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Neurologia e Desenvolvimento · Médicos e profissionais

Desenvolvimento Neuromotor de 0 a 2 Anos

Marcos, sinais de alarme e conduta na puericultura

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Importância Do Tema

1.1 Epidemiologia e Relevância Clínica

O desenvolvimento neuromotor (DNM) na infância é um processo dinâmico, contínuo e hierárquico que reflete a maturação do sistema nervoso central (SNC). O período de 0 a 2 anos representa a janela de maior plasticidade cerebral e a etapa mais crítica para o estabelecimento de circuitos neuronais complexos que sustentarão funções cognitivas, motoras, sensoriais e socioemocionais ao longo de toda a vida.

Estima-se que cerca de 250 milhões de crianças menores de 5 anos em países de baixa e média renda (43%) estejam em risco de não atingir seu pleno potencial de desenvolvimento, por pobreza e déficit de crescimento (Lu, Black e Richter, Lancet Global Health, 2016). O risco é maior em populações de baixa renda e menor escolaridade materna.

A prevalência de atraso do desenvolvimento neuromotor (ADN) varia de 10 a 15% na população pediátrica geral, chegando a 40–50% em populações de risco (prematuros extremos, crianças com asfixia perinatal, síndromes genéticas). O atraso de linguagem isolado afeta 10–15% das crianças até 2 anos. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta prevalência de 1:31 nos EUA (CDC, 2025, dados de 2022) e estimativas crescentes no Brasil.

1.2 Por Que o Pediatra é o Profissional-Chave

Evidência-Chave

As experiências dos primeiros anos moldam a arquitetura cerebral, e a adversidade precoce tem efeitos biológicos duradouros (Shonkoff et al., Pediatrics, 2021). Programas de alta qualidade na primeira infância têm alto retorno econômico ao longo da vida (García, Heckman et al., Journal of Political Economy, 2020).

2. Avaliação Inicial Sistematizada

2.1 Anamnese Estruturada

História Gestacional e Perinatal

História do Desenvolvimento

História Familiar

História Social e Ambiental

2.2 Exame Físico Orientado

Parâmetros Antropométricos

Exame Neurológico Neonatal e do Lactente

Avaliação Sensorial Mínima

2.3 Instrumentos de Rastreio — Quando e Como Usar

InstrumentoFaixa etáriaObjetivoCaracterísticas
Teste de Denver II (DDST-II)0–6 anosRastreio do desenvolvimentoFácil aplicação; 4 domínios; muito usado no Brasil
ASQ-31–66 mesesRastreio do desenvolvimentoPreenchido pelos pais; 5 domínios; versão brasileira (ASQ-BR)
Bayley-IV16 dias a 42 mesesAvaliação detalhadaReferência para avaliação especializada; 5 domínios
Escalas Griffiths (Griffiths III)0–6 anosAvaliação completa5 subescalas; aplicação especializada
M-CHAT-R/F16–30 mesesRastreio de TEA20 itens + entrevista de seguimento; SBP: todas as crianças aos 18 e 24 meses (MO nº 150/2024)
AIMS0–18 mesesMotor grossoAvaliação postural; 58 itens; útil em prematuros
Peabody-20–72 mesesMotor fino e grossoReflexos, locomoção, manipulação
PEDI-CAT0–21 anosFuncionalidadeAdaptativo; participação e funcionalidade

RECOMENDAÇÃO SBP/AAP: Aplicar o Teste de Denver II (ou ASQ-3) nas consultas de puericultura de 9, 18 e 24/30 meses. O M-CHAT-R/F deve ser aplicado a todas as crianças nas consultas de 18 e de 24 meses (SBP, MO nº 150/2024; AAP), ou a qualquer momento em que houver suspeita de TEA. Qualquer preocupação dos pais com o desenvolvimento deve ser levada a sério e investigada, mesmo sem alteração nos instrumentos de rastreio (Sensibilidade parental).

