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Leucemia Mieloide Aguda (LMA)

1.Importância e epidemiologia

A LMA representa cerca de 15–20% das leucemias agudas da infância (bem menos comum que a LLA), mas tem, em geral, prognóstico mais reservado. Tem distribuição mais uniforme nas idades, com um pequeno pico nos dois primeiros anos de vida e aumento após os 13 anos (Ministério da Saúde, Portaria nº 840/2014). Associa-se a condições predisponentes como síndrome de Down (risco aumentado de LMA, em especial a megacarioblástica), anemia de Fanconi e síndromes de falência medular.

2.Fisiopatologia

Proliferação clonal de precursores mieloides (mieloblastos) que tomam a medula e podem infiltrar tecidos. Como na LLA, há falência medular (citopenias), mas a LMA tem manifestações próprias de infiltração mieloide: cloroma (sarcoma mieloide), hiperplasia gengival e infiltração cutânea (leucemia cutis), mais frequentes nos subtipos monocíticos.

3.Quadro clínico

4.Diagnóstico

5.Leucemia promielocítica aguda (LPA / M3)

Emergência

A LPA, com a translocação t(15;17) (PML-RARA), cursa com coagulopatia grave (CIVD) e alto risco de hemorragia fatal precoce. O tratamento específico com ATRA (ácido transretinoico) ± trióxido de arsênico induz diferenciação dos promielócitos e deve ser iniciado precocemente, junto ao suporte transfusional agressivo da coagulopatia. É hoje o subtipo de melhor prognóstico quando manejado a tempo (ATRA com antraciclina na indução, mais de 90% de remissão completa — Ministério da Saúde, Portaria nº 840/2014).

No consultório: criança com leucemia ou citopenias e sangramento importante, equimoses extensas ou suspeita de coagulopatia = 🔴 hospital imediato.

6.LLA x LMA — diferenças úteis

LLALMA
Frequência (infância)Mais comumMenos comum
BlastoLinfoideMieloide (bastonetes de Auer)
MieloperoxidaseNegativaPositiva
Achados típicosMassa mediastinal (T), dor ósseaCloroma, hiperplasia gengival, CIVD (LPA)
Prognóstico globalEm geral melhorEm geral mais reservado

7.Tratamento e prognóstico

Quimioterapia intensiva de indução e consolidação (mais curta e mais intensa que a LLA), com forte componente de suporte (neutropenia profunda prolongada, infecções, transfusões). O transplante de medula óssea tem papel maior que na LLA, sobretudo em grupos de risco intermediário/alto. A LPA tem manejo próprio com ATRA/arsênico. A LMA da síndrome de Down (em geral entre 1 e 4 anos, muitas vezes após a mielopoese anormal transitória do período neonatal) tem risco 10 a 20 vezes maior, mas melhor resposta, com remissão em cerca de 90% e esquemas menos intensos (Ministério da Saúde, 2014).

8.Erros comuns

9.Pontos-chave para a prova

10.Casos clínicos comentados

Caso 1

Adolescente com palidez, febre e sangramento gengival. O esfregaço mostra blastos com estruturas citoplasmáticas em forma de bastonete (bastonetes de Auer); a mieloperoxidase é positiva.

1.O diagnóstico de linhagem é:
Gabarito: B) Bastonetes de Auer e mieloperoxidase positiva são marcadores de linhagem mieloide — confirmam LMA e a diferenciam da LLA (MPO negativa).
2.A hiperplasia gengival e a infiltração cutânea são mais associadas a:
Gabarito: C) A hiperplasia gengival e a leucemia cutis são manifestações de infiltração tecidual mais típicas dos subtipos monocíticos da LMA.
3.O achado citológico patognomônico de linhagem mieloide citado é:
Gabarito: A) Os bastonetes de Auer, inclusões citoplasmáticas em bastão, são característicos de blastos mieloides. Reed-Sternberg é do Hodgkin; Howell-Jolly indica hipoesplenismo.
0/3 acertos
Caso 2

Criança com leucemia aguda apresenta sangramentos cutâneo-mucosos intensos e exames com queda de fibrinogênio, plaquetopenia, aumento de D-dímero e tempos de coagulação alargados. A citogenética revela t(15;17).

