Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.
1. Importância Do Tema
1.1 Epidemiologia e Relevância Clínica
A febre é o sintoma mais frequente que leva crianças a consultas médicas de urgência e emergência em todo o mundo. Representa, isoladamente, 20–30% de todas as consultas pediátricas de pronto-atendimento e é responsável por grande parte das prescrições de antibióticos em pediatria — muitas vezes desnecessárias. No Brasil, estima-se que cerca de 10 milhões de atendimentos pediátricos anuais tenham a febre como queixa principal. Na grande maioria dos casos (85–90%), a febre em crianças tem etiologia viral e evolução benigna e autolimitada. Entretanto, em uma fração clinicamente significativa — especialmente em lactentes jovens — pode representar o único sinal de uma Infecção Bacteriana Grave (IBG), como bacteremia, infecção do trato urinário (ITU), pneumonia, meningite, artrite séptica ou osteomielite. A identificação precisa desses casos é o desafio central do manejo da febre na infância.
A conduta inadequada — tanto o subtratamento (não reconhecimento de IBG) quanto o supertratamento (uso indiscriminado de antibióticos, exames desnecessários, internações evitáveis) — traz consequências significativas: aumento da morbimortalidade, resistência bacteriana, iatrogenias e aumento do custo em saúde.
1.2 Por Que o Manejo da Febre é um Tema Crítico
- A febre em neonatos (< 28 dias) é sempre emergência médica — risco de IBG > 10%
- Lactentes de 28–90 dias com febre têm risco de IBG de 5–10%, exigindo avaliação sistematizada e criteriosa
- O uso excessivo de antibióticos para febre viral é um dos principais fatores de resistência bacteriana em pediatria (OMS, 2023)
- A febre de si não causa dano cerebral — mas o medo da febre ('febrefobia') causa tratamentos desnecessários e ansiedade familiar
- O tratamento antitérmico tem como objetivo aliviar o desconforto da criança, não eliminar a febre como sinal clínico
- O conhecimento correto de doses, indicações e contraindicações dos antitérmicos é fundamental para a segurança do paciente
A temperatura per se não determina a gravidade — o ASPECTO CLÍNICO da criança é o principal preditor de IBG em todas as faixas etárias. Uma criança de 2 anos com febre de 40 °C e aspecto ótimo tem muito menor risco do que uma criança de 38,5 °C com aspecto tóxico. O sistema semáforo do NICE (NG143, 2019, atualizada em 2021) e a abordagem Step-by-Step (Gomez et al., Pediatrics 2016) foram construídos sobre esse princípio.
2. Avaliação Inicial Sistematizada
2.1 Definição de Febre — Como Medir Corretamente
A febre é definida como temperatura corporal acima do limiar fisiológico normal, determinado pelo setpoint hipotalâmico elevado por ação de pirógenos endógenos (IL-1β, IL-6, TNF-α, PGE₂). É importante distinguir febre de hipertermia: na febre, o setpoint está elevado e os mecanismos de termorregulação estão preservados; na hipertermia, o setpoint é normal, mas a produção ou dissipação de calor está comprometida (ex.: golpe de calor).
Definição adotada pelo site (SBP, DC nº 206, 15/05/2025): febre é temperatura axilar ≥ 37,5 °C (equivale a 38 °C oral ou retal), medida por 3 minutos com termômetro digital. Critérios de outras referências (NICE e AAP: ≥ 38 °C) aparecem como "critério do NICE/AAP". Exceção: para caracterizar convulsão febril, o site mantém ≥ 38 °C (ver Protocolo de Convulsão Febril). O sistema semáforo do NICE está na seção 4.4.
2.2 Métodos de Aferição e Limiares
Local de aferição Limiar de febre Observações
Retal (padrão-ouro) ≥ 38,0 °C Mais fidedigno; recomendado < 3 meses
Aceito acima de 3 meses; variação de até
Axilar (critério do site — SBP 2025) ≥ 37,5 °C
1 °C
Somente ≥ 5 anos; não usar após bebida
Oral (sublingual) ≥ 37,8 °C
quente/fria
Alta variabilidade; menos confiável < 2
Timpânica (infravermelho) ≥ 38,0 °C
anos
Boa correlação em ≥ 3 meses; evitar se
Temporal (infravermelho) ≥ 38,0 °C
sudorese
NÃO usar para diagnóstico; apenas
Tátil (mão da mãe/pai) —
triagem grosseiraNão confiar em aferição tátil (mão da mãe/pai) para diagnóstico clínico de febre. Para crianças < 3 meses, sempre usar termômetro retal. Para maiores de 3 meses, axilar
é aceitável no consultório. Jamais estimar a temperatura pela coloração da pele ou comportamento da criança.
NÃO usar termômetro retal, supositório nem toque retal (risco de lesão da mucosa, translocação bacteriana e choque séptico — SBP, 2018): medir a temperatura na axila, também abaixo de 3 meses, e examinar a região perianal só pela inspeção. Toda febre nessa criança é emergência (ver Neutropenia febril).
2.3 Anamnese Dirigida para Criança com Febre
Caracterização da Febre
- Tempo de febre: < 5 dias (aguda) vs. ≥ 5 dias (prolongada — mudar abordagem diagnóstica)
- Altura da temperatura aferida em casa — qual termômetro e qual local
- Padrão: contínua, intermitente, remitente — (padrão de malária, leishmaniose, linfoma)
- Resposta ao antitérmico: melhora do aspecto após defervescência é tranquilizadora, mas não exclui IBG
Sintomas Associados — Busca Ativa de Foco
- Via aérea superior: coriza, odinofagia, otalgia, hiperemia ocular
- Via aérea inferior: tosse, taquipneia, dispneia, sibilância, dor torácica
- Urinário: choro à micção, urina turva/fétida, urgência, jato fraco, polaciúria
- Neurológico: cefaleia, rigidez de nuca, fotofobia, abaulamento de fontanela, alteração de consciência, convulsão
- Gastrointestinal: vômitos, diarreia, dor abdominal, icterícia
- Pele: exantema (tipo, distribuição, progressão), petéquias, púrpura, icterícia
- Osteoarticular: dor, edema, recusa em movimentar membro, coxear
História Clínica Relevante
- Idade gestacional ao nascimento — prematuros têm resposta imune reduzida
- Vacinação: criança vacinada em dia tem risco reduzido de pneumococo, Hib, meningococo
- Uso prévio de antibiótico — pode mascarar IBG e alterar culturas
- Doenças de base: imunodeficiência, asplenia, anemia falciforme, nefropatia, cardiopatia
- Exposição: viagem recente (dengue, malária, tifoide), contato com tuberculose
- Internação recente — risco de agentes hospitalares resistentes
2.4 Exame Físico Dirigido — O que Não Pode Faltar
Sinais Vitais Completos
- Temperatura: método, local, momento (após antitérmico ou não?)