3. Fisiopatologia Aplicada Ao Desenvolvimento

NEUROMOTOR

3.1 Neurobiologia do Desenvolvimento

O desenvolvimento neuromotor é sustentado por dois processos biológicos fundamentais e complementares: a maturação cerebral (processo geneticamente programado, relativamente independente da experiência) e a plasticidade neuronal (processo dependente da experiência e da estimulação ambiental, que modifica sinapses, circuitos e representações corticais).

Maturação do SNC: Sequência Esperada

Plasticidade Neuronal e Janelas Sensíveis Janelas sensíveis são períodos em que o cérebro é especialmente responsivo a determinados estímulos. As principais janelas sensíveis no DNM incluem:

Papel da Mielinização no DNM A mielinização segue trajetória previsível e reflete o progresso funcional motor. A RM de crânio em crianças pequenas deve ser lida com conhecimento da mielinização esperada para a idade corrigida. Atraso de mielinização pode indicar erro inato do metabolismo, hipotireoidismo ou leucodistrofia.

3.2 Correlação Clínica

Hipotonia Central vs. Hipotonia Periférica

 Característica                 Hipotonia Central                      Hipotonia Periférica
Reflexos
                      Normais ou aumentados                   Diminuídos ou ausentes
osteotendinosos
Força muscular        Preservada (relativo)                   Reduzida
Nível de
                      Pode estar alterado                     Normal
consciência
CPK                   Normal                                  Elevada (miopatia) ou normal
 Característica                 Hipotonia Central                    Hipotonia Periférica
EMG/velocidade
                      Normal                                  Alterada em doenças do NMI
de condução
Causas                HIE, genética, metabólica,
                                                              AME, miopatia congênita, miastenia
frequentes            malformação

Paralisia Cerebral: Fisiopatologia A PC resulta de lesão não progressiva do cérebro em desenvolvimento, com comprometimento do controle motor. A lesão pode ser: (1) leucomalácia periventricular — mais comum em prematuros; (2) lesão de gânglios da base/tálamo por asfixia profunda intraparto; (3) malformações corticais; (4) acidentes vasculares neonatais. A clínica varia conforme o tipo e a topografia da lesão.

3.3 Implicações no Manejo

Princípio Fundamental

O cérebro em desenvolvimento tem maior capacidade de reorganização funcional do que o cérebro adulto, mas essa capacidade é tempo- dependente. A intervenção precoce, antes do fechamento das janelas sensíveis, maximiza a recuperação funcional e minimiza as sequelas (Novak et al., JAMA Pediatrics, 2017). Não aguardar confirmação diagnóstica para iniciar estimulação.

4. Diagnóstico

4.1 Classificação dos Atrasos do Desenvolvimento Neuromotor

Atraso Global do Desenvolvimento (AGD) Definido como atraso em 2 ou mais domínios do desenvolvimento (motor grosso, motor fino, linguagem, cognitivo, social/adaptativo) em crianças menores de 5 anos, com desempenho ≥ 2 DP abaixo da média em instrumentos padronizados. Prevalência: 1–3% da população infantil. Frequentemente associado a etiologia genética (25–40% dos casos) ou estrutural cerebral.

Atraso Específico de Linguagem (AEL) Comprometimento isolado da aquisição de linguagem expressiva e/ou receptiva, sem comprometimento cognitivo global. Prevalência de 7–8% aos 2 anos. Importante distinguir de surdez, TEA e privação ambiental antes de classificar como AEL puro.

Atraso Motor Isolado Comprometimento predominante do desenvolvimento motor, grosso ou fino, sem comprometimento de outros domínios. Pode ser o primeiro sinal de PC, miopatia, neuropatia ou malformação estrutural. Requer avaliação detalhada por fisioterapeuta com instrumentos validados (AIMS, Peabody-2).

4.2 Marcos do Desenvolvimento: 0 a 24 meses

A tabela abaixo sintetiza os principais marcos do desenvolvimento neuromotor esperados por faixa etária e domínio. As idades indicadas representam o momento em que 90% das crianças atingem a habilidade (percentil 90). Crianças prematuras devem ter a avaliação feita pela idade corrigida (IC) até os 24 meses.

