Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
1. Emergências Respiratórias — 25 a 33% (Brasil) |
20 a 30% (Internacional) As doenças respiratórias constituem a principal causa de internação pediátrica no Brasil (SIH/SUS, 2010–2024) e a causa mais frequente de emergência de alto risco nos PS pediátricos. Na primeira infância (0–4 anos), bronquiolite e pneumonia lideram
as hospitalizações; na faixa escolar (5–12 anos), asma e pneumonia comunitária predominam.
Diagnósticos que o recém-formado deve dominar:
- Bronquiolite viral aguda (VSR): Principal causa de hospitalização respiratória em lactentes < 2 anos. Sazonalidade outono-inverno. Sinais de gravidade: FR > 70/min, SpO₂ < 92%, apneia, recusa alimentar.
- Pneumonia adquirida na comunidade (PAC): Bacteriana ou viral. Sinais de gravidade: FR elevada para a idade, retração intercostal, gemido expiratório. SpO₂ (padrão do site): ≥ 95% tratamento em casa; 92–94% observação/reavaliação em serviço; < 92% internação. No encaminhamento, oxigênio para manter SpO₂ entre 94% e 98%, evitando hiperóxia.
- Crise asmática / Broncoespasmo: Avaliar escore de Wood-Downes ou PRAM. Leve (0–3): broncodilatador inalatório. Moderada (4–7): BDZ + corticoide sistêmico. Grave (≥ 8): O₂ + salbutamol contínuo + ipratrópio + corticoide IV.
- Crupe (Laringotraqueobronquite): Estridor inspiratório, tosse metálica, rouquidão. Escore de Westley para gravidade. Dexametasona VO/IM e nebulização com adrenalina nos casos moderados/graves.
- Infecção de via aérea superior (IVAS): Causa mais comum de atendimento não emergencial. Tratamento sintomático. Atenção: otite média aguda com otalgia intensa = LARANJA.
- Corpo estranho em via aérea: Emergência imediata (VERMELHO). Tosse eficaz: não intervir. Obstrução total: < 1 ano, 5 golpes nas costas + 5 compressões torácicas; ≥ 1 ano, compressões abdominais (Heimlich) direto (SBP, Guia Prático nº 222/2025) ou 5 golpes nas costas alternados com 5 compressões abdominais (AHA/AAP 2025); inconsciente, RCP (ver "Afogamento e obstrução de via aérea por corpo estranho"). Sibilância unilateral, assimetria respiratória ou hipotransparência unilateral na radiografia são sinais de alerta. Laringoscopia/broncoscopia urgente.
2. Febre sem Foco / Síndromes Febris — 20 a 28%
(Brasil) | 25 a 45% (Internacional) A febre é a queixa isolada mais frequente nos serviços de emergência pediátrica. Embora a maioria dos episódios seja autolimitada e de etiologia viral, o recém-formado deve identificar os casos que sinalizam infecção bacteriana grave ou condição sistêmica de risco.
Abordagem obrigatória:
- Sistema de Triagem — Semáforo (NICE/AAP): Verde: bem-estar preservado. Amarelo: sinais de alerta (irritabilidade, taquicardia, tempo de enchimento capilar ≥ 3 s). Vermelho: criança seriamente enferma (hipotonia, petéquias, gemido, cianose).
- Infecção do trato urinário (ITU): Causa bacteriana mais comum de febre sem foco em < 2 anos. Urocultura obrigatória antes do antibiótico. Considerar ITU em meninas < 2 anos com febre > 39°C sem foco.
- Meningite bacteriana: Rigidez de nuca, petéquias, fontanela abaulada, alteração de consciência. Antibiótico imediato — ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) já antes da remoção, se não atrasá-la (padrão do site); até 2 meses, associar ampicilina (MS). Não atrasar o ATB por punção lombar nem por neuroimagem (ver "Meningites bacterianas e virais na criança").
