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Como Conduzir uma Criança com Febre

Guia de revisão baseado em evidências para residentes e pediatras

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Importância Do Tema

1.1 Epidemiologia e Relevância Clínica

A febre é o sintoma mais frequente que leva crianças a consultas médicas de urgência e emergência em todo o mundo. Representa, isoladamente, 20–30% de todas as consultas pediátricas de pronto-atendimento e é responsável por grande parte das prescrições de antibióticos em pediatria — muitas vezes desnecessárias. No Brasil, estima-se que cerca de 10 milhões de atendimentos pediátricos anuais tenham a febre como queixa principal. Na grande maioria dos casos (85–90%), a febre em crianças tem etiologia viral e evolução benigna e autolimitada. Entretanto, em uma fração clinicamente significativa — especialmente em lactentes jovens — pode representar o único sinal de uma Infecção Bacteriana Grave (IBG), como bacteremia, infecção do trato urinário (ITU), pneumonia, meningite, artrite séptica ou osteomielite. A identificação precisa desses casos é o desafio central do manejo da febre na infância.

A conduta inadequada — tanto o subtratamento (não reconhecimento de IBG) quanto o supertratamento (uso indiscriminado de antibióticos, exames desnecessários, internações evitáveis) — traz consequências significativas: aumento da morbimortalidade, resistência bacteriana, iatrogenias e aumento do custo em saúde.

1.2 Por Que o Manejo da Febre é um Tema Crítico

Evidência-Chave

A temperatura per se não determina a gravidade — o ASPECTO CLÍNICO da criança é o principal preditor de IBG em todas as faixas etárias. Uma criança de 2 anos com febre de 40 °C e aspecto ótimo tem muito menor risco do que uma criança de 38,5 °C com aspecto tóxico. O sistema semáforo do NICE (NG143, 2019, atualizada em 2021) e a abordagem Step-by-Step (Gomez et al., Pediatrics 2016) foram construídos sobre esse princípio.

2. Avaliação Inicial Sistematizada

2.1 Definição de Febre — Como Medir Corretamente

A febre é definida como temperatura corporal acima do limiar fisiológico normal, determinado pelo setpoint hipotalâmico elevado por ação de pirógenos endógenos (IL-1β, IL-6, TNF-α, PGE₂). É importante distinguir febre de hipertermia: na febre, o setpoint está elevado e os mecanismos de termorregulação estão preservados; na hipertermia, o setpoint é normal, mas a produção ou dissipação de calor está comprometida (ex.: golpe de calor).

Definição adotada pelo site (SBP, DC nº 206, 15/05/2025): febre é temperatura axilar ≥ 37,5 °C (equivale a 38 °C oral ou retal), medida por 3 minutos com termômetro digital. Critérios de outras referências (NICE e AAP: ≥ 38 °C) aparecem como "critério do NICE/AAP". Exceção: para caracterizar convulsão febril, o site mantém ≥ 38 °C (ver Protocolo de Convulsão Febril). O sistema semáforo do NICE está na seção 4.4.

2.2 Métodos de Aferição e Limiares

     Local de aferição                 Limiar de febre                        Observações
Retal (padrão-ouro)                ≥ 38,0 °C                    Mais fidedigno; recomendado < 3 meses
                                                                Aceito acima de 3 meses; variação de até
Axilar (critério do site — SBP 2025) ≥ 37,5 °C
                                                                1 °C
                                                                Somente ≥ 5 anos; não usar após bebida
Oral (sublingual)                  ≥ 37,8 °C
                                                                quente/fria
                                                                Alta variabilidade; menos confiável < 2
Timpânica (infravermelho)          ≥ 38,0 °C
                                                                anos
                                                                Boa correlação em ≥ 3 meses; evitar se
Temporal (infravermelho)           ≥ 38,0 °C
                                                                sudorese
                                                                NÃO usar para diagnóstico; apenas
Tátil (mão da mãe/pai)             —
                                                                triagem grosseira
Importante

Não confiar em aferição tátil (mão da mãe/pai) para diagnóstico clínico de febre. Para crianças < 3 meses, sempre usar termômetro retal. Para maiores de 3 meses, axilar

é aceitável no consultório. Jamais estimar a temperatura pela coloração da pele ou comportamento da criança.

