Neonatologia · Gastrointestinal e Hepático

Colestase Neonatal e Atresia de Vias Biliares

Icterícia por bilirrubina direta no RN

1. Importância do tema na Pediatria

A colestase neonatal é a icterícia por aumento da bilirrubina direta (conjugada). É sempre patológica e exige investigação rápida. Afeta cerca de 1 em cada 2.500 RN a termo (NASPGHAN/ESPGHAN 2017). A atresia de vias biliares responde por 25%–40% dos casos e é a principal causa cirúrgica: o resultado da portoenterostomia de Kasai piora progressivamente quanto mais tarde a criança é operada. No Brasil, o diagnóstico continua tardio: em 513 crianças de seis centros, a idade média no Kasai foi de 82,6 dias (de Carvalho et al., 2010). É tema de alto rendimento pela pegadinha "icterícia que persiste com acolia e colúria".

Posição adotada neste documento

Colestase = bilirrubina direta > 1,0 mg/dL (17 µmol/L), independentemente da bilirrubina total. É o critério da SBP (Documento Científico nº 169, DC de Hepatologia, 16/09/2024, e Manual de Orientação nº 10, DC de Neonatologia, 2021) e da NASPGHAN/ESPGHAN 2017. Avaliar todo RN ou lactente com icterícia persistente aos 14 dias ou com acolia/colúria em qualquer idade (campanha Alerta Amarelo, SBP). A regra antiga de "> 20% da total" não é mais usada.

2. Avaliação inicial

3. Fisiopatologia aplicada

A colestase é a redução do fluxo biliar, com acúmulo de bilirrubina conjugada (hidrossolúvel) e de ácidos biliares. Difere da hiperbilirrubinemia indireta (fisiológica ou hemolítica): aqui o problema é a excreção.

Na atresia de vias biliares, um processo fibroinflamatório progressivo oblitera os ductos extra-hepáticos. A bile não chega ao intestino (fezes acólicas) e reflui (colúria, icterícia esverdeada). Sem correção, a doença evolui para fibrose e cirrose.

Outras causas:

Implicação: identificar rapidamente a atresia, cuja cirurgia depende do tempo, e as causas com tratamento específico (galactosemia, tirosinemia, hipotireoidismo, infecção).

4. Diagnóstico

Critério: bilirrubina direta > 1,0 mg/dL (SBP 2024; NASPGHAN/ESPGHAN 2017). Sinais que sugerem atresia: icterícia persistente com fezes acólicas e colúria, hepatomegalia endurecida e GGT elevada.

ExameAchado / utilidade
Bilirrubina total e fraçõesDireta > 1,0 mg/dL confirma a colestase
GGT, AST, ALT, fosfatase alcalina; TP/INR, albumina, glicemiaGGT muito elevada na atresia; INR alargado indica deficiência de vitamina K ou insuficiência hepática
Ultrassonografia abdominal em jejumVesícula ausente ou pequena, sinal do "cordão triangular"; afasta cisto de colédoco e litíase (NASPGHAN/ESPGHAN 2017)
Cintilografia hepatobiliarExcreção intestinal presente afasta atresia. A especificidade é limitada (68%–72%), então não deve ser usada isoladamente, e não deve atrasar a cirurgia (NASPGHAN/ESPGHAN 2017; AEP 2023)
Biópsia hepáticaExame que mais apoia o diagnóstico (proliferação ductular, trombos biliares, edema portal) quando feita no momento adequado (NASPGHAN/ESPGHAN 2017)
Colangiografia intraoperatória com histologiaPadrão-ouro para confirmar a atresia (NASPGHAN/ESPGHAN 2017)
Investigação de causasTORCH, urocultura e hemocultura, triagem neonatal (galactosemia, hipotireoidismo), alfa-1-antitripsina, TSH/T4 livre, cortisol; testes genéticos conforme o hepatologista

