Neonatologia · Gastrointestinal e Hepático

Enterocolite Necrosante e Patologias GI

Afecções do trato gastrointestinal do RN

1. Importância do tema na Pediatria

As patologias gastrointestinais neonatais vão da enterocolite necrosante (ECN), emergência do prematuro com alta mortalidade, às obstruções cirúrgicas e ao refluxo fisiológico. Reconhecer os sinais de alarme (vômito bilioso, distensão, sangue nas fezes) e separar o que é cirúrgico do que é conservador é tema clássico de prova.

Posição adotada neste documento

A SBP não tem documento específico sobre ECN. O manejo segue o Ministério da Saúde (Atenção à Saúde do Recém-Nascido, v. 4, 2ª ed. 2014, cap. 37), que usa o estadiamento de Bell modificado e o esquema ampicilina + gentamicina, com metronidazol nas formas graves. As doses e a suspensão de antibióticos seguem a SBP: Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais (Diretriz nº 193, 2025) e a tabela de doses de 2012.

2. Avaliação inicial

Avalie distensão abdominal, resíduo gástrico, padrão dos vômitos (bilioso = alarme), eliminação de mecônio e sangue nas fezes. No prematuro que piora após avanço da dieta, pense em ECN. A radiografia de abdome é o exame inicial. O vômito bilioso obriga a afastar obstrução e volvo com urgência.

3. Fisiopatologia aplicada (ECN)

A ECN resulta da combinação de vários fatores:

Juntos, levam à necrose da parede intestinal; daí a pneumatose, gás intramural produzido por bactérias. A doença é mais comum no prematuro, em geral após o início ou o avanço da alimentação enteral, sobretudo com fórmula. O leite materno é protetor e o leite humano doado reduz a ECN (AAP 2026). Pode evoluir para perfuração, peritonite, sepse e choque.

Implicação: jejum, descompressão, antibiótico e cirurgia nas formas avançadas.

4. Diagnóstico — Estadiamento de Bell (modificado)

EstágioCaracterísticasTratamento sugerido pelo MS (2014)
IA / IB (suspeita)Instabilidade térmica, apneia, bradicardia, letargia; resíduo, distensão leve, vômitos, sangue oculto (IA) ou vivo (IB) nas fezes; radiografia normal ou com íleo leveDieta zero; antibiótico por 3 dias
IIA (definida, moderadamente doente)Achados anteriores + ausência de ruídos hidroaéreos ± dor; pneumatose intestinalDieta zero; antibiótico por 7–10 dias
IIB (definida, moderadamente doente)+ acidose metabólica e plaquetopenia leves, dor definida ± celulite ou massa no quadrante inferior direito; ± gás portal, ± asciteDieta zero; antibiótico por 14 dias
IIIA (avançada, intestino íntegro)+ hipotensão, apneia e bradicardia graves, acidose mista, CIVD, neutropenia; peritonite; asciteComo IIB + fluidos, inotrópicos, ventilação mecânica; considerar paracentese
IIIB (avançada, perfurada)+ pneumoperitônioComo IIIA + cirurgia

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Radiografia de abdome (AP e decúbito dorsal com raios horizontais)Pneumatose intestinal (clássica); gás portal; pneumoperitônio (perfuração). Repetir 2–4 vezes por dia conforme a evolução (MS 2014)
Ultrassonografia abdominal com DopplerAdjuvante: líquido livre, espessamento e perfusão da parede, peristalse (Johns Hopkins 2022)
Hemograma com plaquetas, PCRPlaquetopenia, leucopenia ou leucocitose. A PCR seriada normal fala contra ECN; a PCR persistentemente elevada sugere complicação
Hemocultura, urina, gasometria e lactato; líquor se indicadoSepse associada, acidose

5. Conduta e tratamento (ECN)

  1. Repouso intestinal: suspender a dieta enteral; sonda orogástrica calibrosa aberta para descompressão; hidratação venosa e nutrição parenteral; estabilidade hidroeletrolítica, metabólica e hemodinâmica (MS 2014).
  2. Antibiótico logo após as culturas: ampicilina + gentamicina em quem não recebeu antibiótico prévio. Acrescentar metronidazol (anaeróbios) se houver piora rápida, pneumatose extensa, pneumoperitônio ou peritonite, ou anaeróbio na hemocultura. O metronidazol pode ser associado a ampicilina + gentamicina ou a amicacina + vancomicina, conforme a flora do serviço (MS 2014). O NICE também orienta cobertura anaeróbia na suspeita de ECN (NG195, 1.23.1).
  3. Duração: na suspeita (estágio I), suspender o antibiótico 3–5 dias após a normalização clínica e laboratorial, com culturas negativas (MS 2014). Na ECN confirmada, seguir os prazos do quadro de Bell; com má evolução, no mínimo 14 dias (MS 2014). A Johns Hopkins (2022) suspende em 48 h na suspeita afastada.
  4. Cirurgia: o pneumoperitônio é indicação absoluta. A drenagem peritoneal é alternativa no RN instável (MS 2014). Acompanhar com cirurgião pediátrico desde a suspeita.
  5. Realimentação: com leite da própria mãe ou de banco de leite humano, 48 h após a normalização clínica e laboratorial na suspeita. Começar com 1/3 do volume anterior e aumentar conforme a tolerância (MS 2014).