Exceção — criança neutropênica ou em quimioterapia

NÃO usar termômetro retal, supositório nem toque retal (risco de lesão da mucosa, translocação bacteriana e choque séptico — SBP, 2018): medir a temperatura na axila, também abaixo de 3 meses, e examinar a região perianal só pela inspeção. Toda febre nessa criança é emergência (ver Neutropenia febril).

2.3 Anamnese Dirigida para Criança com Febre

Caracterização da Febre

Sintomas Associados — Busca Ativa de Foco

História Clínica Relevante

2.4 Exame Físico Dirigido — O que Não Pode Faltar

Sinais Vitais Completos

Aspecto Geral — O Parâmetro Mais Importante

Exame Segmentar Completo — Busca de Foco

3. Fisiopatologia Aplicada À Febre

3.1 Mecanismo da Febre — Da Infecção ao Setpoint

A febre é uma resposta adaptativa evolutivamente conservada, mediada pelo sistema imune inato. O processo inicia-se com o reconhecimento de padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs — ex.: LPS bacteriano, RNA viral) pelos receptores Toll-like (TLRs) de macrófagos, monócitos e células dendríticas. Esse reconhecimento ativa cascatas inflamatórias que culminam na produção de pirógenos endógenos.

Cascata Pirôgenica

3.2 Funções Fisiológicas da Febre

A febre não é apenas um sinal de doença — tem funções imunomoduladoras importantes que justificam a cautela no tratamento indiscriminado:

Isso explica por que tratar a febre NÃO acelera a cura — e pode, em algumas situações (dengue, varicela), prolongar a viremia. O tratamento antitérmico tem indicação primária de CONFORTO, não de eliminação do sinal.

3.3 Correlação Clínica — Fisiopatologia da Resposta Séptica

Quando a resposta inflamatória é excessiva (infecção bacteriana grave, síndrome de resposta inflamatória sistêmica — SRIS), a liberação maciça de citocinas (IL-6, TNF-α) produz efeitos deletérios: vasodilatação periférica, aumento da permeabilidade vascular, disfunção miocárdica e ativação da cascata da coagulação (CIVD). A evolução para choque séptico pode ocorrer em horas.

FISIOPATOLOGIA DA MENINGOCOCCEMIA: A evolução fulminante da doença meningocócica resulta da ativação massiva da cascata do complemento pelo LPS de

Neisseria meningitidis, com liberação de TNF-α em pico. As petéquias/púrpura representam microtrombos de CIVD — podem surgir e progredir em minutos. Qualquer petéquia não branqueável em criança com febre é EMERGÊNCIA MÉDICA independentemente do estado geral aparente.

3.4 Implicações no Manejo

4. Diagnóstico — Avaliação De Risco E Foco

4.1 Estratificação de Risco por Faixa Etária

Faixa etária         Risco de IBS             Internação                 Conduta recomendada
< 28 dias          MUITO ALTO (>          SEMPRE                  Hemograma + Hemocultura +
                   10%)                                           urinocultura + LCR + PCR + PCT + Rx
                                                                  de tórax + ATB empírico imediato
                                                                  (Ampicilina + Gentamicina)
28–90 dias         ALTO (5–10%)           Individualizar          Exames de risco (EAS + hemograma +
                                          (critérios              PCR + PCT): baixo risco →
                                          Rochester/Step-by-      ambulatorial; alto risco → internação +
                                          Step)                   completar investigação + ATB
                   MODERADO (2–           Se aspecto tóxico       Exames + tratamento conforme clínica e
3–36 meses
                   5%)                    ou foco grave           resultado dos exames
                                                                  Exame clínico orienta conduta; exames
                                          Se critérios de
> 36 meses         BAIXO (< 1%)                                   seletivos; antitérmico se febre com
                                          gravidade
                                                                  desconforto

4.2 Critérios de Rochester — Baixo Risco em 28–90 dias

Os Critérios de Rochester (Jaskiewicz et al., Pediatrics 1994) identificam lactentes de baixo risco para IBG até 3 meses. É a ferramenta adotada pela SBP (DC nº 206/2025: protocolo HU-USP do Tratado de Pediatria da SBP, baseado em Rochester até 3 meses e em Baraff de 3 a 36 meses). Todos os critérios devem estar presentes simultaneamente para classificar como baixo risco:

