Neonatologia · Respiratório

Displasia Broncopulmonar (DBP)

Doença pulmonar crônica do prematuro

Doença pulmonar crônica do prematuro: definição atual (Jensen 2019), prevenção, conduta na DBP em evolução e estabelecida, doses com fonte, metas de oxigênio neonatais e comparação das 9 referências. Revisão: outubro de 2026.

1. Importância do tema

A displasia broncopulmonar (DBP) é a doença pulmonar crônica mais comum do prematuro, sobretudo do extremo baixo peso. Associa-se a reinternações por infecções respiratórias, hipertensão pulmonar, déficit de crescimento e alterações do neurodesenvolvimento. A prevenção tem mais impacto do que qualquer tratamento da doença estabelecida.

2. Fisiopatologia aplicada

A “nova DBP” resulta da interrupção do desenvolvimento alveolar e vascular do pulmão imaturo, somada à lesão por oxigênio (estresse oxidativo), volutrauma e atelectrauma, inflamação, infecção e persistência do canal arterial — com menos alvéolos, maiores e mal vascularizados. Daí a ênfase em CPAP precoce, ventilação protetora, cafeína e evitar a hiperóxia.

3. Definição e diagnóstico

Definição clássica (NICHD 2001): necessidade de O₂ por pelo menos 28 dias, com gravidade avaliada às 36 semanas de idade pós-menstrual (IPM) no nascido < 32 semanas. Definição de Jensen (2019), hoje a mais usada por predizer melhor o desfecho respiratório e do neurodesenvolvimento: classifica pelo modo de suporte às 36 semanas de IPM, independentemente da FiO₂.

Gravidade da DBP às 36 semanas de IPM (Jensen et al., 2019)
GrauSuporte às 36 semanas de IPM
Sem DBPAr ambiente
Grau 1Cânula nasal ≤ 2 L/min
Grau 2Cânula nasal > 2 L/min ou pressão positiva não invasiva (CPAP, VNI)
Grau 3Ventilação mecânica invasiva
ExameAchado / utilidade
Radiografia de tóraxOpacidades difusas, áreas císticas e hiperinsuflação (padrão heterogêneo)
Oximetria e gasometriaNecessidade de O₂; hipercapnia compensada
EcocardiogramaRastrear hipertensão pulmonar secundária na DBP moderada ou grave
Eletrólitos, cálcio, fósforo; US renalMonitorizar o uso crônico de diuréticos (nefrocalcinose) — SBP, Manual de seguimento 2024

4. Prevenção

5. Conduta e doses

Passo 1 — prevenir: CPAP, ventilação gentil, cafeína, evitar hiperóxia. Passo 2 — DBP em evolução ou estabelecida: O₂ para a meta, nutrição de alta densidade (140–150 kcal/kg/dia — SBP, Manual de seguimento 2024) e diurético apenas em cursos curtos, nas fases de congestão. Passo 3 — dependência de ventilação mecânica: corticoide sistêmico em dose baixa, em casos selecionados, com decisão compartilhada com os pais; rastrear hipertensão pulmonar.