1.O subtipo e a complicação são:
Gabarito: B) A t(15;17) (PML-RARA) define a leucemia promielocítica aguda, classicamente associada à coagulação intravascular disseminada (CIVD) com alto risco hemorrágico.
2.O tratamento específico que deve ser iniciado precocemente é:
Gabarito: C) Na LPA, o ATRA induz diferenciação dos promielócitos e reduz a coagulopatia; deve ser iniciado precocemente, junto ao suporte transfusional (plaquetas, fibrinogênio/plasma) pelo risco de hemorragia fatal.
3.Com manejo adequado e precoce, o prognóstico da LPA é:
Gabarito: A) Embora a fase inicial seja perigosa pela coagulopatia, a LPA tratada precocemente com ATRA/arsênico tornou-se um dos subtipos de melhor prognóstico — daí a urgência do reconhecimento.
0/3 acertos

11.Comparação com as referências

Versões conferidas em outubro de 2026. Regra do site: a conduta segue a SBP; na falta dela, o Ministério da Saúde; na falta de ambos, a melhor referência, indicada no texto.

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaSem documento sobre a LMA; DC nº 4, 09/09/2021 (diagnóstico precoce)DDT da LMA de crianças e adolescentes, Portaria SAS/MS nº 840, 08/09/2014; protocolo de diagnóstico precoce, 2017Sem posição específica localizadaNG12, 1.10.2–1.10.3 (2015; atualizada em 15/04/2026)AEPap/SEHOP, guia de detecção, 2015Sem posição específica localizadaBoston Children's (página do serviço)Segue o NICE
Suspeita e encaminhamentoImediato a centro de referência; sem corticoide antes do diagnóstico2 ou mais séries alteradas: com urgência; sangramento ativo, plaquetas < 20.000/mm³, leucócitos > 50.000/mm³ ou hemoglobina < 6 g/dL: em poucas horasSem posição específica localizadaHemograma muito urgente; petéquias ou hepatoesplenomegalia: imediato2 ou mais citopenias ou blastos: derivação imediataSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
DiagnósticoNo centro de referênciaMielograma com citoquímica, imunofenotipagem, citogenética, coagulograma e fibrinogênio, líquor (OMS 2008)Sem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
LPASem posição específica localizadaATRA com antraciclina; arsênico fora da bula pediátrica (2014)Sem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Down e transplanteSem posição específica localizadaDown: risco 10–20 vezes, melhor resposta; transplante no alto risco e na recaídaSem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaTransplante em programa próprioSegue o NICE

Leitura: a suspeita e o encaminhamento seguem as mesmas regras da LLA, e todas as referências convergem: hemograma, encaminhamento sem demora e emergência quando há sangramento ou números críticos. O único documento nacional específico é a DDT do Ministério da Saúde (2014), que o site segue na falta de documento da SBP. Ela é anterior à classificação da OMS de 2022: hoje as LMA com alteração genética definidora podem ser diagnosticadas com menos de 20% de blastos, o que muda o diagnóstico no laboratório, mas não a conduta do pediatra. Na LPA, a DDT trata o trióxido de arsênio como opção fora da bula pediátrica (2014); protocolos internacionais posteriores passaram a usá-lo com o ATRA — decisão do centro de tratamento. Para o pediatra, o essencial é reconhecer a coagulopatia e não atrasar a transferência.

Pontos práticos
  1. Citopenias com blastos, hiperplasia gengival, nódulo cutâneo ou massa orbitária: encaminhe com urgência ao centro de onco-hematologia.
  2. Sangramento importante, equimoses extensas ou coagulopatia em criança com suspeita de leucemia: 🔴 hospital imediato (risco de LPA).
  3. Leucócitos > 50.000/mm³, plaquetas < 20.000/mm³ ou Hb < 6 g/dL: 🔴; acima de 100.000/µL, risco de leucostase — evitar transfusão de hemácias sem orientação do centro.
  4. Criança com síndrome de Down: valorize hemograma alterado em qualquer idade; no recém-nascido, a mielopoese anormal transitória exige seguimento.
  5. Sem corticoide antes do diagnóstico; em quimioterapia, axilar ≥ 37,5 °C é emergência (documento Neutropenia febril).

12.Referências selecionadas