Reumatologia pediátrica · Síndromes Inflamatórias e Autoinflamatórias

Síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P / MIS-C)

Definições do MS/OMS e do CDC 2023, suspeita no consultório, diferencial com Kawasaki e sepse, tratamento imunomodulador com doses e seguimento cardiológico, segundo SBP 2020, ACR 2022 e o consenso espanhol de 2021

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P, ou MIS-C) é uma resposta imune tardia ao SARS-CoV-2: aparece 2 a 6 semanas após a infecção, muitas vezes assintomática, com febre persistente, dor abdominal, vômitos e diarreia, exantema, conjuntivite não purulenta e acometimento cardíaco em cerca de 80% dos casos (SBP 2020) — disfunção ventricular, choque e alterações coronárias. Ficou rara desde 2022, mas a letalidade no Brasil foi de 6,9% (MS). Não há SIM-P leve para casa: criança com febre após COVID-19 ou contato e sinais de mais de um sistema vai ao pronto-socorro no mesmo dia (🟡) e, se houver choque, taquicardia desproporcional, hipotensão, dor abdominal intensa ou prostração, imediatamente, pelo SAMU (🔴). Só a criança em bom estado, sem sinais de órgão e sem inflamação laboratorial fica em casa, com reavaliação em 24–48 h (SBP 2020). O tratamento é hospitalar: imunoglobulina IV 2 g/kg e metilprednisolona, anakinra nos refratários, AAS em dose baixa e anticoagulação conforme o risco. A SIM-P é de notificação obrigatória (compulsória).

1.O que é e como se apresenta

Conceito. Condição pós-infecciosa e hiperinflamatória, imunomediada, com sobreposição com a doença de Kawasaki, o choque tóxico e a síndrome de ativação macrofágica (SBP 2020); sintomas respiratórios podem faltar (MS 2024).

Epidemiologia no Brasil (MS, Boletim COE nº 162/2024): casos confirmados — 743 em 2020, 868 em 2021, 448 em 2022, 76 em 2023 e 16 em 2024 (até a SE 18); letalidade de 5% a 9% ao ano. Predomínio masculino (58%) e da faixa de 1 a 4 anos (38% dos casos). O MS atribui a queda à ômicron e à vacinação pediátrica.

Quadro clínico (SBP 2020; MS 2024):

  • Febre persistente (em geral ≥ 3 dias) e prostração.
  • Gastrointestinal (muito frequente): dor abdominal, às vezes simulando apendicite, vômitos, diarreia.
  • Mucocutâneo: conjuntivite não purulenta, exantema, lábios fissurados, língua em framboesa, edema de mãos e pés (Kawasaki completo ou incompleto).
  • Cardiovascular: taquicardia desproporcional, hipotensão, choque, disfunção ventricular, pericardite, arritmias, dilatação ou aneurisma coronário.
  • Neurológico e outros: cefaleia, sonolência, convulsão; lesão renal aguda, hepatite, serosites.

Definições de caso (para notificação e vigilância — não para atrasar o tratamento):

Item Ministério da Saúde (2020, base OPAS/OMS) CDC/CSTE (vigente desde 01/01/2023)
Idade Até 19 anos < 21 anos
Febre > 38 °C e persistente (≥ 3 dias) ≥ 38,0 °C, referida ou medida
Gravidade Hospitalizado Hospitalização ou óbito
Inflamação VHS, PCR ou procalcitonina elevadas PCR ≥ 3,0 mg/dL (30 mg/L)
Órgãos ≥ 2 de: mucocutâneo; hipotensão ou choque; disfunção miocárdica, pericardite, valvulite ou coronárias (eco, troponina, NT-proBNP); coagulopatia (TP, TTPa, D-dímero); gastrointestinal ≥ 2 de: cardíaco (FEVE < 55%, coronárias ou troponina elevada); mucocutâneo; choque; gastrointestinal; hematológico (plaquetas < 150.000 ou linfócitos < 1.000/µL)
SARS-CoV-2 RT-PCR, antígeno ou sorologia positivos, ou contato com caso RT-PCR ou antígeno até 60 dias antes ou durante a internação, anticorpos, ou contato próximo nos 60 dias anteriores
Exclusão Outras causas infecciosas e inflamatórias (sepse, choque estafilocócico ou estreptocócico) Diagnóstico alternativo mais provável

