Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
1. Visão Geral do PALS
Público-alvo Lactentes, crianças e adolescentes (exceto RN em sala de
parto)Objetivo Reconhecer e tratar estados pré-parada, PCR e pós-
ressuscitação
Base científica AHA/AAP 2025 (Partes 6 e 8) / ILCOR 2025; SBP
(DC Terapia Intensiva nº 7/2021, sobre a AHA 2020)
Certificação Válida por 2 anos; renovação a cada cicloO PALS organiza a abordagem pediátrica em avaliações sistemáticas e algoritmos baseados em evidências, priorizando o reconhecimento precoce da deterioração clínica antes da parada cardiorrespiratória.
2. Avaliação Sistemática Pediátrica
2.1 Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP)
Avaliação visual rápida (< 30 s) sem tocar na criança:
- Aparência: Tônus, Interação, Consolabilidade, Olhar, Fala/Choro (TICLS)
- Trabalho respiratório: retrações, BAN, estridor, postura anormal
- Circulação cutânea: palidez, mottling, cianose central ou periférica
Figura 1 – Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP) – avaliação visual em < 30 segundos.
2.2 ABCDE Primário
A – Airway Permeabilidade da via aérea; posicionar, aspirar, dispositivos B – Breathing FR, saturação, ausculta, esforço respiratório C – Circulation FC, PA, pulsos, TEC, perfusão periférica D – Disability Nível de consciência (AVPU / GCS), glicemia, pupilas E – Exposure Temperatura, rash, trauma; prevenir hipotermia
Figura 2 – Avaliação Primária Sequencial (ABCDE): tratar problemas à medida que são identificados.
2.3 ABCDE Secundário
História SAMPLE + exame físico completo + exames complementares dirigidos.
3. Reconhecimento e Classificação dos Estados
Clínicos
3.1 Insuficiência Respiratória
Obstrução alta Estridor inspiratório, sialorreia, postura em tripé – croup, (supraglótica) epiglotite Obstrução baixa Sibilância expiratória, prolongamento – broncoespasmo, (infraglótica) bronquiolite Doença do parênquima Crepitações, hipoxemia – pneumonia, edema, SDRA Distúrbio do controle Respiração irregular ou apneia – intoxicação, TCE, convulsão
3.2 Choque
Hipovolêmico Taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos, extremidades frias, oligúria
Distributivo (séptico) Fase quente: pele quente, pulso amplo; Fase fria:
vasoconstrição, má perfusão
Cardiogênico Taquicardia, B3, hepatomegalia, edema, má perfusão sem
hipovolemia
Obstrutivo Tamponamento, pneumotórax hipertensivo, TEP – pulso
paradoxal, ingurgitamento jugularHIPOTENSÃO = CHOQUE DESCOMPENSADO – intervenção imediata!
3.3 Valores Normais por Faixa Etária
Referência essencial para definir taquicardia, bradicardia e hipotensão em pediatria:
PA sist. VC
Faixa Etária FC mín FC máx PA sist. mín FR (irpm)
normal (mL/kg)RN (0–28 dias) 100 205 ≥ 60 mmHg 65–85 mmHg 30–60 6–8
80–100
Lactente (1–12 m) 100 180 ≥ 70 mmHg 25–50 6–8
≥
Pré-escolar (1– 90–110
80 140 70+(2×idade) 20–30 6–8
5a) mmHg≥ 95–120
Escolar (6–11a) 75 118 70+(2×idade) 18–25 6–8
Adolescente ≥ 110–130
60 100 ≥ 90 mmHg 12–20 6–8
12a mmHgFC normal — tabela de vigília do PALS (AHA/AAP; padrão do site, decisão do Dr. Stefani de 03/10/2026): recém-nascido (0–28 dias) 100–205 bpm; lactente (1–12 meses) 100–180; 1–2 anos 98–140; pré-escolar (3–5 anos) 80–120; escolar (6–11 anos) 75–118; adolescente 60–100. Dormindo, a FC é menor (cerca de 90–160 no RN e no lactente, 80–120 de 1 a 2 anos, 65–100 de 3 a 5 anos, 58–90 no escolar e 50–90 no adolescente). Na linha do pré-escolar acima, 80–140 abrange as duas faixas do PALS (98–140 de 1 a 2 anos; 80–120 de 3 a 5 anos). Interpretar com a criança calma, considerando febre, dor e choro; as faixas simplificadas antigas (por exemplo, lactente 100–160) não são mais usadas no site. Na tabela de arritmias abaixo, "p/ idade" remete a estas faixas.
Hipotensão pediátrica (PA sistólica abaixo do limite mínimo):
- < 1 ano: PA sistólica < 60–70 mmHg
- 1–10 anos: PA sistólica < 70 + (2 × idade em anos) mmHg — ex: criança de 4 anos → PA sistólica < 78 mmHg
- > 10 anos: PA sistólica < 90 mmHg
Atenção: CHOQUE COMPENSADO pode cursar sem hipotensão — reconhecer por taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos e má perfusão!
