Neonatologia · Cardiologia

Cardiopatias Congênitas Cianóticas

Principais lesões cianóticas

Revisão: outubro de 2026.

1. Importância do tema na Pediatria

As cardiopatias congênitas afetam cerca de 9,4 em cada 1.000 nascidos vivos; as que se manifestam no período neonatal (cerca de 3 por 1.000) são em geral críticas e exigem cirurgia ou cateterismo nos primeiros dias ou semanas de vida (SBP, Manual de Orientação nº 4/2022). As formas cianóticas dependem de reconhecimento precoce para a sobrevida. O atraso diagnóstico — especialmente nas lesões canal-dependentes — leva a colapso ao fechamento do canal arterial. É tema frequente nas provas pela necessidade de raciocínio rápido (cianose que não melhora com oxigênio).

2. Avaliação inicial

Diante de cianose central, avaliar a saturação pré e pós-ductal, a resposta ao oxigênio, os pulsos, a presença de sopro, a perfusão e o padrão respiratório. A cianose desproporcional à doença pulmonar, com pouco desconforto respiratório e que não melhora com O₂, é o sinal de alerta. O teste do coraçãozinho (oximetria de pulso) auxilia a triagem no alojamento conjunto, mas não substitui o exame clínico.

3. Fisiopatologia aplicada

A cianose central resulta de sangue desoxigenado que chega à circulação sistêmica, por shunt direita-esquerda ou por mistura. Classificam-se pelo fluxo pulmonar (diminuído × aumentado). Muitas lesões são canal-dependentes — o canal arterial mantém o fluxo pulmonar ou a mistura; seu fechamento causa deterioração. Na transposição das grandes artérias, a circulação é em paralelo e depende de comunicação interatrial; a SBP não a classifica como canal-dependente, mas manter o canal aberto aumenta a mistura (SBP, MO nº 4/2022). Implicação direta no manejo: manter o canal aberto com prostaglandina E1 (PGE1).

Cianóticas com fluxo pulmonar DIMINUÍDO

CardiopatiaCaracterística
Tetralogia de FallotEstenose pulmonar + CIV + dextroposição da aorta + hipertrofia de VD; crises hipercianóticas
Atresia pulmonarSem via de saída pulmonar; fluxo pulmonar canal-dependente
Atresia tricúspideAusência da valva tricúspide; depende de CIA/CIV e do canal
Anomalia de EbsteinTricúspide de implantação baixa com regurgitação; átrio direito gigante

Cianóticas com fluxo pulmonar AUMENTADO (mistura)

CardiopatiaCaracterística
Transposição das grandes artériasCirculações em paralelo; sobrevive pela mistura (forame oval/CIA, canal); cianose precoce e grave
Tronco arterial comumVaso único origina aorta e pulmonar; mistura com hiperfluxo
Drenagem venosa pulmonar anômala totalVeias pulmonares drenam à direita; mistura obrigatória; a forma obstrutiva é emergência
Ventrículo único / dupla via de saída do VD; coração esquerdo hipoplásicoMistura intracardíaca; no coração esquerdo hipoplásico, o fluxo sistêmico é canal-dependente

4. Diagnóstico

Critérios clínicos: cianose central que não melhora com O₂ a 100% (teste da hiperóxia). Pode haver sopro, taquipneia sem grande esforço, diferença de saturação pré/pós-ductal.