Faixa etária    Motor grosso           Motor fino             Linguagem             Social/Cognitivo
               Sustentação
               parcial da          Reflexo de            Choro diferenciado;     Fixa o olhar no rosto;
1–2 meses
               cabeça em           preensão palmar       arrulhos                responde ao som
               prono
               Sustentação
               cefálica            Segura objeto;        Balbucios; risos em     Sorriso social;
3–4 meses
               completa; rola      leva mão à boca       voz alta                reconhece cuidador
               prono-supino
               Senta com
               apoio; rola em      Transfere objetos     Vocaliza vogais;        Estranhamento;
5–6 meses
               ambos os            entre as mãos         imita sons              busca interação
               sentidos
               Senta sem                                                         Permanência do
                                   Pinça inferior;
7–8 meses      apoio; inicia                             Lalia (ba-ba, da-da)    objeto; brinca de
                                   bate objetos
               engatinhar                                                        esconde-achou
 Faixa etária    Motor grosso           Motor fino             Linguagem            Social/Cognitivo
                Engatinha;          Pinça superior;       Imitação de sons;
                                                                                 Imita gestos; aponta
9–10 meses      puxa para ficar     explora com           'mamã/papá' sem
                                                                                 (proto-declarativo)
                em pé               indicador             especificidade
                Fica em pé
                                    Pinça fina                                   Segue instrução
11–12           sem apoio;                                1–2 palavras com
                                    (polegar–                                    simples; usa objetos
meses           primeiros                                 significado
                                    indicador)                                   funcionalmente
                passos
                Caminha bem;                              5–10 palavras;         Jogo simbólico
13–15                               Torre de 2
                sobe escadas                              jargão com             simples; imita
meses                               cubos; rabisca
                com apoio                                 entonação              atividades domésticas
                                    Torre de 3–4          15–20 palavras;
16–18           Corre; empurra                                                   Aponta para nomear;
                                    cubos; vira           palavras novas
meses           e puxa objetos                                                   jogo paralelo
                                    páginas               semanalmente
                Chuta bola;
                                                          50 palavras;           Jogo simbólico
19–21           sobe/desce          Rabisco circular;
                                                          primeiras frases de    elaborado; mostra e
meses           escadas com         encaixa formas
                                                          2 palavras             compartilha
                apoio bilateral
                                    Torre de 6            Frases de 2–3
22–24           Corre bem;                                                       Nomeia partes do
                                    cubos; linhas         palavras; 50+
meses           pula com 2 pés                                                   corpo; jogo em pares
                                    verticais             palavras

SOBRE IDADE CORRIGIDA: Para prematuros (< 37 semanas), calcular a IC = idade cronológica − semanas de prematuridade. Exemplo: criança nascida com 30 semanas, agora com 6 meses cronológicos: IC = 6 meses − 2,5 meses = 3,5 meses. Usar IC para avaliar o DNM até os 24 meses (SBP; AAP; NICE NG72, 2017). A correção não deve ser usada para triagem de TEA.

4.3 Sinais de Alarme (Red Flags) — encaminhar com prioridade, sem esperar a próxima consulta

      Idade                                      Sinais de alarme (Red Flags)
2 meses              Não fixa o olhar; não responde ao som; hipotonia marcante; reflexos
                     neonatais ausentes
4 meses              Não sustenta a cabeça; não sorri socialmente; não segue objetos com o olhar;
                     assimetria de tônus
6 meses              Não senta com apoio; não vocaliza; não alcança objetos; persistência de
                     reflexos primitivos
9 meses              Não fica sentado; não balbucia; não responde ao próprio nome; não olha na
                     direção indicada
12 meses             Não fica em pé com apoio; sem palavras; sem pinça fina; não imita gestos;
                     não aponta
18 meses             Não caminha; menos de 5 palavras; não aponta para pedir; não segue
                     instrução simples com gesto
24 meses             Não corre; menos de 50 palavras; sem frases de 2 palavras; não imita;
                     regressão de habilidades

ALERTA ESPECIAL — SINAIS QUE NUNCA DEVEM SER AGUARDADOS: (1) Qualquer REGRESSÃO de habilidades já adquiridas em qualquer idade — encaminhar com urgência ao neuropediatra (🔴 pronto-socorro se houver alteração de consciência, crise ou sinal neurológico agudo); (2) Assimetria persistente de tônus, reflexos ou movimento após os 4 meses; (3) Ausência de fixação ocular e seguimento visual aos 2 meses; (4) Ausência de resposta auditiva em qualquer idade.