3.4 Parâmetros Ventilatórios Pós-IOT
Volume corrente (VC) 6–8 mL/kg de peso ideal (evitar hiperdistensão; ajustar pela
expansão torácica)PEEP inicial 5 cmH₂O (aumentar até 8–10 em SDRA ou edema pulmonar)
FR pós-IOT Lactente (< 1 ano): 25–30 irpm · Criança (1–8 anos): 20–25 irpm
· > 8 anos: 15–20 irpm
FiO₂ inicial 100% → reduzir para manter SpO₂ 94–98% (evitar hiperoxia
pós-PCR; AHA/AAP 2025: 94–99%)
Pressão de platô < 30 cmH₂O (estratégia protetora pulmonar)ETCO₂ alvo 35–45 mmHg (capnografia contínua obrigatória); evitar
hiperventilação
Confirmação Capnografia + ausculta bilateral + Rx tórax (carina em T3–T4);
descartar intubação seletiva4. Manejo das Emergências Respiratórias
4.1 Oxigenioterapia e Via Aérea
- O₂ 100% por máscara não reinalante na instabilidade hemodinâmica ou SpO₂ < 94%
- Cânula nasal de alto fluxo (CNAF): titular FiO₂ e fluxo pela SpO₂ (alvo: SpO₂ entre 94% e 98%, evitando hiperóxia)
- VNI – CPAP/BiPAP: asma grave, bronquiolite moderada-grave, edema pulmonar cardiogênico
- IOT: falência ventilatória, apneia, proteção de via aérea, GCS ≤ 8
4.2 Sequência Rápida de Intubação (SRI)
Pré-oxigenação O₂ 100% por 3–5 min (ou 8 respirações profundas)
Pré-medicação Atropina não é rotina; considerar 0,02 mg/kg IV se alto risco
de bradicardia, sem dose mínima como pré-medicação (AHA 2020)
Indução Ketamina 1–2 mg/kg IV ou Etomidato 0,3 mg/kg IV
Bloqueio NM Succinilcolina 1–2 mg/kg IV ou Rocurônio 1,2 mg/kg IVConfirmação Capnografia (ETCO₂), ausculta bilateral, radiografia de tórax
4.3 Broncoespasmo Grave
- Salbutamol inalatório contínuo; adicionar ipratrópio nas 3 primeiras doses
- Sulfato de magnésio 25–50 mg/kg IV (máx 2 g) em 20 min (dose única; PALS/AHA e GINA)
- Corticoide: metilprednisolona 1–2 mg/kg IV (máx 60 mg)
- Ketamina 1–2 mg/kg IV se rebelde à terapia inicial (broncodilatador + sedação)
- Heliox (Hélio/O₂ 70:30): considerar em obstrução grave refratária
5. Manejo do Choque
5.1 Acesso Vascular
- Periférico: primeira escolha; 2 tentativas em ≤ 90 segundos antes de IO
- Intraósseo (IO): falha do periférico ou PCR – qualquer medicação IV pode ser administrada por IO
- Central: após estabilização inicial ou se IO/periférico inviáveis
- Dose flush pós-IO: SF 5–10 mL para garantir chegada da droga à circulação central
5.2 Expansão Volêmica
Cristaloide em alíquotas de 10–20 mL/kg, reavaliando após cada bolus (FC, PA, TEC, perfusão, consciência, sinais de sobrecarga); com UTI disponível, até 40–60 mL/kg na 1ª hora; preferir cristaloide balanceado (Ringer lactato), SF 0,9% como alternativa (AHA/AAP 2025; SBP, DC nº 7/2021; Surviving Sepsis Campaign 2026). Choque hemorrágico: hemoderivados precoces em vez de cristaloide (AHA 2020/2025). No choque cardiogênico, fluido individualizado, com cautela (RCUK 2025: 5 mL/kg).
5.3 Vasopressores e Inotrópicos
Norepinefrina 0,05–2 mcg/kg/min – choque distributivo/vasoplégico (séptico
quente); na sepse, adrenalina ou noradrenalina são a 1ª linha,
sem preferência (SSC 2020 e 2026; SBP 2019 e DC nº 7/2021)
Dopamina 5–20 mcg/kg/min – só se adrenalina e noradrenalina não
estiverem disponíveis (SSC 2020; SBP 2019)Dobutamina 2–20 mcg/kg/min – choque cardiogênico
Adrenalina 0,05–1 mcg/kg/min – choque, anafilaxia grave refratária
(SBP 2019, padrão do site; faixa antiga 0,01–1 — AHA)
Epinefrina IM 0,01 mg/kg (máx 0,3 mg na criança / 0,5 mg no adolescente) – anafilaxia (vasto lateral da coxa)5.4 Manejo do Choque Séptico
Pacote da 1ª hora (Surviving Sepsis Campaign pediátrica 2026; definição pelos critérios de Phoenix 2024, adotados pela SBP — DC nº 133/2024; detalhes em "Sepse e choque séptico na criança"):
- Reconhecer pela clínica (aparência, taquicardia, TEC > 2 s, extremidades frias, pele moteada, petéquias, hipotensão tardia); confirmar no hospital: sepse = infecção suspeita + escore de Phoenix ≥ 2; choque séptico = ≥ 1 ponto cardiovascular (Phoenix 2024; SBP 2024). O escore não é ferramenta de triagem
- Hemoculturas (2 sítios) ANTES dos antibióticos – coleta rápida (< 5 min) NÃO deve atrasar o início do ATB
- Antibioticoterapia empírica: no choque séptico, o mais cedo possível, idealmente na 1ª hora; na sepse provável sem choque, após avaliação rápida, idealmente em até 3 h (SSC 2026). Comunitária > 2 meses ou suspeita meningocócica: ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) (padrão do site); até 2 meses, associar ampicilina (MS; "Meningites"). Hospitalar, neutropenia ou imunossupressão: Cefepima 50 mg/kg/dose IV (máx 2 g) 8/8 h (bula; "Neutropenias") + Vancomicina 15 mg/kg/dose IV a cada 6 h, em 1 hora (1ª dose máx. 1,5 g — SBP, Manual de Orientação nº 5/2019; SEUP 2024: máx. 1 g por dose; ajustar pelo nível sérico) — ajustar conforme foco, cultura local e imunodepressão
- Expansão volêmica: cristaloide balanceado (Ringer lactato) ou SF 0,9% 10–20 mL/kg; reavaliar após cada bolus; até 40–60 mL/kg na 1ª hora com UTI disponível; sem UTI e sem hipotensão, não fazer bolus; sem UTI com hipotensão, até 40 mL/kg (SSC 2026)
