Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
A coqueluche é uma infecção por bactéria que causa crises de tosse fortes e seguidas, muitas vezes com um "guincho" ao puxar o ar e vômito depois da tosse. Começa como um resfriado e a tosse pode durar semanas a meses. Em crianças maiores e adultos, costuma ser só incômoda; nos bebês pequenos é perigosa: a tosse pode quase não aparecer e o bebê pode ficar roxo ou parar de respirar. Por isso, todo bebê com menos de 6 meses com suspeita deve ser avaliado no hospital (e o menor de 3 meses, internado). O tratamento é com antibiótico receitado, que também diminui o contágio; pessoas da família podem precisar de antibiótico preventivo. A melhor proteção é a vacina — inclusive a dTpa na gestação. Vá ao pronto-socorro se o bebê ficar roxo, pálido, parar de respirar, não conseguir mamar ou ficar muito sonolento.
1.O que é
- Coqueluche (também chamada de "tosse comprida") é causada pela bactéria Bordetella pertussis. Passa pelas gotículas da tosse e é muito contagiosa.
- Quem transmite ao bebê, na maioria das vezes, é um adolescente ou adulto da casa com tosse prolongada, sem saber que tem coqueluche — a proteção da vacina e da doença anterior diminui com os anos.
- Houve aumento de casos no mundo e no Brasil em 2024–2025. No Brasil, em 2024, 24 das 29 mortes foram em bebês com menos de 1 ano, a maioria com 1 a 2 meses — idade em que o bebê ainda não completou as vacinas.
- Fases da doença:
- Catarral (1 a 2 semanas): parece um resfriado — coriza, febre baixa, tosse seca que vai piorando. É a fase em que mais se transmite.
- Crises de tosse (2 a 6 semanas): acessos de tosse súbitos, muitas tossidas seguidas sem conseguir respirar, rosto vermelho ou roxo, língua para fora, guincho ao puxar o ar e vômito depois da crise. Entre as crises, a criança parece bem. Em geral sem febre.
- Recuperação (2 a 6 semanas, às vezes até 3 meses): as crises vão diminuindo; um resfriado pode trazer a tosse de volta.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Tosse que começa como resfriado e piora em vez de melhorar.
- Crises de tosse em sequência, com guincho, vômito ou rosto arroxeado, cansaço depois da crise.
- Tosse que dura 10 dias ou mais em bebês com menos de 6 meses, ou 14 dias ou mais nos maiores, com crises, guincho, vômito após a tosse, lábios roxos, engasgos ou pausas na respiração — o Ministério da Saúde considera suspeita de coqueluche, mesmo em quem é vacinado.
- No bebê pequeno, a tosse pode ser fraca ou nem aparecer. Os sinais podem ser só engasgos, ficar roxo, dificuldade para mamar ou pausas na respiração — às vezes, a pausa é o único sinal.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Coqueluche já avaliada e em tratamento em criança de 1 ano ou mais (ou bebê maior bem vacinado, liberado pelo pediatra); bem-disposta entre as crises; sem lábios roxos e sem pausas na respiração; come, bebe e faz xixi normalmente | Antibiótico receitado, cuidados em casa e afastamento da escola. Retorno em 48–72 horas |
| 🟡 Procure o pediatra | Criança com tosse em crises, guincho ou vômito depois da tosse, ainda sem avaliação; contato próximo com caso de coqueluche; bebê de 6 a 12 meses com suspeita; crises frequentes com vômitos, dificuldade para comer ou sono muito prejudicado; criança com doença do coração, dos pulmões ou neuromuscular | Atendimento no mesmo dia. Bebês e crianças com crises frequentes podem precisar ficar em observação no pronto atendimento |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Bebê com menos de 6 meses com suspeita (sobretudo com menos de 3 meses); pausas na respiração, fica roxo ou pálido, ou "desmaia" durante ou depois da crise — mesmo que esteja bem agora; respiração rápida ou com esforço entre as crises; não consegue mamar ou comer, vomita tudo, pouco xixi, perdendo peso; convulsão ou muito sonolento; bebê prematuro com suspeita | Pronto-socorro agora — o bebê pequeno com coqueluche precisa de hospital. SAMU 192 se parar de respirar, ficar roxo ou tiver convulsão |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 6 meses, principalmente com menos de 2 meses (antes da primeira dose da vacina).
- Bebês cuja mãe não tomou a dTpa na gestação.
- Vacinas incompletas (menos de 3 doses de pentavalente ou hexavalente).
- Prematuros; doenças do coração, dos pulmões, neuromusculares ou imunidade baixa.
4.Como cuidar em casa
- Ambiente calmo. Evite o que dispara as crises: choro prolongado, alimentação apressada, fumaça de cigarro, poeira.
- Refeições e mamadas pequenas e mais vezes. Se vomitar depois da crise, ofereça de novo um pouco depois.
- Lavagem nasal com soro fisiológico.
- Durante a crise, fique perto: sente a criança ou segure o bebê inclinado para a frente, limpe a secreção da boca e do nariz e acalme-a. Observe se fica roxa ou se para de respirar.
- Bebês com coqueluche precisam de observação contínua — não devem ficar sozinhos.
