Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Mancar é um sinal, e não uma doença. A causa mais comum é a sinovite transitória do quadril, uma inflamação passageira que aparece em crianças de 3 a 10 anos, em geral depois de uma virose: a criança está bem, sem febre, e apoia a perna, mas com dor. Ela é tratada em casa, com anti-inflamatório e repouso, e melhora em 1 a 3 dias. O retorno ao pediatra em 24 a 72 horas é obrigatório, porque algumas doenças sérias começam do mesmo jeito. Vá ao pronto-socorro no mesmo dia se houver febre, se a criança não apoiar a perna de jeito nenhum, se tiver menos de 3 anos e mancar sem motivo claro, se a articulação estiver inchada, vermelha e quente ou se for um adolescente com dor no quadril ou no joelho.
1.O que é
Mancar é andar de um jeito diferente por dor, fraqueza ou alguma alteração no osso ou na articulação. No bebê que começou a andar, pode aparecer só como recusa em ficar de pé, voltar a engatinhar ou chorar na troca de fralda.
Um detalhe importante: problemas do quadril muitas vezes doem na coxa ou no joelho. Por isso o pediatra examina o quadril mesmo quando a queixa é "dor no joelho".
As causas variam com a idade:
- De 1 a 3 anos: a mais comum é uma fratura pequena da canela (tíbia) depois de uma queda boba, às vezes difícil de ver na primeira radiografia. Nessa idade, infecções no osso e na articulação e machucados não acidentais também precisam ser lembrados.
- De 3 a 10 anos: a sinovite transitória do quadril é de longe a mais frequente. Outras: pancadas, inflamação após infecções e, mais raramente, a doença de Perthes (problema de circulação na cabeça do fêmur, que dá um mancar lento e pouco dolorido).
- Adolescentes: dores por excesso de esporte e trauma esportivo são comuns. Mas há um problema que não pode passar: a epifisiólise, um "escorregamento" da ponta do osso da coxa no quadril, mais comum em adolescentes com excesso de peso, que muitas vezes dói só no joelho.
Doenças mais sérias, que o pediatra precisa afastar: infecção na articulação (artrite séptica) ou no osso (osteomielite), que precisam de tratamento urgente; e, raramente, doenças do sangue como a leucemia ou tumores ósseos.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Mancar, andar "puxando" a perna ou apoiando pouco um lado.
- Dor na virilha, na coxa, no joelho ou na perna.
- Na sinovite transitória: criança bem-disposta, sem febre, brincando, com dor que melhora com o remédio.
- Sinais que preocupam: febre, recusa total de apoiar a perna, articulação inchada, vermelha e quente, dor muito forte ao mexer a perna, criança abatida, dor sempre no mesmo lugar ou que continua de manhã e durante o dia, palidez, manchas roxas sem pancada, perda de peso.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Criança de 3 anos ou mais, bem-disposta, sem febre (menos de 37,5 °C na axila), que apoia a perna; dor leve a moderada há menos de 3 dias, depois de uma virose ou de uma pancada leve que explica o quadro; sem inchaço, vermelhidão ou ponto muito dolorido no osso | Anti-inflamatório e repouso relativo, após avaliação do pediatra. Retorno em 24–72 h mesmo que esteja melhor |
| 🟡 Procure o pediatra | Continua mancando depois de 7–10 dias sem diagnóstico; mancar lento e pouco dolorido que vai e volta; adolescente com dor ao se movimentar e exame normal; articulação inchada ou rígida de manhã há semanas; dor em pontos de osso ligados ao esporte | Consulta em poucos dias. O pediatra pode pedir exames de sangue e radiografias e encaminhar ao ortopedista pediátrico ou ao reumatologista |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Menor de 3 anos que começou a mancar sem motivo claro; febre (37,5 °C ou mais na axila) com dor na articulação ou no osso; não apoia a perna de jeito nenhum; criança abatida; dor muito forte ao mexer a perna; articulação inchada e quente; adolescente com dor no quadril, na coxa ou no joelho, sobretudo com o pé virado para fora ao andar; suspeita de fratura; palidez, manchas roxas ou pintinhas vermelhas sem explicação, barriga inchada, perda de peso, dor sempre no mesmo lugar ou que continua de manhã e durante o dia | Pronto-socorro no mesmo dia, de preferência com ortopedista. Adolescente com suspeita de epifisiólise: não deixe apoiar a perna |
Crianças que merecem mais atenção
- Menores de 3 anos (falam pouco e têm mais risco de infecção e de machucados não acidentais).
- Adolescentes com excesso de peso ou doenças hormonais (risco de epifisiólise).
- Imunidade baixa, anemia falciforme, uso de corticoide.
- Catapora ou feridas na pele recentes.
4.Como cuidar em casa
Só depois de o pediatra examinar e confirmar um quadro leve:
- Repouso relativo: a criança mesma limita o que faz pela dor. Nada de esporte até voltar a andar normalmente.
- Anti-inflamatório no horário combinado enquanto houver dor.
