Neonatologia · Cardiologia

Persistência do Canal Arterial (PCA)

Canal arterial patente no recém-nascido

Revisão: outubro de 2026.

1. Importância do tema na Pediatria

A persistência do canal arterial é a alteração cardiovascular mais comum do prematuro e associa-se a morbidade (insuficiência cardíaca, dependência ventilatória, hemorragia pulmonar, ECN). No RN a termo, o canal costuma fechar nas primeiras 48–72 h; sua persistência sintomática exige conduta. A principal mudança recente é de paradigma: tratar cedo e de rotina não reduz morte, displasia broncopulmonar nem comprometimento do desenvolvimento (AAP 2025; BeNeDuctus 2023; Baby-OSCAR 2024, com seguimento de 2 anos em 2025), e o manejo expectante nas primeiras semanas é seguro.

2. Avaliação inicial

Suspeitar em prematuro com sopro sistólico/contínuo em região infraclavicular esquerda, pulsos amplos (em martelo), precórdio hiperdinâmico, pressão diastólica baixa, taquicardia, dependência ventilatória ou piora respiratória. Confirmar pelo ecocardiograma, que define o canal, o sentido do shunt e a repercussão. Triagem nacional de referência: pré-termos < 30 semanas ou < 1 kg, com atenção à queda da pressão diastólica após o 2º dia (MS/IFF-Fiocruz, 2018).

3. Fisiopatologia aplicada

Na vida fetal, o canal arterial desvia o sangue da artéria pulmonar para a aorta (mantido aberto pelas prostaglandinas e pela baixa PaO₂). Ao nascer, a elevação da PaO₂ e a queda das prostaglandinas promovem a constrição e o fechamento funcional (primeiras 48–72 h) e depois o anatômico. No prematuro, a resposta ao oxigênio é imatura e o canal tende a permanecer aberto. Com a queda da resistência pulmonar, surge shunt esquerda→direita: hiperfluxo pulmonar (edema, piora respiratória, hemorragia pulmonar) e roubo diastólico sistêmico (hipoperfusão de intestino, rins e cérebro — ECN, oligúria, HPIV). Implicação no manejo: inibir as prostaglandinas (AINE) ou usar paracetamol fecha o canal; em cardiopatias dependentes do canal, ao contrário, mantém-se aberto com prostaglandina E1.

4. Diagnóstico

Critérios clínicos: sopro sistólico/contínuo infraclavicular esquerdo, pulsos amplos, precórdio hiperdinâmico, pressão de pulso alargada, taquicardia e sinais de insuficiência cardíaca/piora respiratória.

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
EcocardiogramaPadrão-ouro: confirma o canal, mede o diâmetro, o sentido do shunt e a repercussão. Critérios de significância (MS/IFF 2018): canal > 1,5–2 mm; fluxo diastólico reverso em aorta descendente ou artéria mesentérica. Johns Hopkins (2025): eco entre o 4º e o 7º dia e escore de 5 itens (3–5 = significativo)
Radiografia de tóraxCardiomegalia e congestão/hiperfluxo pulmonar
Avaliação clínica seriadaSopro, pulsos, precórdio e estado respiratório

5. Conduta e tratamento

1. Medidas gerais e manejo expectante: sem tratamento profilático nem precoce de rotina — a AAP (2025) não vê benefício no fechamento medicamentoso nas 2 primeiras semanas; suporte respiratório adequado (CPAP ou aumento da PEEP), metas de SpO2 do protocolo neonatal da unidade, manter hematócrito adequado; não restringir líquidos de rotina (MS/IFF 2018) — onde se restringe, não abaixo de 120 mL/kg/dia (Oxford/TVW 2024; Johns Hopkins 2025: 120–130 mL/kg/dia). Manter a dieta enteral durante o tratamento farmacológico, salvo contraindicação (Johns Hopkins, 2026). Muitos canais fecham espontaneamente.

