Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Síndrome de Alagille e inibidores do IBAT

Diretriz SBP nº 22 (23/01/2026) comparada com Ministério da Saúde, AAP/NASPGHAN, NICE, AEP/SEGHNP, Johns Hopkins, Harvard (Boston Children's), Oxford e Cambridge; FDA, EMA e Itália como contexto.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e as outras oito referências do site — Ministério da Saúde, AAP, NICE, AEP, Johns Hopkins, Harvard (Boston Children's), Oxford e Cambridge —, com versão e data de cada documento consultado; outras fontes aparecem como contexto. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A Diretriz SBP nº 22 posiciona os inibidores do transportador ileal de ácidos biliares (IBATs: maralixibate, odevixibate) como primeira terapia on-label capaz de modificar a história natural da síndrome de Alagille (ALGS) e pede sua incorporação ao SUS. Isso converge com FDA/EMA, Itália e Espanha; diverge do Reino Unido (NICE sem recomendação; Escócia só após falha do cuidado padrão) e vai além do que AAP/NASPGHAN e Johns Hopkins publicaram, que ainda não incorporam IBATs em documentos formais.

1.O que a SBP recomenda

Documento: Diretriz SBP nº 22, 23/01/2026, 13 p., ISBN 978-85-88520-68-4. DCs de Hepatologia e Gastroenterologia (Porta, Carvalho, Rocha, Melere, Miura, Vieira). Método: reunião consultiva de hepatologistas pediátricos (ago/2025, SP) com síntese temática; reunião patrocinada pela Biopas (declarado no documento). Não é diretriz GRADE.

Diagnóstico

  • ≥3 de 7 critérios clássicos (colestase crônica, cardiopatia/estenose pulmonar periférica, vértebra em borboleta, embriotóxon posterior, fácies, alterações renais, vasculares); com história familiar bastam 2.
  • Ductopenia é sugestiva, mas costuma aparecer só após 6 meses; proliferação ductular precoce pode simular atresia biliar.
  • Encaminhar ao gastro/hepatologista pediátrico diante de colestase persistente e/ou ductopenia.
  • Ácidos biliares séricos e painel JAG1/NOTCH2 não estão disponíveis no SUS.

Tratamento atual no Brasil

  • Tudo off-label: UDCA, rifampicina, colestiramina, naltrexona, sertralina, anti-histamínicos; nenhum fornecido pelo SUS para ALGS.
  • Vitaminas lipossolúveis em formulação hidrossolúvel e fórmulas com TCM: acesso restrito.
  • Derivação biliar em poucos centros; transplante indicado inclusive por prurido intratável com função hepática preservada (15–47% dos pacientes).

IBATs — critérios de indicação (Quadro 4 da diretriz)

Tópico Recomendação SBP
Critério principal Prurido colestático
Marcador complementar Ácidos biliares séricos, quando disponíveis (útil em sintomas leves com colestase bioquímica)
Maior benefício Colestase evidente, prurido intenso, xantomas, progressão hepática sem cirrose estabelecida
Momento Introdução precoce, para prevenir atraso de crescimento e hipertensão portal; pode postergar ou evitar transplante
Monitoramento Prurido, sono, crescimento, qualidade de vida; ácidos biliares quando possível
Ajuste de dose Se sem melhora clínica ou sem queda de ácidos biliares
Eventos adversos Diarreia, dor abdominal, alteração de transaminases/bilirrubinas → suspensão temporária ou definitiva se persistentes
Continuidade Manter mesmo após melhora clínica (ganho em crescimento linear e peso)
Transição Adicionar ao esquema vigente e retirar gradualmente os off-label

A diretriz não especifica doses, idades mínimas nem nomeia produtos; enquadra os IBATs como "primeira opção terapêutica on-label capaz de mudar o curso natural da ALGS" e pede avaliação por instâncias de política pública (CONITEC).

2.Posição das demais referências

Nenhuma das referências tem diretriz específica de ALGS e IBATs comparável à da SBP; a comparação usa os documentos mais próximos de cada uma. Órgãos regulatórios e outras sociedades aparecem como contexto.