        Domínio                       Critério de baixo risco (TODOS devem estar presentes)
Aspecto clínico              Bom estado geral; não tóxico; sem sinais de infecção bacteriana focal
                             A termo (≥ 37 sem); sem antibiótico prévio; sem hiperbilirrubinemia
História
                             tratada; sem doenças crónicas; sem internação prévia
Hemograma                    Leucócitos entre 5.000 e 15.000/mm³; bastonetes ≤ 1.500/mm³
                             Leucocitúria < 10 leucócitos/campo em amostra centrifugada; nitrito
Urina
                             negativo
Fezes (se diarreia)          Leucócitos fecais < 5/campo
                             Baixo risco Rochester: manejo ambulatorial com reavaliação diária
Interpretação
                             até o resultado das culturas (SBP 2025)

Leucocitúria com marcadores inflamatórios normais (29–60 dias): o lactente febril bem aparente com exame de urina alterado não é de baixo risco por Rochester, mesmo com hemograma, PCR e procalcitonina normais — internar, colher urocultura (cateterismo ou punção) e hemocultura, iniciar antibiótico intravenoso e indicar a punção lombar pelos critérios da seção 4.5 (padrão do site, SBP/Rochester; decisão do Dr. Stefani, 03/10/2026). Divergência: a AAP (Pantell, 2021) admite, de 29 a 60 dias com urina alterada e marcadores normais, antibiótico oral em casa sem punção lombar, com reavaliação em 24 h.

4.3 Score Step-by-Step (Mintegi, 2021) — Abordagem Sequencial

O Step-by-Step, validado em coorte europeia (Gomez et al., Pediatrics 2016), estratifica o risco de infecção bacteriana invasiva em lactentes ≤ 90 dias de forma sequencial. É o protocolo da AEP/SEUP (Lactante febril, 4ª ed. 2024, versão atualizada 2026). Não é o protocolo da SBP (que usa Rochester) nem do NICE (que indica antibiótico parenteral a todo lactente < 1 mês e aos de 1–3 meses com mau estado geral ou leucócitos < 5.000 ou > 15.000/mm³); a AAP (2021, 8–60 dias) usa algoritmo próprio com marcadores inflamatórios. O site segue a SBP; o Step-by-Step é apresentado como apoio onde houver procalcitonina:

Atenção

O Step-by-Step teve sensibilidade de 92% e especificidade de 47% para infecção bacteriana invasiva em lactentes ≤ 90 dias (Gomez et al., Pediatrics 2016). O baixo risco NÃO é zero risco — reavaliação em 24 h é obrigatória. A PCT é o biomarcador de maior acurácia nas primeiras 6–12 horas de febre, superando o hemograma e a PCR nessa janela temporal.

4.4 Sistema Semáforo NICE (NG143, 2021) — Para Todas as Idades

O sistema semáforo do NICE classifica a criança febril em três categorias de risco com base em sinais e sintomas clínicos, independentemente da temperatura. Qualquer característica VERMELHA = encaminhamento imediato à emergência. Qualquer característica ÂMBAR = avaliação clínica adicional e acompanhamento.

Domínio🟢 Verde — baixo risco🟡 Âmbar — risco intermediário🔴 Vermelho — alto risco
CorNormalPalidez referida pelos paisPálido, moteado, acinzentado ou azulado
AtividadeResponde normalmente; contente ou sorri; acorda rápido; choro forte ou não choraNão responde normalmente; não sorri; só acorda com estímulo prolongado; menos ativoNão responde; parece doente ao profissional; não acorda ou não se mantém acordado; choro fraco, agudo ou contínuo
Respiração—Batimento de asa nasal; FR > 50 (6–12 meses), > 40 (> 12 meses); SpO₂ ≤ 95% em ar; crepitaçõesGemido; FR > 60; tiragem moderada ou grave
Circulação e hidrataçãoPele e olhos normais; mucosas úmidasTaquicardia (> 160 < 12 m; > 150 12–24 m; > 140 2–5 anos); TEC ≥ 3 s; mucosas secas; mamadas ruins; diurese reduzidaTurgor cutâneo reduzido
OutrosNenhum sinal âmbar ou vermelho3–6 meses com ≥ 39 °C; febre ≥ 5 dias; calafrios; edema de membro ou articulação; não apoia ou não usa o membro< 3 meses com ≥ 38 °C; exantema que não desaparece à pressão; fontanela abaulada; rigidez de nuca; estado de mal; sinais neurológicos focais; crises focais

Fonte: NICE NG143, tabela 2 (2013, mantida na atualização de 2021). Limiares de temperatura do NICE (≥ 38 °C). No site, febre = axilar ≥ 37,5 °C.