5. Conduta e tratamento

  1. Toda colestase: encaminhar com urgência ao hepatologista ou gastroenterologista pediátrico (seção 6), em serviço com cirurgia pediátrica. Investigar e tratar a causa de base.
  2. Vitamina K imediata diante de hiperbilirrubinemia direta, sempre investigando a coagulopatia (SBP 2024).
  3. Atresia de vias biliares: portoenterostomia de Kasai o mais cedo possível. Na série francesa (Serinet et al., 2009), a sobrevida com fígado nativo caiu a cada faixa de idade na cirurgia (≤ 30, 31–45, 46–60, 61–75 e 76–90 dias); operar todos antes de 46 dias pouparia parte dos transplantes. A AEP (2023) coloca o diagnóstico e o tratamento como prioritários antes de 6–8 semanas e orienta não adiar a laparotomia exploradora à espera de exames quando a criança se aproxima dos 2 meses.
  4. Falha do Kasai ou cirrose estabelecida: transplante hepático.
  5. Suporte nutricional e de vitaminas: fórmula com triglicerídeos de cadeia média (TCM) quando indicada, vitaminas lipossolúveis e favorecedores do fluxo biliar, conduzidos pelo hepatologista (tabela abaixo).

Doses (suporte na colestase — conduzido pelo hepatologista)

ItemDose / orientaçãoObservaçõesFonte
Vitamina K5–10 mg VO ou IV, 1–2 vezes por semanaPrevine o sangramento. Na coagulopatia, aplicar de imediato e controlar o INRAEP/SEGHNP 2023 (a SBP 2024 indica a vitamina K sem fixar dose)
Vitamina D31.000–2.000 UI/dia VOAjustar pelo nível sérico de 25-OH-DAEP/SEGHNP 2023
Vitamina Ealfa-tocoferol 100 mg/dia VO ou tocofersolan 17 mg (25 UI)/kg/diaAjustar pelo nível séricoAEP/SEGHNP 2023
Vitamina A2.500 UI/dia VOEm geral incluída em polivitamínico; ajustar pelo nívelAEP/SEGHNP 2023
Ácido ursodesoxicólico10–20 mg/kg/dia VO, em 3 dosesAdjuvante para o fluxo biliarAEP/SEGHNP 2023
Fórmula com TCMConforme necessidade nutricional (calorias até 120% das necessidades; proteína 2–3 g/kg/dia)Melhor absorção de gorduraAEP/SEGHNP 2023

Fluxograma (resumo)

  1. Icterícia aos 14 dias ou mais, ou acolia/colúria em qualquer idade → bilirrubina total e frações e olhar as fezes (escala da Caderneta).
  2. Direta > 1,0 mg/dL → vitamina K, TP/INR e encaminhamento com urgência ao hepatologista pediátrico, com US, GGT e investigação de causas.
  3. Suspeita de atresia → biópsia e colangiografia intraoperatória → Kasai o mais cedo possível. Falha ou cirrose → transplante.

6. Gravidade e encaminhamento

ClassificaçãoSituaçãoConduta
🔴 GraveColestase com sangramento ou INR alargado sem resposta à vitamina K, hipoglicemia, encefalopatia, ascite, sepse ou mau estado geralVitamina K IV e glicemia, sem atrasar a remoção. Transferência imediata para hospital com UTI e hepatologia pediátrica, idealmente com acesso a transplante
🟡 ModeradaBilirrubina direta > 1,0 mg/dL, fezes acólicas/hipocólicas ou colúria, em lactente em bom estadoVitamina K e encaminhar com urgência ao hepatologista ou gastroenterologista pediátrico, em serviço com cirurgia pediátrica (SBP 2024: "encaminhada imediatamente para serviços especializados")
🟢 LeveIcterícia prolongada com bilirrubina direta normal, fezes coradas, urina clara, bom ganho de pesoProvável icterícia do leite materno: manter o aleitamento, confirmar a triagem neonatal (TSH) e reavaliar a cor das fezes e a icterícia nas consultas