Doses (antibióticos)

MedicaçãoDose e intervaloObservaçõesFonte
Ampicilina25 mg/kg/dose IV (na meningite: 100 mg/kg/dose 8/8 h na 1ª semana e 75 mg/kg/dose 6/6 h depois — AAP, Puopolo 2019; decisão do Dr. Stefani, 10/2026; ver Meningite neonatal). Intervalo: < 1.200 g, 12/12 h; 1.200–2.000 g, 12/12 h (0–7 dias) e 8/8 h (> 7 dias); > 2.000 g, 8/8 h (0–7 dias) e 6/6 h (> 7 dias)Esquema empírico com gentamicina. Doses da sepse precoce em outras referências são maiores; conferir a tabela da Diretriz nº 193SBP 2012 (Tabela 1)
Gentamicina≤ 29 semanas: 5 mg/kg 48/48 h; ≥ 35 semanas: 4 mg/kg 24/24 h; faixas intermediárias pela tabela da diretrizMonitorar nível sérico (vale 0,5–2 µg/mL — SBP 2012)SBP, Diretriz nº 193/2025
Metronidazol7,5 mg/kg/dose IV, em 60 min. Intervalo: < 1.200 g, 48/48 h; 1.200–2.000 g, 24/24 h (0–7 dias) e 12/12 h (> 7 dias); > 2.000 g, 12/12 hCobertura anaeróbia nas formas graves. A rede de Cambridge (EoE 2026) usa ataque de 15 mg/kg e intervalo pela idade corrigidaSBP 2012 (Tabela 1)
Probióticos

Não são rotina pela AAP (2021): faltam produtos de grau farmacêutico, e a FDA (2023) alertou para sepse e morte por cepa do próprio produto em prematuro < 1.000 g. A ESPGHAN (2020) faz recomendação condicional a cepas específicas, e a rede de Cambridge (EoE 2025) os usa de rotina em < 32 semanas. O MS (2014) os considera promissores, aguardando estudos, e a SBP não tem posição publicada. No site: não usar de rotina. Se o serviço adotar, fazê-lo com protocolo, cepa definida e produto de qualidade controlada.

6. Outras patologias gastrointestinais

Fluxograma (resumo)

  1. Prematuro com distensão + resíduo + sangue nas fezes → radiografia → ECN se pneumatose.
  2. Jejum + sonda + hidratação/NP + antibiótico após culturas; cirurgião pediátrico.
  3. Pneumoperitônio ou necrose → cirurgia. Vômito bilioso → afastar volvo e obstrução com urgência.

7. Gravidade e encaminhamento

ClassificaçãoSituaçãoConduta
🔴 GraveSuspeita ou confirmação de ECN (qualquer estágio); vômito bilioso; distensão com instabilidade; pneumoperitônioDieta zero, sonda aberta, acesso venoso e transferência imediata para UTI neonatal com cirurgia pediátrica
🟡 ModeradaAtraso na eliminação de mecônio sem sinais de obstrução; intolerância alimentar persistente após ECN (suspeita de estenose)Investigar com prioridade (radiografia, contraste, biópsia retal) e encaminhar à cirurgia pediátrica
🟢 LeveRegurgitação em lactente que cresce bem, sem sinais de alarmeOrientação e seguimento na puericultura

8. Comparação das referências

TemaSBP (Diretriz nº 193, 2025; tabela de 2012)MS (Atenção à Saúde do RN, v. 4, 2014)AAP (probióticos 2021; leite humano 2026)NICE (NG195, atual. 13/05/2026)AEP/SENeo (Protocolos 2008)Johns Hopkins (All Children's, 12/2022)HarvardOxford / Cambridge
Estadiamento—Bell modificado———Bell modificadoSem protocolo público localizado—
AntibióticoAmpicilina + aminoglicosídeo; stewardshipAmpicilina + gentamicina; + metronidazol se grave—Incluir cobertura anaeróbia (p. ex., metronidazol)Amplo espectro conforme a flora; anaeróbios se pneumoperitônioEstágio I: ampicilina + tobramicina por 48 h; II–III: piperacilina-tazobactam—Cambridge (EoE 2026): metronidazol + gentamicina + benzilpenicilina
DuraçãoSuspender em 36–48 h se culturas negativasI: 3 dias; IIA: 7–10; IIB: 14; mínimo 14 se má evolução———I: 48 h; IIA: 7 d; IIB–IIIA: 10 d; IIIB: 14 d——
Jejum—Até a normalização; realimentar após 48 h——Suspender a dietaI: até 48 h; IIA: 5–7 d; IIB: 7–10 d; IIIA: 7–14 d——
ProbióticosSem posição publicadaPromissores, aguardam estudosNão de rotina, sobretudo < 1.000 g (FDA 2023)—Sem eficácia comprovada (2008)——Cambridge (EoE 2025): rotina em < 32 sem
Vômito bilioso———Sinal de alerta (NG1)———BAPM 2024; vias de Wessex (2025) e Oxford (2024)

