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Vômitos e refluxo no bebê

Quando a golfada é normal, o que ajuda e quais vômitos pedem pronto-socorro

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

Quase todo bebê golfa (regurgita) depois de mamar. Isso é o refluxo normal: o leite volta do estômago sem esforço, porque o "fechamento" entre o esôfago e o estômago ainda está amadurecendo. É mais intenso entre 1 e 4 meses e melhora sozinho até 12 a 24 meses. Se o bebê está feliz e ganhando peso, não precisa de exame nem de remédio. A doença do refluxo é menos comum e aparece quando o refluxo atrapalha a alimentação e o ganho de peso. Choro sozinho não é sinal de refluxo. Procure o pediatra se o bebê recusar mamar ou ganhar pouco peso. Vá ao pronto-socorro se o vômito for verde, em jato repetido, com sangue, com barriga inchada, moleira estufada ou bebê muito sonolento.

1.O que é

  • Refluxo normal (regurgitação do lactente): o leite volta sem esforço, em pequenas quantidades, uma ou várias vezes por dia, em um bebê que está bem e cresce bem. Começa nas primeiras semanas, tem pico entre 1 e 4 meses e some até 12 a 24 meses.
  • Doença do refluxo (DRGE): quando o refluxo causa problemas — recusa das mamadas com pouco ganho de peso, inflamação do esôfago (esofagite), sangue no vômito, crises de tosse ou chiado repetidas. É bem menos comum.
  • Golfada × vômito: a golfada é passiva, sem força. O vômito é expulso com força, com contração da barriga. Vômitos repetidos pedem que o pediatra pense em outras causas, e não só no refluxo.
  • Alergia à proteína do leite de vaca: pode causar sintomas parecidos com os da doença do refluxo, principalmente em bebês de famílias com alergia.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

  • Refluxo normal: golfadas logo depois de mamar ou ao mudar de posição, bebê tranquilo, mamando bem e ganhando peso.
  • Pode ser doença do refluxo: recusa ou briga com o peito ou a mamadeira, choro intenso e arqueamento das costas durante as mamadas, pouco ganho de peso, tosse ou chiado repetidos.
  • Na criança maior e no adolescente: queimação no peito ou dor na "boca do estômago", gosto azedo na boca.
  • Sinais de que pode ser outra coisa: vômito verde, em jato repetido, com sangue; barriga inchada ou dolorida; febre, moleza, moleira estufada; início depois dos 6 meses; perda de peso; diarreia prolongada.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Golfadas sem esforço; bebê feliz, mamando bem e ganhando peso; começou antes dos 6 meses; nenhum sinal de alerta Ajustes nas mamadas e paciência; sem remédios e sem exames. Acompanhamento nas consultas de rotina
🟡 Procure o pediatra Golfadas frequentes com choro e irritação intensos nas mamadas; recusa ou dificuldade para mamar; ganho de peso fraco; suspeita de alergia ao leite (família com alergia, eczema, sangue ou muco nas fezes); golfadas que começaram depois dos 6 meses ou continuam após 12–18 meses; criança maior com queimação frequente Consulta em poucos dias (no mesmo dia ou em 24 h se estiver mamando pouco). O pediatra ajusta a alimentação e pesa de novo em 1–2 semanas; se não melhorar, encaminha ao gastroenterologista
🔴 Pronto-socorro agora Vômito verde (ou amarelo-esverdeado); vômitos em jato repetidos, principalmente entre 2 e 8 semanas de vida, com bebê faminto logo depois; sangue no vômito (que não seja do mamilo rachado) ou fezes pretas; barriga inchada, dura ou dolorida; moleira estufada, muito sonolento, molinho ou convulsão; febre com bebê abatido, ou qualquer febre abaixo de 3 meses; sinais de desidratação (fralda seca por muitas horas, boca seca, olhos fundos); bebê que fica roxo ou para de respirar durante as mamadas Pronto-socorro agora, sem dar mais leite ou comida no caminho quando o vômito for verde. SAMU 192 se ficar roxo, parar de respirar, convulsionar ou estiver muito sonolento

Crianças que merecem mais atenção

  • Bebês com menos de 2 meses que vomitam (não apenas golfam).
  • Prematuros, bebês com doença pulmonar do prematuro ou doença do coração.
  • Crianças com doença neurológica, síndromes genéticas, cirurgia de esôfago ou do diafragma.
  • Família com alergias (maior chance de alergia ao leite).
  • Família com dificuldade para observar o bebê ou voltar ao serviço de saúde.

