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Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA)

1.Importância e epidemiologia

A LLA é o câncer mais comum da infância (cerca de 25–30% das neoplasias pediátricas e a maioria das leucemias da criança). Tem pico entre 2 e 5 anos, leve predomínio no sexo masculino. É uma das histórias de sucesso da oncologia: a sobrevida ultrapassa 85–90% nos grupos de risco favorável com tratamento adequado.

2.Fisiopatologia

Há proliferação clonal de precursores linfoides (blastos) na medula óssea, que substituem a hematopoese normal e infiltram outros órgãos. As manifestações decorrem de dois mecanismos:

A maioria é de linhagem B (LLA-B); a LLA-T ocorre mais em meninos maiores/adolescentes e associa-se a massa mediastinal e hiperleucocitose.

3.Quadro clínico

4.Diagnóstico

5.Fatores prognósticos

FavorávelDesfavorável
Idade 1–10 anos< 1 ano (lactente) ou > 10 anos
Leucócitos < 50.000/µLLeucócitos ≥ 50.000/µL (hiperleucocitose)
LLA-B comum; hiperdiploidia, ETV6-RUNX1BCR-ABL t(9;22), KMT2A (lactente), hipodiploidia
Boa resposta inicial; DRM negativaDoença no SNC/testículo; DRM persistente
Conceito-chave

A doença residual mínima (DRM) ao fim da indução é hoje um dos fatores prognósticos mais importantes e guia a intensidade do tratamento.

6.Princípios do tratamento

Quimioterapia prolongada (cerca de 2–3 anos), em fases: indução (remissão), consolidação/intensificação, profilaxia de SNC (quimioterapia intratecal ± radioterapia em casos selecionados) e manutenção. Na LLA Ph+ (t(9;22), BCR-ABL1; 3–5% dos casos), o imatinibe é associado à quimioterapia desde a indução (Ministério da Saúde, Portaria Conjunta nº 11/2021). O transplante de medula é reservado a grupos de alto risco/recaída. Suporte: prevenção/manejo de lise tumoral, transfusões, controle de infecções na neutropenia febril.

7.Emergências ao diagnóstico

8.Erros comuns

9.Pontos-chave para a prova

10.Casos clínicos comentados

Caso 1

Menina de 3 anos com palidez, equimoses, febre e dor nas pernas há 2 semanas. Hemograma: Hb 6,5 g/dL, plaquetas 28.000/µL, leucócitos 18.000/µL com presença de blastos no esfregaço. Hepatoesplenomegalia ao exame.

1.Qual exame confirma o diagnóstico?
Gabarito: C) O mielograma confirma a leucemia (≥ 20–25% de blastos) e a imunofenotipagem define a linhagem. O esfregaço já sugere, mas a confirmação e a classificação são pela medula.
2.Considerando idade e leucometria, esses dados isolados situam-na em grupo:
Gabarito: B) Idade 1–10 anos e leucócitos < 50.000/µL são fatores favoráveis; a estratificação final depende de citogenética/biologia molecular e da DRM ao fim da indução.
3.Antes de iniciar a quimioterapia em uma leucemia com carga tumoral significativa, deve-se prevenir:
Gabarito: A) A lise tumoral (hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, lesão renal) é prevenida com hidratação vigorosa e alopurinol ou rasburicase.
0/3 acertos
Caso 2

Adolescente de 13 anos, sexo masculino, com tosse, dispneia ao deitar e inchaço da face e do pescoço. Radiografia mostra alargamento do mediastino. Hemograma com hiperleucocitose e blastos.

1.O quadro sugere qual subtipo e complicação?
Gabarito: B) Adolescente do sexo masculino com massa mediastinal anterior, hiperleucocitose e síndrome de veia cava superior é a apresentação típica da LLA-T.
2.Qual cuidado é essencial antes de sedar/anestesiar esse paciente?
Gabarito: C) A massa mediastinal pode colapsar via aérea e comprimir grandes vasos em decúbito/sedação — risco de parada. Avaliar e planejar com a equipe antes de qualquer sedação.
3.A hiperleucocitose elevada acrescenta risco de:
Gabarito: A) A hiperleucocitose predispõe à leucostase (sintomas neurológicos/pulmonares) e à síndrome de lise tumoral, exigindo hidratação e medidas específicas.
0/3 acertos

11.Comparação com as referências

Versões conferidas em outubro de 2026. Regra do site: a conduta segue a SBP; na falta dela, o Ministério da Saúde; na falta de ambos, a melhor referência, indicada no texto.