Referência Documento, versão e data Posição resumida
Ministério da Saúde Caderneta da Criança, 7ª ed., 2024; sem PCDT de colestase ou de síndrome de Alagille e sem avaliação da Conitec dos IBATs localizada (consulta em 10/2026) Família orientada a procurar o serviço com urgência se a icterícia durar mais de duas semanas ou se as fezes ficarem claras, quase brancas ou cinzentas (escala de cores na Caderneta), para descartar cedo a atresia de vias biliares. Nenhum IBAT incorporado ao SUS; maralixibate fora da RENAME; acesso por via privada ou judicial.
AAP / NASPGHAN NASPGHAN, Guideline for the evaluation of cholestatic jaundice in infants, 2004 (endossada pela AAP); NASPGHAN/ESPGHAN 2017 (não aberta) Investigar icterícia aos 14 dias (21 dias se aleitamento exclusivo e exame normal); colestase = bilirrubina direta > 1,0 mg/dL; avaliação pelo gastroenterologista pediátrico. Sem policy statement sobre IBATs. Revisão da AASLD (Liver Fellow Network, 2022): medicamentos off-label (UDCA, colestiramina, anti-histamínicos, naltrexona, rifampicina) e IBATs; transplante por prurido intratável, disfunção sintética ou falha de crescimento.
NICE Maralixibate em ALGS, ID3941 e odevixibate em ALGS, ID6181 — em desenvolvimento; HST17, odevixibate na PFIC (2022); CG98 Jaundice in newborn babies under 28 days (19/05/2010, atualizada em 31/10/2023) Rascunho de 2024: maralixibate não recomendado em ALGS (custo-efetividade acima do limiar); sem TA final até 10/2026. Odevixibate recomendado só na PFIC a partir de 6 meses. CG98: icterícia > 14 dias no termo (> 21 dias no pré-termo) → procurar fezes claras e urina escura e dosar bilirrubina conjugada; > 25 µmol/L → especialista.
AEP / SEGHNP Consenso SEGHNP-AEPap-SEPEAP, Valoración y manejo de la colestasis, An Pediatr 2025 Dosar bilirrubina se icterícia > 15 dias (fórmula) ou > 21 dias (aleitamento materno); prurido: 1ª linha UDCA e cuidados com a pele; 2ª linha rifampicina e colestiramina; IBATs como 3ª etapa (maralixibate em ALGS a partir de 2 meses; odevixibate na PFIC a partir de 6 meses).
Johns Hopkins Alagille syndrome, página educativa (2020) Diagnóstico por biópsia e ≥ 3 critérios; tratamento genérico (coleréticos, antipruriginosos, vitaminas, derivação biliar, transplante). Não cita IBATs.
Harvard (Boston Children's) Alagille syndrome, página institucional do Boston Children's Hospital (consultada em 10/2026) Tratamento para aumentar o fluxo biliar (UDCA), anti-histamínicos e outros medicamentos para o prurido, suplementos para absorção de gorduras e vitaminas A, D, E e K; 10–30% evoluem para doença hepática avançada e transplante. Não cita IBATs.
Oxford Sem protocolo local aberto Segue o NICE (sem recomendação final para IBATs na ALGS).
Cambridge Sem protocolo local aberto Segue o NICE (sem recomendação final para IBATs na ALGS).

Outras fontes (contexto)

Referência Documento, versão e data Posição resumida
FDA (EUA) Livmarli — bula FDA; Bylvay Maralixibate em ALGS a partir de 3 meses (2023), 190 → 380 mcg/kg/dia, máx. 28,5–30 mg; TGO/TGP/bilirrubina/INR no início e nos primeiros 6–8 meses; vitaminas A, D e E. Odevixibate em ALGS a partir de 12 meses (2023), 120 mcg/kg/dia.
EMA (Europa) Livmarli EPAR; Bylvay EPAR; Kayfanda (2024) Maralixibate em ALGS a partir de 2 meses (2022); odevixibate (Kayfanda) em ALGS a partir de 6 meses, 120 mcg/kg/dia (set/2024).
SIP / SIGENP (Itália) Sciveres et al., Pediatric Reports 2026; AIFA, jan/2026 Odevixibate 120 e maralixibate 380 mcg/kg/dia; resposta = queda ≥ 70% dos ácidos biliares ou ≤ 70 µmol/L; IBATs como alternativa à derivação biliar. SSN reembolsa os dois. Sem diretriz formal da SIP.
Escócia (SMC) SMC 2806, dez/2025 Maralixibate aceito a partir de 2 meses somente após falha do cuidado padrão.
ANVISA (Brasil) Livmarli — novo registro, DOU 13/01/2025; odevixibate (Bylvay) Maralixibate: prurido colestático na ALGS a partir de 2 meses (registro publicado em 13/01/2025). Odevixibate: PFIC a partir de 6 meses (2023) e ALGS a partir de 12 meses (dez/2024).