MedicaçãoDoseFonteObservações
Citrato de cafeínaAtaque 20 mg/kg IV (em 30 min) ou enteral; manutenção 5–10 mg/kg/dia, 1×/dia, a partir de 24 h; se a apneia persistir, aumentar 50% da doseSBP, DC nº 194 (10/03/2025)Profilaxia desde o 1º dia em todo RN < 28 semanas e/ou < 1.000 g; usar produto industrializado. Suspensão e alta: ver o Tema “Apneia da prematuridade e cafeína”
Dexametasona (dose baixa)0,15 mg/kg/dia (de 12/12 h) por 3 dias → 0,10 mg/kg/dia por 3 dias → 0,05 mg/kg/dia por 3 dias, IV ou VO (9 dias; total ≈ 0,9 mg/kg)MS, Atenção à Saúde do RN, v. 3, 2014Só no prematuro dependente de ventilação mecânica agressiva por mais de 2 semanas, após afastar canal arterial, infecção, atelectasia e escape de ar. Sem resposta nos 3 primeiros dias, suspender. DART (Doyle 2006): 10 dias, mesmo total de 0,89 mg/kg. Dose alta (≥ 0,5 mg/kg/dia) não é recomendada (AAP 2022)
Furosemida1–2 mg/kg/dose, 12/12 h, IV ou VOMS, 2014Só cursos curtos (edema pulmonar, piora do trabalho respiratório); evitar uso prolongado (hipocalemia, hiponatremia, alcalose, hipercalciúria, nefrocalcinose, ototoxicidade)
Hidroclorotiazida1–1,5 mg/kg/dose, 12/12 h, VOAEP/SENeo, Protocolo de DBP, 2008Alternativa à furosemida para reduzir os distúrbios eletrolíticos; associar espironolactona
Espironolactona1–3 mg/kg/dose, 1×/dia, VOMS, 2014 (AEP 2008: 1–1,5 mg/kg/dose 12/12 h)Associada à tiazida; controlar eletrólitos
Broncodilatador (salbutamol)Aerossol 100 mcg/jato: 1–2 jatos a cada 6–8 h, com espaçadorMS, 2014Só se houver broncoespasmo; não muda a evolução da DBP. Após a alta, teste terapêutico apenas com tosse ou sibilância (ATS 2021)
Atenção — corticoide pós-natal

Não usar dexametasona nos primeiros 7 dias de vida (mais perfuração intestinal e paralisia cerebral) nem em dose alta. O uso tardio em dose baixa facilita a extubação, mas exige avaliação do risco-benefício neurológico e conversa com a família. Cursos repetidos devem ser evitados.

Correção da fonte

O guia do Ministério da Saúde (2014, v. 3, seção 23.8) traz hidroclorotiazida “10 a 20 mg/kg por dose” — erro evidente de digitação (dose 10 vezes maior que a usual). Este documento usa 1–1,5 mg/kg/dose (AEP/SENeo 2008).

6. Metas de oxigênio (metas neonatais próprias)

7. Gravidade e encaminhamento

8. Alta e seguimento

9. Complicações e erros comuns

Complicações: hipertensão pulmonar; reinternações (VSR); déficit de crescimento; sibilância e asma; alterações do neurodesenvolvimento; osteopenia (diuréticos, corticoide).

Erros comuns: manter hiperóxia; usar corticoide pós-natal de rotina, precoce ou em dose alta; diuréticos prolongados sem indicação; não rastrear a hipertensão pulmonar; aplicar ao prematuro a meta de SpO₂ da criança maior.

10. Comparação das 9 referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaMO nº 12, Suporte respiratório no RN prematuro (21/06/2022); DC nº 194, Apneia (10/03/2025); Manual de seguimento, 2ª ed. (2024)Atenção à Saúde do RN, v. 3, 2ª ed. (2014)Postnatal corticosteroids (Pediatrics, jun/2022); ATS 2021 (pós-alta, sem posição própria da AAP)NG124 (03/04/2019)Protocolo SENeo de DBP (2008); SENP, seguimento (2016)JHACH, Dexamethasone for BPD Prevention (mai/2024)Sem protocolo público localizadoSeguem o NICE (NG124)
PrevençãoCPAP imediato, VNI, ventilação protetora, cafeína profilática < 28 sem/< 1.000 gCorticoide antenatal, surfactante, ventilação menos agressiva—Cafeína de rotina ≤ 30 semCPAP nasal precoce, surfactante precoce, evitar hiperóxiaVNI desde o nascimento—NICE
Corticoide pós-natalSem esquema próprioDexametasona 9 dias (0,15 → 0,10 → 0,05 mg/kg/dia) se VM agressiva > 2 semanasSem dose alta; tardio (> 7 d) só em quem não sai da VM; hidrocortisona precoce em casos selecionados; decisão compartilhadaConsiderar dexametasona a partir de 8 dias em VM invasiva, após conversa com os paisNão usar precocemente; só na DBP grave dependente do ventilador (FiO₂ > 0,6), em curso curto (3–5 dias) e dose baixa, com consentimento dos paisDART (0,89 mg/kg em 10 dias) ≥ 14 dias, < 1.000 g ou 23–28 sem, risco > 60% (calculadora NICHD)—NICE
DiuréticosMonitorizar eletrólitos e US renal no uso crônicoFurosemida curta; tiazida + espironolactonaATS 2021: contra o uso rotineiro; suspender com critérioSem recomendação (evidência insuficiente)Furosemida curta; tiazida + espironolactona——NICE
Meta de SpO₂90–95% (MO 12/2022); alvo 91–95% (DC 194/2025)——91–95%90–95%; ≥ 93% após o risco de retinopatia; ≥ 95% com HP——NICE