O MS admite casos com Kawasaki ou choque tóxico completos ou parciais. Os limiares de 38 °C são das definições de caso; na rotina do site, febre é temperatura axilar ≥ 37,5 °C.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Febre após COVID-19 ou contato, bom estado geral, sinais vitais normais, sem sinais de órgão (sem dor abdominal importante, exantema, conjuntivite, edema) e, se feitos, exames sem inflamação Casa, antitérmico do padrão do site, reavaliação em 24–48 h (SBP 2020) e sinais de alerta por escrito; febre que persiste ou sinal novo = 🟡
🟡 Moderada Suspeita de SIM-P: febre persistente com ≥ 1 sinal de órgão (gastrointestinal, mucocutâneo, Kawasaki completo ou parcial) após COVID-19 ou contato, com sinais vitais normais e boa perfusão Pronto-socorro no mesmo dia (cardio-pediatria e UTI disponíveis) para exames, ECG e eco; interna se houver critério (abaixo); notificação obrigatória (compulsória)
🔴 Grave Choque ou má perfusão, hipotensão, taquicardia desproporcional, galope, hepatomegalia, arritmia; desconforto respiratório, SpO2 < 92%; sonolência, convulsão, déficit focal; dor abdominal intensa, vômitos incoercíveis, desidratação; oligúria; sangramento Pronto-socorro imediatamente, pelo SAMU (192), com estabilização (ver "Como encaminhar"); UTI pediátrica

Critérios de internação (SBP 2020): além dos sinais 🔴, Kawasaki completo ou parcial, lesão renal ou hepática, coagulopatia, doença de base de risco, impossibilidade de seguimento, PCR > 10 mg/dL, ECG alterado ou enzima miocárdica elevada.

Fatores que elevam a gravidade

  • Choque, disfunção ventricular, troponina e NT-proBNP muito elevados, linfopenia e plaquetopenia acentuadas, ferritina muito alta (ativação macrofágica).
  • Risco de trombose: idade > 12 anos, UTI, cateter central, D-dímero > 5 vezes o normal (ACR 2022).
  • Doença de base (cardiopatia, pneumopatia, imunodeficiência, doença autoimune, neoplasia, imunossupressor — SBP 2020); demora no diagnóstico.

3.Diagnóstico no consultório

O que é clínico: a suspeita. Pergunte por COVID-19 ou contato nas últimas 6 semanas, vacinação, dias de febre, sintomas gastrointestinais, manchas, olhos vermelhos, sonolência e diurese. Exame: FC (taquicardia desproporcional é alarme), PA, enchimento capilar, SpO2, galope, fígado, sinais de Kawasaki, abdome e consciência.

Exames — quando e quais (no serviço de urgência; nunca atrasar o encaminhamento do caso grave). O ACR 2022 propõe dois níveis:

  • Nível 1 (triagem): hemograma com diferencial, PCR, VHS, eletrólitos, função renal e hepática, albumina, RT-PCR ou antígeno e sorologia para SARS-CoV-2. Prossegue para o nível 2 quem tem VHS e/ou PCR elevadas e ≥ 1 achado sugestivo: linfopenia, neutrofilia, plaquetopenia, hiponatremia ou hipoalbuminemia.
  • Nível 2: ECG, ecocardiograma, troponina, BNP/NT-proBNP, D-dímero, coagulograma, ferritina, procalcitonina, LDH, esfregaço periférico; hemoculturas; urina tipo 1; radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome conforme o quadro.

Diagnóstico diferencial que não pode passar:

  • Sepse e choque tóxico: toda SIM-P moderada ou grave colhe hemocultura e recebe antibiótico até a exclusão (SBP 2020).
  • Doença de Kawasaki: em geral abaixo de 5 anos, sem choque nem dor abdominal predominante, com plaquetose na fase subaguda; a SIM-P tem mais choque, disfunção ventricular, linfopenia e plaquetopenia, sintomas gastrointestinais e faixa etária mais ampla (ACR 2022). Quem preenche critérios de Kawasaki recebe imunoglobulina de qualquer forma.
  • Apendicite, miocardite viral, dengue, febre maculosa, sarampo, adenovírus; ativação macrofágica, lúpus, leucemia (citopenias, blastos), DRESS.

