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Hipotermia no Período Neonatal

1.Importância do tema

A hipotermia é uma das complicações mais comuns e evitáveis do período neonatal, especialmente nas primeiras horas e no prematuro. Está associada a aumento de morbimortalidade — hipoglicemia, acidose metabólica, distúrbios da coagulação, apneia, piora do desconforto respiratório e maior risco de infecção. Manter a normotermia é uma das intervenções de maior custo-benefício na assistência ao RN.

2.Termorregulação do RN

O recém-nascido é particularmente vulnerável ao frio: tem grande superfície corporal em relação ao peso, pele fina, pouca gordura subcutânea e não treme para gerar calor. Sua principal forma de produção de calor é a termogênese sem tremor, pela metabolização da gordura marrom (tecido adiposo marrom), processo que consome oxigênio e glicose — daí a ligação direta entre frio, hipoglicemia e hipóxia.

3.Classificação (OMS)

Hipotermia neonatal — temperatura axilar/central (classificação da OMS, adotada pelo MS 2014; normotermia 36,5–37,5 °C pelo PRN-SBP 2026)
CategoriaTemperatura
Normotermia36,5–37,5 °C
Hipotermia leve (potencial estresse pelo frio)36,0–36,4 °C
Hipotermia moderada32,0–35,9 °C
Hipotermia grave< 32,0 °C

4.Mecanismos de perda de calor

Quatro mecanismos — conhecê-los orienta a prevenção:

MecanismoExemplo no RNPrevenção
EvaporaçãoRN molhado (líquido amniótico) ao nascerSecar imediatamente, trocar campos úmidos
ConduçãoContato com balança/superfície friaSuperfícies aquecidas, campos pré-aquecidos
ConvecçãoCorrente de ar/ar-condicionado na salaSala aquecida, evitar correntes de ar
RadiaçãoPerda para paredes/janelas frias próximasBerço aquecido/incubadora longe de superfícies frias

5.Fatores de risco e consequências

Risco aumentado (MS 2014): prematuridade, baixo peso, RCIU, asfixia, sepse, reanimação, sala de parto fria, transporte e controle inadequado do ambiente térmico. Hipotermia logo após o nascimento ocorre em pelo menos 25% dos prematuros de baixo peso e em cerca de 50% dos de muito baixo peso; a baixa temperatura na admissão é fator de risco para óbito (MS 2014) e, abaixo de 35 °C no < 32 semanas, para displasia broncopulmonar (NICE NG124).

Consequências do estresse pelo frio:

Atenção

Em RN frio com tremores ausentes, a hipotermia pode passar despercebida. Verifique a temperatura como sinal vital e investigue hipoglicemia associada.

6.Prevenção: a "cadeia do calor"

7.Reaquecimento

8.Não confundir: hipotermia terapêutica

Diferença importante

A hipotermia terapêutica controlada (temperatura central de 33,5 °C por 72 h — SBP, DC nº 4/2020) é um tratamento indicado na encefalopatia hipóxico-isquêmica moderada a grave do RN ≥ 35 semanas (SBP; AAP 2026 e BAPM 2025: ≥ 36 semanas), decidida e iniciada na unidade neonatal nas primeiras 6 h — nunca na sala de parto (PRN-SBP 2026). É totalmente diferente da hipotermia acidental por perda de calor, que é uma complicação a ser prevenida e revertida. Ver Asfixia Perinatal e Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica.

9.Gravidade e encaminhamento

10.Erros comuns

11.Pontos-chave para a prova

12.Casos clínicos comentados

Caso 1

RN a termo, parto em sala com ar-condicionado intenso, foi colocado em berço sem ser secado adequadamente. Trinta minutos depois apresenta temperatura axilar de 35,2 °C, tremores ausentes, leve gemência e glicemia capilar baixa.

