Neonatologia · Hematologia

Distúrbios Hematológicos do RN

Anemia, policitemia, plaquetopenia e doença hemorrágica

1. Importância do tema na Pediatria

Os distúrbios hematológicos do RN abrangem quatro grandes quadros: anemia, policitemia, plaquetopenia e doença hemorrágica por deficiência de vitamina K. Seus manejos são opostos: transfundir × diluir; repor plaquetas × repor vitamina K e fatores. Diferenciá-los, conhecer os limiares de transfusão e garantir a profilaxia com vitamina K são temas recorrentes de prova e de prática diária.

Posição adotada neste documento

Os limiares de transfusão seguem o Manual de Orientação nº 43 da SBP (Hemocomponentes e hemoderivados: indicações em Neonatologia, DC de Neonatologia e de Hematologia e Hemoterapia, 12/05/2026). A profilaxia com vitamina K segue o Ministério da Saúde (1 mg IM ao nascer), porque não há documento específico da SBP. Mesma posição dos temas Transfusão de hemocomponentes e hemoderivados no recém-nascido e Doença metabólica óssea, vitamina D e vitamina K (Temas atualizados em Neonatologia).

2. Avaliação inicial

Diante de palidez, pletora, sangramento ou petéquias, pedir:

Valorizar a história perinatal: parto e perdas sanguíneas, isoimunização, mãe diabética, RCIU, plaquetopenia ou doença autoimune materna, uso materno de anticonvulsivantes, se o RN recebeu vitamina K e quantas coletas de sangue foram feitas. Considerar também a idade em horas ou dias.

3. Fisiopatologia aplicada

Anemia. Resulta de três mecanismos:

Definir o mecanismo orienta a conduta: transfundir, tratar a hemólise ou repor ferro.

Policitemia. Hematócrito venoso > 65% por aumento da massa eritrocitária. Causas:

O excesso de hemácias aumenta a viscosidade e reduz a perfusão de cérebro, intestino e rins. Associa-se a hipoglicemia, desconforto respiratório e hiperbilirrubinemia.

Plaquetopenia (plaquetas < 150.000/mm³). Mecanismos:

A trombocitopenia aloimune neonatal (TAIN) é causa importante de hemorragia intracraniana no RN a termo em bom estado. Observação: os limites inferiores de referência são menores que 150.000 e variam com a IG. Wiedmeier et al. (2009) acharam 104.200/µL (percentil 5) em ≤ 32 semanas e 123.100/µL no pré-termo tardio e no termo.

Sangramento por deficiência de vitamina K (antiga doença hemorrágica do RN). A vitamina K é cofator da síntese hepática dos fatores II, VII, IX e X. O RN nasce com reservas baixas (pouca transferência placentária, intestino pouco colonizado, leite materno pobre em vitamina K). Há três formas:

A profilaxia universal ao nascer previne o quadro.

4. Diagnóstico

QuadroAchados-chave
AnemiaPalidez, taquicardia, má perfusão; Hb/Ht baixos para a idade; reticulócitos e Coombs (hemólise)
PolicitemiaPletora, letargia, hipoglicemia, desconforto respiratório; hematócrito venoso > 65% (o capilar superestima)
PlaquetopeniaPetéquias, sangramento; plaquetas < 150.000 (grave < 50.000). Início precoce em RN em bom estado → pensar em TAIN; tardio → sepse ou ECN
Sangramento por deficiência de vitamina KSangramento (TGI, coto umbilical, punções, intracraniano); TP e TTPA alargados com plaquetas normais (na CIVD, as plaquetas também caem)

Veja também Interpretação do Hemograma no Recém-Nascido (nesta área).