7. Comparação das referências

TemaSBP (DC nº 169, 16/09/2024; MO nº 10, 2021)MS (Caderneta da Criança, 7ª ed., 2024; Atenção à Saúde do RN, v. 2, 2014)AAP (CPG hiperbilirrubinemia, 2022)NICE (CG98, atual. 31/10/2023)AEP/SEGHNP (Protocolos, 2023)Johns HopkinsHarvard (Boston Children's)Oxford / Cambridge
DefiniçãoBD > 1,0 mg/dL, independentemente da total2014: BD > 1,5 mg/dL se > 10% da total (critério antigo)Remete à NASPGHAN/ESPGHAN 2017 (> 1,0 mg/dL)Conjugada > 25 µmol/L (≈ 1,5 mg/dL) → seguir orientação do especialistaBD > 1 mg/dL ou > 20% da totalSem protocolo público localizadoSó página para famílias; sem protocolo clínico públicoComo o NICE (CUH, folheto "Prolonged jaundice", 06/2026)
Quando dosar fraçõesIcterícia ≥ 14 dias ou acolia/colúria em qualquer idadeCaderneta: icterícia > 2 semanas ou fezes claras → serviço com urgênciaAmamentado ictérico com 3–4 semanas; fórmula com 2 semanas> 14 dias (≥ 37 sem); > 21 dias (< 37 sem)> 15 dias (3 semanas se aleitamento materno sem sinais de alarme)——14 dias no termo e 21 dias no pré-termo
Cor das fezesEscala da Caderneta; Alerta AmareloEscala de cores na Caderneta—Orientar os pais sobre fezes claras e urina escuraCita cartões de cor e o Yellow Alert britânico——Como o NICE
Idade do KasaiCorreção precoce (sem idade-alvo)———Antes de 6–8 semanas—Página para famílias: nos primeiros 2–3 meses—
Suporte (vitaminas, UDCA)Vitamina K imediata (sem dose)———Doses de A, D, E, K, UDCA e TCM———

Leitura: todas as referências concordam que a colestase é sempre patológica, que exige bilirrubina fracionada e encaminhamento rápido e que a atresia depende do tempo. A SBP (2024) adota o critério da NASPGHAN/ESPGHAN 2017: BD > 1,0 mg/dL independentemente da total, com avaliação aos 14 dias. As divergências são três:

  1. a AEP (2023) ainda cita "> 20% da total" e o MS (2014) usa um critério antigo (BD > 1,5 mg/dL e > 10%);
  2. o momento da dosagem: 14 dias pela SBP e pelo NICE no RN a termo; 21 dias no pré-termo pelo NICE; 3–4 semanas no amamentado bem pela AAP e pela AEP;
  3. a idade-alvo do Kasai: a SBP não a fixa e a AEP fala em 6–8 semanas, enquanto os dados de coorte (Serinet 2009) mostram piora contínua a partir de 30 dias.

Posição adotada: SBP 2024. Dosar as frações aos 14 dias em todo RN ainda ictérico, inclusive no amamentado. Usar a escala da Caderneta em toda consulta. Encaminhar com urgência se BD > 1,0 mg/dL. Doses de suporte pela AEP 2023, porque SBP e MS não as definem.