- Vasoativos se refratário a fluidos: adrenalina ou noradrenalina como 1ª linha, sem preferência entre elas (SSC 2020 e 2026); a SBP (2019) orienta adrenalina 0,05–0,3 mcg/kg/min no choque frio e noradrenalina a partir de 0,05 mcg/kg/min no choque quente; podem ser iniciadas em veia periférica; dopamina só se nenhuma das duas estiver disponível
- Glicemia: manter 80–180 mg/dL; corrigir hipoglicemia e hiperglicemia
- Hidrocortisona: não usar se fluidos e vasoativos estabilizam (SSC 2026: contra hidrocortisona IV na criança estável); no choque refratário a fluidos e catecolaminas, sem recomendação (SSC 2026; SSC 2020: pode ser usada ou não). Indicada (dose de estresse) se houver risco de insuficiência adrenal absoluta — corticoide recente ou crônico, púrpura fulminante, doença hipotálamo-hipofisária ou adrenal (SSC 2020; SBP 2019): 50–100 mg/m²/dia IV (≈ 2–4 mg/kg/dia), fracionada a cada 6 h; ataque de 1–2 mg/kg (SEUP 2024)
- Lactato sérico na avaliação inicial (SSC 2026); acompanhar a queda junto com a clínica
- Controle do foco: drenar coleções, retirar cateter infectado, desbridamento quando indicado
6. Ritmos Cardíacos e Arritmias
Tabela-resumo comparativa de todas as arritmias relevantes em Pediatria:
Arritmia FC Onda P QRS Conduta PALS
(bpm)Sinusal Normal p/ idade Presente/normal Estreito Observar; tratar causa
Taquicardia > idade Presente/normal Estreito Tratar causa (febre, dor, Sinusal hipovolemia)
Bradicardia < 60 Presente/normal Estreito Hipóxia? → O₂. Atropina / Sinusal Adrenalina se sintomática
BAV 1º Grau 60–100 Presente; PR > Estreito Observar; monitorar
200msBAV 2º Mobitz I Variável Presente; PR Estreito (ou Monitorar; Atropina se sintomático
cresce ausente)BAV 2º Mobitz II Variável PR fixo; P Estreito/largo Marcapasso! Risco de BAV total
bloqueadaBAV 3º Grau 20–45 Dissociada do Largo EMERGÊNCIA: Atropina +
(BAVT) (esc.) QRS (escape Adrenalina + Marcapasso
ventricular)TSV > 180– Ausente ou Estreito Estável: vagal + Adenosina |
220 retrógrada Instável: CVSFlutter Atrial Atrial Dente de serra Estreito CVE; Amiodarona; controle de FC
~300; (F)
Ventr.
75–150Fibrilação Atrial Irregular Ausente (ondas Estreito; RR CVE se instável; anticoagulação;
f) irregular amiodarona
WPW Variável Presente; PR < Alargado TSV c/ WPW estável: adenosina
120ms (onda delta) OK | FA c/ WPW: EVITAR
adenosina, digoxina, verapamil
(risco FV) | CVE se instável |
Ablação eletivaEV isolada Normal + Ausente antes Largo, Monitorar; tratar causa (hipóxia,
EV do EV bizarro eletrólitos)TV 150–250 Dissociada (AV) Largo > Pulso: CVS 0,5–1 J/kg | Sem
90ms pulso: DesfibrilaçãoTorsades de 150–250 Ausente Rotacional Mg²⁺ 25–50 mg/kg IV | Desfibrilação | Pointes (polimórfico) Corrigir QT
Fibrilação Caótica Ausente Caótico DESFIBRILAÇÃO 2 J/kg → 4 J/kg Ventricular → ≥4 J/kg
AESP Qualquer Pode estar Organizado RCP + Adrenalina; investigar
presente (sem pulso) 5H/5TAssistolia 0 Ausente Ausente RCP + Adrenalina; investigar
5H/5T6.1 Ritmos de Referência
6.1.1 Ritmo Sinusal Normal FC dentro da faixa de vigília do PALS para a idade (tabela 3.3; 60–100 bpm só no adolescente). Onda P visível e positiva em DII, com morfologia normal. PR 120– 200 ms. QRS estreito (< 90 ms). RR regular.
Figura 3 – Ritmo Sinusal Normal – FC 70 bpm. Referência comparativa para identificação das arritmias.
6.1.2 Taquicardia Sinusal FC acima da faixa de vigília do PALS para a idade (tabela 3.3); em geral < 220 bpm no lactente e < 180 bpm na criança. Onda P normal, precede cada QRS. Causa identificável: febre, dor, hipovolemia, hipóxia, ansiedade. Tratar a causa.
Figura 4 – Taquicardia Sinusal – FC 130 bpm. Onda P normal, QRS estreito. Diferencia-se da TSV pela FC variável e P visível.
6.2 Bradicardia Sinusal
FC < 60 bpm. Causa mais comum em pediatria: HIPÓXIA – resolver a causa antes de medicar!
Figura 5 – Bradicardia Sinusal – FC 38 bpm. Onda P normal, QRS estreito, RR aumentado. Tratar causa; Atropina se sintomática.
- Atropina 0,02 mg/kg IV/IO (mín 0,1 mg; máx 0,5 mg) – repetir 1×
- Adrenalina 0,01 mg/kg IV/IO se refratária à atropina
- Marcapasso transcutâneo: refratária a drogas
6.3 Bloqueios Atrioventriculares (BAV)
6.3.1 BAV 1º Grau – PR prolongado PR > 200 ms (em crianças > 180 ms), constante. Todo impulso atrial conduz ao ventrículo. Benigno. Causas: vagotonia, digoxina, hipercalemia, miocardite, cardiopatias congênitas. Conduta: observar e monitorar.
Figura 6 – BAV 1º Grau – PR = 320 ms. Todo P conduz ao QRS. QRS estreito, RR regular. Conduta: observação.
6.3.2 BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) PR aumenta progressivamente a cada batimento até que uma onda P é bloqueada (sem QRS), e o ciclo reinicia. RR diminui progressivamente dentro do grupo, com pausa longa após o bloqueio. Geralmente benigno; raramente requer tratamento.
Figura 7 – BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) – Padrão 3:2. PR cresce 140→240 ms até bloqueio. Benigno, monitorar.
6.3.3 BAV 2º Grau Mobitz II PR CONSTANTE (normal ou prolongado), com bloqueio súbito de ondas P (sem QRS) sem aviso prévio. Indica lesão abaixo do nó AV (feixe de His ou ramos). RISCO de progredir para BAV total. Indicação de marcapasso!
