; talvez seja preciso trocar o remédio."
  • "Em qualquer febre futura, procure atendimento nas primeiras 48 horas e peça exame de urina" (AAP).
  • Retorno programado para rever o antibiograma, a ultrassonografia e a necessidade de investigação.
  • Ir ao pronto-socorro se: vômitos que impedem o remédio, sonolência excessiva, gemido, pele fria ou manchada, pouca urina, piora da dor lombar ou febre alta persistente após 48 horas.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada SBP DC ITU — atualização (2021); DC Infecção urinária (2023); Manual de Uropediatria SBP/SBU (2019) CPG 2–24 meses (2011; reafirmada 2016); CPG 8 dias–5 anos (Pediatrics 2026, texto integral não acessado) NG224 (27/07/2022); NG111 e NG109 (2018) Guía española de ITU, An Pediatr 2024 Health Library — Urinary Tract Infections (UTI) in Children (para famílias, sem data) Boston Children's — Urinary Tract Infection (UTI) in Children and Babies (para famílias, sem data) Sem protocolo local aberto — segue o NICE
Coleta sem controle esfincteriano Cateterismo ou punção; saco coletor só para descartar Cateterismo ou punção para cultura; saco coletor só para triagem Clean catch sempre que possível; cateter ou punção se inviável Estimulação vesical; cateterismo ou punção se urgente; bolsa só para triagem Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Corte (cateterismo) > 50.000 UFC/mL (2023) ≥ 50.000 UFC/mL + piúria Não define número no NG224 ≥ 10.000 UFC/mL Urinálise e urocultura com antibiograma (sem ponto de corte) Urinálise e urocultura (sem ponto de corte) Segue o NICE
Via e antibiótico Via oral > 3 meses; cefuroxima, cefaclor, cefalexina, amoxicilina-clavulanato Oral = parenteral; escolha pela resistência local Cefalexina (pielonefrite); trimetoprima ou nitrofurantoína (cistite) Cefixima, amoxicilina-clavulanato ou cefuroxima axetil Antibiótico (sem via nem droga); reavaliação poucos dias após o início Antibiótico (sem via nem droga); reavaliação poucos dias após o início Segue o NICE
Duração Febril 10 dias 7–14 dias (2011) Pielonefrite 7–10 dias; cistite 3 dias Febril 7–10 dias; afebril 3–4 dias Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Internação < 2 meses, grave, risco de não adesão; 1–3 meses com urina alterada: internar (Rochester) Toxemia, intolerância oral, lactente jovem; 29–60 dias bem aparente com urina alterada e marcadores normais: oral em casa, sem punção lombar (CPG 2021) < 3 meses e alto risco: encaminhamento imediato < 2–3 meses, sepse, vômitos, obstrução, RVU III–V Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Imagem Ultrassonografia < 2 anos com pielonefrite; UCM e DMSA seletivas Ultrassonografia em toda ITU febril 2–24 meses; UCM seletiva Ultrassonografia na atípica e < 6 meses; DMSA e UCM seletivas Ultrassonografia inicial; UCM e DMSA conforme risco Ultrassonografia renal em todo menino com ITU e em meninas < 5–6 anos; UCM e cintilografia conforme o caso Ultrassonografia de rins e bexiga na ITU confirmada; UCM ou cistografia radionuclídica na ITU febril Segue o NICE