5. Conduta e tratamento

Anemia: transfusão de concentrado de hemácias (estratégia restritiva)

Limiares de Hb (g/dL) e Ht para transfundir (SBP, MO nº 43/2026, tabela de Ohls 2024)
Idade pós-natal e IGRN críticoRN não crítico
0–7 dias, qualquer IG11 (32%)10 (29%)
8–14 dias, < 35 semanas10 (29%)8 (24%)
≥ 15 dias, < 35 semanas8 (24%)7 (21%)
≥ 35 semanas, após 7 dias7 (21%)7 (21%)

Policitemia

Plaquetopenia: transfusão de plaquetas (SBP, MO nº 43/2026)

Sangramento por deficiência de vitamina K

Doses e hemocomponentes

Medicamento / produtoDoseObservaçõesFonte
Vitamina K1 (profilaxia)1 mg IM dose única ao nascer (MS: IM ou SC)Todos os RN. < 1.500 g: a AAP indica 0,3–0,5 mg/kg IM; seguir o protocolo da unidade. Não repetir em quem recebeu a dose IMMS (Atenção à Saúde do RN, v. 1, 2014; Linha de Cuidado Puericultura); AAP 2022
Vitamina K1 (tratamento)1 mg IM; no RN internado com acesso venoso, a mesma dose IVRepetir conforme resposta clínica e do TP. A via IV segue o protocolo da unidadeMS (AIDPI Neonatal, v. 1, 2014: 1 mg IM antes do encaminhamento); ficha técnica do Konakion MM Paediatric (2024): 1 mg IV inicial, com doses adicionais conforme a necessidade
Concentrado de hemácias15 mL/kg (20 mL/kg em sangramento, choque ou cirurgia) em 1–4 h (cerca de 2 h)Desleucocitado; irradiado se < 1.200 g ou < 28 semanasSBP, MO nº 43/2026
Concentrado de plaquetas15 mL/kg (10–20) em até 2 hFiltradas, ABO idêntico; irradiadas se < 28 sem/< 1.200 gSBP, MO nº 43/2026
Plasma fresco congelado10–15 mL/kg a cada 8–12 h, em até 1 hNunca profilático nem como expansor. Indicações: sangramento ativo após plaquetas, CIVD, INR > 1,5 com relação de TTPA > 1,5, deficiência de proteína C/S ou antitrombina, sangramento sem resposta à vitamina KSBP, MO nº 43/2026
Crioprecipitado10 mL/kg (5–15)Fibrinogênio < 100 mg/dL, após plaquetas e PFCSBP, MO nº 43/2026
Imunoglobulina EV (TAIN)1 g/kg/dia por 2–3 diasPlaquetas < 30.000 ou refratárias. Na sepse, não indicadaSBP, MO nº 43/2026
Ferro elementar (pré-termo/baixo peso)2–4 mg/kg/dia VO a partir de 30 dias; depois 1 mg/kg/dia dos 12 aos 24 mesesAnemia da prematuridade; padrão do siteSBP, Recomendações para deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes, atualização 2026 (padrão do site)

Fluxograma (resumo)

  1. Definir o quadro: Hb/Ht venoso, reticulócitos, plaquetas, TP/TTPA.
  2. Anemia → transfundir pelo limiar da SBP 2026 e tratar a causa (ferro na anemia da prematuridade). Policitemia sintomática → exsanguineotransfusão parcial. Plaquetopenia → plaquetas pelo limiar e investigar TAIN, sepse ou ECN. Deficiência de vitamina K → vitamina K e, se sangramento ativo, PFC.
  3. Investigar e tratar a causa de base (hemólise, sepse, isoimunização, colestase).

6. Gravidade e encaminhamento

ClassificaçãoSituaçãoConduta
🔴 GraveSangramento ativo importante ou suspeita de hemorragia intracraniana; anemia com choque ou má perfusão; plaquetas < 25.000 ou sangramento com plaquetopenia; policitemia sintomáticaTransferência imediata para UTI neonatal. Vitamina K 1 mg IV/IM se não recebeu ou se há suspeita de deficiência, sem atrasar a remoção
🟡 ModeradaAnemia sintomática sem instabilidade; plaquetopenia sem sangramento em RN em bom estado (suspeita de TAIN); policitemia assintomática com Ht venoso > 65%Internação em unidade neonatal para investigação; na suspeita de TAIN, discutir com o hematologista com urgência
🟢 LeveAlterações leves e assintomáticas, RN estávelSeguimento com reavaliação do hemograma