Figura 8 – BAV 2º Grau Mobitz II – Padrão 3:1. PR fixo; 2 de cada 3 P bloqueadas abruptamente. MARCAPASSO indicado.
6.3.4 BAV 3º Grau – Completo (BAVT) Nenhum impulso atrial conduz ao ventrículo. Ondas P e QRS completamente independentes (dissociação AV). Ritmo ventricular de escape: juncional (estreito, 40– 60 bpm) ou idioventricular (largo, 20–40 bpm). EMERGÊNCIA cardíaca.
Figura 9 – BAV 3º Grau (BAVT) – Ondas P 88 bpm e escape juncional 38 bpm: completamente dissociados. EMERGÊNCIA.
- Atropina 0,02 mg/kg IV/IO — SEM efeito em BAVT infranodal (age no nó AV, não no feixe de His/ramos); pode aumentar FC sinusal sem acelerar escape ventricular
- Adrenalina IV em infusão contínua: 0,01–0,3 mcg/kg/min (titular pela FC e PA; iniciar em 0,05 mcg/kg/min)
- Marcapasso transcutâneo imediato; preparar para transvenoso
- Isoproterenol 0,05–0,5 mcg/kg/min como ponte
6.4 Taquiarritmias Supraventriculares
6.4.1 Taquicardia Supraventricular (TSV) Arritmia mais comum em pediatria. FC fixa > 220 bpm (lactente) / > 180 bpm (criança). QRS estreito. P retrógrada ou ausente. Início e término súbitos. Mecanismo mais comum: reentrada (via acessória ou nodal).
Figura 10 – TSV – FC 220 bpm. QRS estreito, P retrógrada após QRS. RR absolutamente regular. Início/término súbitos.
ESTÁVEL: manobra vagal (gelo na face em lactentes; Valsalva) → Adenosina 0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg; pode repetir 0,2 mg/kg, máx 12 mg).
INSTÁVEL (hipotensão, alteração de consciência): cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
Recorrente: Amiodarona 5 mg/kg IV em 30 min ou propranolol oral; encaminhamento para eletrofisiologia.
6.4.2 Flutter Atrial Ritmo atrial rápido e regular (ondas F "dente de serra") a ~300/min, com bloqueio AV variável (2:1 → FC 150 bpm; 4:1 → 75 bpm). FC ventricular geralmente regular. Incomum em pediatria saudável; associado a cardiopatias congênitas.
Figura 11 – Flutter Atrial – Ondas F em dente de serra 300/min; condução 2:1 (FC ventricular 150 bpm). Linha de base sem isoelétrica.
- Instável: cardioversão elétrica sincronizada (CVE) 0,5–1 J/kg
- Controle de FC: amiodarona, betabloqueador ou verapamil (> 1 ano)
- Anticoagulação se > 48 h de duração ou desconhecido
6.4.3 Fibrilação Atrial (FA) Atividade atrial caótica e desorganizada (ondas f de baixa amplitude na linha de base). Resposta ventricular irregularmente irregular. QRS estreito (quando sem aberrância). Rara em pediatria sem cardiopatia estrutural ou tireotoxicose.
Figura 12 – Fibrilação Atrial – Linha de base fibrilatória, sem ondas P identificáveis. RR irregularmente irregular.
- Instável: CVE 0,5–1 J/kg (sincronizada)
- Controle de FC: amiodarona, betabloqueador, digoxina
- Anticoagulação: mesmos critérios do adulto se > 48 h
- Investigar: cardiopatia estrutural, tireotoxicose, infecção, iatrogenia
6.4.4 Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) Pré-excitação ventricular via via acessória (feixe de Kent). Tríade: PR curto (< 120 ms), onda delta (empastamento inicial do QRS) e QRS alargado. Risco de FA de alta condução (> 250/min → FV!).
Figura 13 – WPW – PR curto ~80 ms, onda delta visível (empastamento inicial), QRS alargado. Risco de FA com condução rápida.
- TSV em WPW estável: adenosina (seguro na TSV por reentrada)
- FA com WPW: EVITAR adenosina, digoxina, verapamil e amiodarona (risco de FV)
- FA com WPW instável: CVE imediata
- Tratamento definitivo: ablação por cateter por radiofrequência (eletiva)
6.5 Extrassístoles e Taquiarritmias Ventriculares
6.5.1 Extrassístole Ventricular (EV) Batimento prematuro originado nos ventrículos. QRS largo (> 90 ms) e bizarro, sem onda P precedente. Pausa compensatória após a EV. Isoladas em corações sãos: benignas. Frequentes, em salvas ou sobre onda T (fenômeno R/T): monitorar.
Figura 14 – EV – Batimento prematuro de QRS largo e bizarro (seta), sem P precedente, seguido de pausa compensatória.
- Investigar: hipóxia, hipocalemia, hipomagnesemia, intoxicação, miocardite
- EV sintomáticas ou frequentes: lidocaína 1 mg/kg IV, amiodarona ou betabloqueador
6.5.2 Taquicardia Ventricular (TV) Sequência de 3 ou mais EV. FC 150–250 bpm. QRS largo (> 90 ms) e bizarro. Dissociação AV (P e QRS independentes). Grave – pode causar instabilidade hemodinâmica e degenerar em FV.
Figura 15 – TV Monomórfica – FC 175 bpm. QRS largo e uniforme. Sem ondas P identificáveis. Risco de FV.
COM PULSO estável: Amiodarona 5 mg/kg IV em 20–60 min; Lidocaína 1 mg/kg IV; Cardioversão sincronizada 0,5 J/kg.
COM PULSO instável: Cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.
SEM PULSO: Algoritmo FV/TV sem pulso – Desfibrilação 2 J/kg → 4 J/kg → ≥4 J/kg. 6.5.3 Torsades de Pointes (TV Polimórfica) Forma especial de TV com morfologia QRS rotacional ("torção em torno da linha de base"). Associada a QT longo (congênito ou adquirido: hipoK, hipoMg, drogas). Pode ser autolimitada ou degenerar em FV.
Figura 16 – Torsades de Pointes – QRS polimórfico com amplitude rotacional. Contexto de QT longo. Pode degenerar em FV.