- Frequência cardíaca: taquicardia persistente após defervescência é sinal de alerta
- Frequência respiratória: contar por 1 minuto completo — é o mais sensível sinal de pneumonia
- SpO₂: ≤ 95% em ar ambiente = sinal âmbar no NICE; na pneumonia, ≥ 95% tratamento em casa, 92–94% observação/reavaliação em serviço, < 92% internação (padrão do site); no encaminhamento, oxigênio para manter SpO₂ entre 94% e 98%, evitando hiperóxia
- Pressão arterial e TEC (tempo de enchimento capilar): TEC > 2 seg é sinal de alerta
Aspecto Geral — O Parâmetro Mais Importante
- Escala de Yale Observation Scale (YOS) para < 24 meses: avalia qualidade do choro, reação à estimulação, estado de consciência, cor, hidratação e resposta social
- 'Criança tóxica': prostrada, hipotônica, indiferente, oligúrica, palidez intensa — EMERGÊNCIA
- 'Criança bem': alerta, ativa, hidratada, interage com os pais, aceita líquidos — BAIXO RISCO
Exame Segmentar Completo — Busca de Foco
- Orofaringe: exsudato, vesículas herpéticas, enantema, amígdalas (Centor/McIsaac)
- Ouvidos: otoscopia bilateral — OMA é causa frequente e tratável
- Linfonodos: tamanho, consistência, mobilidade, localização — adenite bacteriana vs. viral
- Pulmões: ausculta + percussão; taquipneia isolada pode ser sinal de pneumonia
- Abdome: defesa, peritonismo, dor em ponto específico; Giordano; fossa ilíaca direita
- Pele: exantema morbilliforme (viral), escarlatiniforme (Strepto), vesicular (varicela), petequial (meningococcemia)
- Osteoarticular: palpação de ossos longos, mobilização de articulações, assimetria de força
- Genitália masculina: torção testicular em adolescentes com dor abdominal baixa + febre
3. Fisiopatologia Aplicada À Febre
3.1 Mecanismo da Febre — Da Infecção ao Setpoint
A febre é uma resposta adaptativa evolutivamente conservada, mediada pelo sistema imune inato. O processo inicia-se com o reconhecimento de padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs — ex.: LPS bacteriano, RNA viral) pelos receptores Toll-like (TLRs) de macrófagos, monócitos e células dendríticas. Esse reconhecimento ativa cascatas inflamatórias que culminam na produção de pirógenos endógenos.
Cascata Pirôgenica
- Reconhecimento de PAMP → ativação de NF-κB → produção de IL-1β, IL-6, TNF-α, IFN-γ
- Pirógenos endógenos atingem o órgão vascular da lâmina terminal (OVLT) — área sem barreira hematoencefálica
- OVLT produz prostaglandina E₂ (PGE₂) → atua no núcleo pré-óptico hipotalâmico anterior
- Elevação do setpoint hipotalâmico → ativação de mecanismos de conservação de calor (vasoconstrição periférica, calafrios)
- Temperatura corporal sobe até o novo setpoint → febre estabelecida
- Antitérmicos (AINE, paracetamol) inibem a ciclooxigenase (COX) → reduzem PGE₂ → baixam o setpoint
3.2 Funções Fisiológicas da Febre
A febre não é apenas um sinal de doença — tem funções imunomoduladoras importantes que justificam a cautela no tratamento indiscriminado:
- Inibição da replicação viral e bacteriana (maioria dos patógenos têm crescimento ótimo a 37 °C)
- Ativação de linfócitos T e B — melhora da resposta imune adaptativa
- Aumento da produção de proteínas de fase aguda (PCR, ferritina, fibrinogênio)
- Indução de apoptose em células infectadas
Isso explica por que tratar a febre NÃO acelera a cura — e pode, em algumas situações (dengue, varicela), prolongar a viremia. O tratamento antitérmico tem indicação primária de CONFORTO, não de eliminação do sinal.
3.3 Correlação Clínica — Fisiopatologia da Resposta Séptica
Quando a resposta inflamatória é excessiva (infecção bacteriana grave, síndrome de resposta inflamatória sistêmica — SRIS), a liberação maciça de citocinas (IL-6, TNF-α) produz efeitos deletérios: vasodilatação periférica, aumento da permeabilidade vascular, disfunção miocárdica e ativação da cascata da coagulação (CIVD). A evolução para choque séptico pode ocorrer em horas.
FISIOPATOLOGIA DA MENINGOCOCCEMIA: A evolução fulminante da doença meningocócica resulta da ativação massiva da cascata do complemento pelo LPS de
Neisseria meningitidis, com liberação de TNF-α em pico. As petéquias/púrpura representam microtrombos de CIVD — podem surgir e progredir em minutos. Qualquer petéquia não branqueável em criança com febre é EMERGÊNCIA MÉDICA independentemente do estado geral aparente.
3.4 Implicações no Manejo
- Tratar a febre tem como objetivo reduzir o desconforto — não é obrigatório 'normalizar' a temperatura
- Não existe temperatura 'segura' que exclua IBG — o aspecto clínico é mais importante que o número
- A queda da febre após antitérmico NÃO discrimina etiologia bacteriana de viral
- Febre alta (≥ 40 °C) em lactente jovem aumenta a probabilidade pré-teste de IBG
- Persistência de taquicardia após defervescência completa sugere sépsis/IBG — investigar
- Hipotermia em neonato tem o mesmo significado clínico que hipertermia — risco de IBG elevado
4. Diagnóstico — Avaliação De Risco E Foco
4.1 Estratificação de Risco por Faixa Etária
Faixa etária Risco de IBS Internação Conduta recomendada
< 28 dias MUITO ALTO (> SEMPRE Hemograma + Hemocultura +
10%) urinocultura + LCR + PCR + PCT + Rx
de tórax + ATB empírico imediato
(Ampicilina + Gentamicina)
28–90 dias ALTO (5–10%) Individualizar Exames de risco (EAS + hemograma +
(critérios PCR + PCT): baixo risco →
Rochester/Step-by- ambulatorial; alto risco → internação +
Step) completar investigação + ATB
MODERADO (2– Se aspecto tóxico Exames + tratamento conforme clínica e
3–36 meses
5%) ou foco grave resultado dos exames
Exame clínico orienta conduta; exames
Se critérios de
> 36 meses BAIXO (< 1%) seletivos; antitérmico se febre com
gravidade
desconforto4.2 Critérios de Rochester — Baixo Risco em 28–90 dias
Os Critérios de Rochester (Jaskiewicz et al., Pediatrics 1994) identificam lactentes de baixo risco para IBG até 3 meses. É a ferramenta adotada pela SBP (DC nº 206/2025: protocolo HU-USP do Tratado de Pediatria da SBP, baseado em Rochester até 3 meses e em Baraff de 3 a 36 meses). Todos os critérios devem estar presentes simultaneamente para classificar como baixo risco:
Domínio Critério de baixo risco (TODOS devem estar presentes)
Aspecto clínico Bom estado geral; não tóxico; sem sinais de infecção bacteriana focal
A termo (≥ 37 sem); sem antibiótico prévio; sem hiperbilirrubinemia
História
tratada; sem doenças crónicas; sem internação prévia
Hemograma Leucócitos entre 5.000 e 15.000/mm³; bastonetes ≤ 1.500/mm³
Leucocitúria < 10 leucócitos/campo em amostra centrifugada; nitrito
Urina
negativo
Fezes (se diarreia) Leucócitos fecais < 5/campo
Baixo risco Rochester: manejo ambulatorial com reavaliação diária
Interpretação
até o resultado das culturas (SBP 2025)Leucocitúria com marcadores inflamatórios normais (29–60 dias): o lactente febril bem aparente com exame de urina alterado não é de baixo risco por Rochester, mesmo com hemograma, PCR e procalcitonina normais — internar, colher urocultura (cateterismo ou punção) e hemocultura, iniciar antibiótico intravenoso e indicar a punção lombar pelos critérios da seção 4.5 (padrão do site, SBP/Rochester; decisão do Dr. Stefani, 03/10/2026). Divergência: a AAP (Pantell, 2021) admite, de 29 a 60 dias com urina alterada e marcadores normais, antibiótico oral em casa sem punção lombar, com reavaliação em 24 h.