2. Fechamento farmacológico só no PCA hemodinamicamente significativo — sintomas de shunt grande e confirmação ecocardiográfica (Oxford/TVW 2024) —, em geral não antes do 3º dia: ibuprofeno ou paracetamol (AAP 2025; MS/IFF 2018: ibuprofeno de 1ª linha, paracetamol como alternativa); indometacina conforme disponibilidade e protocolo.

3. Fechamento por cateterismo ou ligadura: PCA persistente com falha ou contraindicação ao tratamento farmacológico. O cateterismo tem uso crescente (AAP 2025; Johns Hopkins: > 700 g e ≥ 3 dias de vida, em centro com experiência); Oxford/TVW evita a ligadura nas 3 primeiras semanas.

Atenção

Em cardiopatia congênita dependente do canal (ex.: atresia pulmonar, coarctação grave), NÃO fechar — manter aberto com prostaglandina E1 (alprostadil). O paracetamol é contraindicado na cardiopatia canal-dependente (SBP, DC nº 191/2025).

Plaquetas antes do AINE

A SBP (Manual de Orientação nº 43, 12/05/2026) indica transfundir plaquetas se < 100.000/mm³ no pré-termo que vai iniciar indometacina ou ibuprofeno para PCA. As diretrizes internacionais de transfusão não trazem esse limiar (AABB/ICTMG 2025: pré-termo sem sangramento maior, só < 25.000), e a Johns Hopkins considera plaquetas < 100.000 contraindicação ao AINE. Antes de transfundir para viabilizar o AINE, considerar o paracetamol ou adiar o tratamento (ver o Tema atualizado "Canal arterial no prematuro").

Doses (protocolo medicamentoso) — fonte em cada linha

MedicaçãoDoseObservações e fonte
Ibuprofeno10 mg/kg, depois 5 mg/kg às 24 h e às 48 h (3 doses), IV ou VOJohns Hopkins 2025; Oxford/TVW 2024 (VO se dieta > 100 mL/kg/dia). Alta dose (20 → 10 → 10 mg/kg) em casos selecionados (Johns Hopkins). Contraindicações: sangramento ativo, plaquetopenia (Oxford: < 50.000; Johns Hopkins: < 100.000), creatinina > 1,5 mg/dL ou oligoanúria, ECN, infecção grave, HPIV recente, hipertensão pulmonar, cardiopatia canal-dependente
Paracetamol15 mg/kg/dose VO ou IV, 6/6 h, por 3–7 diasMS/IFF 2018 (fechamento em cerca de 50%); Oxford/TVW e Johns Hopkins: cursos de 3 dias. Preferido se o ibuprofeno é contraindicado; checar função hepática no curso (Oxford/TVW)
Indometacina3 doses IV: 1ª 0,2 mg/kg; seguintes conforme a idade — < 48 h: 0,1 e 0,1; 2–7 dias: 0,2 e 0,2; > 7 dias: 0,25 e 0,25 mg/kgJohns Hopkins 2025; intervalo entre doses conforme protocolo da unidade. Risco renal, plaquetário e de ECN
Prostaglandina E1 (alprostadil)0,01 mcg/kg/min IV contínuo, até 0,05 mcg/kg/minPara MANTER o canal aberto na cardiopatia canal-dependente; apneia como efeito adverso (SBP, MO nº 4/2022)

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

Fluxograma terapêutico (resumo). 1. Suspeita clínica → ecocardiograma (confirma e mede a repercussão). 2. Assintomático ou sem repercussão → manejo expectante. 3. PCA significativo (clínica + eco) → ibuprofeno ou paracetamol (indometacina conforme protocolo), checando plaquetas, função renal e ECN. 4. Falha ou contraindicação → cateterismo ou ligadura. (Cardiopatia canal-dependente → manter o canal com PGE1.)

6. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaSem DC específico; MO nº 43 (hemocomponentes), 12/05/2026; DC nº 191 (dor), 20/02/2025IFF-Fiocruz, Portal de Boas Práticas, 2018Pediatrics 2025;155(5):e2025071425Sem diretriz específica localizadaProtocolos SENeo 2023 (capítulo de PCA não revisado)All Children's — PDA in Preterm Neonates, 04/2025Sem protocolo público localizadoTVW (Oxford) — PDA in Preterm Infants v6, 21/03/2024; Baby-OSCAR (NPEU Oxford) 2024/2025
Tratar cedo de rotina—Não; manejo expectanteNão (< 2 semanas)——Não; tratar se em VM após 1 semana—Não antes do 3º dia; Baby-OSCAR sem benefício
Quem tratar—Eco + clínicaPCA hemodinamicamente significativo; eco essencial——Escore ecocardiográfico de 5 itens—Sintomas + eco significativo
Fármacos—Ibuprofeno 1ª linha; paracetamol 15 mg/kg 6/6 hIbuprofeno ou paracetamol——Indometacina, ibuprofeno ou paracetamol—Ibuprofeno 10–5–5 ou paracetamol 15 mg/kg 6/6 h, 3 dias
Líquidos—Não restringir———120–130 mL/kg/dia—Não abaixo de 120 mL/kg/dia
PlaquetasTransfundir se < 100.000 antes do AINE————< 100.000 contraindica o AINE—< 50.000 contraindica o ibuprofeno
Fechamento invasivo—Ligadura na falhaCateterismo (crescente) ou ligadura——Cateter > 700 g e ≥ 3 dias—Evitar ligadura nas 3 primeiras semanas

Leitura: há convergência forte em não tratar de forma profilática nem precoce de rotina (MS/IFF 2018, AAP 2025, Johns Hopkins 2025, Oxford/TVW 2024 e os ensaios BeNeDuctus e Baby-OSCAR), em decidir com ecocardiograma e clínica e em usar ibuprofeno ou paracetamol no PCA significativo, com cateterismo ou ligadura na falha. Divergem nos líquidos (MS não restringe; Johns Hopkins e Oxford aceitam 120–130 mL/kg/dia) e, sobretudo, nas plaquetas: a SBP (MO nº 43/2026) transfunde abaixo de 100.000 antes do AINE, a Johns Hopkins usa o mesmo número como contraindicação ao AINE e Oxford contraindica o ibuprofeno abaixo de 50.000. A SBP não tem documento específico sobre PCA; NICE, AEP e Harvard não têm posição pública verificada. Posição do site: como a SBP não aborda o manejo do PCA, segue-se o Ministério da Saúde (IFF-Fiocruz 2018: manejo expectante, ibuprofeno de 1ª linha, paracetamol como alternativa, sem restringir líquidos), com o horizonte de 2 semanas da AAP; nas plaquetas, registra-se a posição da SBP e recomenda-se considerar o paracetamol antes de transfundir, como no Tema atualizado.

7. Gravidade e encaminhamento

8. Complicações

9. Erros comuns

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. AMBALAVANAN, N. et al.; American Academy of Pediatrics. Patent ductus arteriosus in preterm infants. Pediatrics, v. 155, n. 5, e2025071425, 2025. publications.aap.org
  2. IFF-FIOCRUZ / Ministério da Saúde. Portal de Boas Práticas. Persistência do canal arterial em recém-nascidos pré-termo — diagnóstico e tratamento (26/04/2018) e Principais questões sobre persistência do canal arterial em recém-nascidos pré-termo (18/06/2018). portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. DC de Neonatologia e DC de Hematologia e Hemoterapia. Hemocomponentes e hemoderivados — indicações em Neonatologia. Manual de Orientação nº 43, 12 maio 2026.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. DC de Neonatologia. Abordagem da dor no recém-nascido. Documento Científico nº 191, 20 fev. 2025.
  5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Sistematização do atendimento ao recém-nascido com suspeita ou diagnóstico de cardiopatia congênita. Manual de Orientação nº 4, 11 ago. 2022. sbp.com.br
  6. HUNDSCHEID, T. et al. Expectant management or early ibuprofen for patent ductus arteriosus (BeNeDuctus). N Engl J Med, 2023. doi.org/10.1056/NEJMoa2207418
  7. NPEU OXFORD. Baby-OSCAR — ibuprofeno precoce seletivo vs. placebo no PCA grande. N Engl J Med, 2024; desfechos aos 2 anos, eClinicalMedicine, 2025. npeu.ox.ac.uk
  8. THAMES VALLEY & WESSEX NEONATAL ODN (Oxford). PDA in preterm infants, v. 6, 21 mar. 2024. neonatalnetworkssoutheast.nhs.uk
  9. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Diagnosis and management of PDA in preterm neonates — clinical pathway, abr. 2025; Early enteral nutrition — clinical pathway, 15 abr. 2026. hopkinsmedicine.org
  10. METCALF et al. Platelet transfusion: 2025 AABB and ICTMG international clinical practice guidelines. JAMA, 2025.