4.5 Exames Essenciais por Situação Clínica

         Exame                  Indicação principal                           Observações
Hemograma                  Febre sem foco 28–90 dias;           Leucócitos > 15.000 ou < 5.000 = alto
completo                   febre ≥ 39 °C 3–36 meses             risco de IBS
                           Febre ≥ 39 °C sem foco,
Urina rotina (EAS) +                                            Coleta por cateterismo ou punção (evitar
                           especialmente em meninas
urocultura                                                      saco coletor para cultura)
                           < 24m e meninos < 12m
                           < 90 dias com febre;
                                                                Coletar antes do ATB; mínimo 1 mL de
Hemocultura                aspecto tóxico em qualquer
                                                                sangue
                           idade
       Exame                  Indicação principal                           Observações
                         28–90 dias; febre
PCR (Proteína C-                                              PCR > 40 mg/L = alto risco; PCR < 20
                         prolongada; avaliação de
reativa)                                                      mg/L = baixo risco em lactentes
                         IBS
                         28–90 dias (Step-by-Step);           PCT > 0,5 ng/mL = alto risco; superior à
Procalcitonina (PCT)
                         febre ≥ 38 °C < 3 meses              PCR nas primeiras 6 horas
                         FR elevada; SpO₂ < 95%;              NÃO solicitar rotineiramente para febre
Rx de tórax
                         crepitação; febre > 5 dias           sem sintomas respiratórios
                         < 28 dias (sempre); < 90
Punção lombar +          dias com aspecto tóxico ou           Não retardar ATB para aguardar PL em
LCR                      exames alterados;                    meningite suspeita
                         meningismo
                         Edema articular; recusa em
Radiografia de ossos
                         usar o membro; dor                   Suspeita de artrite séptica ou osteomielite
/ articulação
                         localizada
                         ITU confirmada < 2 anos;
USG de vias urinárias                                         Realizada após estabilização clínica
                         ITU febril recorrente
                         Febre > 5 dias; suspeita de          DK: VHS > 40; ferritina > 500 = suspeita
VHS + ferritina
                         DK ou doença inflamatória            de MAS/linfohistiocitose
Sódio + glicemia +       Aspecto tóxico; choque               Lactato > 2 mmol/L = hipoperfusão; > 4 =
lactato + gasometria     séptico suspeito                     choque
Hemoculturas
                         Febre em imunodeprimido;             Painel respiratório viral; CMV; EBV;
específicas + PCR
                         suspeita de encefalite               enterovírus
viral

4.6 O que NÃO FAZER no Diagnóstico

Erros Críticos A Evitar

5. Conduta E Tratamento

5.1 Princípios Gerais do Manejo da Febre

O tratamento da febre pediátrica é guiado por dois objetivos distintos: (1) alívio do desconforto da criança com uso criterioso de antitérmicos; e (2) identificação e tratamento da causa subjacente quando indicado. Não existe valor de temperatura que por si só indique tratamento — a decisão deve ser baseada no desconforto clínico observado e não em limiares arbitrários.

5.2 Passo a Passo — Conduta por Faixa Etária

Passo                                                   Ação
1          Verificar a IDADE — é o primeiro determinante da conduta na criança com febre
2          Aferir temperatura com método adequado para a idade (retal < 3m; axilar ≥ 3m)
           Avaliar o ASPECTO CLÍNICO — aplique o semáforo NICE mentalmente: verde / âmbar /
3
           vermelho
           Se < 28 dias com febre → INTERNAÇÃO IMEDIATA + coleta de culturas + ATB empírico
4
           — não aguardar
           Se 1–3 meses → Rochester (SBP): hemograma + urina (+ pesquisa viral) → baixo risco:
5
           ambulatorial com reavaliação diária; alto risco: internar + culturas + ATB
           Se 3–36 meses sem foco (SBP): vacinação incompleta ou mau estado → internar; > 39 °C
6
           → hemograma + urina/urocultura; leucócitos ≥ 20.000 ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³ →
           Rx de tórax, hemocultura e ceftriaxona 50 mg/kg IM 1×/dia com reavaliação diária
           Buscar ativamente o FOCO CLÍNICO em todas as faixas etárias — OMA,
7
           faringoamigdalite, ITU, pneumonia
           Prescrever antitérmico se criança com desconforto: Paracetamol 10–15 mg/kg a cada 4–
8
           6h ou Ibuprofeno 5–10 mg/kg a cada 6–8h (≥ 6m)
           Orientar família: monitoramento em casa, sinais de alarme, retorno se febre > 48–72h
9
           sem melhora ou surgimento de novos sintomas
           Documentar: temperatura, aspecto clínico, exames solicitados, conduta e critérios para
10
           retorno