4.3 Score Step-by-Step (Mintegi, 2021) — Abordagem Sequencial
O Step-by-Step, validado em coorte europeia (Gomez et al., Pediatrics 2016), estratifica o risco de infecção bacteriana invasiva em lactentes ≤ 90 dias de forma sequencial. É o protocolo da AEP/SEUP (Lactante febril, 4ª ed. 2024, versão atualizada 2026). Não é o protocolo da SBP (que usa Rochester) nem do NICE (que indica antibiótico parenteral a todo lactente < 1 mês e aos de 1–3 meses com mau estado geral ou leucócitos < 5.000 ou > 15.000/mm³); a AAP (2021, 8–60 dias) usa algoritmo próprio com marcadores inflamatórios. O site segue a SBP; o Step-by-Step é apresentado como apoio onde houver procalcitonina:
- PASSO 1 — Aspecto clínico: se 'tóxico' → alto risco → INTERNAÇÃO + ATB imediato
- PASSO 2 — Idade < 21 dias: alto risco independentemente dos exames → INTERNAÇÃO + ATB
- PASSO 3 — PCT ≥ 0,5 ng/mL: alto risco → internação; recomendado ATB
- PASSO 4 — EAS com leucocitúria (≥ 10 leucócitos/campo): alto risco para ITU → internar e tratar
- PASSO 5 — PCR > 20 mg/L ou neutrófilos > 10.000/mm³: risco intermediário — observação hospitalar; considerar punção lombar e antibiótico
- PASSO 6 — Todos negativos: baixo risco → ambulatorial com retorno em 24 horas
O Step-by-Step teve sensibilidade de 92% e especificidade de 47% para infecção bacteriana invasiva em lactentes ≤ 90 dias (Gomez et al., Pediatrics 2016). O baixo risco NÃO é zero risco — reavaliação em 24 h é obrigatória. A PCT é o biomarcador de maior acurácia nas primeiras 6–12 horas de febre, superando o hemograma e a PCR nessa janela temporal.
4.4 Sistema Semáforo NICE (NG143, 2021) — Para Todas as Idades
O sistema semáforo do NICE classifica a criança febril em três categorias de risco com base em sinais e sintomas clínicos, independentemente da temperatura. Qualquer característica VERMELHA = encaminhamento imediato à emergência. Qualquer característica ÂMBAR = avaliação clínica adicional e acompanhamento.
| Domínio | 🟢 Verde — baixo risco | 🟡 Âmbar — risco intermediário | 🔴 Vermelho — alto risco |
|---|---|---|---|
| Cor | Normal | Palidez referida pelos pais | Pálido, moteado, acinzentado ou azulado |
| Atividade | Responde normalmente; contente ou sorri; acorda rápido; choro forte ou não chora | Não responde normalmente; não sorri; só acorda com estímulo prolongado; menos ativo | Não responde; parece doente ao profissional; não acorda ou não se mantém acordado; choro fraco, agudo ou contínuo |
| Respiração | — | Batimento de asa nasal; FR > 50 (6–12 meses), > 40 (> 12 meses); SpO₂ ≤ 95% em ar; crepitações | Gemido; FR > 60; tiragem moderada ou grave |
| Circulação e hidratação | Pele e olhos normais; mucosas úmidas | Taquicardia (> 160 < 12 m; > 150 12–24 m; > 140 2–5 anos); TEC ≥ 3 s; mucosas secas; mamadas ruins; diurese reduzida | Turgor cutâneo reduzido |
| Outros | Nenhum sinal âmbar ou vermelho | 3–6 meses com ≥ 39 °C; febre ≥ 5 dias; calafrios; edema de membro ou articulação; não apoia ou não usa o membro | < 3 meses com ≥ 38 °C; exantema que não desaparece à pressão; fontanela abaulada; rigidez de nuca; estado de mal; sinais neurológicos focais; crises focais |
Fonte: NICE NG143, tabela 2 (2013, mantida na atualização de 2021). Limiares de temperatura do NICE (≥ 38 °C). No site, febre = axilar ≥ 37,5 °C.