- Magnésio 25–50 mg/kg IV (máx 2 g) em bolus lento – mesmo sem hipomagnesemia (padrão do site; AHA)
- Corrigir hipocalemia, hipocalcemia, hipotermia
- Suspender drogas que prolongam o QT (eritromicina, metadona, antidepressivos TCA, antifúngicos azólicos)
- Desfibrilação se colapso hemodinâmico ou FV
- Estimulação cardíaca (marcapasso) a 90–100 bpm para encurtar QT
6.5.4 Fibrilação Ventricular (FV) Atividade elétrica ventricular caótica e desorganizada, sem débito cardíaco. Causa imediata de morte súbita. Tratamento único efetivo: desfibrilação precoce.
Figura 17 – Fibrilação Ventricular – Atividade elétrica caótica, sem QRS identificável. Desfibrilação imediata.
6.6 PCR: AESP e Assistolia
6.6.1 AESP – Atividade Elétrica Sem Pulso Ritmo organizado no monitor (qualquer padrão: sinusal, juncional, ventricular lento), mas SEM pulso palpável e SEM débito cardíaco. O ECG "engana". Investigar e tratar causas reversíveis (5H/5T) é fundamental.
Figura 18 – AESP – Ritmo organizado (escape lento, QRS levemente alargado) SEM pulso palpável. RCP + Adrenalina + 5H/5T.
6.6.2 Assistolia Ausência de atividade elétrica ventricular. Linha isoelétrica. Confirmar em 2 derivações (afastar artefato de cabo desconectado). Pior prognóstico entre os ritmos de PCR.
Figura 19 – Assistolia – Linha isoelétrica. Sem atividade elétrica. Confirmar em 2 derivações. RCP + Adrenalina + 5H/5T.
7. Parada Cardiorrespiratória (PCR) Pediátrica
7.1 Epidemiologia e Causas
Causa mais comum Hipóxia / insuficiência respiratória (diferente do adulto – FV
menos frequente)
Ritmos chocáveis FV e TV sem pulso (~10–15% das PCR pediátricas intra-
hospitalares)
Ritmos não chocáveis Assistolia e AESP (~85–90% das PCR pediátricas)
Sobrevida com alta ~30–40% intra-hospitalar; ~10% extra-hospitalar7.2 RCP de Alta Qualidade
- Frequência: 100–120 compressões/min
- Profundidade: ≥ 1/3 do diâmetro AP (~4 cm lactente / ~5 cm criança / 5–6 cm adolescente)
- Recuo completo após cada compressão; minimizar interrupções (< 10 s)
- Relação compressão:ventilação: 30:2 (1 socorrista) / 15:2 (2 socorristas)
- Via aérea avançada: compressões contínuas e 1 ventilação a cada 2–3 s (20–30/min, conforme idade), sem pausar as compressões; evitar hiperventilação (AHA/AAP 2025; SBP, DC nº 7/2021). RCUK/ERC 2025: no limite inferior da FR para a idade (25/min lactente, 20 > 1 ano, 15 > 8 anos, 10 > 12 anos)
- Com pressão arterial invasiva durante a RCP: diastólica ≥ 25 mmHg no lactente e ≥ 30 mmHg a partir de 1 ano (AHA/AAP 2025; SBP 2021)
- Sem via aérea avançada, a ventilação com bolsa-valva-máscara de boa qualidade é adequada; a intubação não deve atrasar compressões, choque nem adrenalina (AHA/AAP 2025)
Técnica de Compressão por Faixa Etária
Lactente (< 1 ano) 2 polegares com mãos envolvendo o tórax ou região hipotenar
de 1 mão (AHA 2025: a técnica dos 2 dedos foi abandonada por
não atingir a profundidade) · Ponto: metade inferior do esterno,
logo abaixo da linha intermamilar
Criança (1 ano – 1 ou 2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
puberdade) Profundidade ≥ 5 cm
Adolescente / adulto 2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
Profundidade 5–6 cmDEA / Desfibrilador Pediátrico
- DEA: aplicar e usar imediatamente; com atenuador pediátrico, se disponível, em crianças < 8 anos ou < 25 kg (reduz energia para ~50–75 J) (AHA/AAP 2025)
- Sem atenuador pediátrico: usar modo adulto mesmo em crianças – desfibrilação é prioritária
- Desfibriladores manuais: preferíveis em lactentes (dose titulável 2 J/kg); se DEA for o único disponível, usar sem hesitar
- Posição das pás: anterolateral (padrão) ou anteroposterior (preferível em lactentes pequenos)
7.3 Algoritmo – Ritmo Não Chocável (Assistolia / AESP)
Figura 20 – Algoritmo PCR Pediátrica – Assistolia / AESP. Adrenalina o mais cedo possível (idealmente nos primeiros 5 min do início das compressões — AHA 2020/2025; SBP, DC nº 7/2021) e depois a cada 3–5 min. Investigar 5H e 5T.
7.4 Algoritmo – Ritmo Chocável (FV / TV sem pulso)
Figura 21 – Algoritmo PCR Pediátrica – FV / TV sem pulso. Desfibrilação 2 → 4 → ≥ 4 J/kg (máx. 10 J/kg ou dose do adulto) (AHA/AAP 2025). Adrenalina após o 2º choque; amiodarona ou lidocaína após o 3º. RCUK/ERC 2025 usam 4 J/kg desde o 1º choque (divergência; o site segue a AHA/AAP).
