Neonatologia · Infecções

Conjuntivite Neonatal

Oftalmia neonatorum

Em resumo — posição do site

Profilaxia na 1ª hora de vida, em todo RN: povidona-iodo 2,5% colírio (primeira opção do site) ou eritromicina 0,5% ou tetraciclina 1% pomada; o nitrato de prata 1% só na falta das outras (SBP, DC nº 9/2020; MS, Nota Técnica nº 11/2024). Conjuntivite no RN é sempre urgência. Suspeita de gonococo (secreção purulenta abundante, edema palpebral intenso, em geral entre o 2º e o 5º dia): 🔴 internação, ceftriaxona 25–50 mg/kg IM ou IV, dose única, máx. 125 mg (MS, PCDT IST 2022), lavagem ocular com soro fisiológico e oftalmologista com urgência. Clamídia (secreção mucopurulenta, 5–14 dias): tratamento sistêmico — eritromicina 50 mg/kg/dia VO de 6/6 h por 14 dias ou azitromicina 20 mg/kg/dia VO por 3 dias (CDC 2021); o colírio isolado não basta. Tratar a mãe e as parcerias sexuais.

1. Importância do tema

A conjuntivite neonatal (oftalmia neonatal) é a conjuntivite purulenta das primeiras 4 semanas de vida, em geral adquirida no canal de parto (SBP 2020). A forma gonocócica pode perfurar a córnea e levar à perda da visão em 24 horas (MS 2024); a clamídia é mais frequente e pode deixar cicatriz de córnea e conjuntiva e associar-se à pneumonia do lactente. No Brasil, estudos citados pela SBP mostram prevalência de cerca de 9,4% de Chlamydia trachomatis e 1,5% de Neisseria gonorrhoeae em gestantes, o que mantém a profilaxia universal indicada no país.

2. Avaliação inicial

3. Fisiopatologia e cronologia

CausaInício habitualQuadro
Química (profilaxia, sobretudo nitrato de prata)Primeiras 24–48 hHiperemia e secreção discreta, autolimitada
N. gonorrhoeae2º–5º dia (pode ser mais precoce com ruptura prolongada de membranas)Secreção purulenta abundante, edema palpebral intenso, quemose; risco de úlcera e perfuração de córnea; pode disseminar (sepse, artrite, meningite)
C. trachomatis5º–14º diaSecreção mucopurulenta, edema moderado; pneumonia afebril entre 1 e 3 meses
Herpes simplesEm geral 6–14 diasSecreção serosa, vesículas palpebrais, ceratite; pode fazer parte da doença pele-olho-boca, do SNC ou disseminada
Outras bactérias (S. aureus, Gram-negativos)Variável, geralmente após 5 diasMais branda; Pseudomonas no prematuro internado pode ser grave

A transmissão vertical no parto vaginal é de 30% a 50% tanto para gonococo como para clamídia (MS, PCDT IST 2022). A profilaxia é eficaz contra o gonococo, mas frequentemente não contra a clamídia, cuja prevenção depende do rastreio e tratamento na gestação (PCDT IST 2022).

4. Diagnóstico

ExameUtilidade
Gram e cultura da secreçãoDiplococos Gram-negativos intracelulares (gonococo); outras bactérias
Teste molecular (NAAT/PCR) para gonococo e clamídiaMétodo de escolha para clamídia; colher células da conjuntiva da pálpebra evertida, e não só o exsudato (CDC 2021)
PCR para herpes simples (swab conjuntival e de superfícies)Vesículas, ceratite ou quadro após o 5º dia sem bactéria; sangue e líquor se suspeita de herpes neonatal
Hemocultura e líquorGonococo com sinais sistêmicos (doença disseminada); herpes
Avaliação oftalmológicaObrigatória no gonococo e no herpes; exame da córnea