4.4 Exames Essenciais

ExameIndicaçãoObservações
TSH / T4 livreTodo atraso do desenvolvimento; hipotonia; constipaçãoPadrão do site em todo atraso (a AAP 2014 deixa a tireoide a critério clínico)
Avaliação auditiva (EOA/PEATE-BERA)Todo atraso de linguagem ou suspeita de surdezMesmo com teste da orelhinha normal; não aguardar
CPKAtraso motor ou hipotonia, sobretudo meninos que não andam aos 18 meses; fraquezaDistrofias musculares (AAP 2020)
Hemograma, ferritinaSuspeita de anemia ferropriva ou carênciaConforme a clínica
Genética: microarray e exomaAtraso global ou deficiência intelectual sem causa definidaEm série, exoma primeiro quando disponível (Protocolo do MS, Portaria Conjunta nº 21/2020); X frágil pelo fenótipo ou história ligada ao X; cariótipo só na suspeita de trissomia (Down). Atraso global com dismorfias: encaminhar com prioridade (🟡)
RM de crânioSinais neurológicos focais, micro ou macrocefalia, suspeita de PC, regressãoExame de escolha; TC só na urgência (o MS 2020 não indica tomografia na investigação)
EEGSuspeita de epilepsia; regressãoNão é rastreio de rotina
Triagem metabólica ampliadaAtraso com regressão ou sintomas metabólicosÁcidos orgânicos, aminoácidos, doenças lisossomais
Lactato / piruvatoSuspeita de doença mitocondrialColeta em condições padronizadas
Sorologias congênitas (TORCH)História pré-natal sugestiva; calcificaçõesCMV, toxoplasmose, rubéola, sífilis
FundoscopiaSuspeita de doença de depósito; alteração ocularMancha vermelho-cereja; opacidades
Nota Importante

A investigação etiológica deve ser guiada pelo quadro clínico. Não existe um 'pacote' universal de exames para todo atraso do desenvolvimento. A RM de crânio está indicada na maioria dos casos de AGD com suspeita de lesão estrutural, mas não deve substituir a avaliação clínica cuidadosa.

4.5 O que NÃO FAZER no Diagnóstico

Erros Críticos A Evitar

negativo/positivo

suspeita de epilepsia

confirmado

seguimento mais frequente

5. Conduta E Tratamento

5.1 Princípios Gerais do Manejo

O manejo do atraso do desenvolvimento neuromotor é multiprofissional, longitudinal e centrado na família. Não existe protocolo farmacológico específico para o atraso do DNM como entidade nosológica — o tratamento é direcionado à causa-base e à intervenção nas sequelas funcionais.

5.2 Passo a Passo — Conduta na Consulta de Puericultura

Passo                                                   Ação
1          Aplicar instrumento de rastreio (Denver II ou ASQ-3) na consulta de 9, 18 e 24/30 meses
           Acolher preocupações dos pais com seriedade; sempre investigar relato parental de
2
           regressão
3          Calcular idade corrigida se prematuro; usar IC para interpretação dos marcos
4          Confirmar triagem neonatal completa (pezinho, olhinho, orelhinha, coraçãozinho)
           Aplicar M-CHAT-R/F universalmente aos 18 meses; repetir aos 24m ou se suspeita de
5
           TEA
           Se rastreio ALTERADO ou suspeita clínica: não aguardar — encaminhar e investigar
6
           concomitantemente
           Solicitar exames conforme quadro clínico (TSH obrigatório; audiometria se atraso de
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           linguagem)
           Encaminhar a serviço de referência de estimulação precoce (CER, CAPS Inf., centro de
8
           reab.)
9          Orientar família sobre estimulação no domicílio, tempo de tela e importância do brincar
10         Agendar retorno em 30–60 dias para reavaliação e seguimento do encaminhamento