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Teste da hiperóxiaPaO₂ > 250 mmHg com O₂ a 100% praticamente exclui cardiopatia crítica; PaO₂ < 100 mmHg (ou SpO2 < 85%) torna a cardiopatia muito provável (SBP, MO nº 4/2022; MS, 2014). Não deve atrasar a PGE1
EcocardiogramaPadrão-ouro: define a anatomia e a canal-dependência
Radiografia de tórax"Ovo deitado" (TGA), "coração em bota" (Fallot), "boneco de neve" (DVPAT); trama vascular pulmonar reduzida nas lesões com fluxo pulmonar canal-dependente
Oximetria pré/pós-ductalTriagem e gravidade
EletrocardiogramaSobrecarga de câmaras conforme a lesão

Notificação obrigatória (compulsória) na DNV: toda cardiopatia congênita estrutural (Fallot, TGA, atresias, truncus, drenagem anômala etc.) identificada no RN é anomalia congênita (CID-10, capítulo Q) e deve ser registrada na Declaração de Nascido Vivo — campo 6 assinalado e descrição detalhada no campo 41, sem agrupar; no óbito fetal ou infantil, na Declaração de Óbito (Portaria GM/MS nº 10.175, de 23/01/2026; NT nº 3/2026-SVSA/MS).

5. Conduta e tratamento

1. Estabilizar (vias aéreas, temperatura, glicemia) e solicitar ecocardiograma. 2. Suspeita de lesão canal-dependente (hipoxemia que não responde ao O₂ ou choque sem resposta às medidas iniciais) → iniciar PGE1 imediatamente, sem aguardar o ecocardiograma, por acesso venoso profundo, preferencialmente central, sem interromper a infusão (SBP, MO nº 4/2022; MS, 2014). 3. Oxigênio: oferecer se SpO2 < 80% e reduzir se > 90%; meta de SpO2 85–90% nas cardiopatias críticas com hipoxemia, inclusive em ventilação mecânica (SBP, MO nº 4/2022; MS, 2014) — metas próprias da cardiopatia, não as da criança sem cardiopatia. Ventilação mecânica se SpO2 persistentemente < 70% (SBP) ou apneia pela PGE1. 4. Transposição sem melhora com PGE1 e suporte ventilatório → atriosseptostomia com balão (Rashkind) de emergência (MS, 2014); correção pela cirurgia de Jatene. 5. Crise hipercianótica (Fallot) → posição genupeitoral, oxigênio, morfina, volume, ± betabloqueador (ver Cardiologia, "Cianose e crise hipoxêmica").

Doses (protocolo medicamentoso) — fonte em cada linha

MedicaçãoDoseObservações e fonte
Alprostadil (PGE1)Inicial 0,01 mcg/kg/min (10 ng/kg/min) em infusão contínua, aumentando até 0,05 mcg/kg/min conforme a respostaMantém o canal aberto; resposta em 15–30 min; apneia e hipotensão sobretudo acima de 0,03 mcg/kg/min — estar preparado para intubar (SBP, MO nº 4/2022). O MS (2014) admite até 0,1 mcg/kg/min
Morfina (crise de Fallot)0,1 mg/kg IM, SC ou IV lenta; pode repetir uma vezReduz a agitação e a hiperpneia (Merck Manual 2023; SOCERJ 2000); protocolo NHS de Leicester (2023): 0,05 mg/kg IV ou 0,1 mg/kg IM
Propranolol (crise)0,015–0,02 mg/kg IV lento, titulado até máx. 0,1 mg/kgUso hospitalar, monitorizado (bradicardia, hipotensão, hipoglicemia) (Merck 2023; BNFc; NHS Leeds)
Propranolol (prevenção, VO)0,25–1 mg/kg/dose 6/6 h (Merck) ou 0,5–1 mg/kg 8/8 h (NHS)Prescrição do cardiologista até a cirurgia

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

6. Fluxograma terapêutico (resumo)

1. Cianose que não melhora com O₂ → suspeitar de cardiopatia. 2. Iniciar PGE1 se houver suspeita de lesão canal-dependente e solicitar ecocardiograma (sem esperar o resultado para iniciar). 3. Estabilizar (SpO2 85–90%) e transferir para centro com cardiologia e cirurgia cardíaca neonatal.