4.Tratamento e seguimento

Do especialista e do hospital: a decisão é multidisciplinar. Abordagem escalonada: imunoglobulina IV e corticoide em dose baixa a moderada na maioria dos internados; imunoglobulina isolada ou só monitorização em casos leves selecionados (ACR 2022). O suporte segue o documento de Sepse: na hipotensão, adrenalina em infusão contínua é a droga inicial (SBP 2020), 0,05–1 mcg/kg/min titulada (padrão do site); dobutamina ou milrinona na disfunção ventricular com PA adequada (SBP 2020). Antiviral não tem papel estabelecido (SBP 2020).

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
Imunoglobulina IV 2 g/kg pelo peso ideal (máx. 100 g) Dose única, infusão de cerca de 12 h; com disfunção cardíaca ou instabilidade, 1 g/kg/dia 1 dia (ou 2 dias, se dividida) ACR 2022; AEP 2021; SBP 2020 (1–2 g/kg em 12 h, repetível no refratário); vigiar sobrecarga de volume
Metilprednisolona (dose baixa a moderada) 1–2 mg/kg/dia IV Diária Até a melhora; depois prednisolona oral com desmame em 2–3 semanas ou mais, guiado por clínica e exames ACR 2022; AEP 2021. SBP 2020: só nos graves ou refratários
Metilprednisolona (pulso) 10–30 mg/kg/dia IV (máx. 1 g) 1 vez/dia 1–3 dias; depois 2 mg/kg/dia por 5 dias e desmame em 2–3 semanas Choque, vasopressor, disfunção ventricular ou refratário à 1ª linha (SBP 2020; ACR 2022; máx. 1 g — AEP 2021)
Anakinra > 4 mg/kg/dia IV ou SC Conforme o serviço Conforme a resposta Refratário ou ativação macrofágica (ACR 2022); AEP 2021: 2–8 mg/kg/dia, máx. 400 mg; SBP 2020: reumatologista. Anvisa 07/2026 (Still, CAPS, FMF): MIS-C fora da bula
Infliximabe 5–10 mg/kg IV Dose única — Refratário (ACR 2022)
Ácido acetilsalicílico (AAS) 3–5 mg/kg/dia (máx. 80 mg/dia) 1 vez/dia Até plaquetas normais e coronárias normais com ≥ 4 semanas do diagnóstico ACR 2022 (máx. 81 mg); SBP 2020 (máx. 80 mg), só com Kawasaki ou plaquetas ≥ 450.000/µL; evitar se plaquetas ≤ 80.000/µL (SBP 2020; ACR 2022); preferir o comprimido de 81 mg, e o de 100 mg é aceitável acima de 20 kg (decisão do site); ver nota abaixo
Enoxaparina Dose terapêutica, alvo anti-Xa 0,5–1,0 Conforme o hematologista Trombose: 3 meses (ACR 2022); FE < 35%: até FE > 35% (ACR) e ≥ 2 semanas após a alta (SBP 2020) Aneurisma com escore z ≥ 10: AAS + enoxaparina, por tempo indefinido (SBP 2020); profilaxia nos demais conforme o risco (ACR 2022)
  • AAS na criança que preenche critérios de Kawasaki: a SBP 2020 e a AEP 2021 começam com 30–50 mg/kg/dia até 48 h sem febre e então 3–5 mg/kg/dia; o ACR 2022 usa só a dose baixa. Nesses casos, seguir o documento "Doença de Kawasaki" e o especialista.
  • Antibiótico empírico no choque ou sinais de sepse (SBP 2020: ceftriaxona com clindamicina foi a mais usada), conforme "Sepse e choque séptico na criança".
  • Não usar: AAS ou corticoide no consultório antes do diagnóstico; corticoterapia prolongada após a alta; ibuprofeno em choque, desidratação, lesão renal ou suspeita de dengue. Antitérmico: dipirona 15 mg/kg/dose ou paracetamol 10–15 mg/kg/dose (padrão do site), sem alternar.