5.3 Intervenções Terapêuticas por Domínio

Fisioterapia — Motor Grosso e Postura

Fonoaudiologia — Linguagem e Alimentação

Terapia Ocupacional — Motor Fino e Cognitivo

5.4 Doses Pediátricas — Medicamentos de Uso Específico no DNM

Não há farmacoterapia específica para o atraso do DNM como entidade primária. As medicações abaixo são utilizadas para comorbidades específicas:

MedicamentoIndicaçãoDose pediátricaObservações
Baclofeno oralEspasticidade (PC)Início ≈ 0,3 mg/kg/dia em 2–4 tomadas; aumentar a cada 1 semana até a resposta; manutenção 0,75–2 mg/kg/dia. Máximo: 40 mg/dia abaixo de 8 anos; 60 mg/dia a partir de 8 anosA bula brasileira é só de uso adulto; dose pediátrica do RCM europeu do Lioresal® (MHRA/EMC). Comprimido inadequado abaixo de 33 kg (preferir solução oral). Não suspender abruptamente
Toxina botulínica A — onabotulinumtoxinA (Botox®)Espasticidade focal (a partir de 2 anos)Dose total por sessão, dividida entre os músculos tratados (não por músculo). Bula brasileira do Botox®: máx. 8 U/kg ou 300 U (o que for menor) por sessão ou a cada 3 meses; por músculo, 0,5–2 U/kg no membro superior e 2–4 U/kg no inferior. (Bula norte-americana: membro superior 3–6 U/kg, máx. 200 U; membro inferior 4–8 U/kg, máx. 300 U; total até 10 U/kg ou 340 U a cada 3 meses)Intervalo mínimo de 3 meses; associar fisioterapia. Unidades não são intercambiáveis entre marcas (Botox®, Dysport®, Xeomin® e outras): a dose vale só para o produto da bula
Levotiroxina (T4)Hipotireoidismo congênito10–15 mcg/kg/dia, 1×/dia (PCDT do MS 2021; SBP 2018)Iniciar nas 2 primeiras semanas de vida; TSH e T4 livre 2 e 4 semanas após o início e depois conforme o PCDT. Ver Hipotireoidismo
Vitamina DPrevenção / deficiênciaPrevenção (SBP 2024): 400 UI/dia no 1º ano; 600 UI/dia de 1 a 18 anos. Doses maiores só em grupos de risco ou no tratamento. Raquitismo nutricional: 2.000 UI/dia abaixo de 1 ano; 3.000–6.000 UI/dia de 1 a 12 anos; 6.000 UI/dia acima de 12 anos, por pelo menos 12 semanas, com cálcio (Consenso Global 2016, adotado pelo PCDT do MS; ver Cálcio, vitamina D e raquitismo)Dosar 25-OH-vitamina D só em grupos de risco ou na suspeita de deficiência
RisdiplamAME 5q tipos 1 e 2 (SUS — PCDT 2025)Oral, 1×/dia, conforme idade e peso: até 2 meses 0,15 mg/kg; 2 meses a < 2 anos 0,20 mg/kg; ≥ 2 anos e < 20 kg 0,25 mg/kg; ≥ 2 anos e ≥ 20 kg 5 mg (doses > 5 mg não estudadas)PCDT AME 5q (Portaria Conjunta nº 3/2025); terapia modificadora de uso especializado
Nusinersena (Spinraza®)AME 5q tipos 1 e 2 no SUS (PCDT 2025; exclui os tipos 0/1a, 3 e 4)12 mg intratecal nos dias 0, 14 e 28; 4ª dose 30 dias após a 3ª; manutenção a cada 4 mesesExclusivo com neurologia especializada
Onasemnogeno abeparvoveque (Zolgensma®)AME 5q tipo 1 com até 3 cópias de SMN2, pré-sintomática ou com início até 6 meses (PCDT 2025)1,1 × 1014 genomas virais/kg IV, dose únicaNo SUS: pedido até 6 meses e infusão até 7 meses de idade; sem ventilação invasiva > 16 h/dia; anticorpos anti-AAV9 < 1:50. Prednisolona 1 mg/kg/dia de 1 dia antes até 30 dias depois; monitorar enzimas hepáticas, plaquetas e troponina; suspender nusinersena/risdiplam após a infusão
MetilfenidatoTDAH (≥ 6 anos)Liberação imediata: início 5 mg 1–2×/dia (cerca de 0,3 mg/kg/dose), aumentos semanais conforme resposta; máx. 60 mg/dia (bula). Ver TDAHNão indicado em < 6 anos pela bula brasileira (a AAP 2019 admite 4–5 anos após falha da terapia comportamental)
Atenção