7. Gravidade e encaminhamento

8. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaMO nº 4 (DC Cardiologia e Neonatologia), 11/08/2022Atenção à Saúde do RN, v. 3, cap. 24, 2ª ed., 2014Oster et al., Pediatrics 2025 (triagem por oximetria)Sem diretriz específica; UK NSC (2014) não adota oximetria universalPediamécum (alprostadil); SENeo — cribado (2018/2021)All Children's — High Risk Neonatal Cardiac Deliveries, 16/11/2023Levy et al., J Perinatol, 02/05/2025 (comentário à AAP 2025)TVW (Oxford) — Prostaglandin Infusion, dez/2021 (em revisão); Pulse Oximetry Screening v3, mar/2024
Quando iniciar PGE1Imediatamente, sem esperar o ecoImediatamente (prova terapêutica)——Na suspeita clínica (hiperóxia negativa, baixo débito)PGE nas lesões canal-dependentes—Logo após o parto ou a admissão, se suspeita
Dose da prostaglandina0,01 → até 0,05 mcg/kg/min0,01 → até 0,1 mcg/kg/min——Início 0,05–0,1; manutenção 0,01–0,05Sem dose pública acessível—Dinoprostona (PGE2) de 1ª linha; início 5 ng/kg/min; apneia sobretudo > 10 ng/kg/min
Meta de SpO285–90%; O₂ se < 80%, reduzir se > 90%85–90%; preferir 85% com boa perfusão a 95% com choque—————Pré e pós-ductal monitorizadas
HiperóxiaPaO₂ > 250 exclui; < 100 muito provável> 250 exclui; < 100 provável; 100–250 shunt misto——Hiperóxia negativa indica PGE———
TransposiçãoNão canal-dependente, mas PGE1 ajuda a misturaRashkind de emergência se não melhora——————

Leitura: SBP (MO nº 4/2022), MS (2014), AEP e a rede de Oxford concordam que a prostaglandina deve ser iniciada já na suspeita clínica, sem aguardar o ecocardiograma, com via aérea preparada pelo risco de apneia, e que a oxigenação-alvo da cardiopatia crítica é mais baixa (SpO2 85–90%). Divergem na dose: SBP de 0,01 até 0,05 mcg/kg/min; MS até 0,1; AEP com início mais alto (0,05–0,1) e manutenção de 0,01–0,05; Oxford usa PGE2 (dinoprostona), iniciando com 5 ng/kg/min. A AAP (2025) e os autores de Harvard tratam da triagem por oximetria, não do manejo; NICE não tem diretriz específica e o Reino Unido não adota a oximetria universal; a Johns Hopkins usa PGE nas lesões canal-dependentes, sem dose pública acessível. Posição do site: a da SBP — PGE1 0,01 mcg/kg/min, até 0,05, e SpO2 85–90%.

9. Complicações

10. Erros comuns

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamentos Científicos de Cardiologia e Neonatologia. Sistematização do atendimento ao recém-nascido com suspeita ou diagnóstico de cardiopatia congênita. Manual de Orientação nº 4, 11 ago. 2022. sbp.com.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, cap. 24 (Cardiopatias congênitas). 2. ed. Brasília, 2014. bvsms.saude.gov.br
  3. OSTER, M. E. et al. Newborn screening for critical congenital heart disease: a new algorithm and other updated recommendations. Pediatrics, v. 155, n. 1, e2024069667, 2025.
  4. LEVY, P. T. et al. Updated and endorsed newborn screening guidelines in the United States for critical congenital heart disease from the AAP. J Perinatol, 2025.
  5. AKKINAPALLY, S. et al. Prostaglandin E1 for maintaining ductal patency in neonates with ductal-dependent cardiac lesions. Cochrane Database Syst Rev, 2018, CD011417. PMC
  6. ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE PEDIATRÍA. Comité de Medicamentos. Pediamécum: alprostadil. aeped.es
  7. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. High risk neonatal cardiac deliveries — clinical pathway, 16 nov. 2023. hopkinsmedicine.org
  8. THAMES VALLEY & WESSEX NEONATAL ODN (Oxford). Prostaglandin infusion guideline, v. 1, dez. 2021 (em revisão). neonatalnetworkssoutheast.nhs.uk
  9. BEERMAN, L. B. Tetralogy of Fallot. Merck Manual Professional Edition, 2023. merckmanuals.com
  10. DORIGO, A. H. J. L. Crise cianótica: como diagnosticar e tratar. Revista da SOCERJ, 2000. PDF
  11. UNIVERSITY HOSPITALS OF LEICESTER / East Midlands Congenital Heart Centre (NHS). Guideline for cyanotic spells (tet spells) in children, v. 5, 2023. PDF

