Neonatologia · Neurologia

Hemorragia Peri-Intraventricular (HPIV)

Hemorragia da matriz germinativa do prematuro

Hemorragia da matriz germinativa e intraventricular do prematuro: fatores de risco, rastreamento por ultrassonografia (MS 2014; AAP 2020), classificação, prevenção, manejo da dilatação ventricular pós-hemorrágica e comparação das 9 referências. Revisão: outubro de 2026.

1. Importância do tema

A hemorragia peri-intraventricular (HPIV) é a principal lesão cerebral hemorrágica do prematuro, sobretudo < 32 semanas e < 1.500 g. No Brasil, a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais registrou HPIV em 34% dos RN < 1.500 g (2006–2008), com 5,8% de grau IV (MS 2014). A maioria ocorre nos primeiros 3 dias: cerca de 50% nas primeiras 5 horas, 70% nas primeiras 24 horas e 95% até o 7º dia (AAP 2020).

2. Fisiopatologia e fatores de risco

A matriz germinativa é uma região periventricular transitória, ricamente vascularizada e de vasos frágeis, que involui perto do termo. Flutuações do fluxo sanguíneo cerebral, com autorregulação falha no prematuro, rompem esses vasos; contribuem o aumento da pressão venosa, a disfunção plaquetária e da coagulação e a vulnerabilidade à hipóxia-isquemia (MS 2014).

Fatores de risco (MS 2014): menor idade gestacional e peso; ausência de corticoide antenatal; nascimento fora de centro terciário e transporte; reanimação em sala de parto; desconforto respiratório grave e ventilação mecânica; hipóxia e hipercapnia; aspiração traqueal de rotina; pneumotórax; variações amplas de pressão arterial; expansões rápidas de volume; bicarbonato; policitemia; sepse; canal arterial com repercussão; hipotermia.

3. Quadro clínico

A maioria é assintomática ou tem quadro inespecífico, e o diagnóstico vem do rastreamento. Na forma catastrófica, há deterioração em minutos a horas: estupor ou coma, apneia, convulsões, pupilas arreativas, hipotensão, abaulamento de fontanela, bradicardia, queda do hematócrito e acidose metabólica (MS 2014).

4. Rastreamento e diagnóstico

5. Classificação

Grau (Papile, como no MS 2014)DescriçãoVolpe (MS 2014)
IHemorragia restrita à matriz germinativaMatriz germinativa ou < 10% de sangue no ventrículo lateral
IIHemorragia intraventricular sem dilatação ventricular10–50% do ventrículo lateral
IIIHemorragia intraventricular com dilatação ventricular> 50% do ventrículo lateral
IVHemorragia intraparenquimatosaEcodensidade periventricular descrita à parte (infarto hemorrágico periventricular)

O “grau IV” corresponde, na verdade, a um infarto hemorrágico periventricular venoso, e não a simples extensão da hemorragia — por isso Volpe e a AEP (2008) o descrevem separadamente, com localização e extensão. HPIV graus III e IV (ou infarto) são consideradas graves.

6. Prevenção

7. Tratamento e hidrocefalia pós-hemorrágica

Não há medicação que trate a hemorragia instalada: o manejo é de suporte — estabilização hemodinâmica e ventilatória, correção da anemia e da coagulopatia conforme o protocolo de transfusão (ver o Tema “Transfusão de hemocomponentes no recém-nascido”) e tratamento das convulsões (ver “Convulsão neonatal”). Nas hemorragias maciças, cabe discutir com a família os limites do tratamento (MS 2014).

Dilatação ventricular pós-hemorrágica (MS 2014): cerca de 35% evoluem com dilatação progressiva e 15% precisam de derivação.

8. Gravidade e encaminhamento

9. Complicações e erros comuns

Complicações: hidrocefalia pós-hemorrágica; infarto hemorrágico periventricular e leucomalácia; paralisia cerebral (hemiparesia espástica ou quadriparesia assimétrica), déficits cognitivos e epilepsia.

Erros comuns: permitir flutuações de PA e expansões rápidas; hiperventilar; ordenhar o cordão abaixo de 28 semanas; não rastrear com ultrassonografia; não vigiar a hidrocefalia (perímetro cefálico e US seriada); usar diuréticos para conter a dilatação.

10. Comparação das 9 referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDiretrizes PRN-SBP (12/06/2026); Manual de seguimento, 2ª ed. (2024); sem documento específico de HPIV localizadoAtenção à Saúde do RN, v. 3, cap. 27 (2014)Routine Neuroimaging of the Preterm Brain (Pediatrics, nov/2020)NG25, Preterm labour and birth (2015, atualizado em 10/06/2022)Protocolo SENeo de lesão cerebral no prematuro (2008)Sem protocolo público localizadoSem protocolo público localizadoSeguem o NICE (NG25)
Quem rastrear—< 1.500 g e/ou < 35 semanas≤ 30 semanas; > 30 com risco—————
QuandoUS seriada no período neonatal; RM no termo equivalente1ª semana; 1 semana e 1 mês; semanal se HPIV7–10 dias; 4–6 semanas; termo/alta; RM opcional—————
Classificação—Papile e VolpeHPIV e infarto hemorrágico periventricular—Abandonar o grau IV de Papile (infarto à parte)———
PrevençãoClampeamento ≥ 60 s; sem ordenha < 28 semanas; controle térmicoCorticoide antenatal; centro terciário; estabilidade; sem indometacina universal—Corticoide antenatal; sulfato de magnésio 24–29+6 sem (considerar até 33+6); clampeamento ≥ 60 sCorticoide antenatal; indometacina profilática não recomendada——NICE

