Neonatologia · Nefrologia e Urológico

Injúria Renal Aguda no RN

Insuficiência renal aguda neonatal

Em resumo — posição do site

Diagnóstico e estadiamento pelo KDIGO neonatal modificado (SBP, DC de Nefrologia nº 8/2022): aumento da creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 h ou ≥ 1,5 vez o valor de referência em 7 dias, ou diurese ≤ 1 mL/kg/h. Nas primeiras 72 h a creatinina reflete a materna — vale a que não cai ou sobe. A pré-renal é a mais comum: SF 0,9% 10–20 mL/kg se houver hipovolemia (AEP 2008). Na renal, suspender ou ajustar nefrotóxicos (aminoglicosídeo em dose única diária, AINE, vancomicina, anfotericina) e repor apenas perdas insensíveis + diurese. Na pós-renal (válvula de uretra posterior no menino), sondagem vesical e urologia. Hipercalemia com ECG alterado, anúria, sobrecarga ou acidose grave = 🔴 UTI neonatal com acesso a diálise (peritoneal é a mais usada no RN). Todo RN com LRA, sobretudo o prematuro, tem seguimento renal após a alta.

1. Importância do tema

A lesão (injúria) renal aguda (LRA) é frequente na UTI neonatal, sobretudo em prematuros, asfixiados, sépticos, cardiopatas e operados, e é fator de risco independente de maior mortalidade e tempo de internação (SBP 2022; estudo multicêntrico AWAKEN, 2017). O prematuro nasce com menos néfrons e com a nefrogênese ainda em curso, o que aumenta o risco de hipertensão e de doença renal crônica no futuro (SBP 2022).

2. Definição e avaliação inicial

Estágio — KDIGO neonatal modificadoCreatinina séricaDiurese
0Sem aumento ou aumento < 0,3 mg/dL> 1 mL/kg/h
1Aumento ≥ 0,3 mg/dL em 48 h ou ≥ 1,5–1,9 × o valor de referência em 7 dias> 0,5 a ≤ 1 mL/kg/h
2≥ 2–2,9 × o valor de referência> 0,3 a < 0,5 mL/kg/h
3≥ 3 × o valor de referência, ou creatinina ≥ 2,5 mg/dL, ou diálise≤ 0,3 mL/kg/h

Fonte: SBP, DC de Nefrologia nº 8, 10/03/2022. Na definição neonatal modificada, o valor de referência é a menor creatinina anterior. As definições baseadas em aumentos seriados valem até 120 dias de vida (SBP 2022).

3. Fisiopatologia aplicada

4. Diagnóstico

ExameAchado / utilidade
Creatinina e ureia seriadasTendência (não valor isolado nas primeiras 72 h)
Sódio, potássio, cálcio, fósforo, magnésio, gasometriaHipercalemia, hiponatremia dilucional, hiperfosfatemia, hipocalcemia, acidose metabólica
Sódio urinário e fração de excreção de sódio (FENa)Pré-renal: sódio urinário < 20–30 mEq/L e FENa baixa; renal: FENa > 2,5–3% no termo; no pré-termo, corte de > 6% com 29–30 semanas e > 3% a partir de 31 semanas; abaixo de 29 semanas tem valor relativo; não vale após furosemida (AEP 2008)
Urina tipo 1Hematúria (trombose de veia renal), cilindros, proteinúria
Ultrassonografia renal e de vias urinárias com DopplerHidronefrose e bexiga espessada (obstrução), tamanho e ecogenicidade renais, malformações, trombose