- Observe e anote: febre, se apoia a perna, se a dor piora ou melhora, se incha.
- Volte para o reexame em 1 a 3 dias, mesmo que esteja melhor. A sinovite transitória só é confirmada quando melhora como esperado.
- Na fratura da canela do bebê, o ortopedista pode imobilizar e pedir nova radiografia em 7–10 dias.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para a dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Ibuprofeno (1ª escolha na sinovite transitória): 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses, por 3 a 7 dias enquanto houver dor; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima ou somado a outros produtos com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Não alterne os remédios.
Não use:
- Antibiótico "por via das dúvidas". Ele pode esconder uma infecção no osso ou na articulação e atrasar o diagnóstico certo.
- Corticoide sem diagnóstico. Pode mascarar doenças do sangue, como a leucemia.
- Imobilizar por conta própria, pomadas "milagrosas" ou massagens na articulação dolorida.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Febre (37,5 °C ou mais na axila) junto com dor na perna ou no quadril.
- A criança parou de apoiar a perna de vez.
- Articulação inchada, vermelha ou quente; dor muito forte ao mexer.
- Criança abatida, sonolenta ou com aspecto de muito doente.
- Menor de 3 anos que começou a mancar sem explicação.
- Adolescente com dor no quadril, na coxa ou no joelho que piora ao andar.
- Palidez, manchas roxas ou pintinhas vermelhas sem pancada, dor sempre no mesmo lugar ou que continua de manhã e durante o dia, perda de peso.
- Quadro que piora, passa a ter febre ou não melhora em 48–72 h.
Como levar
- Suspeita de epifisiólise (adolescente): não deixe apoiar a perna nem "testar" a marcha. Leve no colo, deitado ou em cadeira de rodas.
- Se houver suspeita de fratura, apoie o membro numa almofada ou tala improvisada (papelão, revista) sem tentar endireitar.
- Pode dar analgésico para a dor; não dê antibiótico antes da avaliação.
- Criança muito abatida, gelada ou difícil de acordar: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta de saúde e anote quando começou, a temperatura e os remédios dados.
7.Como prevenir
- Nem sempre dá para prevenir, mas ajuda: peso saudável (menos risco de epifisiólise), aquecimento e descanso entre treinos, calçados adequados.
- Casa segura, com proteção em escadas e janelas, para evitar quedas.
- Vacinas em dia e cuidado com feridas na pele (lavar e observar sinais de infecção).
8.Dúvidas e mitos comuns
Se a radiografia veio normal, está tudo bem? Nem sempre. Algumas fraturas pequenas e infecções no osso não aparecem nos primeiros dias. Por isso o reexame é tão importante.
Meu filho adolescente só reclama do joelho. Por que olharam o quadril? Porque problemas do quadril, como a epifisiólise, costumam doer no joelho.
É "dor de crescimento"? Não. Dor de crescimento não faz mancar. Criança que manca precisa ser examinada.
Posso dar o antibiótico que sobrou em casa? Não. Além de não resolver, pode atrasar o diagnóstico de uma infecção séria.
- Mancar é sinal de que algo não está bem: leve ao pediatra para examinar.
- Na sinovite transitória, o reexame em 24–72 h é obrigatório.
- Febre com dor ou recusa em apoiar a perna: pronto-socorro no mesmo dia.
- Adolescente com dor no joelho ou no quadril que piora ao andar: sem apoiar a perna e pronto-socorro.
- Não dê antibiótico nem corticoide sem diagnóstico.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Dor nas pernas e nos braços — dor de crescimento e sinais de alerta
- Torções, pancadas e fraturas simples nos braços e pernas
- Pernas tortas, pés para dentro e pé chato — o que é normal
- Convulsão febril e primeira crise
Versão para profissionais: A criança que manca (claudicação aguda) (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- A sinovite transitória do quadril é a causa mais comum, mas só é aceita depois de afastar outras causas, com reexame obrigatório.
- Febre com recusa em apoiar a perna é infecção na articulação até prova em contrário.
- Adolescente com dor no quadril, na coxa ou no joelho: lembrar da epifisiólise.
Onde há diferenças:
- Febre: os critérios de Kocher (criados no Boston Children's) usam 38,5 °C em pesquisa; este guia usa o padrão da SBP — qualquer febre (37,5 °C ou mais na axila) com mancar pede avaliação no mesmo dia.
- Temas que a SBP não aborda: na epifisiólise e na suspeita de câncer, este guia segue a AAP e o NICE, sem prazos fixos — o encaminhamento é feito com a urgência que cada caso pede.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional A criança que manca (claudicação aguda) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Artrite aguda em crianças e adolescentes (documento científico), 2020.
- American Family Physician. Evaluating the child with a limp, 2023; Slipped capital femoral epiphysis, 2025.
- British Journal of General Practice. The limping child — when to worry and when to refer, 2020 (resume o NICE).
- Sociedade Espanhola de Urgências Pediátricas (SEUP/AEP). Cojera no traumática en Urgencias Pediátricas, 2023.