5.3 Antitérmicos — Doses Pediátricas e Comparação

 Medicamento             Dose             Intervalo            Dose máx./dia    Observações clínicas
                                                                               1ª escolha; seguro em <
Paracetamol         10–15                                  75 mg/kg/dia ou
                                      4/4 h a 6/6 h                            6 meses; hepatotóxico
(acetaminofeno)     mg/kg/dose                             4 g/dia (adulto)
                                                                               em superdosagem
                                                                               ≥ 6 meses; evitar em
                    5–10                                   40 mg/kg/dia ou
Ibuprofeno                            6/6 h a 8/8 h                            desidratação, disfunção
                    mg/kg/dose                             2,4 g/dia
                                                                               renal, dengue suspeita
                                                                               Uso muito comum no
                                                                               Brasil; eficácia
Dipirona            15
                                      6/6 h                4 doses/dia         antitérmica equiparável;
(metamizol)         mg/kg/dose
                                                                               risco de agranulocitose
                                                                               (raro); não usar < 3 m
                                                                               ou < 5 kg (bula)
                                                                               Contraindicada em
                    NÃO USAR                                                   pediatria (risco
Nimesulida                            —                    —
                    em < 12 anos                                               hepatotóxico) — ANVISA
                                                                               proibiu uso em < 12 anos
                                                                               Risco de síndrome de
Ácido
                                                                               Reye; contraindicado em
acetilsalicílico    NÃO USAR          —                    —
                                                                               crianças com infecções
(AAS)
                                                                               virais

Fontes: SBP, DC nº 206/2025 (paracetamol 10–15 mg/kg 4–6 h, máx. 75 mg/kg/dia; dipirona 10–16 mg/kg 6–8 h, a partir de 3 meses e 5 kg; ibuprofeno 5–10 mg/kg 6–8 h, a partir de 6 meses, máx. 40 mg/kg/dia); dipirona 15 mg/kg/dose 6/6 h é o padrão do site (decisão de 30/09/2026), dentro da faixa da SBP. DOSES PADRÃO E ALERTA DE EFEITO CUMULATIVO: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose a cada 4–6 h (máx. 5 doses/dia), máximo 75 mg/kg/dia (nunca > 4 g/dia). O uso repetido por 48–72 h, sobretudo no limite de dose, em criança desidratada, desnutrida, em jejum ou somando produtos que contêm paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação. Dipirona 15 mg/kg/dose a cada 6 h (máx. 4 doses/dia); não usar em < 3 meses ou < 5 kg (bula); a regra de '1 gota/kg' leva a superdosagem.

SOBRE ALTERNÂNCIA DE ANTITÉRMICOS: A prática de alternar paracetamol e ibuprofeno para manter a criança apirética é NÃO RECOMENDADA pela SBP (DC nº 206/2025), AAP (2011) e NICE (NG143). Aumenta o risco de erros de dosagem pelos pais, não demonstrou benefício clínico significativo em relação ao bem-estar da criança e pode mascarar a evolução clínica. Use UM antitérmico por vez, na dose e intervalo corretos.

5.4 Tratamento de Focos Específicos Identificados

Otite Média Aguda (OMA)

Faringoamigdalite Bacteriana (GABHS — Streptococcus pyogenes)

Infecção do Trato Urinário (ITU) Febril

Pneumonia Bacteriana

Meningite Bacteriana — Emergência

5.5 Convulsão Febril — Conduta

Crise Febril Simples (CFS)

Crise Febril Complexa (CFC)

Alerta do Dr. Stefani — tempo da fenitoína

A fenitoína leva cerca de 20 min para infundir; somada aos benzodiazepínicos, o controle pode passar de 30 min (limite ILAE 2015 para risco de lesão neuronal). Prepare a 2ª linha já na 1ª dose de benzodiazepínico e inicie logo após a 2ª dose, sem esperar. Onde houver levetiracetam IV, ele é preferível por infundir em 5–10 min (NICE NG217; APLS; ESETT, EcLiPSE e ConSEPT 2019).