5. Prevenção

6. Conduta e tratamento

  1. Pré-renal: restaurar a volemia com SF 0,9% 10–20 mL/kg em até 2 h (AEP 2008) se houver hipovolemia ou dúvida, corrigir hipotensão (vasoativo se necessário), hipóxia e acidose e tratar a causa (sepse, canal arterial, insuficiência cardíaca). Reavaliar diurese e perfusão.
  2. Renal: suspender ou ajustar nefrotóxicos e todas as doses à função renal, com níveis séricos quando disponíveis; restringir líquidos na oligúria a perdas insensíveis + diurese (perdas insensíveis de 30–50 mL/kg/dia no RN, maiores no prematuro extremo — AEP 2008; ver as perdas por peso na tabela do MS 2014), pesando o RN diariamente; potássio fora do soro enquanto houver oligúria ou hipercalemia; retirar fósforo e magnésio da nutrição parenteral se elevados (AEP 2008); manter aporte calórico.
  3. Furosemida: só depois de restaurar a volemia; pode converter oligúria em diurese não oligúrica e facilitar o manejo de líquidos, mas não melhora a filtração nem o prognóstico da LRA estabelecida (AEP 2008, que cita 2–4 mg/kg); dose conforme protocolo da unidade, lembrando a ototoxicidade.
  4. Pós-renal: sondagem vesical de alívio e avaliação urológica com urgência (válvula de uretra posterior); depois da desobstrução, vigiar a poliúria pós-obstrutiva e as perdas de sódio. Ver Válvula de uretra posterior e bexiga neurogênica.
  5. Hipercalemia: ECG e tratamento em etapas (tabela abaixo; detalhes em Distúrbios hidroeletrolíticos do RN).
  6. Diálise (indicações iguais às de outras idades — AEP 2008): sobrecarga hídrica refratária, hipercalemia ou acidose graves sem resposta, uremia sintomática, necessidade de espaço para nutrição; a diálise peritoneal é a mais utilizada no RN (AEP 2008). Decisão com o nefrologista pediátrico.
Hipercalemia (resumo)DoseFonteObservações
Gluconato de cálcio 10% (ECG alterado)1–2 mL/kg EV em 5–10 min, diluídoMS 2014 (2 mL/kg); AEP 2008 (0,5–1 mL/kg); padrão de Hipocalcemia neonatalMonitor cardíaco; protege o miocárdio, não baixa o potássio
Glicose + insulina regularGlicose 0,5 g/kg + insulina 0,2 U por grama de glicose (≈ 0,1 U/kg) em 2 hAEP 2008Glicemia frequente; preferível à resina no prematuro (Cochrane, Vemgal e Ohlsson 2012)
SalbutamolInalatório 400 mcg a cada 2 h (Singh 2002) ou EV 4 mcg/kg (AEP 2008)Singh, J Pediatr 2002; AEP 2008Taquicardia; o EV conforme protocolo da UTI
Resina de troca—AEP 2008Não usar no prematuro extremo (bezoar, perfuração, obstrução)
Diálise—AEP 2008Hipercalemia grave (> 7,5 mEq/L com alterações maiores no ECG) ou refratária

7. Gravidade e encaminhamento

GravidadeCritériosConduta
🟢 LeveCreatinina elevada nas primeiras 72 h que cai progressivamente, com diurese preservada; RN de risco sem LRAInterpretar pela tendência; manter vigilância de diurese, peso e creatinina
🟡 ModeradaLRA estágio 1 com diurese preservada, potássio e ECG normais, sem acidose importante ou sobrecargaUnidade neonatal: corrigir a causa, suspender nefrotóxicos, controles seriados; discutir com o nefrologista pediátrico e encaminhar com prioridade
🔴 GraveEstágios 2–3, oligúria persistente ou anúria, hipercalemia com ECG alterado, acidose grave, sobrecarga hídrica, hipertensão, obstrução urinária, trombose renalUTI neonatal imediata com nefrologia pediátrica e possibilidade de diálise (transferência se não houver); estabilizar antes do transporte

8. Seguimento após a alta

Todo prematuro, RN de baixo peso e RN que teve LRA deve ter a função renal acompanhada (SBP 2022): evitar AINE e situações agravantes (infecção urinária, desidratação); medir a PA na rotina desde o 1º ano; creatinina e relação proteína/creatinina urinária anuais; ultrassonografia renal na alta (tamanho renal, nefrocalcinose); nefrologista aos 6 meses, 2 anos, 4–5 anos e na adolescência (SBP 2022). O consenso internacional de 2025 (Neonatal Kidney Health Consensus Workshop) reforça o seguimento de PA, creatinina e proteinúria após a LRA também no RN a termo e no pré-termo tardio.

9. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC de Nefrologia nº 8 — Rim do prematuro e LRA, 10/03/2022Atenção à Saúde do RN, v. 2, cap. 12 (líquidos e eletrólitos), 2014 — sem capítulo de LRASem diretriz localizada; KDIGO 2012, estudo AWAKEN (2017) e Neonatal Kidney Health Consensus Workshop (2025) como referências norte-americanasSem diretriz neonatal específica localizadaProtocolo de Neonatologia nº 43 — Insuficiencia renal aguda en el periodo neonatal, 2008Sem protocolo público localizadoSem protocolo público localizadoSem posição específica localizada
DefiniçãoKDIGO neonatal modificado—KDIGO neonatal modificado (AWAKEN)—Oligúria e creatinina (pré-KDIGO)———
Pré-renal————SF 10–20 mL/kg em 2 h———
Nefrotóxicos e prevençãoAminoglicosídeo 1×/dia; cafeína; teofilina na asfixia grave—KDIGO 2012: teofilina na asfixia grave—Ajustar doses ao filtrado———
Diálise————Peritoneal a mais usada———
SeguimentoPA, creatinina e proteinúria anuais; nefrologista aos 6 m, 2 a, 4–5 a e adolescência—Consenso 2025: seguimento de PA, creatinina e proteinúria—————