- Dengue / Arboviroses: Alta prevalência no Brasil, especialmente Nordeste e Sudeste. Pesquisar NS1 (dias 1–5) e sorologia. Sinais de alarme: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento, queda abrupta da febre com deterioração clínica.
- Bacteremia oculta: Em lactentes < 3 meses com febre (axilar ≥ 37,5 °C; retal ≥ 38 °C): sepse neonatal até prova contrária. Hemocultura + internação + ATB empírico.
- Convulsão febril: 2–5% das crianças de 6 meses a 5 anos. Simples vs. complexa (ver protocolo específico). Investigar e tratar a causa da febre.
3. Doenças Gastrointestinais — 12 a 18% (Brasil) |
10 a 20% (Internacional) Os distúrbios gastrointestinais formam o terceiro maior grupo de atendimentos pediátricos. A desidratação secundária à gastroenterite aguda (GEA) é a principal causa de óbito evitável em crianças < 5 anos em países de média renda.
Diagnósticos prioritários:
- Gastroenterite aguda com desidratação: Classificar grau: leve (<5%), moderada (5–10%), grave (>10%). TRO (Soro Oral) para leve/moderada (Planos A e B); grave: Plano C (SBP/MS 2023) — SF 0,9% ou Ringer lactato 30 mL/kg e depois 70 mL/kg (< 1 ano em 1 h + 5 h; ≥ 1 ano em 30 min + 2 h 30 min); choque: 20 mL/kg em 5–20 min, até 60 mL/kg, reavaliando. Triagem: AMARELO para leve, LARANJA para moderada/grave.
- Dor abdominal aguda: Diagnóstico diferencial amplo: apendicite, invaginação intestinal, torção ovariana, DII, cólica renal. Sinais de peritonite (sinal de Blumberg, abdome em tábua) = VERMELHO.
- Apendicite aguda: Score de Alvarado (≥ 7: alta probabilidade). USG abdominal como primeira imagem em crianças; TC apenas com critério rigoroso. Perfuração em < 24h em crianças pequenas.
- Invaginação intestinal: < 3 anos, dor em cólica intermitente, massa abdominal palpável, 'geleia de groselha' (sinal tardio). USG confirma. Enema pneumático como tratamento de eleição. Urgência cirúrgica se peritonite.
- Vômitos cíclicos / DRGE grave: Atenção à síndrome de vômitos cíclicos; excluir causas metabólicas (cetose, distúrbios eletrolíticos) e neurológicas (HIC) antes de atribuir etiologia funcional.
4. Traumas e Causas Externas — 8 a 15% (Brasil) |
15 a 20% (Internacional) As causas externas representam a principal causa de óbito em crianças > 1 ano no Brasil. Quedas predominam na faixa de 1–4 anos; acidentes de trânsito e esportes na faixa escolar e adolescência. Queimaduras têm maior incidência nas regiões Nordeste e Sudeste.
Situações de domínio obrigatório:
- TCE (Traumatismo Cranioencefálico): Leve (Glasgow 14–15): aplicar PECARN para decisão de TC — evitar radiação desnecessária. Moderado (9– 13) e grave (≤ 8): via aérea definitiva, controle de PIC, evitar hipotensão.
- Politrauma pediátrico: ABCDE do trauma. Score de Trauma Pediátrico (PTS ≤ 8 = alto risco de mortalidade). Atenção às diferenças anatômicas: mediastino mais móvel, maior risco de lesão de órgãos sólidos sem fratura de costelas.
- Queimaduras: Regra dos 9 adaptada para crianças (cabeça = 18% em lactentes). Classificação por profundidade: 1º, 2º superficial/profundo, 3º grau. Transferência precoce para centro especializado se > 10% SCQ em crianças ou comprometimento de face/mãos/genitais.
- Intoxicações exógenas: Paracetamol (N-acetilcisteína idealmente nas primeiras 8–10 h, mas indicada também depois, com benefício menor após 12–16 h — SBP 2018), organofosforados (atropina; o Ministério da Saúde não recomenda oximas — Portaria Conjunta nº 79/2018), medicamentos domésticos. Carvão
ativado: eficaz em até 1h da ingestão. Contato com Centro de Informação Toxicológica (CIT): 0800-722-6001.