Por que 5 minutos — t1 e t2 (ILAE 2015)

O estado de mal passou a ser definido com 5 minutos (t1 da ILAE 2015) porque é o ponto em que a crise tônico-clônica tende a se prolongar: depois dele, a chance de parar sozinha cai muito, e por isso o tratamento começa aí. Na monitorização por vídeo-EEG, a maioria das crises convulsivas dura menos de 5 min (Trinka et al., Epilepsia 2015). Em 407 crianças com a primeira crise não provocada, as durações formaram dois grupos — 76% com média de 3,6 min e 24% com média de 31 min —; quanto mais a crise durava, menor a chance de parar nos minutos seguintes, e depois de 5–10 min era improvável que cedesse sozinha (Shinnar et al., Ann Neurol 2001;49:659–64). O t2 = 30 minutos é o limite a partir do qual há risco de lesão neuronal (ILAE 2015): o antigo limiar de 30 min marca o risco de dano, e não o momento de tratar.

Atenção, 30 minutos — estado de mal refratário

Atenção, 30 minutos: a partir do t2 (ILAE 2015) cresce o risco de lesão neuronal. Se a crise não ceder com o benzodiazepínico (2 doses) e a medicação de 2ª linha, é estado de mal REFRATÁRIO. Não espere os 30 min nem tente uma 3ª droga de 2ª linha por muito tempo: acione a UTI pediátrica para intubação e COMA INDUZIDO com infusão contínua de anestésico, para suprimir a atividade epiléptica, com monitorização eletroencefalográfica contínua (alvo: cessar as crises no EEG ou surto-supressão).

Coma induzido — conduta de UTI/anestesiologia: intubação, ventilação mecânica e suporte hemodinâmico (esses agentes causam hipotensão e podem exigir vasopressor — NCS 2012); doses tituladas pelo EEG contínuo.

Manter o controle eletrográfico por 24–48 h e retirar a infusão gradualmente (NCS 2012).

5.6 Fluxograma Terapêutico — Decisão Rápida

< 28 DIAS                          28–90 DIAS                      > 3 MESES
Qualquer febre (axilar ≥ 37,5 °C)  Rochester (SBP) / Step-by-Step  Semáforo NICE + busca de
→ INTERNAÇÃO SEMPRE                → PCT + PCR + EAS +             foco
→ Hemograma + hemocultura          hemograma + hemocultura         → Verde: antitérmico +
+ EAS + urocultura + LCR           → Alto risco: INTERNAR +        orientação
→ ATB: Ampicilina +                ATB                             → Âmbar: exames seletivos +
Gentamicina                        → Baixo risco: ambulatorial +   retorno
                                   retorno em 24h                  → Vermelho: EMERGÊNCIA

6. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Documento e versãoDC nº 206, 15/05/2025AIDPI; Dengue (2024); Guia de Vigilância (meningites)CPG febre 8–60 dias (Pantell, 2021); Clinical Report antitérmicos (2011)NG143 (2019, atualizada 11/2021)SEUP, Lactante febril (2024, versão 2026)Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSeguem o NICE
DefiniçãoAxilar ≥ 37,5 °C (38 °C oral/retal)Axilar ≥ 37,5 °C (AIDPI)≥ 38 °C retal≥ 38 °C≥ 38 °C——Seguem o NICE
Lactente jovem sem foco< 30 dias: internar; 1–3 meses: Rochester; 3–36 meses: Baraff/HU-USP—8–21 dias: LCR e ATB; 22–60 dias: marcadores inflamatórios; 29–60 dias com urina alterada e marcadores normais: ATB oral em casa, sem LCR< 1 mês e 1–3 meses graves ou leucócitos alterados: LCR e ATB parenteralStep-by-Step (PCT, PCR, neutrófilos, urina)——Seguem o NICE
AntitérmicosParacetamol, dipirona, ibuprofeno; só se desconfortoDengue: paracetamol ou dipirona; sem AINEParacetamol ou ibuprofeno, para confortoParacetamol ou ibuprofeno, para confortoPara o bem-estar (AEP 2022, CF)——Seguem o NICE
Alternar antitérmicosNão—NãoSó se o desconforto persistir antes da próxima dose———Seguem o NICE
Antitérmico na convulsão febrilNão previne (nível I)—Não previneNão previneNão previne——Seguem o NICE
2ª linha no estado de mal febrilSem documento oficial (revisão Liberalesso, Residência Pediátrica 2018)PCDT Epilepsia (Portaria Conjunta nº 17, 21/06/2018): fenitoína 18 (15–20) mg/kg ou fenobarbital 15 mg/kgAES 2016: fosfenitoína, valproato ou levetiracetam (equivalentes)NG217 (atualizada 08/2026): prefere o levetiracetamSEUP 01/2025: levetiracetam, fenitoína ou valproato (equivalentes)——Seguem o NICE
Meningite — ampicilina empírica—Até 2 meses8–21 dias (2021)Até 3 mesesAté 3 meses——Seguem o NICE