5. Profilaxia ao nascer

6. Tratamento por agente

SituaçãoMedicamento e doseFonteObservações
Oftalmia gonocócica (suspeita ou confirmada)Ceftriaxona 25–50 mg/kg IM ou IV, dose única, máx. 125 mgMS, PCDT IST 2022 (Quadro 32)CDC 2021: mesma dose, com máx. de 250 mg (divergência). Lavagem ocular com soro fisiológico de hora em hora; não usar penicilina tópica; se a resposta não for satisfatória, pensar em clamídia associada (PCDT). Ceftriaxona: evitar no RN com hiperbilirrubinemia e contraindicada com cálcio EV (SBP, Diretriz nº 193/2025)
Gonococo — RN com contraindicação à ceftriaxonaCefotaxima — dose conforme protocolo da unidade—Alternativa nos RN ictéricos ou em uso de cálcio EV; dose única não padronizada nas fontes brasileiras abertas
Doença gonocócica disseminada (sepse, artrite, meningite)Conforme o documento Meningite neonatal e a infectologiaCDC 2021Internação; hemocultura e líquor
RN assintomático de mãe com gonorreia não tratadaCeftriaxona 25–50 mg/kg IM ou IV, dose única (máx. 125 mg pelo MS)CDC 2021 (indicação); dose do PCDT 2022O PCDT 2022 não trata explicitamente desse cenário
Clamídia (conjuntivite ou pneumonia)Eritromicina (base ou etilsuccinato) 50 mg/kg/dia VO, de 6/6 h, por 14 diasCDC 2021Eficácia de cerca de 80%; pode ser necessário 2º curso; risco de estenose hipertrófica de piloro abaixo de 6 semanas — orientar a família (CDC 2021)
Clamídia — alternativaAzitromicina suspensão 20 mg/kg/dia VO, 1×/dia, por 3 diasCDC 2021Dados limitados; mesmo alerta de estenose de piloro
Herpes simples (conjuntivite ou ceratite)Aciclovir 20 mg/kg/dose IV de 8/8 h, 14 dias (pele, olho e boca) ou ≥ 21 dias (SNC ou disseminada)Padrão do site (< 3 meses); Johns Hopkins 2025; BASHH/RCOGInvestigar doença do SNC e disseminada (PCR em sangue e líquor); oftalmologista; colírio antiviral conforme o oftalmologista. Ver CMV congênito e herpes simples neonatal
Outras bactérias, quadro leveAntibiótico tópico conforme protocolo da unidade—Só após afastar gonococo, clamídia e herpes; reavaliar em 48–72 h

Em toda conjuntivite por gonococo ou clamídia: tratar a mãe e as parcerias sexuais e investigar outras IST (sífilis, HIV, hepatites B e C) — PCDT IST 2022. Sífilis, HIV e hepatites, se diagnosticados, são de notificação obrigatória (compulsória).

7. Gravidade e encaminhamento

GravidadeCritériosConduta
🟢 LeveConjuntivite química nas primeiras 24–48 h; obstrução do ducto nasolacrimal sem hiperemia importante; RN bemOrientação, higiene com soro fisiológico, reavaliação; massagem do saco lacrimal na obstrução do ducto; encaminhar ao oftalmologista se persistir
🟡 ModeradaSecreção mucopurulenta após o 5º dia, sem edema intenso e sem acometimento de córnea, RN em bom estado (provável clamídia)Avaliação médica com urgência, coleta de exames, tratamento sistêmico VO, tratamento da mãe e parcerias; reavaliar; encaminhar ao oftalmologista com prioridade
🔴 GraveSecreção purulenta abundante e edema intenso (suspeita de gonococo), opacidade ou úlcera de córnea, vesículas ou suspeita de herpes, RN com sinais sistêmicos ou prematuro internado com secreção purulentaInternação imediata (UTI neonatal se sinais sistêmicos ou herpes); ceftriaxona ou aciclovir sem esperar exames; oftalmologista com urgência

8. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaDC nº 9, Neonatologia — Profilaxia da oftalmia neonatal por transmissão vertical, dez/2020NT nº 11/2024-CACRIAD (03/06/2024); PCDT IST 2022Segue o CDC (STI Treatment Guidelines 2021); USPSTF 2019 (reafirmação)Sem diretriz específica localizadaProtocolo AEP de Neonatologia nº 2 — Cuidados generales del RN sano, 2008Sem protocolo público localizadoSem protocolo público localizadoSem posição específica localizada
Profilaxia universalSim (método de Credé mantido)Sim, na 1ª horaSim (USPSTF 2019; CDC 2021)Não adotada como rotina no Reino UnidoSimSegue AAP/CDCSegue AAP/CDCPrática britânica (sem rotina)
AgentePovidona 2,5% ou eritromicina 0,5%; tetraciclina 1%; nitrato de prata só na faltaIodopovidona 2,5%, eritromicina 0,5% ou tetraciclina 1%; nitrato de prata só na faltaEritromicina 0,5%—Eritromicina 0,5% ou oxitetraciclina 1%———
GonococoNão aborda o tratamentoCeftriaxona 25–50 mg/kg IM, máx. 125 mgCeftriaxona 25–50 mg/kg, máx. 250 mg—————
ClamídiaNão abordaNão traz dose neonatalEritromicina 50 mg/kg/dia 14 d ou azitromicina 20 mg/kg/dia 3 d—————

Leitura: SBP (2020) e Ministério da Saúde (2024) concordam integralmente na profilaxia — universal, na 1ª hora, com povidona-iodo 2,5%, eritromicina 0,5% ou tetraciclina 1%, deixando o nitrato de prata para a falta das demais — e a AEP (2008) e o CDC/AAP também mantêm a profilaxia, com eritromicina. O Reino Unido não a adota como rotina e o Canadá discute descontinuá-la; a revisão Cochrane de 2020 (Kapoor) mostra redução da conjuntivite clínica com evidência moderada, sem agente claramente superior e sem dados sobre cegueira. No tratamento, a única divergência de dose é o teto da ceftriaxona: 125 mg no PCDT IST 2022 e 250 mg no CDC 2021. A SBP não traz doses de tratamento. Posição do site: segue SBP e MS na profilaxia (povidona-iodo 2,5% como primeira opção) e o MS (PCDT 2022) na dose da ceftriaxona (regra SBP → MS); para clamídia, sem dose neonatal da SBP e do MS, segue o CDC 2021.

