Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
A dor de barriga que começa de repente é muito comum na criança e, na maioria das vezes, não é grave: viroses, gastroenterite, intestino preso ou até uma dor de garganta podem causá-la, e ela melhora em 1 a 2 dias. O desafio é não deixar passar os casos que precisam de cirurgia, como a apendicite. O remédio para dor pode e deve ser dado: ele não esconde a apendicite. Se a dor não tiver causa definida, o pediatra precisa reexaminar a criança em até 24 horas, mesmo que ela tenha melhorado um pouco. Vá ao pronto-socorro se a dor ficar forte e fixa do lado direito, a criança não quiser andar ou pular, houver vômito verde, barriga inchada e dura, sangue nas fezes, dor ou inchaço no saco escrotal ou na virilha, ou crises de choro com palidez e moleza.
1.O que é
- Dor abdominal aguda: dor de barriga que começou há poucas horas ou poucos dias.
- Causas mais comuns (não cirúrgicas): gastroenterite (virose com vômitos e diarreia), intestino preso, ínguas inflamadas dentro da barriga durante viroses, cólica do bebê.
- Causas fora da barriga que dão dor de barriga: pneumonia (febre e respiração rápida), infecção urinária, dor de garganta por estreptococo, diabetes descompensado (muita sede, muito xixi, perda de peso, respiração funda), púrpura (manchas roxas elevadas nas pernas e nádegas).
- Causas que podem precisar de cirurgia:
- Apendicite: a mais comum. Mais frequente entre 10 e 12 anos, mas pode acontecer em qualquer idade; em menores de 5 anos os sinais são menos claros.
- Invaginação intestinal: um pedaço do intestino entra dentro do outro; mais comum entre 6 meses e 3 anos.
- Torção do testículo (meninos) ou do ovário (meninas).
- Hérnia encarcerada: a hérnia da virilha fica presa e não volta.
- Volvo: torção do intestino no bebê, com vômitos verdes.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Dor comum de virose ou gastroenterite: dor que vai e vem, espalhada, com diarreia ou vômitos que começaram junto ou antes da dor; criança que brinca nos intervalos.
- Apendicite: dor que começa em volta do umbigo e, em horas, passa para o lado direito, embaixo; falta de apetite; náuseas ou vômitos depois que a dor começou; febre baixa; dor que piora ao tossir, pular, andar ou no balanço do carro. A criança prefere ficar parada.
- Invaginação: crises de choro forte, com o bebê encolhendo as pernas e ficando pálido, alternadas com períodos de calma ou de moleza; vômitos. As fezes com sangue e muco ("geleia de framboesa") aparecem só mais tarde, e muitas vezes nem aparecem.
- Torção de testículo: dor forte e súbita no saco escrotal, às vezes sentida só na parte baixa da barriga, com náuseas e vômitos. Em todo menino com dor de barriga, olhe o saco escrotal.
- Torção de ovário: dor súbita e forte na parte baixa da barriga, de um lado, com náuseas e vômitos.
- Hérnia encarcerada: caroço dolorido na virilha ou no saco escrotal que não volta, com irritação e vômitos.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Criança bem-disposta; dor leve ou que vai e vem; barriga mole, sem um ponto de dor fixo; anda e pula sem dor; bebe líquidos e está hidratada; causa provável simples (virose, gastroenterite, intestino preso), já avaliada | Remédio para dor, cuidado da causa e observação. Reavaliação pelo pediatra em 24 horas se a dor não tiver passado, ou antes se piorar |
| 🟡 Procure o pediatra | Dor que continua sem causa definida; dor leve em um ponto da barriga; vômitos sem sinais de desidratação; bebê irritado sem outra explicação; dúvida | Consulta no mesmo dia. O pediatra pode pedir ultrassom e exame de sangue e reexaminar em 4 a 6 horas; se não esclarecer, encaminha ao pronto-socorro |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Dor forte, contínua ou fixa do lado direito, embaixo; não quer andar, pular ou se mexer por causa da dor; barriga dura, inchada, sem eliminar gases e fezes; vômito verde, com sangue ou com aspecto de fezes; fezes com sangue ou "geleia"; crises de choro com palidez e moleza; caroço na barriga; dor ou inchaço no saco escrotal ou caroço na virilha que não volta; dor súbita e forte na parte baixa da barriga em menina; criança muito abatida, sonolenta, pálida ou amarelada; desidratação; respiração rápida ou muito funda, com muita sede e muito xixi | Pronto-socorro agora, sem dar comida nem bebida. SAMU 192 se estiver muito sonolenta, gelada e pálida, ou se for um bebê com vômito verde |
Crianças que merecem mais atenção
- Menores de 5 anos (a apendicite é mais difícil de reconhecer) e bebês com menos de 1 ano.
- Dor com febre há mais de 48 horas.
- Cirurgia na barriga anteriormente.
- Diabetes, anemia falciforme, síndrome nefrótica, imunidade baixa, doença de Hirschsprung, fibrose cística.
- Adolescente com vida sexual ativa (a gravidez ectópica e as infecções também causam dor).
4.Como cuidar em casa
Só quando o pediatra avaliou, a causa provável é simples e você consegue observar e voltar para reavaliação.
- Dê o remédio para dor nas doses indicadas — ele alivia e não atrapalha o diagnóstico.
- Ofereça líquidos em pequenos goles. Se houver diarreia ou vômitos, use o soro de reidratação oral (veja o guia de diarreia). Alimentos leves e em pequenas quantidades, conforme a aceitação.
- Observe: onde dói, se a dor muda de lugar, se a criança anda e pula sem dor, a cor dos vômitos, as fezes e o xixi.