Leitura: há concordância em que o aspecto clínico pesa mais que o número do termômetro, em que todo lactente < 1 mês com febre é internado e investigado, em que antitérmico serve ao conforto e não previne convulsão febril, e em não alternar antitérmicos de rotina. As divergências: (1) limiar de febre — axilar ≥ 37,5 °C pela SBP (2025) × ≥ 38 °C pelo NICE, AAP e AEP; (2) ferramenta no lactente de 1–3 meses — Rochester pela SBP, Step-by-Step pela AEP, critérios próprios no NICE e na AAP (8–60 dias); (3) dipirona — usada no Brasil (SBP), fora das diretrizes da AAP e do NICE; (4) ampicilina empírica na meningite — até 2 meses pelo MS, até 3 meses pelo NICE e pela AEP; (5) o NICE admite trocar de antitérmico se o desconforto persistir; (6) lactente de 29–60 dias com leucocitúria e marcadores inflamatórios normais — internação com antibiótico intravenoso pela SBP (Rochester) × antibiótico oral em casa, sem punção lombar, pela AAP (2021). Posição do site: segue a SBP (DC nº 206/2025) na definição, nos antitérmicos e na avaliação do lactente, inclusive na internação do lactente de 29–60 dias com urina alterada (decisão do Dr. Stefani, 03/10/2026); o MS na ampicilina (até 2 meses) e na dengue; o NICE como apoio para o semáforo de gravidade. No estado de mal febril, o site segue o MS na 2ª linha (fenitoína ou fenobarbital, PCDT 2018; a SBP não tem documento oficial), com o alerta sobre o tempo de infusão da fenitoína, e recomenda o levetiracetam onde houver (NICE NG217; eficácia equivalente nos ensaios ESETT, EcLiPSE e ConSEPT, 2019 — decisão do Dr. Stefani, 01/10/2026).

7. Critérios De Internação

7.1 Indicações de Internação Hospitalar

INTERNAÇÃO EM CARÁTER DE URGÊNCIA / EMERGÊNCIA:

Como encaminhar (🔴): do consultório, SAMU 192 nos instáveis; oxigênio para manter SpO₂ entre 94% e 98%, evitando hiperóxia; acesso venoso e cristaloide 10–20 mL/kg se choque (ver Sepse e choque séptico); ceftriaxona 1ª dose 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) na suspeita de doença meningocócica, se não atrasar a remoção; carta com horários e doses.

Febre prolongada e FOI: febre ≥ 5 dias muda a abordagem (pensar em Kawasaki — NICE NG143). Febre de origem indeterminada (SBP, DC nº 206/2025) = febre ≥ 38,3 °C diária por ≥ 14 dias sem causa após avaliação clínica e laboratorial básica — ver Febre prolongada e febre de origem indeterminada (Infectologia).

INTERNAÇÃO ELETIVA / MONITORAMENTO:

INTERNAÇÃO NÃO INDICADA (critérios para alta segura):

8. Erros Comuns Na Prática Clínica

8.1 Erros de Avaliação e Diagnóstico

                  Erro comum                                          Conduta correta
Focar no número da temperatura e não no                Aspecto clínico (NICE semáforo) > temperatura
aspecto clínico                                        — avaliar sempre a criança inteira
Dispensar neonato (< 28 dias) com febre sem            < 28 dias com febre = emergência = internação
investigação                                           + culturas + ATB sempre
Tranquilizar família porque a criança 'melhorou        Melhora com antitérmico NÃO discrimina viral
com o antitérmico'                                     de bacteriano — não reconfortar indevidamente
                                                       Sempre cateterismo ou punção suprapúbica
Coletar urocultura em saco coletor                     para urocultura — saco coletor tem
                                                       contaminação de 60–80%
                                                       Rx de tórax somente com sintomas
Solicitar Rx de tórax para toda criança febril         respiratórios ou febre prolongada — não é
                                                       exame de triagem
                                                       Meningite bacteriana suspeita: realizar PL —
Não realizar PL por 'medo de herniação' em
                                                       herniação é rara; omitir PL prejudica
meningite suspeita sem edema de papila
                                                       diagnóstico
                                                       Em imunodeprimido qualquer febre =
Ignorar febre em imunodeprimido por ser 'baixa'
                                                       emergência — protocolo de neutropenia febril
                                                       ITU é causa de febre sem foco em 5–7% dos
Não pesquisar ITU em lactente febril sem foco
                                                       lactentes — EAS obrigatório ≥ 39 °C sem foco

