👪 Para famílias · Doenças da criança · Ortopedia

Torções, pancadas e fraturas simples nos braços e pernas

Primeiros cuidados, quando precisa de radiografia e quando ir ao pronto-socorro

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

Pancadas, torções e pequenas fraturas nos braços e nas pernas são muito comuns na infância e, na maioria, se resolvem bem. A criança tem placas de crescimento (as partes do osso que fazem ele crescer), mais frágeis que os ligamentos: por isso, uma "torção" pode ser uma pequena fratura. O osso da criança também é mais flexível e faz fraturas "de galho verde". O cotovelo puxado (pronação dolorosa), em crianças de 1 a 4 anos, acontece quando se puxa o braço, e o pediatra o põe no lugar rapidamente. Nas primeiras horas: gelo, braço ou perna elevados e analgésico. Procure atendimento no mesmo dia se a criança não conseguir apoiar ou usar o membro. Vá ao pronto-socorro se houver deformidade, osso aparecendo, dedos frios, pálidos ou dormentes, ou dor que só aumenta.

1.O que é

  • Entorse (torção): o ligamento, que liga um osso ao outro, estica ou rompe um pouco. É mais comum no tornozelo. Dá dor, inchaço e dificuldade de apoiar.
  • Contusão: pancada com dor e roxo, sem fratura.
  • Cotovelo puxado (pronação dolorosa): acontece entre 1 e 4 anos, quando a criança é levantada ou segurada pela mão, puxada numa queda ou girada pelos braços. Um ossinho do cotovelo sai um pouco do lugar. A criança chora na hora, depois fica tranquila, mas deixa o braço parado, junto ao corpo, e não usa. Não incha nem fica roxo.
  • Fraturas próprias da criança:
    • Por impactação (tórus): o osso "amassa" como uma lata, muito comum no punho depois de cair com a mão apoiada. É estável e cicatriza bem.
    • Em galho verde: o osso se dobra e quebra só de um lado, como um galho novo.
    • Fratura na placa de crescimento: pode não aparecer na primeira radiografia.
    • Fratura da canela do bebê que começou a andar: depois de uma queda boba.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

  • Dor no lugar da pancada, inchaço, roxo.
  • Dificuldade de apoiar a perna ou de usar o braço.
  • No cotovelo puxado: braço parado junto ao corpo, sem inchaço; a criança chora ao tentar girar a mão.
  • Sinais de fratura mais séria: deformidade (membro torto), estalido, osso aparecendo pela pele, inchaço grande e rápido, dor muito forte.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Pancada ou torção leve; a criança consegue apoiar e dar alguns passos, ou usa o braço; inchaço pequeno; sem deformidade; dor que melhora com gelo e analgésico Gelo, elevação, analgésico e repouso relativo. Se a dor não melhorar em 5 a 7 dias ou ela continuar sem apoiar, leve ao pediatra
🟡 Procure o pediatra Não consegue dar 4 passos ou não usa o braço; dor forte ao apertar um ponto do osso (tornozelo, pé, punho, joelho); inchaço importante sem deformidade; torção do tornozelo em criança pequena com dor acima do osso do tornozelo; cotovelo puxado (braço parado junto ao corpo após puxão) Atendimento no mesmo dia. O pediatra examina e decide se precisa de radiografia; no cotovelo puxado, costuma recolocar o osso no lugar ali mesmo
🔴 Pronto-socorro agora Membro torto; osso aparecendo ou ferida sobre o local; dedos frios, pálidos ou roxos, formigamento, dormência ou não consegue mexer os dedos; dor que aumenta muito, desproporcional, ou tala e faixa apertando; cotovelo muito inchado depois de cair com a mão estendida; suspeita de fratura na coxa, no quadril, na coluna ou na bacia; queda de altura, atropelamento ou vários machucados; bebê que ainda não anda com dor ou inchaço num braço ou perna Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver vários machucados, queda de altura ou membro frio e pálido

Crianças que merecem mais atenção

  • Menores de 2 anos e bebês que ainda não andam.
  • Crianças com fraturas repetidas ou doenças dos ossos (como osteogênese imperfeita), raquitismo ou uso prolongado de corticoide.
  • Hemofilia ou outros problemas de coagulação (mesmo pancadas leves podem sangrar dentro da articulação ou do músculo: procure o serviço de referência).
  • Dor com febre, dor que acorda à noite ou fratura com trauma mínimo.

O médico sempre confere se a história combina com a lesão. Isso faz parte do cuidado de toda criança e ajuda a protegê-las.

4.Como cuidar em casa

Primeiros cuidados na torção e na pancada (primeiras 48 horas):

  • Gelo envolvido num pano, por 15 a 20 minutos, várias vezes ao dia. Nunca direto na pele.
  • Elevação: perna apoiada em almofadas; braço acima do nível do coração.
  • Repouso relativo: a criança limita o que faz pela dor.
  • Compressão leve com faixa elástica, sem apertar (os dedos devem ficar rosados e quentes).
  • Volte a mexer e a apoiar aos poucos, conforme a dor permitir. Deixar o membro parado por muito tempo deixa a articulação rígida e mais instável.
  • Esporte só quando andar, correr e pular sem dor.

Tala removível (por exemplo, na fratura por impactação do punho): a criança pode tirar para o banho e usar quando sentir dor. Não é preciso gesso nem nova radiografia nesse tipo de fratura, a menos que a dor persista.

