← Oncologia Pediátrica Oncologia Pediátrica · Tumores do SNC

Tumores Cerebrais na Infância

1.Importância e epidemiologia

Os tumores do SNC são os tumores sólidos mais comuns da infância, a segunda neoplasia mais frequente depois das leucemias (Ministério da Saúde, 2017) e uma das principais causas de morte por câncer pediátrico. Na criança, a maioria localiza-se na fossa posterior (infratentorial) — ao contrário do adulto, em que predominam os supratentoriais. Por isso, os sinais de disfunção cerebelar e de hipertensão intracraniana são especialmente importantes.

2.Fisiopatologia: como o tumor gera sintomas

Os sintomas resultam de três mecanismos, que se combinam conforme a localização:

Princípio

"A localização explica o sintoma." Correlacionar a queixa neurológica com a topografia é a chave do raciocínio — e o que orienta a urgência da neuroimagem.

3.Hipertensão intracraniana (HIC)

Síndrome comum a muitos tumores, sobretudo os que causam hidrocefalia. Tríade/achados:

4.Sintomatologia por localização (correlação anatomoclínica)

Topografia × manifestações típicas
LocalizaçãoFisiopatologia / sintomas
Cerebelo (vermis)Ataxia de tronco/marcha, instabilidade; obstrução do IV ventrículo → hidrocefalia e HIC. Típico do meduloblastoma.
Cerebelo (hemisférios)Ataxia apendicular, dismetria e tremor ipsilaterais; nistagmo.
IV ventrículoHidrocefalia obstrutiva precoce e HIC; vômitos; típico do ependimoma.
Tronco encefálicoParalisia de múltiplos pares cranianos, sinais de via longa (hemiparesia), ataxia — frequentemente sem HIC inicial (glioma difuso de ponte/DIPG, hoje glioma difuso de linha média com alteração H3 K27 na classificação da OMS de 2021).
Hemisférios (supratentorial)Crises epilépticas, déficit focal (hemiparesia, alterações de linguagem/comportamento) conforme o lobo.
Região selar/suprasselar e hipotálamoDistúrbios visuais (compressão do quiasma → hemianopsia bitemporal), endócrinos (baixa estatura, diabetes insípido, puberdade alterada). Típico do craniofaringioma e do glioma de vias ópticas.
Região pinealHidrocefalia (compressão do aqueduto) + síndrome de Parinaud (paralisia do olhar vertical para cima, "sol poente").
Medula espinhalDor nas costas, déficit motor/sensitivo, alteração esfincteriana, escoliose.

5.Particularidades por idade

6.Principais tipos na infância

TumorLocal típico / nota
Astrocitoma pilocíticoCerebelo; baixo grau, bom prognóstico, frequentemente curável com cirurgia
MeduloblastomaVermis cerebelar/IV ventrículo; embrionário, maligno; pode disseminar pelo líquor
EpendimomaIV ventrículo; hidrocefalia precoce
Glioma difuso de ponte (DIPG)Tronco; pares cranianos + via longa; prognóstico muito reservado
CraniofaringiomaSelar/suprasselar; visual + endócrino; calcificações
Glioma de vias ópticasAssociado à neurofibromatose tipo 1

7.Diagnóstico

8.Tratamento e prognóstico

Depende do tipo e da localização: cirurgia (ressecção máxima segura), radioterapia (com cautela em crianças pequenas pelos efeitos no neurodesenvolvimento) e quimioterapia. O manejo da hidrocefalia (derivação/terceiroventriculostomia) pode ser urgente. O prognóstico varia muito — excelente no astrocitoma pilocítico cerebelar e muito reservado no DIPG. As sequelas tardias (cognitivas, endócrinas, visuais) exigem seguimento multidisciplinar.

9.Erros comuns

10.Pontos-chave para a prova

11.Casos clínicos comentados

Caso 1

Menino de 6 anos com cefaleia matinal e vômitos há 4 semanas, andar cambaleante e quedas frequentes. Ao exame, ataxia de marcha, dismetria à direita e papiledema. A RM evidencia massa no vermis cerebelar com hidrocefalia.

1.A correlação anatomoclínica explica os achados porque:
Gabarito: B) O cerebelo coordena o equilíbrio e os movimentos (ataxia/dismetria); a massa no vermis bloqueia o IV ventrículo, causando hidrocefalia e hipertensão intracraniana (cefaleia matinal, vômitos, papiledema).
2.O tumor maligno mais provável nessa topografia, nessa idade, é:
Gabarito: C) Massa maligna do vermis cerebelar/IV ventrículo em criança sugere meduloblastoma (embrionário, pode disseminar pelo líquor). O astrocitoma pilocítico é a possibilidade benigna no cerebelo.
3.Diante da HIC com efeito de massa e hidrocefalia, NÃO se deve:
Gabarito: A) Em HIC com efeito de massa, a punção lombar pode precipitar herniação cerebral; a imagem precede qualquer punção e o paciente deve ir à neurocirurgia.
0/3 acertos
Caso 2

Menina de 8 anos com queda do rendimento escolar, queixa de "esbarrar nas coisas" lateralmente, baixa velocidade de crescimento e sede/urina excessivas. Campimetria sugere hemianopsia bitemporal. A RM mostra massa selar/suprasselar com calcificações.