4.5 Exames Essenciais por Situação Clínica
Exame Indicação principal Observações
Hemograma Febre sem foco 28–90 dias; Leucócitos > 15.000 ou < 5.000 = alto
completo febre ≥ 39 °C 3–36 meses risco de IBS
Febre ≥ 39 °C sem foco,
Urina rotina (EAS) + Coleta por cateterismo ou punção (evitar
especialmente em meninas
urocultura saco coletor para cultura)
< 24m e meninos < 12m
< 90 dias com febre;
Coletar antes do ATB; mínimo 1 mL de
Hemocultura aspecto tóxico em qualquer
sangue
idade Exame Indicação principal Observações
28–90 dias; febre
PCR (Proteína C- PCR > 40 mg/L = alto risco; PCR < 20
prolongada; avaliação de
reativa) mg/L = baixo risco em lactentes
IBS
28–90 dias (Step-by-Step); PCT > 0,5 ng/mL = alto risco; superior à
Procalcitonina (PCT)
febre ≥ 38 °C < 3 meses PCR nas primeiras 6 horas
FR elevada; SpO₂ < 95%; NÃO solicitar rotineiramente para febre
Rx de tórax
crepitação; febre > 5 dias sem sintomas respiratórios
< 28 dias (sempre); < 90
Punção lombar + dias com aspecto tóxico ou Não retardar ATB para aguardar PL em
LCR exames alterados; meningite suspeita
meningismo
Edema articular; recusa em
Radiografia de ossos
usar o membro; dor Suspeita de artrite séptica ou osteomielite
/ articulação
localizada
ITU confirmada < 2 anos;
USG de vias urinárias Realizada após estabilização clínica
ITU febril recorrente
Febre > 5 dias; suspeita de DK: VHS > 40; ferritina > 500 = suspeita
VHS + ferritina
DK ou doença inflamatória de MAS/linfohistiocitose
Sódio + glicemia + Aspecto tóxico; choque Lactato > 2 mmol/L = hipoperfusão; > 4 =
lactato + gasometria séptico suspeito choque
Hemoculturas
Febre em imunodeprimido; Painel respiratório viral; CMV; EBV;
específicas + PCR
suspeita de encefalite enterovírus
viral4.6 O que NÃO FAZER no Diagnóstico
- NÃO dispensar criança < 28 dias com febre sem investigação completa — é sempre emergência
- NÃO usar aferição tátil para diagnóstico ou exclusão de febre
- NÃO tranquilizar família com base apenas na altura da temperatura — o aspecto clínico é mais importante
- NÃO solicitar Rx de tórax rotineiro para toda criança com febre sem sintomas respiratórios
- NÃO prescrever antibiótico para febre sem foco identificado em criança > 3 meses com bom aspecto
- NÃO confiar em saco coletor urinário para cultura — taxa de contaminação de 60– 80%
- NÃO atrasar antibiótico para aguardar resultado de PL em meningite suspeita
- NÃO usar ibuprofeno em criança < 6 meses, desidratada ou com suspeita de dengue
- NÃO usar AAS ou nimesulida como antitérmico em crianças; NÃO usar dipirona em < 3 meses ou < 5 kg
- NÃO realizar punção lombar rotineira em toda crise convulsiva febril simples
5. Conduta E Tratamento
5.1 Princípios Gerais do Manejo da Febre
O tratamento da febre pediátrica é guiado por dois objetivos distintos: (1) alívio do desconforto da criança com uso criterioso de antitérmicos; e (2) identificação e tratamento da causa subjacente quando indicado. Não existe valor de temperatura que por si só indique tratamento — a decisão deve ser baseada no desconforto clínico observado e não em limiares arbitrários.
- Febre com bom aspecto geral e sem desconforto significativo: pode ser observada sem antitérmico imediato
- Febre com desconforto (choro, prostração, recusa alimentar): indicado antitérmico para conforto
- O objetivo não é 'zerar' a temperatura — reduzir em 1–1,5 °C já promove conforto
- Hidratação oral adequada é componente terapêutico essencial — a febre aumenta as perdas insensíveis em 10–15% por grau de temperatura
- Manter ambiente confortável (18–22 °C), roupas leves — não agasalhar excessivamente
5.2 Passo a Passo — Conduta por Faixa Etária
Passo Ação
1 Verificar a IDADE — é o primeiro determinante da conduta na criança com febre
2 Aferir temperatura com método adequado para a idade (retal < 3m; axilar ≥ 3m)
Avaliar o ASPECTO CLÍNICO — aplique o semáforo NICE mentalmente: verde / âmbar /
3
vermelho
Se < 28 dias com febre → INTERNAÇÃO IMEDIATA + coleta de culturas + ATB empírico
4
— não aguardar
Se 1–3 meses → Rochester (SBP): hemograma + urina (+ pesquisa viral) → baixo risco:
5
ambulatorial com reavaliação diária; alto risco: internar + culturas + ATB
Se 3–36 meses sem foco (SBP): vacinação incompleta ou mau estado → internar; > 39 °C
6
→ hemograma + urina/urocultura; leucócitos ≥ 20.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³ →
Rx de tórax, hemocultura e ceftriaxona 50 mg/kg IM 1×/dia com reavaliação diária
Buscar ativamente o FOCO CLÍNICO em todas as faixas etárias — OMA,
7
faringoamigdalite, ITU, pneumonia
Prescrever antitérmico se criança com desconforto: Paracetamol 10–15 mg/kg a cada 4–
8
6h ou Ibuprofeno 5–10 mg/kg a cada 6–8h (≥ 6m)
Orientar família: monitoramento em casa, sinais de alarme, retorno se febre > 48–72h
9
sem melhora ou surgimento de novos sintomas
Documentar: temperatura, aspecto clínico, exames solicitados, conduta e critérios para
10
retorno5.3 Antitérmicos — Doses Pediátricas e Comparação
Medicamento Dose Intervalo Dose máx./dia Observações clínicas
1ª escolha; seguro em <
Paracetamol 10–15 75 mg/kg/dia ou
4/4 h a 6/6 h 6 meses; hepatotóxico
(acetaminofeno) mg/kg/dose 4 g/dia (adulto)
em superdosagem
≥ 6 meses; evitar em
5–10 40 mg/kg/dia ou
Ibuprofeno 6/6 h a 8/8 h desidratação, disfunção
mg/kg/dose 2,4 g/dia
renal, dengue suspeita
Uso muito comum no
Brasil; eficácia
Dipirona 15
6/6 h 4 doses/dia antitérmica equiparável;
(metamizol) mg/kg/dose
risco de agranulocitose
(raro); não usar < 3 m
ou < 5 kg (bula)
Contraindicada em
NÃO USAR pediatria (risco
Nimesulida — —
em < 12 anos hepatotóxico) — ANVISA
proibiu uso em < 12 anos
Risco de síndrome de
Ácido
Reye; contraindicado em
acetilsalicílico NÃO USAR — —
crianças com infecções
(AAS)
viraisFontes: SBP, DC nº 206/2025 (paracetamol 10–15 mg/kg 4–6 h, máx. 75 mg/kg/dia; dipirona 10–16 mg/kg 6–8 h, a partir de 3 meses e 5 kg; ibuprofeno 5–10 mg/kg 6–8 h, a partir de 6 meses, máx. 40 mg/kg/dia); dipirona 15 mg/kg/dose 6/6 h é o padrão do site (decisão de 30/09/2026), dentro da faixa da SBP. DOSES PADRÃO E ALERTA DE EFEITO CUMULATIVO: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose a cada 4–6 h (máx. 5 doses/dia), máximo 75 mg/kg/dia (nunca > 4 g/dia). O uso repetido por 48–72 h, sobretudo no limite de dose, em criança desidratada, desnutrida, em jejum ou somando produtos que contêm paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação. Dipirona 15 mg/kg/dose a cada 6 h (máx. 4 doses/dia); não usar em < 3 meses ou < 5 kg (bula); a regra de '1 gota/kg' leva a superdosagem.