O uso de risdiplam, nusinersena e onasemnogeno abeparvoveque para AME deve ser conduzido exclusivamente por serviço especializado em neurologia pediátrica/neuromuscular. Qualquer criança com hipotonia progressiva e suspeita de AME deve ser encaminhada com urgência para avaliação especializada.

5.5 Fluxograma Terapêutico Simplificado

Atraso leve / suspeitaAtraso moderado a grave ou sinais de alarme
Rastreio alterado em 1 domínio, sem sinais de alarme
→ Orientar estimulação em casa
→ Exames básicos (TSH; avaliação auditiva se atraso de fala)
→ Encaminhar à estimulação precoce
→ Retorno em 30–60 dias
Rastreio alterado em ≥ 2 domínios ou sinais de alarme
→ Encaminhar ao neuropediatra com prioridade (regressão: com urgência)
→ Investigação etiológica conforme o quadro
→ Iniciar estimulação SEM aguardar diagnóstico
→ Apoio familiar e social

6. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaMO nº 150, Triagem precoce para autismo, 25/04/2024; MO Sinais de alerta na avaliação neurológica, 2020; GPA #MenosTelas #MaisSaúde (atualização de 13/08/2024)Caderneta da Criança, 7ª ed., 2024; Protocolo de diagnóstico etiológico da deficiência intelectual (Portaria Conjunta nº 21, 25/11/2020); Cadernos de Atenção Básica nº 33, 2012Lipkin e Macias, Promoting Optimal Development…, Pediatrics 2020;145(1):e20193449; Noritz et al., PC, Pediatrics 2022;150(3)NG72 (prematuros, 2017); NG62 (PC, 25/01/2017); CG128 (autismo, 2011, atualizada em 20/12/2017)AEPap/PrevInfad, Detección precoz de los trastornos del desarrollo y del espectro autista, dez/2017Sem posição específica localizadaCenter on the Developing Child (base conceitual; sem protocolo clínico)Segue o NICE
VigilânciaToda consulta; Caderneta; preocupação dos paisCaderneta da Criança em toda consultaToda consulta de puericulturaPrograma Healthy Child; revisão aos 2–2½ anosPerguntar pelas preocupações dos pais em toda visitaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Rastreio padronizadoDenver II ou ASQ-3 aos 9, 18 e 24–30 meses (padrão do site); M-CHAT-R/F para todos aos 18 e 24 mesesMarcos da Caderneta (sem escala padronizada universal)Instrumento aos 9, 18 e 30 meses; autismo aos 18 e 24 mesesASQ-3 na revisão de 2–2½ anos; sem rastreio populacional de autismoContra rastreio universal com escalas (inclusive M-CHAT); M-CHAT-R/F só em alto riscoSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Idade corrigidaAté 24 mesesAté 24 meses (Caderneta)Até 24 mesesAté 24 meses (NG72)Até 24 mesesSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
Investigação do atraso globalSem algoritmo próprioMicroarray e exoma em série; X frágil pelo fenótipo; cariótipo só no Down; sem tomografiaCPK e TSH no atraso motor (2020); sequenciamento no 1º nível (2025)Sem diretriz específica de atraso globalGuiada pela clínicaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE
EncaminhamentoEstimulação precoce sem esperar diagnósticoEstimulação precoce (CER) na redeIntervenção precoce em paralelo à avaliaçãoRegressão de linguagem ou social < 3 anos: equipe de autismo; suspeita de PC: equipe especializadaAtención temprana sem esperar diagnósticoSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSegue o NICE