7.5 Medicações na PCR
Adrenalina 0,01 mg/kg IV/IO (= 0,1 mL/kg de 1:10.000); máx 1 mg; a cada
3–5 min
Amiodarona 5 mg/kg IV/IO em bolus (FV/TV refratária); máx 300 mg/dose;
até 3 doses
Lidocaína 1 mg/kg IV/IO; alternativa à amiodarona
Bicarbonato 1 mEq/kg IV/IO: não rotineiro; só hipercalemia, intoxicação
por TCA/bloqueador de sódio (AHA 2020/2025)
Cálcio Gluconato 10% 60 mg/kg (= 0,6 mL/kg; máx. 2 g) ou cloreto 10%
20 mg/kg (= 0,2 mL/kg; máx. 1 g, via central): não rotineiro na
PCR; só hipocalcemia, hipercalemia, intoxicação por bloqueador
de cálcio, hipermagnesemia (AHA 2020/2025; RCUK 2025)
Glicose Hipoglicemia, a partir de 1 mês: 0,5–1 g/kg IV (SG 25% 2–4
mL/kg ou SG 10% 5–10 mL/kg); RN: SG 10% 2 mL/kg (MS, SAMU 192)
Magnésio 25–50 mg/kg IV (máx. 2 g): Torsades de PointesDoses de adrenalina, amiodarona, lidocaína, adenosina e energias de choque: AHA/AAP 2025 (Parte 8) e AHA 2020, inalteradas; SBP (DC nº 7/2021) segue a AHA. RCUK 2025: mesmas doses de adrenalina (10 mcg/kg, máx. 1 mg) e amiodarona (5 mg/kg, máx. 300 mg).
8. Cuidados Pós-Ressuscitação
8.1 Metas
- PA sistólica e média > percentil 10 para idade e sexo (AHA/AAP 2025; RCUK 2025: por pelo menos 24 h); SpO₂ 94–98% (padrão do site, como RCUK/ERC 2025; AHA/AAP 2025: 94–99%), evitando hipoxemia e hiperoxia
- ETCO₂ 35–45 mmHg; PaCO₂ 35–45 mmHg (normocapnia, ajustada à doença de base); PaO₂ 80–100 mmHg
- Glicemia 80–180 mg/dL; hemoglobina pela estratégia restritiva do site (ver 8.3)
8.2 Controle de Temperatura Alvo
Comatosos pós-PCR: medir a temperatura central continuamente e prevenir ativamente a febre, mantendo ≤ 37,5 °C (AHA/AAP 2025); o controle de temperatura dura pelo menos 24 h e a febre é evitada por pelo menos 72 h (RCUK/ERC 2025). A hipotermia induzida (32–34 °C) deixou de ser rotina; fica a critério da UTI.
8.3 Monitoramento e Suporte Orgânico
- Monitoração contínua: ECG, SpO₂, ETCO₂, PAI (pressão arterial invasiva), temperatura central
- Glicemia: alvo 80–180 mg/dL; corrigir hipoglicemia e evitar hiperglicemia
- Crises epilépticas: EEG contínuo em comatosos; tratar com benzodiazepínicos + 2ª linha do site (fenitoína 15–20 mg/kg ou fenobarbital 15 mg/kg — MS; levetiracetam 60 mg/kg IV onde houver), como na seção 9.2
- Ecocardiograma precoce: avaliar função miocárdica pós-PCR, derrame pericárdico e cardiopatia estrutural
- Hemoglobina: na criança estável, transfundir só com Hb < 7 g/dL (MS 2015; TAXI 2018; "Transfusão de hemocomponentes na criança"); com lesão cerebral aguda, limiar individualizado entre 7 e 10 g/dL (TAXI 2018); na disfunção miocárdica pós-PCR, decisão da UTI
- Diurese-alvo: 1–2 mL/kg/h; monitorar lesão renal aguda (creatinina, ureia)
9. Situações Especiais
9.1 Anafilaxia
Figura 22 – Algoritmo de Manejo da Anafilaxia Pediátrica. Adrenalina IM é a primeira e mais importante medida.
- Adrenalina IM 0,01 mg/kg (máx 0,3 mg na criança / 0,5 mg no adolescente) no vasto lateral – PRIMEIRA MEDIDA; repetir em 5–15 min se necessário
- Decúbito dorsal + MMII elevados (sentado se dispneia); O₂ por máscara para SpO₂ 94–98%; SF 0,9% 5–10 mL/kg nos primeiros 5 min se hipotensão, até 30 mL/kg na 1ª hora (SBP 2021; Protocolo de Anafilaxia do site)
- Adjuvantes, depois da adrenalina: Metilprednisolona 1–2 mg/kg IV (máx. 60 mg); anti-H1 de 2ª geração VO só para sintomas cutâneos, já estável (doses de Urticária aguda); anti-H1 de 1ª geração (difenidramina, prometazina) não são usados no site (sedação)
- Observação: casos leves, mínimo de 6–8 h; graves, 24–48 h (SBP 2021; Protocolo de Anafilaxia do site); autoinjetor e plano de ação por escrito na alta
9.2 Estado de Mal Epiléptico (EME)
O estado de mal passou a ser definido com 5 minutos (t1 da ILAE 2015) porque é o ponto em que a crise tônico-clônica tende a se prolongar: depois dele, a chance de parar sozinha cai muito, e por isso o tratamento começa aí. Na monitorização por vídeo-EEG, a maioria das crises convulsivas dura menos de 5 min (Trinka et al., Epilepsia 2015). Em 407 crianças com a primeira crise não provocada, as durações formaram dois grupos — 76% com média de 3,6 min e 24% com média de 31 min —; quanto mais a crise durava, menor a chance de parar nos minutos seguintes, e depois de 5–10 min era improvável que cedesse sozinha (Shinnar et al., Ann Neurol 2001;49:659–64). O t2 = 30 minutos é o limite a partir do qual há risco de lesão neuronal (ILAE 2015): o antigo limiar de 30 min marca o risco de dano, e não o momento de tratar.
Fase 1: 0–5 min Estabilização: Monitorar, O₂, acesso vascular, glicemia, PA,
ECGFase 2: 5–20 min Midazolam IM 0,2 mg/kg, IN 0,2 mg/kg ou bucal 0,3 mg/kg (máx.
Primeira Linha 10 mg) ou Diazepam IV/IO 0,2–0,3 mg/kg (máx. 10 mg) ou retal
0,5 mg/kg (máx. 10 mg) (Protocolo de Estado de Mal Convulsivo)Fase 2: 20–30 min Conduta do site (MS — PCDT Epilepsia 2018): Fenitoína 15–20
Segunda Linha mg/kg IV (máx. 1.500 mg; ≤ 1 mg/kg/min e ≤ 50 mg/min; ECG e PA)
OU Fenobarbital 15 mg/kg IV (≤ 100 mg/min; máx. 1.000 mg).