SOBRE ALTERNÂNCIA DE ANTITÉRMICOS: A prática de alternar paracetamol e ibuprofeno para manter a criança apirética é NÃO RECOMENDADA pela SBP (DC nº 206/2025), AAP (2011) e NICE (NG143). Aumenta o risco de erros de dosagem pelos pais, não demonstrou benefício clínico significativo em relação ao bem-estar da criança e pode mascarar a evolução clínica. Use UM antitérmico por vez, na dose e intervalo corretos.
5.4 Tratamento de Focos Específicos Identificados
Otite Média Aguda (OMA)
- Com indicação de ATB (< 6 meses; 6–23 meses bilateral, com otorreia ou grave; ≥ 2 anos grave): Amoxicilina 90 mg/kg/dia em 2 doses por 10 dias (< 2 anos; 5–7 dias em ≥ 2 anos sem gravidade)
- Observação por 48–72h com reavaliação garantida (AAP): 6–23 meses com OMA unilateral não grave, ou ≥ 2 anos uni ou bilateral não grave (otalgia leve < 48h, temperatura < 39 °C, sem otorreia e bom aspecto)
- Sem resposta à Amoxicilina em 48–72h: associar Clavulanato mantendo a dose alta — Amoxicilina-Clavulanato 90 mg/kg/dia de Amoxicilina + 6,4 mg/kg/dia de Clavulanato em 2 doses (nunca amoxicilina-clavulanato com 40–50 mg/kg/dia de amoxicilina quando o pneumococo é o alvo)
- Alergia grave a penicilina: Azitromicina 10 mg/kg no 1º dia e 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º dia (resistência pneumocócica elevada)
Faringoamigdalite Bacteriana (GABHS — Streptococcus pyogenes)
- Escore de Centor/McIsaac ≥ 3: testar (teste rápido/cultura); tratamento empírico só se não houver teste disponível (AIDPI)
- Amoxicilina 30–50 mg/kg/dia de 8/8 ou 12/12 h por 10 dias — 1ª escolha (SBP: Diretriz SBC/SBP/SBR 2009); a dose única diária da IDSA (50 mg/kg/dia, máx. 1 g) é divergência
- Benzilpenicilina Benzatina: dose única IM (< 20 kg: 600.000 UI; ≥ 20 kg: 1.200.000 UI) — opção para garantir adesão
- Amigdalite viral (coxsackie, EBV, adenovírus): sem antibiótico
Infecção do Trato Urinário (ITU) Febril
- ITU febril < 2 anos (pielonefrite presumida): ATB por 10 dias (SBP; ver Infecção urinária na criança); internar se < 3 meses ou sepse
- ATB oral: Cefalexina 50 mg/kg/dia (SBP) 6/6 h ou 8/8 h OU Amoxicilina-Clavulanato 20–40 mg/kg/dia de Amoxicilina 8/8 h (AAP; SBP 2023) — na ITU o alvo é E. coli; a regra de dose alta vale para o pneumococo
- ATB parenteral (internação): Ceftriaxona 50 mg/kg/dia IV/IM 1×/dia
- Urinocultura deve orientar ajuste do ATB em 48–72h
- USG de rins e vias urinárias após a 1ª ITU febril em < 2 anos (e em qualquer idade se ITU atípica ou recorrente); cintilografia DMSA se ITU recorrente ou USG alterada
Pneumonia Bacteriana
- < 5 anos: Amoxicilina 50 mg/kg/dia (AIDPI/SBP) ou 90 mg/kg/dia (AAP/IDSA; OMS 2024: 80) em 2–3 doses por 5 dias (até 7), com reavaliação em 48–72h — 90 é preferível: a resistência do pneumococo se deve à alteração das proteínas ligadoras de penicilina (PBP), e não à betalactamase; é vencida pela dose alta, não pelo clavulanato
- Tratamento em casa: SpO₂ ≥ 95% em ar ambiente; SpO₂ 92–94% = observação/reavaliação em serviço; SpO₂ < 92% = internação
- ≥ 5 anos com suspeita de atípico (Mycoplasma): Azitromicina 10 mg/kg no 1º dia, depois 5 mg/kg/dia por 4 dias
- Internação: pneumonia grave (SpO₂ < 92%; FR > 70 irpm; tiragem intensa; derrame pleural)
- ATB parenteral: Ampicilina 200 mg/kg/dia IV em 4 doses; se grave: Ceftriaxona
Meningite Bacteriana — Emergência
- ATB IMEDIATO após coleta de hemocultura — não aguardar PL se houver instabilidade
- Dexametasona 0,15 mg/kg IV 15 min ANTES do ATB — reduz sequelas em meningite por Hib e pneumococo
- ATB empírico: Ceftriaxona — 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g), inclusive antes da transferência na suspeita de meningite ou doença meningocócica; manutenção conforme o serviço (MS: 100 mg/kg/dia IV em 2 doses, máx. 4 g/dia)
- Até 2 meses: adicionar Ampicilina 300 mg/kg/dia (75 mg/kg/dose 6/6 h) para cobertura de Listeria (MS — decisão do site); a partir de 2 meses, Ceftriaxona sem Ampicilina. NICE (NG143; NG240, 2024) e AEP 2021 mantêm a Ampicilina até 3 meses — divergência; ver Meningites bacterianas e virais (Infectologia)
- NUNCA retardar ATB por falta de PL — se instável, hemocultura e ATB imediatos
5.5 Convulsão Febril — Conduta
Crise Febril Simples (CFS)
- Definição: tônico-clônica generalizada, duração < 15 min, sem recorrência em 24h, em criança neurologicamente normal de 6 meses a 5 anos, com temperatura ≥ 38 °C (exceção ao limiar de 37,5 °C)
- Forte componente familiar; não causa dano cerebral
- Conduta: posicionamento lateral, monitorar, garantir via aérea — maioria cede espontaneamente
- Se crise ≥ 5 min: Midazolam intranasal 0,2 mg/kg, bucal 0,3 mg/kg ou IM 0,2 mg/kg (máx. 10 mg) OU Diazepam retal 0,5 mg/kg (máx. 10 mg); repetir uma vez após 5–10 min se persistir (padrão do site; Protocolo de Estado de Mal Convulsivo)
- Não requer internação, LCR ou EEG após primeira crise simples
- Antitérmico NÃO previne recorrência de crise febril — não usar profilaxia com antitérmico (SBP, DC nº 206/2025)
- Risco de recorrência: 30–35%; risco de epilepsia futura: 2–3% na forma simples (população geral cerca de 1%)
Crise Febril Complexa (CFC)
- CFC: focal, > 15 min, ou > 1 episódio em 24h — avaliação no pronto-socorro e neuropediatra; EEG, neuroimagem e LCR conforme a clínica (ver Protocolo de Convulsão Febril)
- Estado de mal febril: Protocolo de Estado de Mal Convulsivo — benzodiazepínico (máx. 2 doses); 2ª linha do site pelo MS (PCDT Epilepsia 2018): fenitoína 15–20 mg/kg IV (máx. 1.500 mg — AES 2016; SEUP 2025; ≤ 1 mg/kg/min e ≤ 50 mg/min, com ECG e PA) ou fenobarbital 15 mg/kg IV (≤ 100 mg/min; máx. 1.000 mg); preferível onde houver: levetiracetam 60 mg/kg IV em 5–10 min (máx. 4.500 mg; Antara IV, uso fora da bula no estado de mal, bula a partir de 6 anos); alternativa: valproato 40 mg/kg (máx. 3.000 mg), só ≥ 2 anos e sem hepatopatia, doença metabólica ou mitocondrial, nem gestação
A fenitoína leva cerca de 20 min para infundir; somada aos benzodiazepínicos, o controle pode passar de 30 min (limite ILAE 2015 para risco de lesão neuronal). Prepare a 2ª linha já na 1ª dose de benzodiazepínico e inicie logo após a 2ª dose, sem esperar. Onde houver levetiracetam IV, ele é preferível por infundir em 5–10 min (NICE NG217; APLS; ESETT, EcLiPSE e ConSEPT 2019).