7. Comparação das referências

TemaSBP (MO nº 43, 12/05/2026)MS (Atenção à Saúde do RN, 2014)AAP (Hand 2022; EUA: AABB/ICTMG 2025)NICE (NG235, atual. 09/06/2026; BSH/NHSBT 2016–2020)AEP/SENeo (Boix 2022; PrevInfad 2021)Johns Hopkins (All Children's, 09/2022)Harvard (Boston Children's)Oxford / Cambridge
HemáciasRestritiva (Ohls 2024); crítico × não crítico; 15 mL/kg—Restritiva (diretriz internacional 2024, < 30 sem)Restritiva (NHSBT 2020, < 32 sem); NG24 não se aplica ao RNRestritiva; 15 mL/kgGatilhos por Ht (30/25/21%); 15–20 mL/kgSem protocolo público localizadoSeguem BSH/NHSBT
Plaquetas profiláticas< 25.000; < 100.000 antes de AINE para PCA—< 25.000 (forte); sem limiar para procedimentos< 25.000; 100.000 só em sangramento ou cirurgia maior< 25.000—Protocolo restritivo pós-PlaNeT-2 (estudo de 07/2026)Seguem BSH
Vitamina K ao nascerSem documento específico1 mg IM (ou SC)1 mg IM em até 6 h; ≤ 1.500 g 0,3–0,5 mg/kg; oral não recomendadaIM preferida; oral só se recusa, em várias doses1 mg IM; < 1.500 g 0,5 mg; 2 mg VO × 3 se recusa——Seguem o NICE
PolicitemiaSem documento específicoSem capítulo próprioSem documentoBSH 2016: exsanguineotransfusão parcial não no assintomático (1A); no sintomático, julgamento clínico; soro fisiológicoHt > 65% com Hb > 20 g/dL (Protocolos AEP 2008)——Seguem BSH
IGIVTAIN 1 g/kg × 2–3 dias; hemólise "poderia ser considerada"—ICTMG 2022 contra rotina na hemólise—————

Leitura: há convergência ampla na estratégia restritiva para hemácias. A tabela da SBP 2026 é praticamente sobreponível à diretriz internacional de 2024, ao NHSBT e à SENeo. Também convergem o limiar profilático de 25.000 plaquetas (recomendação forte da AABB/ICTMG 2025), o volume de 15 mL/kg, o plasma nunca profilático e a vitamina K 1 mg IM para todos. As divergências são três:

  1. o limiar de 100.000 plaquetas antes de AINE para PCA, exclusivo da SBP;
  2. a irradiação de rotina no pré-termo (SBP < 1.200 g ou < 28 semanas; SENeo 1.500 g; o BSH a reserva à transfusão intrauterina e à exsanguineotransfusão);
  3. a dose de vitamina K no < 1.500 g e o esquema oral na recusa, que o MS não define.

Na policitemia, SBP, MS, AAP e NICE não têm documento. O BSH (2016) e a Cochrane (2010) não indicam a exsanguineotransfusão parcial no RN assintomático. Posição adotada: SBP 2026 nas transfusões. Na PCA sem sangramento, individualizar a decisão em vez de transfundir de rotina para atingir 100.000. Vitamina K 1 mg IM do MS, com a dose do < 1.500 g conforme o protocolo da unidade (referência: AAP).