Leitura: há convergência no essencial. O estadiamento de Bell modificado guia o tratamento; a conduta é jejum, descompressão, antibiótico após culturas e cirurgia na perfuração; o leite materno é protetor e o vômito bilioso é obstrução até prova em contrário. As divergências são três:

  1. Antibiótico: ampicilina + gentamicina com metronidazol só nas formas graves (MS) × piperacilina-tazobactam a partir do estágio II (Johns Hopkins) × cobertura anaeróbia desde a suspeita (NICE e Cambridge).
  2. Duração e jejum: o MS dá prazos fixos por estágio; a Johns Hopkins encurta o estágio I para 48 h, acompanhando a tendência de stewardship da SBP (2025).
  3. Probióticos: não de rotina para AAP e MS; condicional na ESPGHAN; rotina na rede de Cambridge.

Posição adotada: MS 2014 no manejo, com as doses da SBP e suspensão precoce quando a ECN for afastada. Probióticos fora da rotina.

9. Complicações

10. Erros comuns

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

12. Casos clínicos comentados

Caso 1

Prematuro de 28 semanas, no 10º dia de vida, dois dias após avançar a dieta enteral, apresenta distensão abdominal, resíduo gástrico aumentado, sangue nas fezes e instabilidade térmica. A radiografia mostra pneumatose intestinal.

1.Diagnóstico e estágio de Bell?
Gabarito: B) Distensão, resíduo, sangue nas fezes e pneumatose intestinal em prematuro após avanço da dieta caracterizam ECN definida — estágio II de Bell.
2.Conduta inicial?
Gabarito: B) O manejo clínico da ECN é jejum (repouso intestinal), descompressão por sonda gástrica, suporte hidroeletrolítico e antibioticoterapia após coleta de culturas: ampicilina + gentamicina, com metronidazol nas formas graves (MS 2014).
3.Achado radiológico que indica perfuração (estágio III) e cirurgia?
Gabarito: B) O pneumoperitônio indica perfuração intestinal (estágio III de Bell) e é indicação de abordagem cirúrgica.
0/3 acertos
Caso 2

RN a termo, com 2 dias de vida, apresenta vômitos biliosos e distensão abdominal, sem eliminação adequada de mecônio.

1.Como interpretar o vômito bilioso nesse RN?
Gabarito: B) Vômito bilioso no recém-nascido é obstrução intestinal até prova em contrário — uma emergência que exige investigação imediata.
2.Diagnóstico cirúrgico grave a excluir com urgência?
Gabarito: B) A má rotação com volvo do intestino médio deve ser excluída com urgência, pois pode levar a isquemia intestinal extensa e necrose em poucas horas.
3.Conduta inicial diante da suspeita de obstrução?
Gabarito: B) Jejum, descompressão por sonda gástrica, hidratação e avaliação cirúrgica urgente — diante de obstrução com suspeita de volvo, o tempo é determinante para a viabilidade intestinal.
0/3 acertos

13. Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 4, 2. ed. atual. Brasília, 2014. Cap. 37, Enterocolite necrosante. BVS MS · v. 1 (eliminação de mecônio). BVS MS
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais. Diretriz nº 193, 06 mar. 2025. sbp.com.br
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Uso racional e seguro de antibióticos em neonatologia. 15 out. 2012 (Tabela 1, doses por peso e idade). PDF
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  5. PARKER, M. G. et al.; AAP. Promoting Human Milk and Breastfeeding for the Very Low Birth Weight Infant. Pediatrics, v. 157, n. 2, e2025073625, 2026. doi
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  7. NICE. Neonatal infection: antibiotics for prevention and treatment (NG195), rec. 1.23.1; atualização de 13 maio 2026. nice.org.uk · NICE. Gastro-oesophageal reflux disease in children and young people (NG1), 2015, atualizada em 2019. nice.org.uk
  8. DEMESTRE GUASCH, X.; RASPALL TORRENT, F. Enterocolitis necrosante. In: Protocolos de Neonatología (AEP/SENeo), 2008. PDF
  9. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Evaluation and Management of Suspected, Medical and Surgical Necrotizing Enterocolitis Clinical Pathway, atualizado em 08/12/2022. PDF
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  11. BRITISH ASSOCIATION OF PERINATAL MEDICINE. Management of Bilious Vomiting in the Newborn Period and Radiological Support for Neonatal Services: a BAPM Framework for Practice, fev. 2024. bapm.org · Wessex Care Pathway for Bilious Vomiting (exclusão de má rotação), v. 3, mar. 2025. PDF
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Revisão: outubro de 2026.