Preferível onde houver (divergência): Levetiracetam 60 mg/kg
IV (máx. 4.500 mg) em 5–10 min. Alternativa: Ácido valpróico
40 mg/kg IV (máx. 3.000 mg) em 5–10 min, só ≥ 2 anos, sem
hepatopatia, doença metabólica/mitocondrial ou gestação.
Fase 3: refratário EME refratário (falha de BDZ + 2ª linha): UTI pediátrica —
(não esperar 30–40 min) IOT e coma induzido com EEG contínuo (ver alerta e doses
abaixo). Super-refratário: anestesia geral (isoflurano),
titulada por anestesiologista.A fenitoína leva cerca de 20 min para infundir; somada aos benzodiazepínicos, o controle pode passar de 30 min (limite ILAE 2015 para risco de lesão neuronal). Prepare a 2ª linha já na 1ª dose de benzodiazepínico e inicie logo após a 2ª dose, sem esperar. Onde houver levetiracetam IV, ele é preferível por infundir em 5–10 min (NICE NG217; APLS; ESETT, EcLiPSE e ConSEPT 2019).
Levetiracetam injetável no Brasil: Antara IV (Eurofarma, Reg. MS 1.0043.1481) — uso fora da bula no estado de mal; a bula indica uso IV a partir de 6 anos. Doses e fontes completas: Protocolo de Estado de Mal Convulsivo.
Atenção, 30 minutos: a partir do t2 (ILAE 2015) cresce o risco de lesão neuronal. Se a crise não ceder com o benzodiazepínico (2 doses) e a medicação de 2ª linha, é estado de mal REFRATÁRIO. Não espere os 30 min nem tente uma 3ª droga de 2ª linha por muito tempo: acione a UTI pediátrica para intubação e COMA INDUZIDO com infusão contínua de anestésico, para suprimir a atividade epiléptica, com monitorização eletroencefalográfica contínua (alvo: cessar as crises no EEG ou surto-supressão).
Coma induzido — conduta de UTI/anestesiologia: intubação, ventilação mecânica e suporte hemodinâmico (esses agentes causam hipotensão e podem exigir vasopressor — NCS 2012); doses tituladas pelo EEG contínuo.
- Midazolam (1ª escolha): bolus 0,2 mg/kg IV (a 2 mg/min) + infusão 0,05–2 mg/kg/h; nas crises de escape, bolus 0,1–0,2 mg/kg e aumento de 0,05–0,1 mg/kg/h a cada 3–4 h (NCS 2012). SEUP 2025: 0,2 mg/kg + 0,05–0,4 mg/kg/h.
- Pentobarbital: 5–15 mg/kg + infusão 0,5–5 mg/kg/h (NCS 2012).
- Tiopental: 2–7 mg/kg IV (≤ 50 mg/min) + infusão 0,5–5 mg/kg/h (NCS 2012); SEUP 2025: 2–3 mg/kg + 3–5 mg/kg/h.
- Cetamina: opção no super-refratário; dose conforme protocolo da UTI (a NCS 2012 a trata como terapia emergente, com dados limitados).
- Propofol, com cautela na criança: 1–2 mg/kg + infusão a partir de 20 mcg/kg/min (faixa 30–200 mcg/kg/min); na criança, cautela acima de 65 mcg/kg/min e contraindicado em crianças pequenas (NCS 2012) — risco de síndrome de infusão do propofol (acidose metabólica, rabdomiólise, insuficiência cardíaca e renal).
Manter o controle eletrográfico por 24–48 h e retirar a infusão gradualmente (NCS 2012).
9.3 Trauma Pediátrico
Abordagem CABC: Controle de hemorragia catastrófica primeiro, depois A → B → C → D → E.
- Hemorragia externa: compressão direta; torniquete em amputações ou sangramento de membros incontrolável
- Fluidos: SF 0,9% ou RL 10–20 mL/kg; preferir hemoderivados precocemente em trauma grave (proporção 1:1:1 – CH:PFC:Plaquetas)
- Ácido tranexâmico: 15 mg/kg IV (máx 1 g) nas primeiras 3 horas do trauma
- Pneumotórax hipertensivo: descompressão com agulha 2º EIC linha hemiclavicular → toracostomia
- TCE grave (GCS ≤ 8): IOT + normocapnia (PaCO₂ 35–40 mmHg); PPC alvo 40–65 mmHg; evitar hipóxia, hipotensão, hiperglicemia
- Hipotermia: manter normotermia; fluidos aquecidos; cobertor térmico
- Colar cervical + imobilização: indicados em trauma de alta energia com mecanismo suspeito de lesão cervical
10. Doses de Emergência por Peso
Peso estimado: Fita de Broselow ou (Idade + 4) × 2 kg para crianças de 1–10 anos.