Leitura: as referências convergem em quatro pontos: a preocupação dos pais é o melhor ponto de partida e nunca deve ser descartada; todo atraso de fala exige avaliação auditiva; o prematuro é avaliado pela idade corrigida até 24 meses; e a intervenção precoce começa antes do diagnóstico. A grande divergência é o rastreio padronizado: SBP e AAP aplicam instrumentos em idades fixas a todas as crianças, inclusive o M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses, porque o rastreio antecipa o diagnóstico; a AEPap (PrevInfad) e o NICE consideram insuficiente a evidência de benefício do rastreio universal e preferem vigilância clínica, reservando as escalas aos casos de risco ou suspeita. Na investigação do atraso global, a SBP não tem algoritmo e o Ministério da Saúde (2020) põe o microarray e o exoma no primeiro nível, como a AAP de 2025. Conduta do site: segue a SBP no rastreio (M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses; Denver II ou ASQ-3 aos 9, 18 e 24–30 meses) e o Ministério da Saúde na investigação genética; TSH em todo atraso é padrão do site. Ver também Atraso de fala e do desenvolvimento.

7. Critérios De Internação

7.1 Internação Hospitalar — Indicações

Crianças com atraso do desenvolvimento neuromotor não requerem internação exclusivamente pelo atraso. A internação é indicada por condições clínicas associadas ou emergenciais:

INTERNAÇÃO EM CARÁTER DE URGÊNCIA:

INTERNAÇÃO ELETIVA / PROGRAMADA:

Internação Não Indicada

8. Erros Comuns Na Prática Clínica

8.1 Erros de Rastreio e Avaliação

                 Erro comum                                          Conduta correta
'Cada criança tem seu tempo' — tranquilizar           Aplicar instrumento validado; qualquer
sem avaliar formalmente                               preocupação deve ser investigada
Não usar instrumento padronizado — avaliação          Denver II ou ASQ-3 em TODAS as consultas de
só clínica impressionística                           puericultura programadas
                                                      Calcular e usar IC até 24 meses para todos os
Não corrigir pela IC em prematuros
                                                      marcos
Aguardar 2 anos para investigar ausência de           Investigar a partir de 12–15 meses; audiometria
palavras                                              imediata
Não aplicar M-CHAT-R/F a todos aos 18 e 24 meses     M-CHAT-R/F para todos aos 18 e aos 24m
                                                      (SBP, MO nº 150/2024)
Diagnosticar 'hipotonia benigna' sem                  TSH, CPK, genética básica antes de classificar
investigação básica                                   como benigna
                                                      Regressão = sinal de ALARME MÁXIMO;
Não valorizar regressão de habilidades
                                                      investigar urgente
Solicitar EEG como rastreio para todo atraso de       EEG somente com suspeita de epilepsia ou
DNM                                                   regressão

8.2 Erros de Conduta e Manejo

                 Erro comum                                          Conduta correta
                                                      Iniciar estimulação já — não    
Aguardar diagnóstico para iniciar estimulação
                                                      aguardar diagnóstico
                                                      Abordagem multiprofissional: fisio + TO + fono
Encaminhar para uma única especialidade
                                                      + psico
                                                      < 2 anos: nenhuma tela (SBP 2024)          
Não orientar sobre tempo de tela
                                                      
                                                      Depressão materna impacta diretamente o
Não investigar saúde mental dos cuidadores
                                                      DNM — rastrear
Prescrever metilfenidato em < 6 anos para             NÃO indicado em < 6 anos; intervenção
TDAH                                                  comportamental primeiro
                                                      Pobreza, violência e estimulação inadequada
Ignorar fatores socioambientais
                                                      são causas tratáveis
                                                      Orientar a família sobre estimulação domiciliar
Encaminhar sem orientação familiar
                                                      desde o primeiro dia
                                                      Retorno em 30–60 dias; coordenação do
Não monitorar evolução após encaminhamento
                                                      cuidado pelo pediatra