O que o pediatra faz após a alta:

  • Acompanha o desmame do corticoide definido pelo especialista.
  • Mantém o AAS em dose baixa até a liberação pelo cardiologista; orienta contato se houver varicela ou influenza (síndrome de Reye).
  • Garante o seguimento cardiológico: ecocardiograma com 7–14 dias e 4–6 semanas (ACR 2022) e, se houve alteração, outros controles definidos pelo cardiologista; esporte só com liberação do cardiologista (após miocardite, 3–6 meses — SBC 2022).
  • Vacinas: inativadas no calendário; vivas injetáveis (tríplice viral, varicela) só 11 meses após imunoglobulina 1,6–2 g/kg (Manual dos CRIE 2023, Tabela 5); após corticoide imunossupressor, ver "Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE)". Vacina contra COVID-19 após SIM-P: decidir com o cardiologista.
  • Vigia recaída no desmame, sequelas emocionais e o retorno escolar.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Febre persistente após COVID-19 ou contato com qualquer sinal de órgão (gastrointestinal, mucocutâneo, Kawasaki) — mesmo dia.
  • Choque (taquicardia desproporcional, enchimento lento, extremidades frias, hipotensão, oligúria), galope, hepatomegalia, arritmia, SpO2 < 92%, alteração neurológica, dor abdominal intensa, desidratação — imediatamente.
  • Febre que persiste na reavaliação de 24–48 h da criança 🟢.

Como encaminhar

  1. Não atrasar o transporte por exames.
  2. Oxigênio para manter SpO2 entre 94% e 98%, evitando hiperóxia; posição de conforto.
  3. Choque ou má perfusão: SAMU (192), acesso venoso ou intraósseo; cristaloide em alíquotas de 10 mL/kg com reavaliação após cada uma — a disfunção miocárdica é frequente e a sobrecarga piora o quadro; parar se surgir hepatomegalia ou estertores (ver "Sepse e choque séptico na criança").
  4. Suspeita de sepse ou púrpura febril com remoção demorada: antibiótico conforme "Sepse e choque séptico na criança" (meningococcemia: ceftriaxona 100 mg/kg, máx. 4 g, IV ou IM).
  5. Não dar AAS, corticoide nem ibuprofeno; antitérmico conforme o padrão do site.
  6. Contato prévio com o serviço de destino (UTI pediátrica, ecocardiografia).
  7. Relatório: data da COVID-19 ou do contato, vacinação, dias de febre, sinais vitais, exames e medicamentos.
  8. Notificação obrigatória (compulsória) da SIM-P associada à COVID-19 (Lista Nacional, Portaria GM/MS nº 10.175/2026, item 58), em formulário do MS (REDCap), pelo serviço que atende.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Nas 6 semanas depois da COVID-19, febre que dura mais de 2–3 dias com dor de barriga, vômitos, manchas na pele ou olhos vermelhos precisa de avaliação no mesmo dia."
  • Pronto-socorro imediatamente se houver: respiração rápida ou difícil, palidez, pele fria ou manchada, lábios roxos, sonolência ou confusão, convulsão, dor de barriga forte, vômitos que não param, urina pouca ou ausente, coração disparado, desmaio.
  • Depois da alta: "O corticoide é reduzido aos poucos; não suspenda por conta própria. O AAS segue até o cardiologista liberar; se aparecer catapora ou gripe, ligue antes de dar a próxima dose. Os exames do coração de controle são indispensáveis."

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada Nota de Alerta, 07/08/2020 (DCs Infectologia, Reumatologia, Cardiologia, Terapia Intensiva e Emergência) Definição de caso 2020; Portaria GM/MS nº 10.175/2026; Boletim COE nº 162, abr. 2024 Orientação provisória, jul. 2020 (revisada em dez. 2020) Sem diretriz localizada Consenso SIM-PedS, An Pediatr 2021 Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Definição ≤ 19 anos, febre ≥ 3 dias, ≥ 2 sistemas (adota a do MS) Idem, base OPAS/OMS Descreve fenótipos (Kawasaki, choque, hiperinflamação) — Definições da OMS, CDC e RCPCH — — —
Exames Inflamação, coagulação, troponina, NT-proBNP, ECG e eco Vigilância via REDCap Eco, ECG, troponina, pró-BNP, D-dímero — Eco em todos — — —
Internação Critérios clínicos; PCR > 10 mg/dL; casa com reavaliação em 24–48 h se sem inflamação — Abordagem multidisciplinar — Estabilização em UTI no choque — — —
Imunomodulação IGIV 1–2 g/kg nos moderados e graves; MP com IGIV só nos graves ou refratários (pulso 10–30); biológico no refratário — IGIV, corticoide, anakinra — IGIV 2 g/kg; MP 1–2 mg/kg ou 30 mg/kg (máx. 1 g) — — —
AAS e anticoagulação AAS só se Kawasaki ou plaquetas ≥ 450.000: 30–50 → 3–5 mg/kg/dia (máx. 80); enoxaparina se z ≥ 10, trombose ou FE < 35% — Consulta à hematologia — AAS 30–50 → 3–5 por 6–8 semanas; HBPM se D-dímero ≥ 6 vezes — — —