9. Complicações e erros comuns

10. Pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Profilaxia da oftalmia neonatal por transmissão vertical. Documento Científico nº 9, dez. 2020. Disponível em: sbp.com.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica nº 11/2024-CACRIAD/CGACI/DGCI/SAPS/MS — substituição do nitrato de prata 1% para prevenção da conjuntivite neonatal. 03 jun. 2024. Disponível em: portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília, 2022 (Quadro 32 — oftalmia neonatal). Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  4. WORKOWSKI, K. A. et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, p. 1-187, 2021 (Ophthalmia neonatorum; Chlamydial infections among neonates). Disponível em: cdc.gov.
  5. KAPOOR, V. S.; EVANS, J. R.; VEDULA, S. S. Interventions for preventing ophthalmia neonatorum. Cochrane Database Syst Rev, 2020, n. 9, CD001862. doi:10.1002/14651858.CD001862.pub4.
  6. US PREVENTIVE SERVICES TASK FORCE. Ocular prophylaxis for gonococcal ophthalmia neonatorum: reaffirmation recommendation statement. JAMA, v. 321, n. 4, p. 394, 2019.
  7. DOMÉNECH, E.; GONZÁLEZ, N.; RODRÍGUEZ-ALARCÓN, J. Cuidados generales del recién nacido sano. Protocolos diagnóstico-terapéuticos de la AEP: Neonatología, nº 2, 2008. Disponível em: seneo.es.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais. Diretriz nº 193, 06 mar. 2025.

Veja também: Meningite neonatal (nesta área); Conjuntivites (Patologias do consultório); CMV congênito e herpes simples neonatal (Temas atualizados em Neonatologia).

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN com 3 dias de vida, mãe sem pré-natal, com secreção purulenta abundante em ambos os olhos, edema palpebral intenso e dificuldade para abrir as pálpebras.

Questão 1. Agente mais provável e gravidade? (A) Conjuntivite química, autolimitada (B) Neisseria gonorrhoeae — grave, risco de perfuração de córnea (C) Chlamydia trachomatis — branda (D) Adenovírus — autolimitada (E) Staphylococcus epidermidis — banal

Questão 2. Conduta mais adequada? (A) Apenas colírio em casa (B) Internação, ceftriaxona 25–50 mg/kg dose única (máx. 125 mg), lavagem ocular com soro fisiológico, oftalmologista e tratamento da mãe e parcerias (C) Aciclovir sistêmico (D) Observação 48 h (E) Corticoide tópico

Questão 3. Principal complicação se não tratada? (A) Catarata congênita (B) Úlcera e perfuração de córnea com cegueira (C) Glaucoma de ângulo fechado (D) Retinopatia da prematuridade (E) Estrabismo

Caso 2. RN com 8 dias, secreção mucopurulenta moderada; a mãe teve cervicite tratada de forma incompleta na gestação.

Questão 4. Agente mais provável pelo tempo de início? (A) N. gonorrhoeae (B) C. trachomatis (C) Pseudomonas (D) Herpes simples (E) Conjuntivite química

Questão 5. Base do tratamento? (A) Tratamento sistêmico (eritromicina 50 mg/kg/dia por 14 dias ou azitromicina 20 mg/kg/dia por 3 dias); tópico isolado é insuficiente (B) Apenas pomada (C) Ceftriaxona única (D) Lavagem sem antibiótico (E) Corticoide sistêmico

Questão 6. Complicação sistêmica associada a esse agente? (A) Meningite precoce (B) Pneumonia afebril (1–3 meses) (C) Artrite séptica (D) Endocardite (E) Osteomielite

Gabarito comentado. Q1 — B: purulenta abundante com edema intenso entre o 2º e o 5º dia sugere gonococo. Q2 — B: urgência; dose do MS (PCDT 2022). Q3 — B: perfuração de córnea e cegueira. Q4 — B: 5–14 dias e cervicite materna apontam clamídia. Q5 — A: a clamídia exige tratamento sistêmico. Q6 — B: pneumonia afebril do lactente.

Revisão: outubro de 2026.