O estado de mal passou a ser definido com 5 minutos (t1 da ILAE 2015) porque é o ponto em que a crise tônico-clônica tende a se prolongar: depois dele, a chance de parar sozinha cai muito, e por isso o tratamento começa aí. Na monitorização por vídeo-EEG, a maioria das crises convulsivas dura menos de 5 min (Trinka et al., Epilepsia 2015). Em 407 crianças com a primeira crise não provocada, as durações formaram dois grupos — 76% com média de 3,6 min e 24% com média de 31 min —; quanto mais a crise durava, menor a chance de parar nos minutos seguintes, e depois de 5–10 min era improvável que cedesse sozinha (Shinnar et al., Ann Neurol 2001;49:659–64). O t2 = 30 minutos é o limite a partir do qual há risco de lesão neuronal (ILAE 2015): o antigo limiar de 30 min marca o risco de dano, e não o momento de tratar.
Atenção, 30 minutos: a partir do t2 (ILAE 2015) cresce o risco de lesão neuronal. Se a crise não ceder com o benzodiazepínico (2 doses) e a medicação de 2ª linha, é estado de mal REFRATÁRIO. Não espere os 30 min nem tente uma 3ª droga de 2ª linha por muito tempo: acione a UTI pediátrica para intubação e COMA INDUZIDO com infusão contínua de anestésico, para suprimir a atividade epiléptica, com monitorização eletroencefalográfica contínua (alvo: cessar as crises no EEG ou surto-supressão).
Coma induzido — conduta de UTI/anestesiologia: intubação, ventilação mecânica e suporte hemodinâmico (esses agentes causam hipotensão e podem exigir vasopressor — NCS 2012); doses tituladas pelo EEG contínuo.
- Midazolam (1ª escolha): bolus 0,2 mg/kg IV (a 2 mg/min) + infusão 0,05–2 mg/kg/h; nas crises de escape, bolus 0,1–0,2 mg/kg e aumento de 0,05–0,1 mg/kg/h a cada 3–4 h (NCS 2012). SEUP 2025: 0,2 mg/kg + 0,05–0,4 mg/kg/h.
- Tiopental: 2–7 mg/kg IV (≤ 50 mg/min) + infusão 0,5–5 mg/kg/h (NCS 2012); SEUP 2025: 2–3 mg/kg + 3–5 mg/kg/h.
- Cetamina: opção no super-refratário; dose conforme protocolo da UTI (a NCS 2012 a trata como terapia emergente, com dados limitados).
- Propofol, com cautela na criança: 1–2 mg/kg + infusão a partir de 20 mcg/kg/min (faixa 30–200 mcg/kg/min); na criança, cautela acima de 65 mcg/kg/min e contraindicado em crianças pequenas (NCS 2012) — risco de síndrome de infusão do propofol (acidose metabólica, rabdomiólise, insuficiência cardíaca e renal).
Manter o controle eletrográfico por 24–48 h e retirar a infusão gradualmente (NCS 2012).
5.6 Fluxograma Terapêutico — Decisão Rápida
< 28 DIAS 28–90 DIAS > 3 MESES
Qualquer febre (axilar ≥ 37,5 °C) Rochester (SBP) / Step-by-Step Semáforo NICE + busca de
→ INTERNAÇÃO SEMPRE → PCT + PCR + EAS + foco
→ Hemograma + hemocultura hemograma + hemocultura → Verde: antitérmico +
+ EAS + urocultura + LCR → Alto risco: INTERNAR + orientação
→ ATB: Ampicilina + ATB → Âmbar: exames seletivos +
Gentamicina → Baixo risco: ambulatorial + retorno
retorno em 24h → Vermelho: EMERGÊNCIA6. Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Documento e versão | DC nº 206, 15/05/2025 | AIDPI; Dengue (2024); Guia de Vigilância (meningites) | CPG febre 8–60 dias (Pantell, 2021); Clinical Report antitérmicos (2011) | NG143 (2019, atualizada 11/2021) | SEUP, Lactante febril (2024, versão 2026) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Definição | Axilar ≥ 37,5 °C (38 °C oral/retal) | Axilar ≥ 37,5 °C (AIDPI) | ≥ 38 °C retal | ≥ 38 °C | ≥ 38 °C | — | — | Seguem o NICE |
| Lactente jovem sem foco | < 30 dias: internar; 1–3 meses: Rochester; 3–36 meses: Baraff/HU-USP | — | 8–21 dias: LCR e ATB; 22–60 dias: marcadores inflamatórios; 29–60 dias com urina alterada e marcadores normais: ATB oral em casa, sem LCR | < 1 mês e 1–3 meses graves ou leucócitos alterados: LCR e ATB parenteral | Step-by-Step (PCT, PCR, neutrófilos, urina) | — | — | Seguem o NICE |
| Antitérmicos | Paracetamol, dipirona, ibuprofeno; só se desconforto | Dengue: paracetamol ou dipirona; sem AINE | Paracetamol ou ibuprofeno, para conforto | Paracetamol ou ibuprofeno, para conforto | Para o bem-estar (AEP 2022, CF) | — | — | Seguem o NICE |
| Alternar antitérmicos | Não | — | Não | Só se o desconforto persistir antes da próxima dose | — | — | — | Seguem o NICE |
| Antitérmico na convulsão febril | Não previne (nível I) | — | Não previne | Não previne | Não previne | — | — | Seguem o NICE |
| 2ª linha no estado de mal febril | Sem documento oficial (revisão Liberalesso, Residência Pediátrica 2018) | PCDT Epilepsia (Portaria Conjunta nº 17, 21/06/2018): fenitoína 18 (15–20) mg/kg ou fenobarbital 15 mg/kg | AES 2016: fosfenitoína, valproato ou levetiracetam (equivalentes) | NG217 (atualizada 08/2026): prefere o levetiracetam | SEUP 01/2025: levetiracetam, fenitoína ou valproato (equivalentes) | — | — | Seguem o NICE |