- Afogamento: a lesão é a hipóxia — 5 ventilações de resgate e RCP começando pela ventilação; não tentar retirar água dos pulmões nem fazer Heimlich (SOBRASA; SEUP 2024). Afogado hipotérmico: não interromper a RCP antes de reaquecer. Após o retorno da circulação, prevenir a febre (≤ 37,5 °C — AHA/AAP 2025); a hipotermia induzida deixou de ser rotina. Todo afogado vai ao serviço de saúde (MS, SAMU 192).
- Suspeita de maus-tratos: Notificação compulsória ao Conselho Tutelar (ECA Art. 13). Sinais de alerta: padrão de lesão incompatível com a história, múltiplas lesões em diferentes estágios de cicatrização, fraturas em lactentes sem história de trauma significativo, lesões em áreas cobertas pelo vestuário. Documentar detalhadamente o prontuário. Não depende de confirmação para notificar.
5. Emergências Neurológicas — 8 a 12%
As emergências neurológicas representam o grupo de maior risco de sequela e morte quando não manejadas com agilidade. Crises convulsivas correspondem à maioria dos casos; o Estado de Mal Epiléptico (EME) exige reconhecimento e tratamento em minutos.
- Estado de Mal Epiléptico (EME): Crise ≥ 5 min ou ausência de recuperação entre crises. Benzodiazepínico IV/IM em 0–5 min. Cada minuto de atraso reduz a eficácia do tratamento (ver protocolo específico).
- Crise convulsiva febril complexa: Duração > 15 min, focal ou recorrente em 24h. Investigação obrigatória: EEG, considerar neuroimagem. Encaminhamento para neuropediatria.
- Meningite/Encefalite: Sinal de Kernig, Brudzinski, rigidez nucal, fontanela abaulada, petéquias. Antibiótico (e aciclovir se suspeita de encefalite herpética) imediatamente; TC antes da PL só com sinal focal, papiledema, rebaixamento importante ou convulsão recente — e sem atrasar o ATB.
- AVC Isquêmico Pediátrico: Déficit focal agudo em criança: AVC até prova contrária. RM de urgência. Acionar neurologia pediátrica imediatamente.
- TCE grave: Glasgow ≤ 8: via aérea definitiva, controle PIC (meta < 20 mmHg), evitar hipotensão (PAS ≥ percentil 5 para a idade).
- Hipertensão intracraniana (HIC): Tríade de Cushing: bradicardia + hipertensão arterial + irregularidade respiratória (sinal tardio e grave). Osmoterapia, conforme o contexto (ver "Hipertensão intracraniana e sinais de herniação"): HIC/TCE — salina 3% bolus inicial 2 mL/kg IV em 10–15 min (máx. 100 mL; faixa 2–5 mL/kg na BTF 2019/AEP 2022) ou manitol 20% 0,25–1 g/kg IV em 20–30 min (dose: SBP 2017; tempo: AEP 2022); hiponatremia sintomática — salina 3% 2 mL/kg em 10–15 min, até 3 vezes (ver item 9); edema cerebral da cetoacidose — salina 3% 2,5–5 mL/kg IV em 10–15 min ou manitol 0,5–1 g/kg IV em 10–15 min (ISPAD 2022; ver "Cetoacidose diabética").
O estado de mal passou a ser definido com 5 minutos (t1 da ILAE 2015) porque é o ponto em que a crise tônico-clônica tende a se prolongar: depois dele, a chance de parar sozinha cai muito, e por isso o tratamento começa aí. Na monitorização por vídeo-EEG, a maioria das crises convulsivas dura menos de 5 min (Trinka et al., Epilepsia 2015). Em 407 crianças com a primeira crise não provocada, as durações formaram dois grupos — 76% com média de 3,6 min e 24% com média de 31 min —; quanto mais a crise durava, menor a chance de parar nos minutos seguintes, e depois de 5–10 min era improvável que cedesse sozinha (Shinnar et al., Ann Neurol 2001;49:659–64). O t2 = 30 minutos é o limite a partir do qual há risco de lesão neuronal (ILAE 2015): o antigo limiar de 30 min marca o risco de dano, e não o momento de tratar.