4.Como cuidar em casa

  • Mantenha o aleitamento materno. Refluxo não é motivo para parar de amamentar nem para trocar de fórmula por conta própria.
  • Evite excesso de volume: no bebê de fórmula, oferecer mais do que ele precisa aumenta as golfadas. O pediatra calcula a quantidade certa pelo peso; mamadas menores e mais frequentes podem ajudar.
  • Faça o bebê arrotar durante e depois da mamada.
  • Evite apertar a barriga: roupas e fraldas justas, ou deixar o bebê sentado encurvado logo depois de mamar.
  • Para dormir, sempre de barriga para cima, em colchão firme e plano, sem travesseiro, sem elevar a cabeceira e sem travesseiros "antirrefluxo". Dormir de lado ou de bruços aumenta o risco de morte súbita.
  • Casa sem fumaça de cigarro.
  • Criança maior com queimação: evitar refeições tarde da noite e os alimentos que pioram os sintomas; manter peso saudável.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

No refluxo normal, nenhum remédio é necessário.

Quando o pediatra suspeita de doença do refluxo, o tratamento é em etapas:

  1. Leite espessado: fórmula antirregurgitação (AR) para o bebê de fórmula, ou leite materno ordenhado espessado, conforme orientação. Diminui as golfadas.
  2. Teste de 2 a 4 semanas sem proteína do leite de vaca, se houver suspeita de alergia: fórmula especial (extensamente hidrolisada) receitada pelo pediatra ou, no bebê amamentado, dieta da mãe sem leite e derivados, com orientação. Nunca faça dieta de exclusão por conta própria.
  3. Remédios que diminuem a acidez do estômago (como o omeprazol): só com receita, em casos selecionados, por 4 a 8 semanas, e depois o pediatra reavalia e suspende. Dê no horário indicado (em geral 30 minutos antes da mamada ou refeição) e não prolongue por conta própria.

Para febre ou dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:

  • Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
  • Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); não use por mais de 48–72 h sem reavaliação, principalmente se o bebê estiver vomitando ou mamando pouco.
  • Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na desidratação, na suspeita de dengue e na catapora.
  • Não alterne antitérmicos. Bebê com menos de 3 meses com febre precisa de avaliação antes de qualquer remédio.

Não use:

  • Remédios para refluxo (como omeprazol) para golfadas ou choro de um bebê saudável — não diminuem o choro e aumentam o risco de infecções intestinais e pneumonia.
  • Remédios para enjoo e para "acelerar o estômago" (domperidona, metoclopramida, bromoprida): não funcionam no refluxo e podem causar efeitos colaterais no coração e movimentos involuntários.

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • Vômito verde, em qualquer idade — é urgência.
  • Vômitos em jato repetidos, principalmente no bebê de 2 a 8 semanas.
  • Sangue no vômito (que não venha do mamilo) ou fezes pretas.
  • Barriga inchada, dura ou dolorida; choro súbito e intenso, com o bebê encolhendo as pernas.
  • Caroço endurecido e dolorido na virilha ou no saco, que não volta (pode ser hérnia presa).
  • Moleira estufada, cabeça crescendo rápido, sonolência, moleza ou convulsão.
  • Febre com bebê abatido, ou qualquer febre abaixo de 3 meses.
  • Sinais de desidratação: fralda seca por muitas horas, boca seca, olhos fundos, choro sem lágrimas.
  • Bebê que fica roxo ou para de respirar durante as mamadas.