8.3 Erros de Comunicação com a Família

sempre oferecer retorno breve

sempre sair com plano claro

cuidadores secundários

REFERÊNCIAS E FONTES INSTITUCIONAIS

  1. American Academy of Pediatrics. Lipkin PH, Macias MM. Promoting Optimal Development: Identifying Infants and Young Children With Developmental Disorders Through Developmental Surveillance and Screening. Pediatrics. 2020;145(1):e20193449.
  2. NICE. Cerebral palsy in under 25s: assessment and management (NG62), 25/01/2017.
  3. NICE. Autism spectrum disorder in under 19s: recognition, referral and diagnosis (CG128), 2011, atualizada em 20/12/2017.
  4. NICE. Developmental follow-up of children and young people born preterm (NG72), 2017.
  5. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 150 — Triagem precoce para autismo (M-CHAT-R/F), 25/04/2024.
  6. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação — Sinais de alerta na avaliação neurológica da criança e do adolescente, 2020.
  7. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança, 7ª ed., 2024; Cadernos de Atenção Básica nº 33 — Saúde da criança: crescimento e desenvolvimento, 2012.
  8. Ministério da Saúde. Protocolo para o diagnóstico etiológico da deficiência intelectual (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 21, de 25/11/2020).
  9. Ministério da Saúde. PCDT Atrofia Muscular Espinhal 5q tipos 1 e 2 (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS nº 3, de 20/03/2025) — versão resumida: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/resumidos/PCDT_Resumido_AME_2025_4.pdf
  10. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 7.293, de 26/06/2025 — Programa Nacional de Triagem Neonatal: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2025/prt7293_27_06_2025.html
  11. Bula do Botox® (onabotulinumtoxinA), AbbVie — bula do profissional de saúde; RCM do Lioresal® (baclofeno), MHRA/EMC; SBP, DC nº 181 — Hipovitaminose D, 2024.
  12. AEPap/PrevInfad. Galbe Sánchez-Ventura J et al. Detección precoz de los trastornos del desarrollo y del espectro autista, dezembro de 2017.
  13. Novak I et al. Early, Accurate Diagnosis and Early Intervention in Cerebral Palsy. JAMA Pediatrics. 2017;171(9):897–907.
  14. Novak I et al. State of the Evidence Traffic Lights 2019: Systematic Review of Interventions for Preventing and Treating Children with Cerebral Palsy. Curr Neurol Neurosci Rep. 2020;20(2):3.
  15. Shonkoff JP et al. Leveraging the Biology of Adversity and Resilience to Transform Pediatric Practice. Pediatrics. 2021;147(2):e20193845.
  16. García JL, Heckman JJ, Leaf DE, Prados MJ. Quantifying the Life-Cycle Benefits of an Influential Early-Childhood Program. Journal of Political Economy. 2020;128(7):2502–2541.
  17. Lu C, Black MM, Richter LM. Risk of poor development in young children in low-income and middle-income countries. Lancet Global Health. 2016;4(12):e916–e922.
  18. Spittle A et al. Early developmental intervention programmes provided post hospital discharge to prevent motor and cognitive impairment in preterm infants. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(11):CD005495.
  19. Noritz G et al. An Integrated Framework for Evaluating Children With Cerebral Palsy. Pediatrics. 2022;150(3).
  20. American Academy of Pediatrics / ACOG. The Apgar Score. Pediatrics. 2015;136(4):819–822.

Links Institucionais para Consulta

Este documento é de uso exclusivamente educacional, destinado à formação e atualização de médicos. As condutas descritas devem ser adaptadas ao contexto clínico individual de cada paciente. Em casos complexos, consulte sempre um especialista. As doses e recomendações devem ser confirmadas nas diretrizes mais atuais das sociedades