Cotovelo puxado: depois que o pediatra coloca no lugar, a criança volta a usar o braço em 10 a 15 minutos e não precisa de imobilização. Não tente fazer a manobra em casa. Para evitar que se repita, não levante nem puxe a criança pelas mãos ou pelos braços; segure pelo tronco, embaixo das axilas.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

Para a dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:

  • Ibuprofeno (costuma ser o preferido para dor de pancada e torção): 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
  • Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima ou somado a outros produtos com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
  • Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
  • Em geral, 2 a 5 dias bastam. Não alterne os remédios.

Não use: remédios com codeína (proibidos para menores de 12 anos); pomadas "anti-inflamatórias" no lugar da avaliação; massagem sobre o local dolorido; imobilização rígida improvisada por dias sem diagnóstico.

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • Membro torto, estalido ou movimento estranho no meio do osso.
  • Osso aparecendo ou ferida em cima do local da fratura.
  • Dedos frios, pálidos ou roxos, formigamento, dormência, não consegue mexer os dedos.
  • Dor que aumenta muito, não cede com o analgésico, ou tala ou gesso apertando.
  • Cotovelo muito inchado depois de uma queda com a mão estendida.
  • Pancada forte na coxa, no quadril, na coluna ou na bacia; queda de altura; acidente de trânsito.
  • Bebê que ainda não anda com dor ou inchaço num membro.

Como levar

  • Imobilize na posição em que está, sem tentar endireitar: use papelão, revista enrolada, travesseiro ou uma tipoia feita com pano, pegando a articulação de cima e a de baixo.
  • Tire anéis, pulseiras e relógios do membro machucado antes que inche.
  • Eleve o membro e coloque gelo envolto em pano.
  • Pode dar analgésico pela boca, mas não dê comida se houver deformidade: pode ser preciso sedação para colocar o osso no lugar.
  • Osso aparecendo: cubra com pano limpo úmido e não tente empurrar o osso de volta.
  • Queda de altura, vários machucados ou membro frio e pálido: ligue para o SAMU 192.
  • Leve a caderneta de vacinas (a antitetânica é conferida quando há ferida).

7.Como prevenir

  • Não levante nem gire a criança pelas mãos ou pelos braços.
  • Redes de proteção em janelas e sacadas, portões em escadas; evite andador.
  • Capacete, joelheiras e cotoveleiras na bicicleta, patinete e skate.
  • Cama elástica só com rede de proteção e uma criança por vez.
  • No esporte, aquecimento e calçado adequado.
  • Transporte sempre na cadeirinha adequada à idade.

8.Dúvidas e mitos comuns

Se mexe o braço, não quebrou? Não necessariamente. Muitas fraturas da criança permitem movimento. Dor forte num ponto do osso merece avaliação.

A radiografia veio normal. Por que imobilizaram? Porque fraturas na placa de crescimento podem não aparecer no início. O pediatra reavalia em 7 a 10 dias.

Gesso é sempre melhor? Não. Na fratura por impactação do punho, a tala removível é o tratamento recomendado.

Posso colocar o cotovelo no lugar em casa? Não. Leve ao pediatra: se não for um cotovelo puxado típico, a manobra pode piorar outra lesão.

Pomada ou compressa de água quente ajudam? Nas primeiras 48 horas, o gelo é melhor que o calor.

Lembre-se
  1. Gelo, elevação e analgésico nas primeiras horas; volte a apoiar conforme a dor.
  2. Não consegue apoiar ou usar o membro: pediatra no mesmo dia.
  3. Membro torto, osso aparecendo, dedos frios ou dormentes: pronto-socorro.
  4. Nunca levante a criança pelas mãos ou pelos braços.
  5. Sem melhora em 5 a 7 dias: volte ao pediatra.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
  • A criança que começou a mancar
  • Batida na cabeça (traumatismo craniano leve) e concussão
  • Acidentes em casa — intoxicação, baterias e ímãs, engasgo, queimaduras, mordidas e afogamento
  • Orientações de Educação e Prevenção de Riscos

Versão para profissionais: Trauma leve de membros (entorses, pronação dolorosa e fraturas simples) (Patologias do consultório).

O que dizem as referências

Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.

Onde concordam:

  • Regras clínicas (como as de Ottawa, para tornozelo e joelho) ajudam a evitar radiografias desnecessárias.
  • A fratura por impactação do punho é estável e não precisa de gesso.
  • Lesões que não combinam com a história contada pedem atenção para maus-tratos.

Onde há diferenças:

  • Fratura por impactação do punho: o Boston Children's usa tala ou gesso por 3–4 semanas, com retorno; o NICE usa tala removível, sem retorno de rotina. A SBP não tem documento sobre o tema; este guia segue o NICE.
  • Cotovelo puxado: a manobra para recolocar varia entre textos brasileiros, espanhóis e a revisão Cochrane. Este guia segue a Cochrane; a manobra é sempre feita pelo profissional, nunca em casa.

Fontes conferidas em outubro de 2026.

10.Fontes

Baseado no documento profissional Trauma leve de membros (entorses, pronação dolorosa e fraturas simples) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • NICE. NG38 — Fractures (non-complex): assessment and management, 2016 (revisão em 2025).
  • Cochrane. Manipulative interventions for reducing pulled elbow in young children, 2017.
  • AEPap/FAPap. Traumatismos en miembros de niños y adolescentes, 2009.
  • American Academy of Pediatrics. Evaluating children with fractures for child physical abuse, 2014.