Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
O resfriado é uma infecção por vírus do nariz e da garganta. Crianças pequenas costumam ter de 4 a 8 resfriados por ano, principalmente quando entram na creche. Os sintomas duram de 4 a 10 dias, e a tosse pode continuar por até 3 semanas sem que isso seja sinal de piora. Na grande maioria das vezes dá para cuidar em casa, com lavagem do nariz com soro fisiológico, líquidos, antitérmico se houver desconforto e mel para a tosse acima de 1 ano. Xaropes, antialérgicos, descongestionantes e antibióticos não ajudam e podem fazer mal. Vá ao pronto-socorro se a criança respirar rápido ou com esforço, tiver pausas na respiração, lábios roxos, ficar muito sonolenta, não conseguir beber — e sempre que um bebê com menos de 3 meses tiver febre.
1.O que é
- Resfriado comum: infecção por vírus da parte de cima do aparelho respiratório (nariz e garganta). O vírus mais comum é o rinovírus, mas há muitos outros.
- Infecções de vias aéreas superiores (IVAS): nome geral que inclui também dor de garganta, laringite, otite e sinusite. Cada uma tem um guia próprio nesta pasta.
- Como passa: por gotículas de tosse e espirro e pelas mãos que tocam o nariz, a boca e os olhos.
- Complicações possíveis: a mais comum é a otite (dor de ouvido). Também podem aparecer sinusite, crise de chiado, pneumonia e, em bebês, bronquiolite.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Nariz escorrendo e entupido, espirros, dor de garganta leve, tosse.
- Febre, geralmente baixa, nos primeiros 2–3 dias.
- Irritação, menos apetite, sono agitado. No bebê, o nariz entupido atrapalha a mamada.
- O pior costuma ser entre o 2º e o 3º dia; depois melhora aos poucos em 7 a 10 dias.
Secreção amarela ou verde não significa, sozinha, infecção por bactéria. Ela faz parte da evolução normal do resfriado.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Criança bem-disposta; febre baixa ou ausente, há 3 dias ou menos; respiração tranquila, sem as costelas afundarem; bebe líquidos normalmente | Cuidados em casa. Procure o pediatra se não melhorar em 7–10 dias ou se piorar |
| 🟡 Procure o pediatra | Febre por mais de 3 dias, ou que volta depois de ter sumido; dor de ouvido ou secreção saindo do ouvido; nariz escorrendo ou tosse por mais de 10 dias sem melhora; piora depois de ter melhorado; bebê com menos de 6 meses com dificuldade para mamar; chiado leve; bebendo menos que o habitual, mas sem sinais de desidratação | Consulta em 24–48 h (no mesmo dia se houver dor de ouvido forte ou chiado). O pediatra examina ouvidos, garganta e pulmões |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Respiração rápida ou com esforço, costelas afundando, gemido, narinas abrindo e fechando; pausas na respiração; lábios roxos; oxímetro (se tiver) abaixo de 92%; muito sonolenta, difícil de acordar, ou chorando sem parar; não consegue beber ou mamar; sem fazer xixi há mais de 8 horas; barulho alto ao puxar o ar com a criança calma; baba sem conseguir engolir; inchaço ou vermelhidão em volta dos olhos; dor de cabeça forte, vômitos em jato, pescoço duro ou convulsão; manchas roxas na pele; qualquer febre em bebê com menos de 3 meses | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver pausas na respiração, lábios roxos, convulsão ou sonolência intensa |
Como saber se a respiração está rápida: conte as respirações por 1 minuto inteiro, com a criança calma ou dormindo. É rápida quando passa de 60 por minuto até 2 meses, de 50 entre 2 e 11 meses e de 40 entre 1 e 5 anos.
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 3 meses (febre nessa idade sempre precisa de avaliação) e com menos de 6 meses.
- Prematuros e bebês com doença pulmonar da prematuridade.
- Crianças com doença do coração, dos pulmões ou neuromuscular, ou com imunidade baixa.
- Crianças com asma ou chiado de repetição.
- Vacinação incompleta, desnutrição, fumaça de cigarro em casa, dificuldade para voltar ao serviço de saúde.
4.Como cuidar em casa
- Lave o nariz com soro fisiológico várias vezes ao dia, principalmente antes das mamadas e do sono. É a medida que mais ajuda. No bebê, aspire suavemente se houver muita secreção.
- Ofereça líquidos com frequência e mantenha o aleitamento materno. O apetite volta quando a criança melhora; não force a comida.
- Mel para a tosse, só acima de 1 ano: meia a uma colher de chá (2 a 5 mL), principalmente à noite. Nunca dê mel a bebês com menos de 1 ano (risco de botulismo).
- Febre: trate quando a criança estiver incomodada; o objetivo é o conforto, não zerar o termômetro. Febre é temperatura axilar a partir de 37,5 °C.
- Ambiente e higiene: casa arejada e sem fumaça de cigarro; lave as mãos com frequência e não compartilhe copos e talheres.
- Escola ou creche: a criança fica em casa enquanto tiver febre e pode voltar depois de 24 horas sem febre, sem uso de antitérmico, e bem-disposta.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para a febre e o desconforto — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg. A regra antiga de "1 gota por quilo" dá dose maior que a recomendada.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). O uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, em criança que come e bebe pouco ou somado a antigripais que também têm paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos.