6. Doenças Infecciosas e Sepse — 5 a 10% (Brasil) |
3 a 8% (Internacional) A sepse pediátrica deve ser reconhecida pela clínica, antes da hipotensão. Antibiótico: no choque séptico, o mais cedo possível, idealmente na 1ª hora; na sepse provável sem choque, após avaliação rápida, idealmente em até 3 h (Surviving Sepsis Campaign 2026; ILAS). Os Critérios de Phoenix (2024) substituem os critérios SIRS para definição de sepse pediátrica, com maior especificidade.
- Sepse / Choque séptico: Critérios de Phoenix (2024): infecção suspeita + escore de Phoenix ≥ 2 pontos (disfunção respiratória, cardiovascular, de coagulação e/ou neurológica; um único sistema pode somar 2 pontos); choque séptico = ≥ 1 ponto cardiovascular (Schlapbach, JAMA 2024; SBP, DC nº 133/2024). O escore confirma no hospital; não é ferramenta de triagem. Oxigênio para manter SpO₂ entre 94% e 98% (evitando hiperóxia), acesso venoso ou IO, glicemia capilar, cristaloide 10–20 mL/kg com reavaliação após cada bolus (até 40–60 mL/kg na 1ª hora com UTI; sem UTI e sem hipotensão, não fazer bolus), ATB conforme acima. Vasoativo de 1ª linha: adrenalina ou noradrenalina, sem preferência entre elas; dopamina só se nenhuma estiver disponível (Surviving Sepsis Campaign 2020 e 2026; ver "Sepse e choque séptico na criança").
- Celulite / Fasciite necrosante: Eritema com progressão rápida, dor desproporcional ao exame, crepitação e instabilidade hemodinâmica: fasciite necrosante até prova contrária. Cirurgia de urgência + ATB de amplo espectro.
- Meningococcemia: Petéquias + febre + instabilidade hemodinâmica: ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) imediata, antes da transferência (alternativa: penicilina G cristalina IV); manutenção conforme o serviço (MS: 100 mg/kg/dia) + UTI. Não aguardar resultado de cultura.
- Dengue grave / Arboviroses: Dengue com sinais de alarme: extravasamento plasmático (derrame pleural, ascite), sangramento espontâneo, choque. Hidratação IV criteriosa; monitorar hematócrito.
- COVID-19 / Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P): Febre persistente > 5 dias + inflamação multissistêmica + PCR/VHS elevados em criança com exposição ao SARS-CoV-2: SIM-P. Ecocardiograma obrigatório (risco de aneurisma coronariano).
7. Doenças Dermatológicas e Alérgicas — 4 a 7%
⚠ Triagem estratificada — não classificar toda a categoria com a mesma cor
- VERMELHO — Anafilaxia: adrenalina IM 0,01 mg/kg (1 mg/mL; máx. 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adolescente) no vasto lateral imediatamente, repetindo em 5–15 min se necessário. Anti-histamínico e corticoide são adjuvantes — nunca substitutos.
- AMARELO — Urticária aguda isolada: anti-histamínico de 2ª geração. Investigar desencadeante. Afastar anafilaxia antes de classificar como AMARELO.
- AMARELO — Exantemas: diferenciar escarlatina, roseola, sarampo, dengue, meningococcemia. Petéquias com febre = VERMELHO.
8. Doenças Urológicas e Renais — 2 a 5%
- Infecção do trato urinário (ITU): Urocultura antes do antibiótico. USG renal e de vias urinárias pós-primeiro episódio em < 2 anos e em meninos de qualquer idade. Sinais de pielonefrite (febre alta, dor lombar, calafrios) = LARANJA.