Leitura: há convergência na prevenção (CPAP precoce, ventilação protetora, cafeína, evitar hiperóxia) e na restrição do corticoide pós-natal a casos selecionados, tardios e em dose baixa. Divergem o momento e o critério do corticoide (NICE a partir de 8 dias em VM; MS após 2 semanas de VM agressiva; Johns Hopkins a partir de 14 dias e pelo risco calculado; AEP 2008 só na DBP grave, em curso de 3–5 dias), o esquema (MS 9 dias × DART 10 dias, com o mesmo total de ≈ 0,9 mg/kg) e o papel dos diuréticos (MS e AEP admitem cursos curtos; NICE não recomenda; ATS é contra o uso rotineiro). Posição do site: a SBP onde ela se posiciona (prevenção, cafeína, meta de SpO₂ 91–95% do DC nº 194/2025); onde não se posiciona, o Ministério da Saúde (esquema de dexametasona e furosemida), registrando o DART e o NICE como alternativas, e a dose de hidroclorotiazida da AEP pela correção do erro do guia do MS.

11. Pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Suporte respiratório no recém-nascido prematuro. Manual de Orientação nº 12, 21 jun. 2022. Disponível em: sbp.com.br.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Apneia da prematuridade. Documento Científico nº 194, 10 mar. 2025. Resumo e comparação em Apneia da prematuridade e cafeína (Temas atualizados).
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. Disponível em: sbp.com.br.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, 2. ed. Brasília: MS, 2014 (cap. 23, Terapias auxiliares). Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  5. CUMMINGS, J. J.; PRAMANIK, A. K.; AAP COMMITTEE ON FETUS AND NEWBORN. Postnatal corticosteroids to prevent or treat chronic lung disease following preterm birth. Pediatrics, v. 149, n. 6, e2022057530, 2022. Disponível em: doi.org/10.1542/peds.2022-057530.
  6. CRISTEA, A. I. et al. Outpatient respiratory management of infants, children, and adolescents with post-prematurity respiratory disease: an official American Thoracic Society clinical practice guideline. Am J Respir Crit Care Med, v. 204, n. 12, p. e115–e133, 2021. Disponível em: academic.oup.com.
  7. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Specialist neonatal respiratory care for babies born preterm (NG124). 3 abr. 2019. Disponível em: nice.org.uk.
  8. IZQUIERDO MACIÁN, M. I.; LÓPEZ ANDREU, J. A.; MORCILLO SOPENA, F. Displasia broncopulmonar. Protocolos Diagnóstico-Terapéuticos de la AEP: Neonatología, 2008. Disponível em: seneo.es.
  9. PÉREZ TARAZONA, S. et al. Protocolo de seguimiento de los pacientes con displasia broncopulmonar. An Pediatr (Barc), v. 84, p. 61.e1–9, 2016. Disponível em: doi.org/10.1016/j.anpedi.2015.04.020.
  10. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Dexamethasone for Bronchopulmonary Dysplasia Prevention Clinical Pathway. Atualizado em maio 2024. Disponível em: hopkinsmedicine.org.
  11. JENSEN, E. A. et al. The diagnosis of bronchopulmonary dysplasia in very preterm infants: an evidence-based approach. Am J Respir Crit Care Med, v. 200, n. 6, p. 751–759, 2019. Disponível em: PubMed.
  12. DOYLE, L. W. et al. Low-dose dexamethasone facilitates extubation among chronically ventilator-dependent infants: a multicenter, international, randomized, controlled trial (DART). Pediatrics, v. 117, n. 1, p. 75–83, 2006. Disponível em: PubMed.