O que não usar
- Xaropes para tosse, expectorantes, mucolíticos, antialérgicos e descongestionantes (inclusive os "antigripais" vendidos sem receita): não funcionam em crianças pequenas e podem causar efeitos graves. Não devem ser usados abaixo de 6 anos e nunca abaixo de 2 anos. Antialérgicos que dão sono não devem ser usados em nenhuma idade, a não ser por indicação do médico.
- Gotas nasais descongestionantes (vasoconstritores): nunca em bebês — podem causar sonolência intensa, queda dos batimentos do coração e da temperatura.
- Xaropes com codeína ou outros derivados do ópio: não usar em crianças.
- Antibiótico: não encurta o resfriado nem evita complicações. Só se o pediatra identificar uma infecção por bactéria, como otite ou sinusite.
- Corticoide (sem chiado) e AAS (ácido acetilsalicílico, risco de síndrome de Reye): não usar.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Respiração rápida, com esforço, costelas afundando, gemido ou narinas abrindo e fechando.
- Pausas na respiração ou lábios roxos.
- Muito sonolenta, difícil de acordar, molinha ou chorando sem parar; convulsão.
- Não consegue beber ou mamar, vomita tudo ou está sem xixi há mais de 8 horas.
- Barulho alto ao puxar o ar com a criança calma, ou baba sem conseguir engolir.
- Inchaço ao redor dos olhos, dor de cabeça forte, vômitos em jato, pescoço duro ou manchas roxas na pele.
- Qualquer febre em bebê com menos de 3 meses.
- Criança com doença crônica (coração, pulmão, imunidade) que piora.
Como levar
- Deixe a criança sentada ou no colo, na posição em que ela respira melhor. Não a deite se estiver com esforço para respirar ou com barulho ao respirar.
- Limpe o nariz com soro antes de sair.
- Se estiver muito sonolenta ou com muito esforço para respirar, não dê nada pela boca.
- Pausas na respiração, lábios roxos, convulsão ou sonolência intensa: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta de saúde e os remédios em uso, com os horários das doses.
7.Como prevenir
- Vacinas em dia, principalmente a da gripe (todo ano, a partir de 6 meses), a da COVID-19 e a pneumocócica conjugada.
- Aleitamento materno.
- Lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel, sobretudo antes de pegar o bebê e de comer.
- Casa sem fumaça de cigarro.
- Evitar contato do bebê pequeno com pessoas resfriadas.
8.Dúvidas e mitos comuns
Secreção verde é sinal de que precisa de antibiótico? Não. A cor muda durante o resfriado normal. O que importa é o tempo (mais de 10 dias sem melhora) e a piora depois de ter melhorado.
A tosse já dura 2 semanas. É grave? Se a criança está bem, sem febre e respirando normalmente, a tosse do resfriado pode durar até 3 semanas. Procure o pediatra se ela piorar, vier com chiado ou passar desse prazo.
Friagem, sorvete ou andar descalço causam resfriado? Não. O resfriado é causado por vírus. No frio ele circula mais porque as pessoas ficam em ambientes fechados.
Posso dar um xarope "natural" ou antigripal? Não sem falar com o pediatra. Muitos têm antialérgico, descongestionante ou paracetamol escondidos na fórmula. Para a tosse acima de 1 ano, o mel é a opção segura.
- O resfriado é causado por vírus e melhora sozinho em cerca de uma semana; a tosse pode durar até 3 semanas.
- Soro no nariz, líquidos e, acima de 1 ano, mel para a tosse.
- Não dê xaropes, antialérgicos, descongestionantes nem antibiótico sem receita.
- Febre por mais de 3 dias, dor de ouvido ou piora depois de melhorar: procure o pediatra.
- Respiração difícil, pausas, lábios roxos, sonolência ou febre em bebê com menos de 3 meses: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Otite média aguda (dor de ouvido) e otite externa
- Sinusite (rinossinusite aguda)
- Dor de garganta (faringoamigdalite)
- Bronquiolite viral aguda
- Pneumonia na criança
- Tosse que não passa (tosse persistente e crônica)
- Rinite alérgica
- Convulsão febril e primeira crise
- Vacinação
Versão para profissionais: Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- O resfriado é causado por vírus e passa sozinho; ajudam soro no nariz, líquidos, analgésico se precisar e mel acima de 1 ano.
- Antibiótico não ajuda no resfriado.
- Xaropes, antigripais e descongestionantes não são recomendados para crianças pequenas.
Onde há diferenças:
- Idade-limite dos antigripais e xaropes: abaixo de 2 anos na agência americana de medicamentos (FDA), abaixo de 4 na AAP, abaixo de 6 no Reino Unido e na Espanha, e abaixo de 12 anos no NICE para remédios de tosse; o Ministério da Saúde orienta evitá-los de 2 meses a 5 anos. Este guia é o mais cauteloso: não usar na infância sem receita, porque no Brasil muitos são vendidos livremente e misturam antialérgico, descongestionante e até paracetamol.
- A página do Johns Hopkins é voltada a adultos e lista esses produtos sem limite de idade; não vale para crianças.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Tosse (Pediatria para Famílias), 2023.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manejo da febre aguda (Documento Científico), 2021.
- Ministério da Saúde. AIDPI Criança 2 meses a 5 anos, 2017.
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Coughs and Colds — Medicines or Home Remedies?, 2022.
- NICE. Cough (acute) — antimicrobial prescribing (NG120), 2019.
- Associação Espanhola de Pediatria de Atenção Primária (Guía-ABE). Catarro de vías altas, 2023.