Leitura: a SBP (2022) e o consenso internacional convergem no KDIGO neonatal modificado, na leitura seriada da creatinina, na redução da carga nefrotóxica e no seguimento renal após a alta; a AEP (2008), anterior ao KDIGO, traz o manejo prático (expansão de 10–20 mL/kg, FENa por idade gestacional, doses da hipercalemia, diálise peritoneal). As diferenças são de alcance: o Ministério da Saúde não tem capítulo de LRA neonatal, e AAP, NICE, Johns Hopkins, Harvard, Oxford e Cambridge não têm diretriz pública específica; a teofilina na asfixia grave aparece no KDIGO e na SBP, mas com a ressalva neurológica e sem dose padronizada. Posição do site: SBP (2022) na definição, prevenção e seguimento; AEP (2008) no manejo prático, onde SBP e MS não têm posição; doses da hipercalemia coerentes com Distúrbios hidroeletrolíticos e Hipocalcemia neonatal.

10. Complicações e erros comuns

11. Pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Nefrologia. Rim do prematuro: fatores de risco para lesão renal aguda, desafios para o diagnóstico precoce e importância do seguimento. Documento Científico nº 8, 10 mar. 2022. Disponível em: sbp.com.br.
  2. ORTEGA, P. J. et al. Insuficiencia renal aguda en el periodo neonatal. Protocolos diagnóstico-terapéuticos de la AEP: Neonatología, nº 43, 2008. Disponível em: seneo.es.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 2, cap. 12 (Administração de líquidos e eletrólitos). 2. ed. atual. Brasília, 2014. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  4. JETTON, J. G. et al. Incidence and outcomes of neonatal acute kidney injury (AWAKEN): a multicentre, multinational, observational cohort study. Lancet Child Adolesc Health, v. 1, n. 3, p. 184-194, 2017. doi:10.1016/S2352-4642(17)30069-X.
  5. VUONG, K. T. et al. Expanded discussion of kidney health monitoring for critically ill term and late preterm infants after acute kidney injury: a report from the Neonatal Kidney Health Consensus Workshop. Pediatr Nephrol, v. 40, n. 9, p. 2993-3004, 2025. doi:10.1007/s00467-025-06757-7.
  6. KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). Clinical practice guideline for acute kidney injury. Kidney Int Suppl, v. 2, n. 1, 2012. Disponível em: kdigo.org.
  7. VEMGAL, P.; OHLSSON, A. Interventions for non-oliguric hyperkalaemia in preterm neonates. Cochrane Database Syst Rev, 2012, n. 5, CD005257. doi:10.1002/14651858.CD005257.pub3.
  8. SINGH, B. S. et al. Efficacy of albuterol inhalation in treatment of hyperkalemia in premature neonates. J Pediatr, v. 141, n. 1, p. 16-20, 2002. doi:10.1067/mpd.2002.125229.

Veja também: Distúrbios hidroeletrolíticos do RN e Hipocalcemia neonatal (nesta área); Lesão renal aguda na criança, Hidronefrose antenatal e Válvula de uretra posterior e bexiga neurogênica (Nefrologia e urologia).

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN a termo, com asfixia perinatal, evolui no 2º dia com diurese de 0,4 mL/kg/h e creatinina que não cai. Bem perfundido após expansão, mas a diurese não melhora.

Questão 1. Tipo de LRA mais provável? (A) Pré-renal (B) Renal (necrose tubular aguda pós-asfixia) (C) Pós-renal (D) Fisiológica (E) Glomerulonefrite

Questão 2. Conduta apropriada? (A) Manter aminoglicosídeo em dose plena (B) Suspender ou ajustar nefrotóxicos, repor perdas insensíveis + diurese e manejar eletrólitos (C) Forçar diurese com grande volume (D) Apenas observar (E) Iniciar AINE

Questão 3. Distúrbio eletrolítico mais perigoso a vigiar? (A) Hipocalcemia isolada (B) Hipercalemia (C) Hipernatremia (D) Hipocloremia (E) Hipofosfatemia

Caso 2. RN do sexo masculino com jato urinário fraco, bexiga palpável e hidronefrose bilateral, com creatinina em elevação.

Questão 4. Tipo de LRA e principal hipótese? (A) Pré-renal; hipovolemia (B) Pós-renal; válvula de uretra posterior (C) Renal; necrose tubular (D) Glomerulonefrite (E) Síndrome nefrótica

Questão 5. Conduta inicial? (A) Restrição hídrica isolada (B) Sondagem vesical e avaliação urológica com urgência (C) Diálise imediata (D) AINE (E) Observação

Questão 6. Modalidade dialítica mais usada no RN, se indicada? (A) Hemodiálise convencional (B) Diálise peritoneal (C) Plasmaférese (D) Hemoperfusão (E) Nenhuma

Gabarito comentado. Q1 — B: oligúria persistente após volume, pós-asfixia. Q2 — B. Q3 — B: risco de arritmia. Q4 — B. Q5 — B. Q6 — B (AEP 2008).

Revisão: outubro de 2026.