- Síndrome Hemolítico-Urêmica (SHU): Tríade: anemia hemolítica microangiopática + plaquetopenia + insuficiência renal aguda. Pós-diarreia por E. coli O157:H7. Suporte: diálise se indicada. Evitar antibióticos e antidiarreicos (aumentam liberação de toxina Shiga).
- Cólica nefrética / Litíase: Incomum em crianças; investigar causas subjacentes: hipercalciúria idiopática, acidose tubular renal, hiperoxalúria. Analgesia + hidratação. USG como primeira imagem.
9. Emergências Metabólicas — 2 a 4%
- Cetoacidose Diabética (CAD): pH < 7,3 ou bicarbonato < 18 + glicose > 200 mg/dL + cetonemia/cetonúria (ISPAD 2022). Hidratação criteriosa (evitar bolus excessivos) — risco de edema cerebral, a complicação mais temida (manitol 0,5–1 g/kg ou salina 3% 2,5–5 mL/kg IV em 10–15 min — ISPAD 2022). Insulina apenas após 1h de hidratação e K⁺ ≥ 3,5 mEq/L. Monitorar neurológico a cada 30 min.
- Hipoglicemia: Glicemia < 60 mg/dL (ou < 45 em neonatos): glicose IV imediata — a partir de 1 mês, 0,5–1 g/kg (SG 25% 2–4 mL/kg, ou SG 10% 5–10 mL/kg em veia fina); no RN, SG 10% 2 mL/kg (MS, Protocolo SAMU 192); depois, infusão contínua de SG 10%. Investigar causa: hiperinsulinismo, insuficiência suprarrenal, erros inatos do metabolismo.
- Distúrbios eletrolíticos graves: Hiponatremia sintomática (convulsão, rebaixamento): salina 3% 2 mL/kg IV em 10–15 min (máx. 100 mL por bolus), repetida até 3 vezes conforme os sintomas (NICE NG29; SEUP; padrão do site — ver "Distúrbios hidroeletrolíticos"). Correção lenta da hiponatremia crônica (≤ 10 mEq/L/24h) para evitar mielinólise pontina central.
10. Emergências Neonatais e Perinatais — 3 a 6%
O recém-nascido e o lactente jovem apresentam fisiologia radicalmente diferente das demais faixas etárias: margens estreitas de compensação, sinais clínicos inespecíficos e rápida deterioração. É a área de maior insegurança entre recém-formados — acionar neonatologia precocemente é sempre a conduta correta quando há dúvida.
Principais condições:
- Icterícia neonatal patológica: Bilirrubina total acima do limiar de fototerapia pela curva de Bhutani (conforme IG e horas de vida). Afastar incompatibilidade ABO/Rh, deficiência de G6PD. Fototerapia intensiva; exsanguineotransfusão se encefalopática ou nível crítico.
- Sepse neonatal precoce (< 72h) e tardia (> 72h): RN com febre (axilar ≥ 37,5 °C; retal ≥ 38 °C) ou hipotermia < 36°C: sepse até prova contrária. Hemocultura + punção lombar (se estável) + ATB empírico imediato (ampicilina + gentamicina para precoce; oxacilina + amicacina para tardia nosocomial). Jamais postergar ATB.
- Apneia do prematuro: Pausas ≥ 20s ou acompanhadas de bradicardia/dessaturação. Monitorização contínua obrigatória. Cafeína (citrato) como primeira linha farmacológica. CPAP nasal se recorrente.
- Hipoglicemia neonatal: Glicemia < 45 mg/dL em RN de termo; < 50 mg/dL em prematuros. Glicose IV imediata (SG 10% 2 mL/kg bolus). Investigar: RN GIG (hiperinsulinismo), PIG (reservas reduzidas), filho de mãe diabética.