8.2 Erros de Tratamento

                  Erro comum                                          Conduta correta
Usar AAS ou nimesulida como antitérmico em             NUNCA — AAS: risco de síndrome de Reye;
crianças                                               nimesulida: proibida < 12 anos pela ANVISA
                                                       NÃO recomendado por nenhum protocolo —
Alternar paracetamol e ibuprofeno de rotina            aumenta risco de erro de dose pelos
                                                       cuidadores
Banho frio ou compressa de gelo para baixar            NÃO recomendado — causa vasoconstrição,
febre                                                  calafrio, aumento do metabolismo e desconforto
                                                       ATB sem indicação seleciona resistência
Prescrever ATB para toda febre > 39 °C sem
                                                       bacteriana — não indicar sem foco bacteriano
foco
                                                       identificado
Dosar antitérmico pelo volume da apresentação          Verificar SEMPRE: paracetamol 200 mg/mL vs.
sem checar a concentração                              100 mg/mL — dose em mg/kg, não em ml
Usar ibuprofeno em criança com dengue                  CONTRAINDICADO na dengue — risco de
suspeita                                               sangramento; usar paracetamol
Retardar ATB em meningite suspeita para                ATB IMEDIATO após hemocultura — não
aguardar PL                                            retardar por PL se criança instável
                                                       Sempre orientar: 'Retorne SE...' — febre > 48h,
Não orientar critérios de retorno ao dar alta
                                                       piora do aspecto, petéquias, choro inconsolável

8.3 Erros de Comunicação com a Família

9. Referências

1. Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Abordagem da febre aguda em pediatria e reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15/05/2025. sbp.com.br

2. NICE. Fever in under 5s: assessment and initial management. NG143, 07/11/2019 (atualizada 26/11/2021). nice.org.uk

3. NICE. Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. NG240, 19/03/2024. nice.org.uk

4. Pantell RH, et al. Evaluation and management of well-appearing febrile infants 8 to 60 days old. Pediatrics. 2021;148(2):e2021052228.

5. Sullivan JE, Farrar HC; AAP Section on Clinical Pharmacology and Therapeutics, Committee on Drugs. Fever and antipyretic use in children. Pediatrics. 2011;127(3):580–587.

6. Gomez B, Mintegi S, et al. Validation of the "Step-by-Step" approach in the management of young febrile infants. Pediatrics. 2016;138(2):e20154381.

7. Mintegi Raso S, Gómez Cortés B, Velasco Zúñiga R. Lactante febril. Protocolos SEUP, 4ª ed., 2024 (versão atualizada 2.0, 2026). seup.org

8. Jaskiewicz JA, et al. Febrile infants at low risk for serious bacterial infection — an appraisal of the Rochester criteria and implications for management. Pediatrics. 1994;94(3):390–396.

9. American Academy of Pediatrics, Subcommittee on Urinary Tract Infection. Urinary tract infection: clinical practice guideline for the diagnosis and management of the initial UTI in febrile infants and children 2 to 24 months. Pediatrics. 2011;128(3):595–610.

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Veja também, nesta Biblioteca: Meningites bacterianas e virais; Febre prolongada e febre de origem indeterminada; Infecções no imunocomprometido e dispositivos (Infectologia); Neutropenias; Doença falciforme (Hematologia); Infecção urinária na criança; Protocolo de Convulsão Febril; Sepse e choque séptico na criança; calculadora de antitérmicos (/ferramentas/calculadora-antitermicos.html).

Este documento é de uso exclusivamente educacional, destinado à formação e atualização de médicos. As condutas descritas devem ser adaptadas ao contexto clínico individual de cada paciente. Em casos complexos, consulte sempre um especialista. As doses e recomendações devem ser confirmadas nas diretrizes mais atuais das sociedades