Veja também: Abordagem do Recém-Nascido com Cianose e Hipertensão Pulmonar Persistente (HPPN) (Neonatologia); Triagem de cardiopatia congênita crítica por oximetria de pulso (Temas atualizados em Neonatologia); Cianose e crise hipoxêmica (Cardiologia).

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. RN a termo com cianose central intensa nas primeiras horas, que não melhora com O₂ a 100%. Radiografia com silhueta em "ovo deitado" e mediastino estreito; ecocardiograma confirma transposição das grandes artérias.

Questão 1. O que o teste da hiperóxia (sem melhora da PaO₂ com O₂ a 100%) indica?
(A) Causa pulmonar (B) Causa cardíaca (cardiopatia cianótica) (C) Anemia grave (D) Metemoglobinemia exclusivamente (E) Hipoglicemia

Questão 2. Qual a conduta medicamentosa imediata?
(A) Ibuprofeno para fechar o canal (B) Prostaglandina E1 para manter o canal aberto (C) Furosemida em bólus (D) Beta-bloqueador (E) O₂ a 100% como tratamento definitivo

Questão 3. Qual procedimento melhora a mistura na transposição até a cirurgia?
(A) Pericardiocentese (B) Atriosseptostomia com balão (Rashkind) (C) Drenagem torácica (D) Ablação (E) Exsanguineotransfusão

Caso 2. Lactente com tetralogia de Fallot apresenta, ao chorar, crise de cianose intensa, irritabilidade e queda da saturação.

Questão 4. Qual a primeira medida não farmacológica?
(A) Posição joelho-tórax e oxigênio (B) Sentar ereto (C) Estimular o choro (D) Hiperventilar com balão (E) Decúbito ventral

Questão 5. Qual medicação ajuda a abortar a crise e em que dose?
(A) Adrenalina 0,1 mg/kg (B) Morfina 0,1 mg/kg (C) Furosemida 2 mg/kg (D) Digoxina em bólus (E) Salbutamol inalatório

Questão 6. Qual o achado radiológico clássico da Tetralogia de Fallot?
(A) "Ovo deitado" (B) "Coração em bota" (C) "Boneco de neve" (D) Cardiomegalia globosa (E) Mediastino em "8"

Gabarito comentado. Questão 1 — B. Na cardiopatia cianótica a PaO₂ praticamente não sobe com O₂ a 100% (PaO₂ < 100 mmHg: cardiopatia muito provável). Questão 2 — B. Na transposição, manter o canal aberto com PGE1 aumenta a mistura até a intervenção. Questão 3 — B. A atriosseptostomia de Rashkind amplia a comunicação interatrial e melhora a mistura até a cirurgia de Jatene. Questão 4 — A. Joelho-tórax aumenta a resistência sistêmica e o retorno venoso; associa-se oxigênio. Questão 5 — B. Morfina 0,1 mg/kg (IM, SC ou IV lenta) reduz a agitação e a hiperpneia; volume e betabloqueador também são usados. Questão 6 — B. A Tetralogia de Fallot tem a silhueta em "coração em bota".

Revisão: outubro de 2026. Confirme as doses no protocolo da sua unidade antes de prescrever.