Leitura: as referências convergem no essencial — síndrome pós-infecciosa, exclusão de sepse e Kawasaki, eco em todos, imunoglobulina com corticoide, anakinra nos refratários e seguimento cardiológico. Divergem na definição (MS/OMS até 19 anos e febre ≥ 3 dias; CDC 2023, apoio, < 21 anos e PCR ≥ 3 mg/dL), na imunoglobulina (SBP 1–2 g/kg; AEP e ACR 2022, apoio, 2 g/kg), no corticoide (SBP só nos graves ou refratários, em pulso; ACR e AEP 1–2 mg/kg/dia na maioria), no AAS (SBP só com Kawasaki ou plaquetose, iniciando com 30–50 mg/kg/dia, como a AEP; ACR, dose baixa em todos) e na heparina (AEP pelo D-dímero; SBP e ACR por trombose, função ventricular e coronárias). NICE, Johns Hopkins e Harvard sem documento localizado; a AAP só tem a orientação provisória de 2020. O site adota a definição do MS e a SBP na internação e na anticoagulação; no tratamento segue, como o documento de Cardiologia, o ACR 2022, com a SBP 2020 registrada como divergência (decisão pendente do Dr. Stefani).

Pontos práticos
  1. Febre persistente com dor abdominal, exantema ou conjuntivite nas 6 semanas após COVID-19 ou contato = pense em SIM-P e encaminhe ao pronto-socorro no mesmo dia.
  2. Taquicardia desproporcional, enchimento capilar lento ou hipotensão = choque: SAMU, oxigênio para SpO2 94–98% e alíquotas de 10 mL/kg com reavaliação.
  3. Sepse e Kawasaki são os grandes diferenciais: hemocultura e antibiótico até excluir sepse; quem preenche Kawasaki recebe imunoglobulina.
  4. Tratamento hospitalar: imunoglobulina 2 g/kg e metilprednisolona, pulso nos graves, anakinra nos refratários, AAS 3–5 mg/kg/dia (máx. 80 mg).
  5. Após a alta: desmame do corticoide, AAS até a liberação, eco com 7–14 dias e 4–6 semanas, vacinas vivas só 11 meses após a imunoglobulina.
  6. Notificação obrigatória (compulsória) de todo caso suspeito.

Veja também, nesta Biblioteca: Miocardite, pericardite e síndrome inflamatória multissistêmica (MIS-C) (Cardiologia); Doença de Kawasaki e Síndrome de ativação macrofágica e linfo-histiocitose hemofagocítica (HLH) (nesta área); Sepse e choque séptico na criança (Urgências); Febre prolongada e febre de origem indeterminada na criança (Infectologia); Trombose venosa e trombofilias na criança e no adolescente (Hematologia); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) e Guia Vacinal Completo (Imunizações); A pele como sinal de doença sistêmica na criança (Dermatologia).

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Infectologia, Reumatologia, Cardiologia, Terapia Intensiva e Emergência. Nota de Alerta — Notificação obrigatória no Ministério da Saúde dos casos de SIM-P potencialmente associada à COVID-19, 07/08/2020. PDF
  • Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 10.175, de 23/01/2026 — Lista Nacional de Notificação Compulsória (item 58, SIM-P associada à covid-19). bvsms.saude.gov.br
  • Ministério da Saúde, SVSA. Boletim Epidemiológico Especial COVID-19 nº 162 — Vigilância da covid-19 no Brasil, abril de 2024 (seção SIM-P). PDF
  • American College of Rheumatology. Henderson LA et al. Clinical Guidance for MIS-C Associated With SARS-CoV-2 and Hyperinflammation in Pediatric COVID-19, Version 3. Arthritis Rheumatol 2022;74(4):e1–e20. PMC
  • CDC/CSTE. Multisystem Inflammatory Syndrome in Children (MIS-C) — 2023 surveillance case definition. cdc.gov
  • American Academy of Pediatrics. MIS-C interim guidance, julho de 2020 (resumo). contemporarypediatrics.com
  • AEP/SECIP/SERPE e outras. García-Salido A et al. Documento español de consenso sobre diagnóstico, estabilización y tratamiento del SIM-PedS. An Pediatr 2021;94:116.e1–116.e11. analesdepediatria.org