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Abordagem do Recém-Nascido com Cianose

1.Importância do tema

A cianose central no recém-nascido é uma emergência potencial: pode ser a manifestação de uma cardiopatia congênita crítica dependente do canal arterial, em que o atraso diagnóstico é fatal. Saber distinguir rapidamente a causa cardíaca da pulmonar — e iniciar prostaglandina quando indicado — salva vidas.

2.Tipos de cianose

Atenção

A cianose central só é visível com quantidade significativa de hemoglobina reduzida — pode ser subestimada na anemia e superestimada na policitemia. Confirme sempre com oximetria/gasometria.

3.Diagnóstico diferencial: cardíaca x pulmonar x outras

GrupoExemplos
CardíacaCardiopatias congênitas cianóticas (5 T), HPPN
PulmonarMembrana hialina, taquipneia transitória, pneumonia, aspiração meconial, pneumotórax, hérnia diafragmática
OutrasSepse, hipoglicemia, depressão do SNC, metemoglobinemia, obstrução de via aérea (atresia de coana)

Pistas: cianose sem desconforto respiratório importante e que não melhora com oxigênio sugere causa cardíaca; cianose com muito esforço respiratório e radiografia alterada sugere causa pulmonar.

4.Teste da hiperóxia

Oferece-se FiO₂ 100% por ~10 minutos e mede-se a PaO₂ em sangue arterial pré-ductal (membro superior direito) e pós-ductal (SBP, MO nº 4/2022; MS, 2014):

O teste não deve atrasar a prostaglandina quando a suspeita de lesão canal-dependente é forte: hiperóxia negativa = iniciar PGE1 até o diagnóstico anatômico (MS, 2014).

5.Oximetria pré e pós-ductal e teste do coraçãozinho

Triagem

O teste do coraçãozinho é universal no Brasil (incorporado ao SUS em 2014) e voltado a detectar cardiopatias congênitas críticas antes da alta (sensibilidade de 76% e especificidade de 99%). Não substitui o exame clínico nem o ecocardiograma quando há suspeita — a coarctação pode escapar. O algoritmo da AAP (2025) é muito próximo, mas com uma única repetição; veja o Tema atualizado "Triagem de cardiopatia congênita crítica por oximetria de pulso".

6.Cardiopatias congênitas cianóticas — as "5 T"

Muitas são canal-dependentes: o fluxo sistêmico ou pulmonar depende da permeabilidade do canal arterial. Seu fechamento fisiológico precipita deterioração.

Notificação obrigatória (compulsória) na DNV: toda cardiopatia congênita estrutural identificada no RN é anomalia congênita (CID-10, capítulo Q) e deve ser registrada na Declaração de Nascido Vivo — campo 6 assinalado e descrição detalhada no campo 41, sem agrupar; no óbito fetal ou infantil, na Declaração de Óbito (Portaria GM/MS nº 10.175, de 23/01/2026; NT nº 3/2026-SVSA/MS).

7.Estabilização e prostaglandina

Cuidado

Em algumas cardiopatias, oxigênio em excesso pode piorar a hemodinâmica (fecha o canal, aumenta o fluxo pulmonar). Em RN com forte suspeita de cardiopatia canal-dependente, a prioridade é manter o canal aberto, não saturar a 100%.

8.Gravidade e encaminhamento

9.Erros comuns

10.Pontos-chave para a prova

11.Casos clínicos comentados

Caso 1

RN a termo, 1 dia de vida, com cianose central intensa, mas sem desconforto respiratório importante. Em FiO₂ 100%, a PaO₂ sobe pouco (permanece baixa). Radiografia de tórax sem doença pulmonar evidente.

1.A interpretação do teste da hiperóxia é:
Gabarito: B) Cianose com pouco esforço respiratório, pulmão sem doença e PaO₂ que não sobe à hiperóxia apontam para shunt direita-esquerda de cardiopatia cianótica.
2.A cardiopatia cianótica que mais classicamente se manifesta já no 1º dia, com cianose intensa, é:
Gabarito: C) A transposição das grandes artérias é a cardiopatia cianótica que tipicamente se apresenta com cianose intensa nas primeiras horas/dias, sendo canal-dependente.
3.Enquanto se organiza o ecocardiograma e a transferência, a medida que pode salvar a vida é:
Gabarito: A) Na suspeita de cardiopatia canal-dependente, a prostaglandina E1 mantém o canal aberto e estabiliza o RN até a definição/cirurgia. A indometacina (fecha o canal) seria deletéria.
0/3 acertos
Caso 2

RN a termo de 30 horas de vida, assintomático, em alojamento conjunto. No teste do coraçãozinho, a SatO₂ é 92% no membro superior direito e 90% no membro inferior.