Leitura: as referências concordam que a ultrassonografia transfontanela é o exame de escolha e de rastreamento, que a maioria das hemorragias ocorre na 1ª semana e que a prevenção (corticoide antenatal, estabilidade hemodinâmica e ventilatória, manuseio mínimo) é o que mais importa. Divergem a população rastreada (MS: < 1.500 g e/ou < 35 semanas; AAP: ≤ 30 semanas ou > 30 com risco), o calendário (MS: 1ª semana, 1 semana e 1 mês; AAP: 7–10 dias, 4–6 semanas e termo) e a classificação (Papile ainda usada pelo MS; AEP e Volpe separam o infarto hemorrágico). O momento da intervenção na dilatação pós-hemorrágica segue em debate (ELVIS). A SBP não tem documento específico de HPIV, mas suas diretrizes de 2026 trazem medidas de sala de parto que previnem a HPIV (clampeamento tardio, ordenha contraindicada < 28 semanas). Posição do site: a da SBP na sala de parto e a do Ministério da Saúde no rastreamento (mais amplo, até < 35 semanas) e no manejo da hidrocefalia, acrescentando o exame no termo equivalente ou na alta (AAP 2020).

11. Pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, 2. ed. Brasília: MS, 2014 (cap. 27, Hemorragia peri-intraventricular). Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  2. HAND, I. L.; SHELLHAAS, R. A.; MILLA, S. S.; AAP COMMITTEE ON FETUS AND NEWBORN et al. Routine neuroimaging of the preterm brain. Pediatrics, v. 146, n. 5, e2020029082, 2020. Disponível em: publications.aap.org.
  3. ALMEIDA, M. F. B.; GUINSBURG, R. Diretrizes 2026 — Reanimação do prematuro < 34 semanas em sala de parto. Programa de Reanimação Neonatal da SBP, 12 jun. 2026. Disponível em: doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1. Síntese em Reanimação neonatal e transição ao nascimento.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. Disponível em: sbp.com.br.
  5. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Preterm labour and birth (NG25). 20 nov. 2015, atualizado em 10 jun. 2022. Disponível em: nice.org.uk.
  6. CABAÑAS, F.; PELLICER, A. Lesión cerebral en el niño prematuro. Protocolos Diagnóstico-Terapéuticos de la AEP: Neonatología, 2008. Disponível em: seneo.es.
  7. PAPILE, L. A. et al. Incidence and evolution of subependymal and intraventricular hemorrhage: a study of infants with birth weights less than 1,500 gm. J Pediatr, v. 92, n. 4, p. 529–534, 1978. Disponível em: PubMed.
  8. DE VRIES, L. S. et al. Treatment thresholds for intervention in posthaemorrhagic ventricular dilation: a randomised controlled trial (ELVIS). Arch Dis Child Fetal Neonatal Ed, v. 104, n. 1, p. F70–F75, 2019. Disponível em: PubMed.
  9. CIZMECI, M. N. et al. Randomized controlled Early versus Late Ventricular Intervention Study in posthemorrhagic ventricular dilatation: outcome at 2 years. J Pediatr, v. 226, p. 28–35.e3, 2020. Disponível em: PubMed.

Revisão: outubro de 2026.

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

Prematuro de 26 semanas, 800 g, em ventilação por síndrome do desconforto respiratório; a mãe não recebeu corticoide antenatal. No 3º dia: queda do hematócrito, fontanela abaulada e convulsão.

Questão 1. Exame de escolha para o diagnóstico?
(A) Tomografia de crânio (B) Ultrassonografia transfontanela (C) Ressonância com contraste (D) Punção lombar (E) Radiografia de crânio

Questão 2. Medida de MAIOR impacto na prevenção?
(A) Heparina profilática (B) Corticoide antenatal, clampeamento tardio, estabilidade e manuseio mínimo (C) Hiperventilação (D) Transfusão de plaquetas de rotina (E) Restrição hídrica severa

Questão 3. Hemorragia com acometimento do parênquima corresponde a qual grau de Papile?
(A) Grau I (B) Grau II (C) Grau III (D) Grau IV — infarto hemorrágico periventricular (E) Não classificável

Caso 2

O prematuro evolui com aumento progressivo do perímetro cefálico (2,5 cm em uma semana) e dilatação ventricular crescente à ultrassonografia.

Questão 4. Qual complicação está se instalando?
(A) Microcefalia (B) Hidrocefalia pós-hemorrágica rapidamente progressiva (C) Craniossinostose (D) Cefalo-hematoma (E) Encefalocele

Questão 5. Origem do sangramento e população de maior risco?
(A) Plexo coroide; RN a termo (B) Matriz germinativa; prematuros < 32 semanas e < 1.500 g (C) Seios venosos; pós-termo (D) Córtex; macrossômicos (E) Cerebelo; filhos de mãe diabética

Questão 6. Conduta na hidrocefalia pós-hemorrágica rapidamente progressiva?
(A) Apenas observação (B) Punções lombares ou ventriculares, drenagem ventricular externa ou reservatório e, se necessário, derivação ventrículo-peritoneal, com a neurocirurgia (C) Corticoide em altas doses (D) Acetazolamida e furosemida (E) Antibiótico prolongado

Gabarito comentado

1 — B. A ultrassonografia transfontanela é o exame de escolha e o rastreamento no prematuro. 2 — B. Corticoide antenatal, clampeamento tardio, estabilidade e manuseio mínimo. 3 — D. O acometimento do parênquima é o grau IV de Papile, hoje entendido como infarto hemorrágico periventricular. 4 — B. Perímetro cefálico > 2 cm/semana e ventrículos crescentes = dilatação rapidamente progressiva (MS 2014). 5 — B. Matriz germinativa; risco maior < 32 semanas e < 1.500 g. 6 — B. Remoção de líquor (punções, DVE ou reservatório) e derivação se necessário; diuréticos não são indicados.