1.Os principais mecanismos de perda de calor neste caso foram:
Gabarito: B) RN não secado perde calor por evaporação; o ar-condicionado intenso adiciona perda por convecção. Secar e proteger de correntes de ar são as medidas-chave.
2.A glicemia capilar baixa associada à hipotermia é explicada por:
Gabarito: C) Para gerar calor, o RN metaboliza gordura marrom e consome glicose e oxigênio, podendo evoluir com hipoglicemia — por isso frio e hipoglicemia andam juntos.
3.A conduta inicial mais adequada é:
Gabarito: A) Reaquecer com fonte de calor/contato pele a pele e corrigir a hipoglicemia, monitorando temperatura e glicemia. Banho é contraindicado; 35,2 °C é hipotermia; hipotermia terapêutica é para EHI, não aqui.
0/3 acertos
Caso 2

Prematuro extremo de 27 semanas, 850 g, acaba de nascer. A equipe se organiza para a admissão na UTI neonatal, com foco em prevenir a hipotermia.

1.Qual medida específica reduz a hipotermia na admissão deste prematuro extremo?
Gabarito: B) No prematuro < 34 semanas, envolver o corpo em saco plástico sem secar, com touca dupla e sob calor radiante (PRN-SBP 2026), reduz comprovadamente a hipotermia na admissão.
2.A temperatura ideal da sala de parto/estabilização para esse RN é em torno de:
Gabarito: C) O PRN-SBP 2026 recomenda sala de parto a 23–25 °C, sem correntes de ar, como parte da cadeia do calor (o guia do MS de 2014 pedia ≥ 26 °C; prevalece a SBP).
3.Caso esse prematuro evolua com hipotermia não revertida, espera-se maior risco de:
Gabarito: A) A hipotermia neonatal aumenta o consumo de O₂ e glicose e associa-se a hipoglicemia, acidose, apneia, distúrbios de coagulação e maior mortalidade, sobretudo no prematuro.
0/3 acertos

13.Comparação das 9 referências

Referência (versão)Normotermia e classificaçãoSala de parto e prematuroReaquecimento
SBP — Diretrizes PRN-SBP 2026 (12/06/2026)36,5–37,5 °C; evitar > 38 °CSala a 23–25 °C; saco plástico e touca dupla no < 34 semanas; pele a pele no RN com boa vitalidade (32–33 semanas com monitorização)Não detalha
Ministério da Saúde — Atenção à Saúde do RN, v. 4, cap. 32 (2014)Classificação da OMS (normal 36,5–37 °C; leve 36,0–36,4; moderada 32,0–35,9; grave < 32)Sala ≥ 26 °C; saco plástico no < 1.500 g; gorro de algodão; admissão ≥ 36 °CCalor radiante ou incubadora 1–2 °C acima do RN, +1 °C/h, temperatura a cada 15 min
AAP (AHA/AAP 2025)Sem posição verificada nesta revisão (texto integral não acessível)
NICE — NG124 (2019); NG25 (2015, atualizado 2022)Sem recomendação térmica específica; o NG124 lista temperatura < 35 °C na admissão do < 32 semanas como fator de risco de DBP; NG25: clampeamento ≥ 60 s
AEP/SENeo — Guia espanhol de estabilização e reanimação neonatal (fev/2026)—Sala a 23 °C—
Johns HopkinsSem protocolo público localizado
HarvardSem protocolo público localizado
Oxford / CambridgeSeguem o NICE e o Resuscitation Council UK

Leitura: há consenso na cadeia do calor — secar, remover campos úmidos, contato pele a pele no RN bem, saco plástico no prematuro, transporte aquecido e temperatura como sinal vital — e no alvo de normotermia por volta de 36,5–37,5 °C, evitando também a hipertermia. A divergência principal é a temperatura da sala de parto: a SBP (2026) recomenda 23–25 °C e a SENeo/AEP (2026) 23 °C, enquanto o guia do MS (2014) pedia ≥ 26 °C e a OMS ≥ 25 °C; diferem também o limite para o saco plástico (SBP: < 34 semanas; MS 2014: < 1.500 g) e o teto da normotermia (MS/OMS 37,0 °C; SBP 37,5 °C). Posição do site: a da SBP (PRN-SBP 2026) na sala de parto e no prematuro, e a do Ministério da Saúde na classificação e no reaquecimento, temas que a SBP não detalha.

14.Referências

Revisão: outubro de 2026.