1.A hemianopsia bitemporal é explicada por:
Gabarito: B) As fibras nasais das retinas cruzam no quiasma; sua compressão central (massa suprasselar) compromete os campos temporais de ambos os olhos — a hemianopsia bitemporal.
2.A baixa estatura e a poliúria/polidipsia (diabetes insípido) indicam comprometimento de:
Gabarito: C) A região selar/suprasselar afeta o eixo hipotálamo-hipofisário, causando déficits endócrinos (baixa estatura por deficiência de GH, diabetes insípido por deficiência de ADH).
3.O tumor mais provável, com massa selar/suprasselar calcificada nessa idade, é:
Gabarito: A) Massa selar/suprasselar com calcificações, déficits visuais (quiasma) e endócrinos é o quadro clássico do craniofaringioma na criança.
0/3 acertos

12.Comparação com as referências

Versões conferidas em outubro de 2026. Regra do site: a conduta segue a SBP; na falta dela, o Ministério da Saúde; na falta de ambos, a melhor referência, indicada no texto.

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 4, 09/09/2021 (sinais de alerta); sem documento sobre tumores do SNCProtocolo de diagnóstico precoce, 2017Sem posição específica localizadaNG12, 1.9.2 (2015; atualizada em 15/04/2026); NG127, 1.21 (2019; atualizada em 02/10/2023)AEPap/SEHOP, guia de detecção, 2015Sem posição específica localizadaBoston Children's, Brain Tumor Center (página do serviço)Segue o NICE
Sinais de alertaCefaleia matutina, persistente ou progressiva, com alteração neurológica, de comportamento, do crescimento, do perímetro cefálico; diabetes insípido; NF1Cefaleia e vômitos, marcha, rendimento escolar, papiledema, convulsão, estrabismo, macrocefalia, pares cranianosSem posição específica localizadaCefaleia que acorda, ao despertar, progressiva, com vômitos, ataxia, estrabismo ou “sol poente” (< 12 anos); qualquer cefaleia < 4 anos> 2 anos: cefaleia persistente > 4 semanas, vômitos > 2 semanas; < 2 anos: fontanela abaulada, perímetro cefálico, regressãoSem posição específica localizadaCefaleia, vômitos matinais, mudança de personalidade, sonolênciaSegue o NICE
UrgênciaEncaminhamento imediato ao centro de referênciaHIC ou alteração da consciência: serviço de emergência; demais: neuroimagem rápida (o MS fixa até 7 dias)Sem posição específica localizadaFunção cerebelar ou neurológica nova: muito urgente; cefaleia com sinal de alerta: avaliação no mesmo diaCefaleia e vômitos que acordam ou matinais: derivação imediata; rebaixamento: internação imediataSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
ExameNo centro de referênciaTC e/ou RM de crânioSem posição específica localizadaFundo de olho em toda cefaleia recorrente; medir a PARM ou TC o mais cedo possívelSem posição específica localizadaRM, TC, biópsia; punção lombar só pela equipeSegue o NICE

Leitura: há convergência nos sinais: cefaleia que acorda a criança, aparece ao despertar ou piora progressivamente, sobretudo com vômitos, ataxia, estrabismo novo, alteração visual, convulsão, regressão ou mudança de comportamento, exige exame neurológico com fundo de olho e neuroimagem. Todas tratam a HIC e a alteração da consciência como emergência. Divergências de forma: o NICE (NG127) pede avaliação no mesmo dia e encaminha toda cefaleia abaixo de 4 anos; a AEPap usa limiares de duração (4 semanas de cefaleia, 2 semanas de vômitos); o MS fixa até 7 dias para a imagem. A SBP manda encaminhar de imediato ao centro de referência e não fixa prazo. O site adota a SBP, com os critérios de emergência do MS: HIC ou consciência alterada = 🔴; déficit novo sem HIC = neuroimagem e encaminhamento com urgência. Atenção à diferença com a dor em membros: a dor de crescimento pode acordar a criança (SBP), mas a cefaleia que acorda é sinal de alerta em todas as referências.

Pontos práticos
  1. Cefaleia que acorda, ao despertar ou progressiva, com vômitos: exame neurológico completo e fundo de olho no mesmo dia.
  2. Papiledema, rebaixamento, sonolência, "sol poente", fontanela abaulada ou vômitos incoercíveis: 🔴 serviço de emergência.
  3. Ataxia, estrabismo ou paralisia de par craniano novos, convulsão nova, regressão: neuroimagem e encaminhamento com urgência.
  4. Lactente: meça o perímetro cefálico em toda consulta e compare com a curva.
  5. Baixa velocidade de crescimento, diabetes insípido ou puberdade alterada com queixa visual: pense em tumor selar.
  6. Não faça punção lombar antes da imagem quando houver suspeita de HIC.

13.Referências selecionadas