8. Complicações

9. Erros comuns

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. DC de Neonatologia e DC de Hematologia e Hemoterapia. Hemocomponentes e hemoderivados: indicações em Neonatologia. Manual de Orientação nº 43, 12 maio 2026. sbp.com.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 1, 2. ed. atual. Brasília, 2014 (vitamina K1 1 mg ao nascimento; AIDPI neonatal). BVS MS
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado Puericultura — assistência neonatal. gov.br
  4. HAND, I.; NOBLE, L.; ABRAMS, S. A. Vitamin K and the Newborn Infant. Pediatrics, v. 149, n. 3, e2021056036, 2022. doi
  5. NICE. Intrapartum care (NG235), recomendações 1.11.12–1.11.13 sobre vitamina K, reintroduzidas na atualização de 09 jun. 2026. nice.org.uk
  6. METCALF, R. A. et al. Platelet Transfusion: 2025 AABB and ICTMG International Clinical Practice Guidelines. JAMA, 2025. PDF
  7. NHS BLOOD AND TRANSPLANT. Neonatal transfusion guidance (< 32 semanas), nov. 2020. PDF · NEW, H. V. et al. BSH — Guidelines on transfusion for fetuses, neonates and older children. Br J Haematol, v. 175, p. 784-828, 2016. PDF
  8. BOIX, H. et al. Recomendaciones para la transfusión de hemoderivados en neonatología. An Pediatr, 2022. Anales de Pediatría
  9. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Red Blood Cell Transfusion in the Neonate Clinical Pathway, 09/2022. PDF
  10. KONAKION MM PAEDIATRIC 2 mg/0,2 mL. Summary of Product Characteristics, rev. 05 fev. 2024. emc
  11. STOECKEL et al. Sustained practice change after implementation of an evidence-based neonatal platelet transfusion protocol (Boston Children's Hospital). J Perinatol, 28 jul. 2026. Nature
  12. ÖZEK, E.; SOLL, R.; SCHIMMEL, M. S. Partial exchange transfusion to prevent neurodevelopmental disability in infants with polycythemia. Cochrane Database Syst Rev, CD005089, 2010. doi
  13. WIEDMEIER, S. E. et al. Platelet reference ranges for neonates, defined using data from over 47,000 patients. J Perinatol, v. 29, p. 130-136, 2009. doi

Revisão: outubro de 2026.

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

RN nascido em parto domiciliar, que não recebeu vitamina K, apresenta no 3º dia sangramento pelo coto umbilical e melena. TP e TTPA alargados, plaquetas normais.

Questão 1. Diagnóstico mais provável?
(A) Sepse com CIVD (B) Sangramento por deficiência de vitamina K (doença hemorrágica do RN) (C) Plaquetopenia imune (D) Hemofilia (E) Deficiência de fator XIII

Questão 2. Conduta?
(A) Apenas observação (B) Vitamina K 1 mg IV/IM e, no sangramento ativo, plasma fresco congelado (C) Transfusão de plaquetas isolada (D) Corticoide (E) Heparina

Questão 3. Que medida teria prevenido o quadro?
(A) Vitamina K 1 mg IM ao nascer (B) Antibiótico profilático (C) Ferro oral precoce (D) Fototerapia (E) Restrição hídrica

Caso 2

RN a termo, filho de mãe diabética, pletórico, com letargia e hipoglicemia. O hematócrito venoso é de 70%.

Questão 4. Diagnóstico?
(A) Anemia (B) Policitemia neonatal (C) Meta-hemoglobinemia (D) Desidratação isolada (E) Sepse

Questão 5. Tratamento se sintomático?
(A) Transfusão de hemácias (B) Exsanguineotransfusão parcial (com soro fisiológico) (C) Vitamina K (D) Ferro oral (E) Diurético

Questão 6. Complicação associada à policitemia?
(A) Hipernatremia isolada (B) Hiperviscosidade com trombose e enterocolite (C) Catarata (D) Surdez (E) Anquiloglossia

Gabarito comentado

1 — B. Sangramento com TP/TTPA alargados e plaquetas normais, em RN sem vitamina K, é o sangramento por deficiência de vitamina K (forma clássica).

2 — B. Vitamina K 1 mg IM, ou IV no RN com acesso venoso (MS) e, no sangramento ativo, plasma fresco congelado 10–15 mL/kg (SBP 2026).

3 — A. A profilaxia com 1 mg IM ao nascer previne o quadro (MS; AAP 2022).

4 — B. Pletora, letargia, hipoglicemia e Ht venoso > 65% definem policitemia neonatal.

5 — B. Na policitemia sintomática, faz-se exsanguineotransfusão parcial com soro fisiológico, além de tratar a hipoglicemia. No RN assintomático, não há benefício comprovado (Cochrane 2010).

6 — B. A hiperviscosidade associa-se a trombose, enterocolite e sequelas neurológicas.