Adrenalina PCR 0,01 mg/kg IV/IO (ex: 10 kg = 0,1 mg = 1 mL de 1:10.000)
Atropina 0,02 mg/kg IV (máx 0,5 mg); mín 0,1 mg só na bradicardia —
na pré-medicação da SRI, sem dose mínima (AHA 2015/2020)Adenosina 0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg 1ª dose); 0,2 mg/kg (máx 12
mg 2ª dose)
Amiodarona 5 mg/kg IV/IO (máx 300 mg/dose)
Magnésio 25–50 mg/kg IV (máx 2 g) – Torsades / asma grave
(dose única em 20 min; padrão do site)
Midazolam (estado de mal) IM 0,2 mg/kg; IN 0,2 mg/kg; bucal 0,3 mg/kg (máx. 10 mg)
Diazepam (estado de mal) IV/IO 0,2–0,3 mg/kg; retal 0,5 mg/kg (máx. 10 mg)Ketamina 1–2 mg/kg IV; 4–5 mg/kg IM
Glicose (≥ 1 mês) 0,5–1 g/kg: SG 25% 2–4 mL/kg ou SG 10% 5–10 mL/kg;
RN: SG 10% 2 mL/kg (MS, SAMU 192)
Desfibrilação 2 J/kg → 4 J/kg → ≥ 4 J/kg (máx 10 J/kg ou dose adulto)
(AHA/AAP 2025)
Cardioversão sync. 0,5–1 J/kg → 2 J/kg (TSV instável, TV com pulso, Flutter,
FA)11. Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Documento e versão | DC Terapia Intensiva nº 7, 27/04/2021 (resume a AHA 2020); sem atualização após a AHA 2025 | Protocolos SAMU 192 de SAV (2014, revisão 2016; republicados em gov.br, 04/2024) | AHA/AAP 2025, Partes 6 e 8 (coautora) | Sem diretriz de RCP; o NHS segue o RCUK 2025 (27/10/2025) | SEUP 2024 e ERC 2025 (PLS) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem NICE/RCUK 2025 |
| Compressão no lactente | Sem posição posterior à AHA 2025 | Protocolo de 2016, anterior à mudança | 2 polegares ou região hipotenar de 1 mão; 2 dedos abolida (2025) | RCUK 2025: 2 polegares | ERC 2025: 2 polegares | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| Ventilação com via aérea avançada | 1 a cada 2–3 s (20–30/min) (2021) | Protocolo de 2016 | 1 a cada 2–3 s, conforme idade (2025) | RCUK 2025: 25/20/15/10 por min por idade | ERC 2025: igual ao RCUK | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| Adrenalina na PCR | Precoce, até 5 min (2021) | 0,01 mg/kg | 0,01 mg/kg (máx. 1 mg) 3–5 min; precoce no não chocável | RCUK 2025: 10 mcg/kg, máx. 1 mg, 3–5 min | ERC 2025: igual | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| Desfibrilação | Segue AHA 2020 (2 → 4 J/kg) | Protocolo de 2016 | 2 → 4 → ≥ 4 J/kg, máx. 10 J/kg (2025) | RCUK 2025: 4 J/kg desde o 1º choque | ERC 2025: 4 J/kg | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| Choque séptico (fluido e vasoativo) | 10–20 mL/kg, balanceado; adrenalina ou noradrenalina (2021); Phoenix (DC nº 133/2024) | 20 mL/kg (2016) | 10–20 mL/kg com reavaliação (2025); SSC 2026 | 10 mL/kg (NG254, 2025); RCUK: noradrenalina 1ª linha | SEUP 2024: 10–20 mL/kg; adrenalina ou noradrenalina | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Pós-PCR | Não aborda (2021) | Protocolo de 2016 | PA > p10; febre ≤ 37,5 °C (2025) | RCUK 2025: PA > p10 ≥ 24 h; evitar febre ≥ 72 h; SpO2 94–98% | ERC 2025: igual | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| 2ª linha do estado de mal | Sem documento oficial (revisão Liberalesso, Residência Pediátrica 2018: fenitoína, fenobarbital, valproato) | PCDT Epilepsia (Portaria Conjunta nº 17, 21/06/2018): fenitoína 18 (15–20) mg/kg ou fenobarbital 15 mg/kg | AES 2016: fosfenitoína, valproato ou levetiracetam (equivalentes) | NG217 (2022, atualizada 08/2026): levetiracetam, fenitoína ou valproato; prefere o levetiracetam | SEUP 01/2025: levetiracetam, fenitoína ou valproato (equivalentes) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
Leitura: há concordância no essencial — RCP de alta qualidade com 100–120 compressões/min e profundidade de 1/3 do tórax, 15:2 com dois socorristas, adrenalina 0,01 mg/kg (máx. 1 mg) precoce e a cada 3–5 min, amiodarona 5 mg/kg ou lidocaína 1 mg/kg, adenosina 0,1 → 0,2 mg/kg, ventilação sem hiperventilar e prevenção da febre no pós-PCR. As divergências: (1) energia do 1º choque — AHA/AAP 2025 2 J/kg, depois 4 J/kg; RCUK/ERC 2025 4 J/kg desde o início; (2) ventilação com via aérea avançada — 20–30/min pela AHA e pela SBP; 10–25/min, no limite inferior para a idade, pelo RCUK/ERC; (3) vasoativo no choque — adrenalina ou noradrenalina sem preferência (SBP 2021, SSC 2026, AHA) × noradrenalina como 1ª linha vasopressora (RCUK/ERC); (4) compressão no lactente — a AHA 2025 aboliu os 2 dedos; a SBP ainda não publicou documento de RCP posterior a isso (o Guia Prático nº 222/2025, sobre engasgo, mantém 2 dedos nas compressões torácicas do desengasgo). O Ministério da Saúde (SAMU 192) é de 2016 e não acompanha as diretrizes de 2020 e 2025. Posição do site: a SBP (DC nº 7/2021) adota a AHA; por isso o texto segue a AHA/AAP 2025, a versão mais recente da diretriz que a SBP segue, com as doses padrão do site (glicose 0,5–1 g/kg a partir de 1 mês, RN SG 10% 2 mL/kg — MS, SAMU 192; magnésio 25–50 mg/kg, máx. 2 g; adrenalina IM 0,01 mg/kg na anafilaxia; ceftriaxona 100 mg/kg, máx. 4 g, na suspeita meningocócica; SpO2 entre 94% e 98% no encaminhamento, evitando hiperóxia). Na 2ª linha do estado de mal, a SBP não tem documento oficial; o MS (PCDT 2018) indica fenitoína ou fenobarbital; AES 2016, SEUP 2025 e os ensaios ESETT, EcLiPSE e ConSEPT (2019) mostram eficácia equivalente de levetiracetam, fenitoína e valproato, e o NICE NG217 prefere o levetiracetam. O site segue o MS, com o alerta sobre o tempo de infusão da fenitoína, e recomenda o levetiracetam onde houver (decisão do Dr. Stefani, 01/10/2026).
12. Referências Bibliográficas
Este documento foi elaborado com base nas seguintes fontes primárias e diretrizes internacionais e nacionais:
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Documento elaborado para fins educacionais e de referência clínica.
As informações não substituem o julgamento clínico nem os protocolos institucionais vigentes. — Fim do documento —