| Meningite — ampicilina empírica | — | Até 2 meses | 8–21 dias (2021) | Até 3 meses | Até 3 meses | — | — | Seguem o NICE |
Leitura: há concordância em que o aspecto clínico pesa mais que o número do termômetro, em que todo lactente < 1 mês com febre é internado e investigado, em que antitérmico serve ao conforto e não previne convulsão febril, e em não alternar antitérmicos de rotina. As divergências: (1) limiar de febre — axilar ≥ 37,5 °C pela SBP (2025) × ≥ 38 °C pelo NICE, AAP e AEP; (2) ferramenta no lactente de 1–3 meses — Rochester pela SBP, Step-by-Step pela AEP, critérios próprios no NICE e na AAP (8–60 dias); (3) dipirona — usada no Brasil (SBP), fora das diretrizes da AAP e do NICE; (4) ampicilina empírica na meningite — até 2 meses pelo MS, até 3 meses pelo NICE e pela AEP; (5) o NICE admite trocar de antitérmico se o desconforto persistir; (6) lactente de 29–60 dias com leucocitúria e marcadores inflamatórios normais — internação com antibiótico intravenoso pela SBP (Rochester) × antibiótico oral em casa, sem punção lombar, pela AAP (2021). Posição do site: segue a SBP (DC nº 206/2025) na definição, nos antitérmicos e na avaliação do lactente, inclusive na internação do lactente de 29–60 dias com urina alterada (decisão do Dr. Stefani, 03/10/2026); o MS na ampicilina (até 2 meses) e na dengue; o NICE como apoio para o semáforo de gravidade. No estado de mal febril, o site segue o MS na 2ª linha (fenitoína ou fenobarbital, PCDT 2018; a SBP não tem documento oficial), com o alerta sobre o tempo de infusão da fenitoína, e recomenda o levetiracetam onde houver (NICE NG217; eficácia equivalente nos ensaios ESETT, EcLiPSE e ConSEPT, 2019 — decisão do Dr. Stefani, 01/10/2026).
7. Critérios De Internação
7.1 Indicações de Internação Hospitalar
INTERNAÇÃO EM CARÁTER DE URGÊNCIA / EMERGÊNCIA:
- Qualquer criança < 28 dias com febre (axilar ≥ 37,5 °C; retal ≥ 38,0 °C) — sem exceções
- Lactente 28–90 dias com febre e aspecto tóxico, independentemente dos exames
- Lactente 28–90 dias de alto risco pelos critérios de Rochester (SBP) ou pelo Step-by-Step (PCT ≥ 0,5 ng/mL ou leucocitúria; PCR > 20 mg/L ou neutrófilos > 10.000/mm³ = risco intermediário)
- Lactente de 29–60 dias bem aparente com leucocitúria (exame de urina alterado) e marcadores inflamatórios normais: internar, antibiótico intravenoso e punção lombar pelos critérios da seção 4.5 (SBP/Rochester); a AAP 2021 (oral em casa, sem punção) fica como divergência
- Suspeita de meningite bacteriana — qualquer idade — internação e ATB imediatos
- Suspeita de meningococcemia (petéquias/púrpura não blanqueáveis + febre) — EMERGÊNCIA ABSOLUTA: ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) antes da transferência
- Criança com aspecto tóxico ('toxic appearance') em qualquer faixa etária
- Choque séptico: hipotensão, TEC > 4 seg, oligúria, alteração de consciência
- Status epilepticus febril > 5 minutos sem resposta ao Diazepam/Midazolam
- Febre em imunodeprimido (oncológico, pós-transplante, uso de corticoide em dose imunossupressora, HIV); febre (axilar ≥ 37,5 °C) com neutrófilos < 500/mm³ ou neutropenia congênita conhecida: emergência (SBP), hemocultura e antibiótico no mesmo momento — ver Neutropenias (Hematologia) e Infecções no imunocomprometido e dispositivos (Infectologia); nada pelo reto
- Febre em asplênico (funcional ou anatômico — esplenectomia); na doença falciforme, febre axilar ≥ 37,5 °C = pronto-socorro imediato, mesmo em bom estado geral; no serviço, > 38,2 °C abaixo de 3 anos sugere bacteremia e a conduta segue o PCDT do MS (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 01/11/2024) — ver Doença falciforme (Hematologia)
- Febre + artrite séptica ou osteomielite suspeita — internação para ATB IV + avaliação ortopédica
Como encaminhar (🔴): do consultório, SAMU 192 nos instáveis; oxigênio para manter SpO₂ entre 94% e 98%, evitando hiperóxia; acesso venoso e cristaloide 10–20 mL/kg se choque (ver Sepse e choque séptico); ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) na suspeita de doença meningocócica, se não atrasar a remoção; carta com horários e doses.
Febre prolongada e FOI: febre ≥ 5 dias muda a abordagem (pensar em Kawasaki — NICE NG143). Febre de origem indeterminada (SBP, DC nº 206/2025) = febre ≥ 38,3 °C diária por ≥ 14 dias sem causa após avaliação clínica e laboratorial básica — ver Febre prolongada e febre de origem indeterminada (Infectologia).