- Volte para reavaliação no horário combinado, mesmo que tenha melhorado um pouco. No começo, a apendicite pode parecer uma dor comum, com exame e exames de sangue normais.
- Se a causa for intestino preso, infecção urinária, dor de garganta ou pneumonia, siga o tratamento dessa causa.
- Escola: volta quando estiver sem dor, sem febre há 24 horas e comendo bem.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para dor e febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg. "1 gota por quilo" dá dose alta demais.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Na criança que está comendo e bebendo pouco ou vomitando, o risco para o fígado é maior: não use por mais de 48–72 h sem reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite se a criança estiver desidratada ou vomitando muito, na suspeita de dengue e na catapora.
- Não alterne antitérmicos.
Não use:
- Remédios para cólica ou antiespasmódicos "para ver se passa", sem avaliação do pediatra.
- Antibiótico por conta própria para dor de barriga.
- Laxantes, supositórios ou lavagem intestinal quando a dor é forte, há vômitos ou barriga inchada — podem piorar uma apendicite ou uma obstrução.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Dor que fica mais forte, contínua ou se fixa do lado direito, embaixo.
- A criança não quer andar, pular ou se mexer por causa da dor.
- Vômito verde (principalmente no bebê), com sangue, com aspecto de fezes ou que não para.
- Barriga inchada e dura; não elimina gases nem fezes.
- Fezes com sangue ou com aspecto de geleia; crises de choro com palidez e moleza.
- Dor ou inchaço no saco escrotal, ou caroço na virilha que não volta — a torção do testículo precisa de cirurgia em poucas horas.
- Dor súbita e forte na parte baixa da barriga em menina.
- Febre alta com abatimento, sonolência, respiração rápida ou muito funda; pele amarelada ou muito pálida.
Como levar
- Não dê comida nem bebida no caminho: se for preciso operar, o estômago vazio é mais seguro.
- Pode dar o remédio para dor antes de sair, se a criança não estiver vomitando.
- Deixe a criança na posição mais confortável; se estiver vomitando e sonolenta, deitada de lado.
- Bebê com vômito verde, criança muito sonolenta, gelada e pálida: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta de saúde e anote o horário em que a dor começou, os remédios dados (com as doses e os horários), os vômitos e as evacuações.
7.Como prevenir
- Não há como prevenir a apendicite, mas reconhecer cedo evita complicações.
- Vacina contra rotavírus e lavagem das mãos reduzem as gastroenterites.
- Tratar o intestino preso e manter hábitos regulares de banheiro.
- Hérnia na virilha já conhecida: siga o acompanhamento com o cirurgião e saiba reconhecer quando ela não volta.
- Meninos: ensine que dor no saco escrotal deve ser contada na hora, sem vergonha.
8.Dúvidas e mitos comuns
Se eu der remédio para dor, vou esconder a apendicite? Não. O analgésico alivia a criança e não atrapalha o diagnóstico. O importante é voltar para a reavaliação.
O exame de sangue e o ultrassom vieram normais. Pode ser apendicite mesmo assim? No começo, sim. Por isso o reexame em algumas horas ou no dia seguinte é tão importante.
Dar laxante ajuda a dor de barriga? Só quando o pediatra confirma intestino preso. Com dor forte, vômitos ou barriga inchada, não dê.
- A maioria das dores de barriga melhora em 1 a 2 dias.
- Dê o remédio para dor: ele não esconde a apendicite.
- Dor sem causa definida: reavaliação pelo pediatra em até 24 horas, mesmo se melhorar um pouco.
- Em menino com dor de barriga, olhe sempre o saco escrotal.
- Dor forte e fixa, não quer andar, vômito verde, barriga dura, sangue nas fezes ou dor no saco escrotal: pronto-socorro, sem comer nem beber.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Diarreia aguda e desidratação
- Intestino preso (constipação intestinal)
- Dor de barriga que vai e volta (dor abdominal crônica funcional)
- Infecção urinária
- Dor de garganta (faringoamigdalite)
- Fimose, testículo fora da bolsa, hérnias, hidrocele e dor no testículo
Versão para profissionais: Dor abdominal aguda (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- A apendicite é reconhecida pelo exame repetido ao longo das horas; os exames de sangue ajudam, mas não decidem sozinhos.
- O ultrassom é o primeiro exame de imagem; a tomografia fica para os casos duvidosos.
- O remédio para dor deve ser dado: ele não esconde a apendicite.
Onde há diferenças:
- Qual referência seguir: a SBP não tem documento sobre dor abdominal aguda, e o NICE e a AAP não têm diretriz sobre o tema. Este guia segue a SBP no alívio da dor (Diretriz nº 177/2024), o Ministério da Saúde nos sinais de gravidade e no encaminhamento e, nos escores e na imagem, a sociedade espanhola de urgências pediátricas (2024).
- Exame de imagem: o Boston Children's usa ultrassom ou tomografia; no Reino Unido (NHS England) e neste guia, o ultrassom vem primeiro.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Dor abdominal aguda desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- SEUP/AEP. Diagnóstico y tratamiento del dolor abdominal agudo en Urgencias, 4ª ed., 2024 (e versão de 2020).
- Snyder MJ et al. Acute Appendicitis: Efficient Diagnosis and Management. Am Fam Physician, 2018 (Choosing Wisely — imagem na suspeita de apendicite).
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Dores comuns em pediatria — avaliação e abordagem (Diretriz nº 177), 2024.
- Ministério da Saúde. Acolhimento à demanda espontânea — queixas mais comuns (CAB nº 28, vol. II), 2013.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein), Documento Científico nº 5, 2019.
- Hospital Israelita Albert Einstein. Dor abdominal aguda em crianças e adolescentes, 2025.