1.Como interpretar e conduzir esse resultado de triagem?
Gabarito: B) SpO₂ entre 90% e 94% torna o teste duvidoso: repete-se após 1 h, até duas vezes; mantendo-se na 3ª medida, o teste é positivo e segue-se com avaliação cardiológica e ecocardiograma antes da alta (SBP, MO nº 4/2022). Com SpO₂ ≤ 89%, o teste já seria positivo, sem repetição.
2.O objetivo principal do teste do coraçãozinho é detectar:
Gabarito: A) O teste do coraçãozinho (oximetria pré e pós-ductal) rastreia cardiopatias congênitas críticas. Surdez é o teste da orelhinha; hipotireoidismo é o teste do pezinho; catarata é o teste do olhinho.
3.Qual achado também tornaria o teste alterado, mesmo com saturações ≥ 95%?
Gabarito: C) Mesmo com saturações ≥ 95%, uma diferença ≥ 4% entre a mão direita e o pé torna o teste duvidoso (repetir após 1 h), sugerindo shunt pelo canal arterial; diferença ≤ 3% é normal (SBP, MO nº 4/2022).
0/3 acertos

12.Comparação com as referências

Referência (versão e data)Triagem por oximetriaHiperóxia, prostaglandina e metas
SBP — Manual de Orientação nº 4 (DC Cardiologia e Neonatologia), 11/08/2022RN ≥ 35 sem, 24–48 h; negativo ≥ 95% e diferença ≤ 3%; positivo ≤ 89%; duvidoso 90–94% ou ≥ 4%: repetir após 1 h, até 2 vezesPaO₂ > 250 exclui, < 100 muito provável; PGE1 0,01 → 0,05 mcg/kg/min, sem esperar o eco; SpO₂ 85–90%
Ministério da Saúde — Atenção à Saúde do RN, v. 3, cap. 24, 2014; Portaria SCTIE/MS nº 20/2014 (oximetria no SUS)Protocolo SBP de 2011 (≥ 95% e diferença < 3%; 1 repetição após 1 h)PaO₂ > 250 exclui, < 100 provável, 100–250 shunt misto; PGE1 0,01 → até 0,1 mcg/kg/min; SpO₂ 85–90%
AAP — Oster et al., Pediatrics 2025;155(1):e2024069667≥ 24 h; passa ≥ 95% e ≤ 3%; falha imediata < 90%; 90–94% ou > 3%: uma repetição após 1 hSem documento de manejo
NICE / UK NSC (2014)Não adota a oximetria como rastreamento populacional (exame físico — NIPE)Sem diretriz específica
AEP/SENeo — cribado (An Pediatr 2018/2021); Pediamécum (alprostadil)Antes de 24 h (ideal < 12 h); positivo ≤ 89%; duvidoso 90–94% ou ≥ 4%: repetir após 30 minPGE na suspeita clínica; início 0,05–0,1, manutenção 0,01–0,05 mcg/kg/min
Johns Hopkins — All Children's, High Risk Neonatal Cardiac Deliveries, 16/11/2023Sem documento de triagem localizadoPGE nas lesões canal-dependentes; sem dose pública acessível
Harvard — Levy et al. (Boston Children's/Brigham), J Perinatol, 02/05/2025Apoia o algoritmo AAP 2025; registro padronizado dos valores—
Oxford / Cambridge — TVW (Oxford): Pulse Oximetry Screening v3, mar/2024; Prostaglandin Infusion, dez/2021 (em revisão)4–12 h de vida; negativo ≥ 95% e diferença < 3%; positivo ≤ 89%; duvidoso 90–94% ou ≥ 3%: repetir em 1–2 h, até 3 testesDinoprostona (PGE2) de 1ª linha, início 5 ng/kg/min

Leitura: há convergência em triar todos os RN por oximetria na mão direita e em um pé (exceto o Reino Unido, que não a adota como rastreamento populacional, embora a rede de Oxford a use), com corte de 95%, e em iniciar a prostaglandina já na suspeita clínica, sem esperar o ecocardiograma, mantendo metas de SpO₂ próprias do cardiopata (85–90%). A SBP atualizou o teste do coraçãozinho em 2022 (MO nº 4): agora prevê teste positivo com ≤ 89% (ecocardiograma sem repetir) e zona duvidosa de 90–94% ou diferença ≥ 4%, como a SENeo e a AAP; diverge da AAP em repetir até duas vezes (a AAP 2025 repete uma vez) e do protocolo de 2011 ainda descrito pelo MS. O momento varia: 24–48 h (SBP), ≥ 24 h (AAP), antes de 24 h (SENeo, Oxford). Na dose da prostaglandina, a SBP vai até 0,05 mcg/kg/min, o MS até 0,1 e a AEP inicia com 0,05–0,1; Oxford usa PGE2. Posição do site: a da SBP (MO nº 4/2022) para a triagem e para a prostaglandina.

13.Referências

Veja também: Cardiopatias Congênitas Cianóticas e Hipertensão Pulmonar Persistente (HPPN) (Neonatologia); Triagem de cardiopatia congênita crítica por oximetria de pulso (Temas atualizados em Neonatologia); Cianose e crise hipoxêmica (Cardiologia).