Revisão: outubro de 2026.

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

Prematuro extremo (25 semanas ao nascer), com ventilação e oxigênio prolongados, permanece às 36 semanas de idade pós-menstrual em cânula nasal de baixo fluxo (1 L/min), com taquipneia e retrações leves.

Questão 1. Qual o diagnóstico e o grau pela definição de Jensen (2019)?
(A) Pneumonia; febre (B) Displasia broncopulmonar grau 1 — cânula nasal ≤ 2 L/min às 36 semanas de IPM (C) Asma do lactente; sibilância (D) Cardiopatia; sopro (E) Fibrose cística; suor positivo

Questão 2. Qual conjunto tem maior impacto na PREVENÇÃO?
(A) Antibiótico contínuo e restrição hídrica severa (B) Corticoide antenatal, CPAP precoce/ventilação protetora, cafeína e evitar hiperóxia (C) O₂ em alta concentração (D) Sedação profunda (E) Transfusões profiláticas

Questão 3. Medicação que reduz apneia e a própria DBP, e dose?
(A) Furosemida 1 mg/kg única (B) Citrato de cafeína — ataque 20 mg/kg + manutenção 5–10 mg/kg/dia (C) Dexametasona 1 mg/kg/dia por 30 dias (D) Salbutamol contínuo (E) Espironolactona isolada

Caso 2

Outro prematuro, com 3 semanas de vida, permanece em ventilação mecânica com parâmetros elevados, sem infecção nem canal arterial com repercussão.

Questão 4. Sobre o corticoide sistêmico, qual a afirmativa correta?
(A) Usar em todos de rotina desde o 1º dia (B) Dose baixa e tardia, em casos selecionados de difícil desmame, após conversa com a família sobre o risco-benefício neurológico (C) Contraindicado sempre (D) Substitui cafeína e CPAP (E) Dose alta por 60 dias

Questão 5. Complicação a rastrear com ecocardiograma na DBP grave?
(A) CIA isolada (B) Hipertensão pulmonar secundária (C) Estenose aórtica (D) Miocardite (E) Pericardite

Questão 6. Medida de proteção respiratória após a alta?
(A) Prevenção do VSR com anticorpo monoclonal (nirsevimabe) conforme a indicação (B) Corticoide oral contínuo (C) Antibiótico permanente (D) Restrição de aleitamento (E) O₂ em alta concentração em casa

Gabarito comentado

1 — B. Às 36 semanas de IPM em cânula nasal ≤ 2 L/min = DBP grau 1 (Jensen 2019). 2 — B. A prevenção combina corticoide antenatal, CPAP precoce, ventilação protetora, cafeína e evitar hiperóxia. 3 — B. Cafeína: ataque 20 mg/kg; manutenção 5–10 mg/kg/dia (SBP, DC nº 194/2025). 4 — B. Corticoide só tardio, em dose baixa (esquema do MS ou DART), em casos selecionados, com a família informada. 5 — B. A DBP grave pode cursar com hipertensão pulmonar — rastrear com ecocardiograma. 6 — A. A prevenção do VSR reduz internações graves; seguir as indicações vigentes (“Vacinação do prematuro”).