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 4, 09/09/2021 (diagnóstico precoce); sem documento sobre o tratamento da LLAProtocolo de diagnóstico precoce, 2017; DDT da LLA Ph+, Portaria Conjunta nº 11, 02/07/2021Sem posição específica localizadaNG12, 1.10.2–1.10.3 (2015; atualizada em 15/04/2026)AEPap/SEHOP, guia de detecção, 2015Sem posição específica localizadaDana-Farber/Boston Children's (página do serviço)Segue o NICE
Quem investigarPalidez, sangramento, dor óssea persistente; dor em membro + 2 ou mais séries alteradas = neoplasia, mesmo sem blastosPalidez, fadiga, febre, sangramento, dor óssea, hepatoesplenomegalia, linfadenomegalia generalizadaSem posição específica localizadaHemograma muito urgente (palidez, fadiga, febre, infecção persistente, dor óssea, equimoses)Hemograma e esfregaço; dor óssea persistente (4–6 semanas)Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
EncaminhamentoImediato a centro de referência pediátrico2 ou mais séries alteradas: onco-hematologia com urgência; sangramento ativo, plaquetas < 20.000/mm³, leucócitos > 50.000/mm³ ou hemoglobina < 6 g/dL: em poucas horasSem posição específica localizadaPetéquias ou hepatoesplenomegalia inexplicadas: avaliação imediata2 ou mais citopenias ou blastos, petéquias ou hepatoesplenomegalia: derivação imediataSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
DiagnósticoNo centro de referênciaMielograma, imunofenotipagem, cariótipo/FISH, PCR BCR-ABL1, líquorSem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Corticoide antes do diagnósticoEvitar (mascara, seleciona clone resistente, piora o prognóstico)Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
PrognósticoCerca de 80% de cura no conjunto do câncer infantojuvenil> 90% no baixo risco; Ph+ com imatinibe: sobrevida livre de eventos de 80,5% em 3 anosSem posição específica localizada——Sem posição específica localizadaCura > 85%Segue o NICE

Leitura: há convergência total no reconhecimento: hemograma com esfregaço diante de palidez, sangramento, febre sem causa, dor óssea persistente ou organomegalia, e encaminhamento sem demora quando há duas ou mais citopenias, blastos, petéquias ou hepatoesplenomegalia inexplicadas. A SBP (2021) acrescenta dois pontos práticos que o site adota: dor em membro com duas séries alteradas sugere neoplasia mesmo sem blastos, e não se dá corticoide antes do diagnóstico. As diferenças são de forma: o NICE e a AEPap classificam a pressa em níveis com prazo em horas ou dias; o Ministério da Saúde pede o hemograma com resultado em 24 h e define a emergência por números (sangramento ativo, plaquetas < 20.000/mm³, leucócitos > 50.000/mm³ ou hemoglobina < 6 g/dL). Como a SBP não traz esses números, o site adota a SBP na suspeita e no encaminhamento e o Ministério da Saúde nos critérios de emergência, sem fixar prazo: "com urgência" ou 🔴. Sobre o limiar diagnóstico, a OMS usa ≥ 20% de blastos e o NCI descreve a medula "M3" (> 25%), que é a apresentação habitual — não há conflito prático. A hiperleucocitose acima de 100.000/µL (risco de leucostase, documento Emergências oncológicas) já está contida no critério de emergência do MS (> 50.000/mm³). Tratamento, estratificação por DRM e transplante são decisões do centro (o MS só tem diretriz para a LLA Ph+).

Pontos práticos
  1. Palidez, petéquias, febre e dor óssea: hemograma com esfregaço e plaquetas, com resultado rápido; examine fígado, baço, linfonodos e testículos.
  2. Duas ou mais séries alteradas ou blastos: encaminhe com urgência ao centro de onco-hematologia pediátrica (de preferência o que vai tratar).
  3. Sangramento ativo, plaquetas < 20.000, leucócitos > 50.000 ou Hb < 6 g/dL: 🔴 hospital imediato.
  4. Não prescreva corticoide antes do diagnóstico, nem para "dor nas pernas" ou "artrite".
  5. Tosse, ortopneia ou edema de face: radiografia de tórax; massa mediastinal = 🔴, sem sedar e sem deitar.
  6. Em quimioterapia, axilar ≥ 37,5 °C é emergência (documento Neutropenia febril).

12.Referências selecionadas