Como levar

  • Vômito verde ou barriga inchada: não dê leite, água ou comida até a avaliação.
  • Se o bebê estiver vomitando e sonolento, transporte-o deitado de lado (na cadeirinha, apoie-o de modo seguro), observando a respiração.
  • Bebê roxo, sem respirar, com convulsão ou muito molinho: ligue para o SAMU 192.
  • Leve a caderneta de saúde (com a curva de peso), a fórmula ou o leite que ele toma e os remédios em uso; conte como são os vômitos (cor, força, sangue) e quantas fraldas molhadas houve.

7.Como prevenir

  • Aleitamento materno.
  • Oferecer o volume certo de fórmula, preparada exatamente como diz a embalagem.
  • Arrotar durante e depois das mamadas.
  • Casa sem fumaça de cigarro.
  • Dormir sempre de barriga para cima, em berço seguro — isso não aumenta o risco de engasgo com as golfadas.

8.Dúvidas e mitos comuns

Meu bebê golfa muito. Ele tem refluxo e precisa de remédio? Golfar é normal. Se ele está feliz e ganhando peso, não precisa de remédio nem de exame; melhora com o tempo.

Posso deitar o bebê de lado ou de bruços para não engasgar? Não. De barriga para cima é a posição mais segura para dormir, inclusive para bebês que golfam.

Elevar a cabeceira do berço ajuda? Não é recomendado: não traz benefício comprovado e o bebê pode escorregar para uma posição perigosa.

Choro muito, com arqueamento, é sempre refluxo? Não. O choro tem muitas causas, e os remédios para refluxo não diminuem o choro. Conte ao pediatra.

Lembre-se
  1. Golfar é normal: bebê feliz e ganhando peso não precisa de remédio nem de exame.
  2. Mantenha o aleitamento materno e evite oferecer volume demais.
  3. Para dormir, sempre de barriga para cima, sem elevar a cabeceira.
  4. Recusa das mamadas ou pouco ganho de peso: pediatra em poucos dias.
  5. Vômito verde, em jato, com sangue, barriga inchada ou moleira estufada: pronto-socorro.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
  • Diarreia aguda e desidratação
  • Cólica do bebê e choro excessivo
  • Alergia à proteína do leite de vaca
  • Aleitamento Materno
  • Prevenção da Morte Súbita do Lactente

Versão para profissionais: Vômitos no lactente, refluxo fisiológico e DRGE (Patologias do consultório).

O que dizem as referências

Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.

Onde concordam:

  • A regurgitação do bebê que cresce bem é normal e não se trata com remédio.
  • Remédio para acidez não serve para o choro isolado; remédios que aceleram o estômago e dormir de bruços não são recomendados.
  • Antes de qualquer remédio, vêm as medidas na alimentação e, se houver suspeita de alergia ao leite, o teste com fórmula especial ou dieta da mãe, orientado pelo pediatra.

Onde há diferenças:

  • Quando testar remédio para acidez: o NICE propõe um teste de 4 semanas quando há dificuldade para mamar, sofrimento marcante ou pouco ganho de peso; a SBP e as sociedades americana e europeia o reservam, sobretudo, à inflamação do esôfago. Este guia segue a SBP.
  • As páginas para famílias do Johns Hopkins e do Boston Children's ainda citam remédios que aceleram o estômago. Este guia, como a SBP e o NICE, não os recomenda.

Fontes conferidas em outubro de 2026.

10.Fontes

Baseado no documento profissional Vômitos no lactente, refluxo fisiológico e DRGE desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia Prático de Orientação — Doença do refluxo gastroesofágico, 2024.
  • NASPGHAN/ESPGHAN. Pediatric gastroesophageal reflux clinical practice guidelines, 2018.
  • NICE. NG1 — Gastro-oesophageal reflux disease in children and young people, 2015.
  • American Academy of Pediatrics. Gastroesophageal reflux: management guidance for the pediatrician, 2013.
  • AEP/SEGHNP. Reflujo gastroesofágico y esofagitis en niños, 2023.