Leitura: as referências convergem em quatro pontos: coleta confiável antes do antibiótico, com saco coletor apenas para excluir; via oral como padrão na criança maior de 2–3 meses em bom estado; exclusão da nitrofurantoína na ITU febril; e uretrocistografia seletiva, não rotineira. As divergências estão no ponto de corte por cateterismo (10.000 UFC/mL na AEP; 50.000 UFC/mL na SBP e na AAP), na idade que obriga internação (2 meses na SBP; 3 meses no NICE), na duração (10 dias fixos na SBP; 7–10 dias no NICE e na AEP; cursos mais curtos em estudo) e na ultrassonografia, que é universal abaixo de 2 anos na AAP e na SBP e mais restrita no NICE. O antibiótico preferido varia com a epidemiologia local: cefalosporinas no Brasil e na Espanha, cefalexina e trimetoprima no Reino Unido. As páginas para famílias do Johns Hopkins e do Boston Children's não definem coleta, corte, via nem duração; na imagem, o Boston Children's é mais intervencionista (uretrocistografia na ITU febril), contra a UCM seletiva da SBP, da AAP e do NICE, e o Johns Hopkins indica ultrassonografia em todo menino e nas meninas abaixo de 5–6 anos. No lactente de 29 a 60 dias bem aparente com urina alterada e marcadores inflamatórios normais, a AAP (2021) trata por via oral em casa, sem punção lombar; pela SBP (Rochester), a leucocitúria indica internação com antibiótico intravenoso. Posição do site: segue a SBP (2021/2023) na coleta, no corte, na duração e na imagem, e a SBP/Rochester no lactente de 29 a 60 dias com urina alterada (internar; decisão do Dr. Stefani, 03/10/2026).

Pontos práticos
  1. Sem urocultura colhida por método confiável não há diagnóstico de ITU; saco coletor positivo não confirma nada.
  2. Lactente com febre sem foco: pensar em ITU e colher urina antes de qualquer antibiótico.
  3. Na ITU febril, via oral com cefalosporina (cefuroxima ou cefalexina) ou amoxicilina-clavulanato, ajustada ao antibiograma em 48–72 h; nunca nitrofurantoína.
  4. Tratar a ITU febril por 10 dias (SBP) e a cistite por 3–5 dias.
  5. Menores de 2–3 meses, toxemia, vômitos persistentes, uropatia obstrutiva ou falha em 48–72 h vão ao hospital (inclusive 29–60 dias bem aparente com urina alterada e marcadores normais: internar e antibiótico intravenoso, SBP/Rochester; a AAP 2021 admite via oral em casa).
  6. Ultrassonografia após a primeira ITU febril em menores de 2 anos; uretrocistografia apenas se a ultrassonografia for alterada ou houver recorrência.

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Infecção do trato urinário em pediatria — atualização, 2021. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Infecção urinária — diagnóstico, investigação e prevenção, 2023. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Urologia. Manual de Uropediatria — Guia para pediatras (capítulos Infecção urinária e Refluxo vésico-ureteral), 2019. PDF
  • American Academy of Pediatrics. Urinary Tract Infection — Clinical Practice Guideline for the Diagnosis and Management of the Initial UTI in Febrile Infants and Children 2 to 24 Months, 2011 (reafirmada em 2016). PDF
  • Pantell RH et al. Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old. Pediatrics, 2021;148(2):e2021052228.
  • American Academy of Pediatrics. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis and Treatment of Urinary Tract Infection in Children From 8 Days to 5 Years of Age. Pediatrics, 2026 (texto integral não acessado).
  • NICE. NG224 — Urinary tract infection in under 16s: diagnosis and management, 2007, atualizado em 2022. nice.org.uk
  • NICE. NG111 — Pyelonephritis (acute): antimicrobial prescribing, 2018. nice.org.uk
  • NICE. NG109 — Urinary tract infection (lower): antimicrobial prescribing, 2018. nice.org.uk
  • González Rodríguez JD et al. Actualización de la guía de práctica clínica española sobre infección del tracto urinario en la población pediátrica. Anales de Pediatría, 2024. analesdepediatria.org
  • Zaoutis T et al. Short-Course Therapy for Urinary Tract Infections in Children — The SCOUT Randomized Clinical Trial. JAMA Pediatrics, 2023 (resumo da Pediatric Infectious Diseases Society). pids.org
  • Johns Hopkins Medicine. Health Library — Urinary Tract Infections (UTI) in Children (página para famílias, sem data; cópia do Internet Archive de 21/10/2025, consultada em 02/10/2026). hopkinsmedicine.org
  • Boston Children's Hospital (Harvard Medical School). Urinary Tract Infection (UTI) in Children and Babies (página para famílias, sem data; cópia do Internet Archive de 15/03/2026, consultada em 02/10/2026). childrenshospital.org