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford Cambridge Veredito
Diagnóstico clínico ≥ 3 de 7 critérios; 2 com história familiar Sem posição específica localizada NASPGHAN: mesmos critérios Sem diretriz clínica de ALGS SEGHNP 2025: mesmos critérios Biópsia e ≥ 3 critérios Biópsia pode ser necessária Segue o NICE Segue o NICE Concordância
Icterícia prolongada (porta de entrada) Investigar colestase (documento SBP de 2024) > 2 semanas ou fezes claras → serviço com urgência (Caderneta 2024) 14 dias (21 se aleitamento); BD > 1,0 mg/dL > 14 dias (termo) / > 21 (pré-termo): fezes, urina, bilirrubina conjugada (CG98) > 15 dias (fórmula) / > 21 (aleitamento) Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE Segue o NICE Concordância; só a janela varia (14–21 dias)
Lugar dos IBATs 1ª terapia específica on-label do prurido colestático Não incorporados ao SUS Sem posição da AAP; AASLD 2022 inclui IBATs Maralixibate não recomendado (rascunho 2024) 3ª etapa, após UDCA e rifampicina/colestiramina Não cita Não cita (UDCA, anti-histamínicos) Segue o NICE Segue o NICE Discordância: SBP, FDA, EMA e Itália × NICE, Escócia e Espanha
Idade mínima e dose Não define Bula ANVISA: maralixibate ≥ 2 meses FDA: maralixibate ≥ 3 meses (190 → 380 mcg/kg/dia); odevixibate ≥ 12 meses (120) — Maralixibate ≥ 2 meses (EMA) Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE Segue o NICE Lacuna da SBP; usar a bula ANVISA
Monitoramento Clínico; ácidos biliares quando possível Sem posição específica localizada FDA: enzimas, bilirrubina e INR no início e por 6–8 meses — — Sem posição específica localizada Vitaminas lipossolúveis Segue o NICE Segue o NICE Concordância parcial: SBP sem periodicidade nem alvo
Transplante Prurido intratável mesmo com função preservada Sem posição específica localizada AASLD: prurido intratável, disfunção sintética, falha de crescimento — Doença avançada Transplante entre as opções 10–30% precisam Segue o NICE Segue o NICE Concordância
Acesso público Pede incorporação ao SUS Sem incorporação; via judicial Seguradoras (EUA) Sem cobertura na Inglaterra SNS: IBATs após falha — — Sem cobertura (NICE) Sem cobertura (NICE) Maior discordância entre sistemas

Leitura: todas as referências concordam nos critérios diagnósticos, na porta de entrada (icterícia que passa de 2 semanas ou fezes claras exige avaliação com urgência — inclusive na Caderneta da Criança do Ministério da Saúde), no perfil de eventos adversos e nas indicações de transplante; ninguém contesta a eficácia dos IBATs no prurido e nos ácidos biliares. A divergência é sobre o lugar dos IBATs: a SBP, como FDA, EMA e Itália, os trata como primeira terapia específica; a Espanha e a Escócia os deixam para depois da falha do UDCA, da rifampicina e da colestiramina; o NICE ainda não os recomenda, por custo. Johns Hopkins e Boston Children's ainda descrevem só o tratamento clássico. O Ministério da Saúde não tem protocolo nem decisão da Conitec. O site segue a SBP (IBAT como primeira terapia específica, pelo especialista), com a idade e a dose da bula ANVISA; o leitor deve saber que, fora do Brasil, a sequência mais comum ainda começa pelos medicamentos off-label.

4.Síntese

Converge: critérios diagnósticos, momento de investigar a colestase, perfil de eventos adversos e indicações de transplante são os mesmos em todas as fontes. A eficácia dos IBATs no prurido, nos ácidos biliares e na sobrevida sem transplante (ICONIC, GALA) não é contestada por nenhuma referência.

Diverge: o lugar dos IBATs na sequência terapêutica. A SBP, como FDA, EMA e AIFA, os trata como primeira terapia específica; SEGHNP e SMC os colocam após falha de UDCA/rifampicina/colestiramina; o NICE ainda não os recomenda por custo-efetividade. A divergência é econômica, não clínica.

Lacunas da SBP em relação às referências: sem dose, idade mínima, periodicidade de exames, alvo bioquímico de resposta nem critério de falha terapêutica — itens que bulas, FDA e o grupo italiano definem. Quem prescreve precisa complementar com a bula ANVISA.

Observação crítica

A diretriz nasceu de reunião patrocinada pela Biopas (distribuidora de maralixibate no Brasil), o que ela declara; nenhuma das referências que restringem o uso (NICE, SMC) tem esse vínculo. AAP, Johns Hopkins e Boston Children's não têm documento atualizado sobre IBATs — a SBP está à frente delas neste tema.

5.Fontes