8. Complicações

9. Erros comuns

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Hepatologia. Colestase em lactentes: um tema do pediatra. Documento Científico nº 169, 16 set. 2024. PDF
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Hiperbilirrubinemia indireta no período neonatal. Manual de Orientação nº 10, 29 set. 2021. PDF
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: passaporte da cidadania. 7. ed. Brasília, 2024 (seção "As fezes"). BVS MS
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 2, 2. ed. atual. Brasília, 2014. Cap. 13. BVS MS
  5. FAWAZ, R. et al. Guideline for the Evaluation of Cholestatic Jaundice in Infants: Joint Recommendations of NASPGHAN and ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr, v. 64, n. 1, p. 154-168, 2017. doi
  6. KEMPER, A. R. et al. Clinical Practice Guideline Revision: Management of Hyperbilirubinemia in the Newborn Infant 35 or More Weeks of Gestation. Pediatrics, v. 150, n. 3, e2022058859, 2022. doi
  7. NICE. Jaundice in newborn babies under 28 days (CG98), recomendações 1.7.1–1.7.2. Atualizada em 31 out. 2023. nice.org.uk
  8. FERNÁNDEZ TOMÉ, L.; FRAUCA REMACHA, E. Colestasis en el lactante. Protoc diagn ter pediatr (SEGHNP-AEP), v. 1, p. 341-360, 2023. PDF
  9. CAMBRIDGE UNIVERSITY HOSPITALS. Prolonged jaundice (informação ao paciente), 24 jun. 2026. cuh.nhs.uk
  10. SERINET, M. O. et al. Impact of age at Kasai operation on its results in late childhood and adolescence: a rational basis for biliary atresia screening. Pediatrics, v. 123, p. 1280-1286, 2009. doi
  11. DE CARVALHO, E. et al. Atresia biliar: a experiência brasileira. J Pediatr (Rio J), v. 86, p. 473-479, 2010. doi

Revisão: outubro de 2026.

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

Lactente de 5 semanas com icterícia persistente desde a 2ª semana, fezes esbranquiçadas (acólicas) e urina escura. Ao exame, hepatomegalia. Bilirrubina direta de 4 mg/dL e GGT elevada.

Questão 1. O que define a colestase nesse caso?
(A) Bilirrubina indireta elevada (B) Bilirrubina direta > 1,0 mg/dL (C) Apenas a icterícia clínica (D) Reticulócitos elevados (E) Coombs positivo

Questão 2. Qual a principal hipótese diagnóstica?
(A) Icterícia do leite materno (B) Atresia de vias biliares (C) Incompatibilidade ABO (D) Esferocitose (E) Icterícia fisiológica

Questão 3. Por que o diagnóstico é uma URGÊNCIA?
(A) Risco de kernicterus imediato (B) O resultado da cirurgia de Kasai piora quanto mais tarde ela é feita (C) Risco de anemia aguda (D) Necessidade de fototerapia urgente (E) Risco de hipoglicemia

Caso 2

Durante a investigação, confirma-se a atresia de vias biliares e o lactente é encaminhado à cirurgia.

Questão 4. Qual procedimento é indicado?
(A) Exsanguineotransfusão (B) Portoenterostomia de Kasai (C) Fototerapia intensiva (D) Colecistectomia simples (E) Apenas observação

Questão 5. Qual suporte nutricional é essencial na colestase?
(A) Restringir todas as gorduras (B) Suplementar vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) e usar fórmula com TCM (C) Apenas soro glicosado (D) Dieta hiperproteica isolada (E) Suspender a alimentação

Questão 6. Conduta se houver falha do Kasai ou cirrose estabelecida?
(A) Repetir a fototerapia (B) Encaminhar para transplante hepático (C) Apenas ácido ursodesoxicólico indefinidamente (D) Nova exsanguineotransfusão (E) Alta sem seguimento

Gabarito comentado

1 — B. A colestase é definida por bilirrubina direta > 1,0 mg/dL, independentemente da total (SBP 2024; NASPGHAN/ESPGHAN 2017).

2 — B. Icterícia persistente com acolia e colúria, hepatomegalia e GGT alta sugere atresia de vias biliares.

3 — B. A sobrevida com fígado nativo cai a cada faixa de idade na cirurgia (Serinet 2009). Por isso o Kasai deve ser feito o mais cedo possível, e já com 5 semanas o caso pede encaminhamento com urgência.

4 — B. Indica-se a portoenterostomia de Kasai.

5 — B. Vitaminas lipossolúveis e fórmula com TCM, conduzidas pelo hepatologista (doses: AEP 2023).

6 — B. Na falha do Kasai ou na cirrose, encaminha-se para transplante hepático.