Veja também: Canal arterial no prematuro e Transfusão de hemocomponentes no recém-nascido (Temas atualizados em Neonatologia).

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. Prematuro de 28 semanas, no 5º dia, com piora respiratória e dependência do ventilador. Ao exame: sopro sistólico infraclavicular esquerdo, pulsos amplos e precórdio hiperdinâmico.

Questão 1. Exame que confirma o diagnóstico e a repercussão?
(A) Radiografia isolada (B) Ecocardiograma (C) ECG (D) Hemograma (E) Gasometria

Questão 2. Qual a fisiopatologia da repercussão?
(A) Shunt direita→esquerda com cianose (B) Shunt esquerda→direita: hiperfluxo pulmonar e roubo diastólico sistêmico (C) Obstrução da via de saída do VE (D) Tamponamento cardíaco (E) Estenose mitral

Questão 3. Opção farmacológica de fechamento e dose?
(A) Prostaglandina E1 em infusão (B) Ibuprofeno 10–5–5 mg/kg (ou paracetamol 15 mg/kg/dose 6/6 h) (C) Furosemida isolada para fechar o canal (D) Digoxina (E) Adenosina

Caso 2. RN a termo com cianose intensa que melhora pouco com oxigênio; ao ecocardiograma, cardiopatia com circulação pulmonar dependente do canal arterial.

Questão 4. Conduta quanto ao canal arterial nesse caso?
(A) Fechar com ibuprofeno (B) Manter o canal aberto com prostaglandina E1 (alprostadil) (C) Ligadura cirúrgica imediata (D) Indometacina em 3 doses (E) Paracetamol por 7 dias

Questão 5. Efeito adverso importante da prostaglandina E1 a vigiar?
(A) Hipertensão grave (B) Apneia (C) Hiperglicemia (D) Constipação (E) Hipertermia maligna

Questão 6. No prematuro do Caso 1, qual erro deve ser evitado ao usar AINE?
(A) Checar a função renal e as plaquetas (B) Ignorar a função renal, as plaquetas e o risco de ECN (C) Confirmar pelo ecocardiograma (D) Avaliar a repercussão (E) Considerar a contraindicação

Gabarito comentado. Questão 1 — B. O ecocardiograma é o padrão-ouro: confirma o canal e mede a repercussão. Questão 2 — B. O shunt E→D causa hiperfluxo pulmonar e roubo diastólico (hipoperfusão sistêmica). Questão 3 — B. Ibuprofeno 10–5–5 mg/kg (ou paracetamol 15 mg/kg/dose 6/6 h) promove o fechamento do PCA significativo. Questão 4 — B. Na cardiopatia dependente do canal, mantém-se o canal aberto com prostaglandina E1. Questão 5 — B. A apneia é um efeito adverso clássico da prostaglandina E1 — vigiar a via aérea. Questão 6 — B. Ao usar AINE, é erro ignorar a função renal, as plaquetas e o risco de ECN.

Revisão: outubro de 2026. Confirme as doses no protocolo da sua unidade antes de prescrever.