INTERNAÇÃO ELETIVA / MONITORAMENTO:
- Lactente 28–90 dias de baixo risco com dificuldade de acompanhamento ambulatorial em 24h
- Pneumonia com SpO₂ 92–94% sem indicação de UTI — observação/reavaliação em serviço, com oxigênio se necessário
- ITU febril em lactente < 3 meses para ATB IV inicial
- Desidratação moderada por dificuldade de ingestão oral (febre + vômitos persistentes)
- Crise febril complexa (focal, prolongada ou múltipla) — investigação
INTERNAÇÃO NÃO INDICADA (critérios para alta segura):
- Criança > 3 meses com bom aspecto clínico, foco viral identificado e suporte familiar adequado
- Primeira crise febril simples após resolução completa — orientar e dar alta
- Febre sem foco em ≥ 3 meses, vacinada, bom aspecto, PCT/PCR normais se realizados
- OMA, faringoamigdalite ou IVA sem sinais de complicação — tratamento ambulatorial
8. Erros Comuns Na Prática Clínica
8.1 Erros de Avaliação e Diagnóstico
Erro comum Conduta correta
Focar no número da temperatura e não no Aspecto clínico (NICE semáforo) > temperatura
aspecto clínico — avaliar sempre a criança inteira
Dispensar neonato (< 28 dias) com febre sem < 28 dias com febre = emergência = internação
investigação + culturas + ATB sempre
Tranquilizar família porque a criança 'melhorou Melhora com antitérmico NÃO discrimina viral
com o antitérmico' de bacteriano — não reconfortar indevidamente
Sempre cateterismo ou punção suprapúbica
Coletar urocultura em saco coletor para urocultura — saco coletor tem
contaminação de 60–80%
Rx de tórax somente com sintomas
Solicitar Rx de tórax para toda criança febril respiratórios ou febre prolongada — não é
exame de triagem
Meningite bacteriana suspeita: realizar PL —
Não realizar PL por 'medo de herniação' em
herniação é rara; omitir PL prejudica
meningite suspeita sem edema de papila
diagnóstico
Em imunodeprimido qualquer febre =
Ignorar febre em imunodeprimido por ser 'baixa'
emergência — protocolo de neutropenia febril
ITU é causa de febre sem foco em 5–7% dos
Não pesquisar ITU em lactente febril sem foco
lactentes — EAS obrigatório ≥ 39 °C sem foco8.2 Erros de Tratamento
Erro comum Conduta correta
Usar AAS ou nimesulida como antitérmico em NUNCA — AAS: risco de síndrome de Reye;
crianças nimesulida: proibida < 12 anos pela ANVISA
NÃO recomendado por nenhum protocolo —
Alternar paracetamol e ibuprofeno de rotina aumenta risco de erro de dose pelos
cuidadores
Banho frio ou compressa de gelo para baixar NÃO recomendado — causa vasoconstrição,
febre calafrio, aumento do metabolismo e desconforto
ATB sem indicação seleciona resistência
Prescrever ATB para toda febre > 39 °C sem
bacteriana — não indicar sem foco bacteriano
foco
identificado
Dosar antitérmico pelo volume da apresentação Verificar SEMPRE: paracetamol 200 mg/mL vs.
sem checar a concentração 100 mg/mL — dose em mg/kg, não em ml
Usar ibuprofeno em criança com dengue CONTRAINDICADO na dengue — risco de
suspeita sangramento; usar paracetamol
Retardar ATB em meningite suspeita para ATB IMEDIATO após hemocultura — não
aguardar PL retardar por PL se criança instável
Sempre orientar: 'Retorne SE...' — febre > 48h,
Não orientar critérios de retorno ao dar alta
piora do aspecto, petéquias, choro inconsolável8.3 Erros de Comunicação com a Família
- ERRO: Gerar 'febrephobia' — super-alertar para qualquer temperatura elevada; criança febril geralmente está bem
- ERRO: Não ensinar a medir temperatura corretamente — fornecer orientação sobre técnica e termômetro
- ERRO: Não orientar sobre hidratação — febre aumenta perdas e risco de desidratação
- ERRO: Prescrever antitérmico 'de horário' independente do conforto da criança — prescrever por desconforto, não por temperatura
- ERRO: Dar alta sem critérios claros de retorno — sempre listar os sinais de alarme por escrito
- ERRO: Subestimar o relato dos pais de que 'o filho não está bem' — VPP elevado para doença grave
9. Referências
1. Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Abordagem da febre aguda em pediatria e reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15/05/2025. sbp.com.br
2. NICE. Fever in under 5s: assessment and initial management. NG143, 07/11/2019 (atualizada 26/11/2021). nice.org.uk
3. NICE. Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. NG240, 19/03/2024. nice.org.uk
4. Pantell RH, et al. Evaluation and management of well-appearing febrile infants 8 to 60 days old. Pediatrics. 2021;148(2):e2021052228.
5. Sullivan JE, Farrar HC; AAP Section on Clinical Pharmacology and Therapeutics, Committee on Drugs. Fever and antipyretic use in children. Pediatrics. 2011;127(3):580–587.
6. Gomez B, Mintegi S, et al. Validation of the "Step-by-Step" approach in the management of young febrile infants. Pediatrics. 2016;138(2):e20154381.
7. Mintegi Raso S, Gómez Cortés B, Velasco Zúñiga R. Lactante febril. Protocolos SEUP, 4ª ed., 2024 (versão atualizada 2.0, 2026). seup.org
8. Jaskiewicz JA, et al. Febrile infants at low risk for serious bacterial infection — an appraisal of the Rochester criteria and implications for management. Pediatrics. 1994;94(3):390–396.
9. American Academy of Pediatrics, Subcommittee on Urinary Tract Infection. Urinary tract infection: clinical practice guideline for the diagnosis and management of the initial UTI in febrile infants and children 2 to 24 months. Pediatrics. 2011;128(3):595–610.
10. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6ª ed., 2024 (antitérmicos; classificação A–D).
11. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 01/11/2024).
12. Barbi E, et al. Fever in children: pearls and pitfalls. Children (Basel). 2017;4(9):81.
13. Ministério da Saúde. PCDT Epilepsia, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21/06/2018 (Estado de mal epiléptico). NICE NG217 (2022, atualizada 05/08/2026). Glauser T, et al. (AES). Epilepsy Curr. 2016;16(1):48–61. SEUP, Estatus epiléptico, 4ª ed. (01/2025). Kapur J, et al. (ESETT). N Engl J Med. 2019;381:2103–13; Lyttle MD, et al. (EcLiPSE) e Dalziel SR, et al. (ConSEPT). Lancet. 2019;393. Liberalesso PBN. Residência Pediátrica. 2018;8(Supl 1):35–39.
14. Trinka E, et al. A definition and classification of status epilepticus — Report of the ILAE Task Force. Epilepsia. 2015;56(10):1515–23. Shinnar S, et al. How long do new-onset seizures in children last? Ann Neurol. 2001;49(5):659–64. Brophy GM, et al. Guidelines for the evaluation and management of status epilepticus (Neurocritical Care Society). Neurocrit Care. 2012;17(1):3–23 (Tabela 8).
Veja também, nesta Biblioteca: Meningites bacterianas e virais; Febre prolongada e febre de origem indeterminada; Infecções no imunocomprometido e dispositivos (Infectologia); Neutropenias; Doença falciforme (Hematologia); Infecção urinária na criança; Protocolo de Convulsão Febril; Sepse e choque séptico na criança; calculadora de antitérmicos (/ferramentas/calculadora-antitermicos.html).
Este documento é de uso exclusivamente educacional, destinado à formação e atualização de médicos. As condutas descritas devem ser adaptadas ao contexto clínico individual de cada paciente. Em casos complexos, consulte sempre um especialista. As doses e recomendações devem ser confirmadas nas diretrizes mais atuais das sociedades