- Desconforto respiratório neonatal: Taquipneia transitória, síndrome do desconforto respiratório (SDR por deficiência de surfactante), pneumonia neonatal e pneumotórax compõem o diagnóstico diferencial. Escore de Silverman-Andersen para gravidade. Surfactante exógeno nos prematuros com SDR.
- Enterocolite necrosante (NEC): Prematuros: distensão abdominal, resíduo gástrico bilioso, hematoquezia. Radiografia: pneumatose intestinal ou gás portal = NEC avançada. Dieta zero + ATB + cirurgia se perfuração.
Guia de Prioridade de Estudo — Recomendação para Médicos Recém- Formados A ordem abaixo reflete a combinação entre frequência de atendimento, potencial de morbimortalidade e necessidade de decisão imediata:
1º Emergências Respiratórias — reconhecer insuficiência respiratória iminente salva mais vidas do que qualquer outro conhecimento isolado.
2º Febre e Triagem — estratificar risco febril evita tanto o subtratamento quanto o supertratamento. Dominar o semáforo NICE/AAP.
3º Emergências Neurológicas (EME e TCE) — segundos fazem diferença.
Memorizar o protocolo escalonado do EME.
4º Sepse / Infecções Graves — o protocolo de 1 hora salva vidas. Memorizar os Critérios de Phoenix 2024.
5º Trauma e Maus-Tratos — ABCDE do trauma pediátrico, PECARN para TCE e reconhecimento de maus-tratos com notificação compulsória.
6º Gastrointestinal / Desidratação — classificação e tratamento da desidratação é competência básica inegociável.
7º Anafilaxia — adrenalina IM imediata. Não hesitar, não esperar anti-histamínico. 8º CAD / Distúrbios Metabólicos — risco de edema cerebral na correção rápida. Protocolo rigoroso de hidratação.
9º Neonatal — RN doente tem margens estreitíssimas. Acionar neonatologia precocemente. Não subestime sintomas vagos no neonato.
10º ITU e Doenças Alérgicas — frequentes, manejo protocolar, bom prognóstico quando bem conduzidas.
Complemento formativo recomendado: cursos PALS (Pediatric Advanced Life Support, AHA/AAP 2025) e ATLS são fortemente recomendados para o médico que atua em urgência/emergência pediátrica. Consulte SBP, ACEP e AHA para calendário de cursos.
11. Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Febre — limiar e triagem | Axilar ≥ 37,5 °C (padrão do site) | AIDPI: sinais gerais de perigo | ≥ 38 °C; febre 8–60 dias (CPG 2021) | ≥ 38 °C; semáforo NG143 (2021) | Triângulo de avaliação (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Sepse — definição e ATB | Phoenix ≥ 2 (DC nº 133/2024) | AIDPI: 1ª dose antes de referir (2017) | Sem diretriz própria localizada | Risco por sinais; ATB em 1 h no alto risco (NG254, 2025) | Phoenix; 1ª h no choque (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Alerta eletrônico (Boston Children's) | Seguem o NICE |
| Choque — fluido | 10–20 mL/kg balanceado (DC nº 7/2021) | 20 mL/kg (SAMU 2016) | 10–20 mL/kg com reavaliação (AHA/AAP 2025) | 10 mL/kg, máx. 250 mL (NG254) | 10–20 mL/kg (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Desidratação grave | Plano C 30 + 70 mL/kg (GPA 2023) | Igual (2023) | Sem diretriz própria localizada | Bolus 10 mL/kg (NG29) | 20 mL/kg/h isotônico (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Engasgo ≥ 1 ano | Heimlich direto (GPA nº 222/2025) | Heimlich (SAMU 2016) | 5 golpes + 5 abdominais (AHA/AAP 2025) | RCUK 2025: golpes, depois abdominais | 5 golpes + 5 abdominais (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | RCUK 2025 |
| Hiponatremia sintomática | Sem posição localizada | Sem posição localizada | Sem posição localizada | 2,7% 2 mL/kg, máx. 100 mL (NG29) | 3% 2 mL/kg em 10–15 min (SEUP) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Anafilaxia | Adrenalina IM 0,01 mg/kg (GPA nº 6/2021) | Sem posição específica localizada | Adrenalina IM 1ª linha (relatório clínico 2017) | Adrenalina IM; observação 2/6/12 h (NG258, 27/05/2026) | Adrenalina IM (protocolos SEUP) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
