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Linfoma de Hodgkin

1.Importância e epidemiologia

O linfoma de Hodgkin é um dos cânceres mais comuns do adolescente e adulto jovem (incidência crescente após os 10 anos, raro em menores de 5 anos). Representa cerca de 10% das neoplasias da infância, com predomínio no sexo masculino (60%), e é raro abaixo dos 2 anos (SBP, DC nº 166/2024). Associa-se à infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr (EBV) em parte dos casos. É altamente curável: mais de 90% nos estádios iniciais e 70–90% livres de doença mesmo nos avançados (SBP, 2024).

2.Fisiopatologia e histologia

A célula maligna é a célula de Reed-Sternberg (grande, binucleada, em "olhos de coruja"), de origem B, presente em um fundo inflamatório reativo. A disseminação tende a ser contígua, de uma cadeia ganglionar para a vizinha. O subtipo mais comum em adolescentes é a esclerose nodular.

3.Quadro clínico

Sinal de alerta

Linfonodo supraclavicular de qualquer tamanho, ou linfonodo > 2 cm, endurecido, indolor, aderido ou que cresce após 2 semanas de observação (ou não regride em 4–6 semanas), merece encaminhamento com urgência para biópsia no centro de referência — não apenas observação ou ciclos repetidos de antibiótico, e nunca corticoide antes do diagnóstico (SBP, DC nº 3/2019).

4.Diagnóstico

5.Estadiamento (Ann Arbor)

EstágioDefinição
IUma região linfonodal
IIDuas ou mais regiões do mesmo lado do diafragma
IIIRegiões em ambos os lados do diafragma
IVAcometimento extranodal disseminado (medula, fígado, pulmão)

Acrescenta-se "A" (sem sintomas sistêmicos) ou "B" (com sintomas B). Os sintomas B pioram o prognóstico e influenciam a intensidade do tratamento.

6.Tratamento e prognóstico

Combina quimioterapia (poliquimioterapia) com radioterapia em campos selecionados, conforme estágio e resposta (avaliada por PET). A estratégia atual busca reduzir doses/radioterapia para diminuir sequelas tardias (cardiotoxicidade, hipotireoidismo, segundas neoplasias, infertilidade), preservando as altas taxas de cura (> 90% nos estágios iniciais). Nas recidivas, brentuximabe, pembrolizumabe ou nivolumabe e transplante autólogo (SBP, 2024). Imunoterapia já na 1ª linha da doença avançada (contexto do centro especializado): no estudo de fase 3 AHOD1331 (COG; NCT02166463), com 600 pacientes de 2 a 21 anos com Hodgkin de alto risco (IIB com massa volumosa, IIIB, IVA e IVB), o brentuximabe vedotina (anti-CD30) com AVEPC, no lugar da bleomicina, elevou a sobrevida livre de eventos em 3 anos de 82,5% para 92,1%, sem aumento da toxicidade (Castellino et al., NEJM 2022); a FDA aprovou o esquema em 10/11/2022 a partir de 2 anos. No estudo de fase 3 S1826 (NCT03907488), com 994 pacientes a partir de 12 anos em estádio III ou IV, o nivolumabe-AVD (anti-PD-1) superou o brentuximabe-AVD na sobrevida livre de progressão em 2 anos (92% contra 83%), com radioterapia em apenas 7 pacientes (Herrera et al., NEJM 2024). No Brasil, a bula do brentuximabe (Adcetris®) traz indicações só para adultos; o uso pediátrico em 1ª linha é decisão do oncologista pediátrico, conforme o protocolo do centro. O seguimento do sobrevivente (coração, tireoide, segunda neoplasia, fertilidade) está no documento Seguimento do sobrevivente.

7.Hodgkin x linfoma não Hodgkin

HodgkinNão Hodgkin
Idade típicaAdolescente/adulto jovemPode ocorrer em crianças menores
DisseminaçãoContígua, ordenadaErrática, rápida, frequentemente extranodal
Célula marcanteReed-SternbergDepende do subtipo (Burkitt, linfoblástico…)
VelocidadeIndolente/intermediáriaMuitas vezes muito agressivo (emergência)

8.Erros comuns

9.Pontos-chave para a prova

10.Casos clínicos comentados

Caso 1

Adolescente de 15 anos com linfonodo cervical e supraclavicular endurecido, indolor, que cresce há 6 semanas. Refere febre vespertina, sudorese noturna que molha o lençol e perda de 6 kg. Radiografia de tórax mostra alargamento do mediastino.

1.A principal hipótese e o exame diagnóstico de escolha são:
Gabarito: B) Adenomegalia supraclavicular indolor e crescente, com sintomas B e massa mediastinal em adolescente, é altamente sugestiva de Hodgkin; o diagnóstico se faz por biópsia excisional (não por PAAF).
2.Febre, sudorese noturna e perda > 10% do peso constituem:
Gabarito: C) Febre inexplicada, sudorese noturna profusa e perda > 10% do peso são os sintomas B, que acrescentam o "B" no estadiamento e indicam pior prognóstico.
3.A célula característica encontrada na biópsia é:
Gabarito: A) A célula de Reed-Sternberg, grande e binucleada ("olhos de coruja"), é a marca histológica do linfoma de Hodgkin.
0/3 acertos
Caso 2

Confirmado o linfoma de Hodgkin, o estadiamento mostra acometimento de cadeias cervicais e mediastinais, todas acima do diafragma, sem doença abaixo dele. O paciente apresenta sintomas B.