Leitura: as referências concordam no reconhecimento clínico precoce (aparência, perfusão, esforço respiratório), no antibiótico precoce no choque séptico, nos bolus pequenos com reavaliação, na adrenalina IM como primeira medida da anafilaxia e na salina hipertônica em bolus na hiponatremia sintomática. Divergem: no limiar de febre (37,5 °C axilar no Brasil × 38 °C no NICE e na AAP); na definição de sepse (Phoenix 2024 pela SBP e pela SEUP; o NICE NG254 estratifica por sinais clínicos); no volume do bolus (10 mL/kg no NICE; 10–20 mL/kg na SBP, AHA/AAP e SEUP; 20–30 mL/kg nos planos brasileiros de desidratação e no SAMU); no engasgo a partir de 1 ano (Heimlich direto pela SBP 2025 × golpes nas costas alternados com compressões abdominais pela AHA/AAP 2025, RCUK e SEUP — o site cita as duas condutas). Posição do site: a SBP onde ela se manifesta (Phoenix; febre ≥ 37,5 °C; Plano C; anafilaxia; engasgo); sem SBP, o Ministério da Saúde (AIDPI, SAMU 192, glicose 0,5–1 g/kg a partir de 1 mês); sem ambos, a melhor referência internacional dita em cada linha (Surviving Sepsis Campaign 2026 no manejo da sepse; NICE NG29/SEUP na hiponatremia; AHA/AAP 2025 na reanimação).
12. Referências Bibliográficas
Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Proposta da SBP para inclusão dos pediatras na atenção básica — os números da morbidade (apresentação ao Ministério da Saúde). PDF
Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) — DATASUS. Internações pediátricas 2010–2024.
Revista Eletrônica Acervo Saúde. Análise das principais urgências e emergências pediátricas no Brasil entre 2020 e 2023. 10/03/2026. acervomais.com.br
Brazilian Journal of Health Review. Causas de hospitalização em crianças de 0 a 9 anos no Brasil: uma década de análise com base no SIH/SUS (2013–2024). 2025;8(5). BJHR
Kuppermann N, Holmes JF, Dayan PS, et al. Identification of children at very low risk of clinically-important brain injuries after head trauma: a prospective cohort study (PECARN). Lancet. 2009;374(9696):1160–1170.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Fever in under 5s: assessment and initial management. NICE Guideline NG143. London: NICE; 2021. Sociedad Española de Urgencias de Pediatría (SEUP). Protocolos diagnósticos y terapéuticos en urgencias de pediatría. 4ª ed. Madrid: SEUP; 2024.
Schlapbach LJ, Watson RS, Sorce LR, et al. International Consensus Criteria for Pediatric Sepsis and Septic Shock. JAMA. 2024;331(8):665–674. Weiss SL, Peters MJ, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign International Guidelines for the Management of Septic Shock and Sepsis-Associated Organ Dysfunction in Children. Pediatr Crit Care Med. 2020;21(2):e52–e106.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Toxicologia. Intoxicações agudas por medicamentos de uso comum em pediatria. Documento Científico nº 1, fevereiro de 2018. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para Diagnóstico e Tratamento de Intoxicações por Agrotóxicos — Capítulo 2: Inibidores de Colinesterase. Portaria Conjunta nº 79, de 14/12/2018. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Intravenous fluid therapy in children and young people in hospital. NG29, 2015 (atualizada 2020).
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Radhakrishnan L, Carey K, Hartnett KP, et al. Pediatric Emergency Department Visits Before and During the COVID-19 Pandemic — United States, January 2019–January 2022. MMWR. 2022;71(8):313–318. doi:10.15585/mmwr.mm7108e1
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