1.Pelo sistema de Ann Arbor, esse acometimento corresponde a:
Gabarito: B) Duas ou mais regiões linfonodais do mesmo lado do diafragma correspondem ao estágio II de Ann Arbor.
2.Como os sintomas B modificam a classificação?
Gabarito: C) A presença de sintomas B acrescenta o sufixo "B" ao estágio (II-B), refletindo pior prognóstico e influenciando a intensidade do tratamento.
3.No seguimento de longo prazo desses pacientes, é prioritário vigiar:
Gabarito: A) Pela alta cura e longa sobrevida, o seguimento foca as sequelas tardias da quimio/radioterapia — cardiovasculares, tireoidianas, segundas neoplasias e fertilidade.
0/3 acertos

11.Comparação com as referências

Versões conferidas em outubro de 2026. Regra do site: a conduta segue a SBP; na falta dela, o Ministério da Saúde; na falta de ambos, a melhor referência, indicada no texto.

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 166, 02/09/2024 (Linfomas); DC nº 3, 07/2019 (Linfonodomegalia)Protocolo de diagnóstico precoce, 2017; PCDT do adulto (Portaria Conjunta nº 24, 29/12/2020) não se aplica à criançaSem posição específica localizadaNG12, 1.10.9 (2015; atualizada em 15/04/2026)AEPap/SEHOP, guia de detecção, 2015Sem posição específica localizadaBoston Children's (página do serviço)Segue o NICE
ApresentaçãoLinfonodo cervical lateral indolor, borrachoide, crescimento lento; mediastino em 2/3; sintomas sistêmicos em 30%Adenomegalia suspeita após afastar infecçãoSem posição específica localizadaLinfadenopatia inexplicada; considerar febre, sudorese, dispneia, prurido, perda de pesoAdenopatia indolor cervical ou supraclavicular, história de mesesSem posição específica localizadaComeça em cabeça, pescoço ou tórax; é o câncer mais comum de 15 a 19 anosSegue o NICE
Quando biopsiarCresce após 2 semanas ou não regride em 4–6; supraclavicular sempre de alto risco; > 2–3 cm> 3 cm após 6 semanas; crescimento após 2 semanas; supraclavicular, cervical baixa; axilar ou epitroclear sem porta de entradaSem posição específica localizadaEncaminhamento muito urgente (very urgent)> 2 cm, duro, aderido, crescente, axilar ou supraclavicular: derivação urgenteSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
BiópsiaExcisional com imuno-histoquímica, no centro de referênciaBiópsia a céu aberto do tumor mais acessível; PAAF citada como opção (2017)Sem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Massa mediastinalRisco de compressão de via aéreaLinfadenomegalia com dispneia: emergência em poucas horasSem posição específica localizada—Massa mediastinal ou hilar na radiografia: derivação imediataSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Tratamento e prognósticoQuimioterapia ± radioterapia em baixa dose; 70–90% livres de doença mesmo avançados—Sem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaUm dos cânceres mais tratáveisSegue o NICE

Leitura: há convergência no essencial: linfonodo supraclavicular, endurecido, indolor, aderido ou que cresce, sobretudo com febre, sudorese noturna ou perda de peso, exige encaminhamento sem demora; a massa mediastinal com dispneia é emergência; a biópsia deve ser feita no centro que vai tratar. Divergências: o tamanho que dispara a investigação (SBP 2–3 cm, com supraclavicular de qualquer tamanho; AEPap 2 cm; MS > 3 cm após 6 semanas) e o tipo de biópsia (o protocolo do MS de 2017 admite a punção aspirativa, enquanto a SBP 2024 e o próprio PCDT do adulto exigem biópsia excisional). O site adota a SBP nos dois pontos. O NICE fixa prazo de horas; o site não fixa prazo — encaminha "com urgência" e usa 🔴 para a massa mediastinal com sintomas respiratórios. Sobre o prognóstico, o texto foi alinhado à SBP 2024 (mais de 90% nos estádios iniciais e 70–90% nos avançados).

Pontos práticos
  1. Linfonodo supraclavicular, ou > 2 cm, duro, indolor, aderido ou crescente: encaminhe com urgência para biópsia no centro de referência.
  2. Antes de encaminhar: hemograma com VHS e radiografia de tórax.
  3. Tosse, dispneia, ortopneia ou edema de face com massa mediastinal: 🔴 hospital imediato, sentada, sem sedar.
  4. Não use corticoide e não repita antibiótico "de prova" em linfonodo com sinais de alerta.
  5. Após o tratamento, seguimento por toda a vida (documento Seguimento do sobrevivente).

12.Referências selecionadas