- A tosse demora a passar: pode durar semanas a meses, mesmo com o antibiótico certo. Isso não significa que o tratamento falhou.
- Escola ou creche: a criança fica afastada por pelo menos 5 dias depois de começar o antibiótico (ou 3 semanas depois do início das crises, se não foi tratada).
- Notificação: o serviço de saúde é obrigado a notificar a vigilância epidemiológica, já na suspeita. A vigilância pode entrar em contato com a família para orientar os contatos.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Antibiótico — só com receita:
- O pediatra receita o antibiótico (em geral a azitromicina, por 5 dias) já na suspeita, sem esperar o resultado do exame. O exame (coleta de secreção do nariz) deve ser feito antes ou nos primeiros 3 dias do antibiótico.
- O antibiótico serve principalmente para cortar o contágio; quando começado cedo, também diminui os sintomas.
- Dê nos horários certos e complete o tempo receitado. Não guarde sobras.
Antibiótico preventivo para os contatos: pessoas que tiveram contato com o caso nos últimos 21 dias podem precisar tomar o mesmo antibiótico, mesmo que sejam vacinadas — principalmente bebês com menos de 1 ano, pessoas com imunidade baixa ou doença pulmonar, quem mora com eles, gestantes a partir de 32 semanas não vacinadas e quem cuida de bebês. O pediatra ou a vigilância indicam quem deve tomar.
Para febre ou dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); não use por mais de 48–72 h sem reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos. Bebê com menos de 3 meses com febre deve ir ao pronto-socorro.
O que não usar: xaropes para tosse, expectorantes, bombinhas (broncodilatadores) e corticoides — não diminuem as crises de coqueluche. Nada de antibiótico sem receita.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Bebê com menos de 6 meses com suspeita de coqueluche.
- Pausas na respiração, bebê que fica roxo ou pálido ou "desmaia" na crise — mesmo que esteja bem depois.
- Respiração rápida ou com esforço entre as crises, febre alta.
- Não consegue mamar ou comer, vomita tudo, faz pouco xixi.
- Convulsão ou sonolência excessiva.
Como levar
- Nunca deixe o bebê sozinho no caminho: um adulto dirige e outro vai observando a respiração.
- Se o bebê parar de respirar, estimule-o (esfregue as costas ou a sola dos pés) e ligue para o SAMU 192.
- Limpe com delicadeza a secreção da boca e do nariz.
- Quem tem tosse deve usar máscara.
- Leve a caderneta de saúde (a da mãe também, com a dTpa) e os remédios em uso.
7.Como prevenir
- Vacinas do bebê em dia: pentavalente (SUS) ou hexavalente/penta acelular (rede privada) aos 2, 4 e 6 meses, com reforços aos 15 meses e 4 anos. Não atrase a vacina dos 2 meses.
- Gestante: dTpa a partir de 20 semanas, em toda gestação. Os anticorpos passam para o bebê e o protegem nos primeiros meses. Se não foi feita, tomar no pós-parto o quanto antes.
- Quem convive com o bebê (pais, avós, babás) com vacinas em dia; a SBP recomenda reforço de dTpa na adolescência e a cada 10 anos.
- Pessoas com tosse devem evitar contato com bebês, usar máscara e lavar as mãos.
8.Dúvidas e mitos comuns
Meu filho é vacinado. Pode ter coqueluche? Pode, porque a proteção diminui com o tempo, mas em geral a doença é mais leve.
Por que dar antibiótico se a tosse vai continuar? Porque ele corta o contágio — principalmente para proteger bebês — e, se começado cedo, alivia a doença.
Adulto também pega? Sim, e costuma ter só uma tosse prolongada. É assim que muitos bebês se contaminam.
A dTpa na gravidez é segura? Sim. É recomendada em toda gestação pelo Ministério da Saúde e pela SBP e é a melhor proteção para o bebê nos primeiros meses.
- Bebê com menos de 6 meses com suspeita de coqueluche precisa de avaliação no hospital.
- Pausas na respiração ou bebê roxo: pronto-socorro ou SAMU 192, mesmo que melhore.
- O antibiótico é receitado já na suspeita; os contatos podem precisar de antibiótico preventivo.
- Afastamento da escola por 5 dias depois de começar o antibiótico.
- dTpa em toda gestação e vacinas do bebê sem atraso.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Tosse que não passa (tosse persistente e crônica)
- Pneumonia na criança
- Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores
- Vacinação
Versão para profissionais: Coqueluche (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- A azitromicina é a primeira escolha, e o mesmo esquema serve para o tratamento e para os contatos.
- O bebê pequeno é quem corre mais risco e muitas vezes precisa de hospital.
- A vacina dTpa na gestação é a principal proteção do recém-nascido.
Onde há diferenças:
- Até quando tratar e quem recebe antibiótico preventivo: o Ministério da Saúde trata todo caso suspeito e, desde 2025, ampliou os contatos com indicação, com prazo de 21 dias; os EUA (CDC) e o Reino Unido limitam o tratamento às primeiras 3 semanas de tosse (6 semanas no bebê), e a AEP indica a prevenção dos contatos de preferência nos primeiros 12 dias. Este guia segue o Ministério da Saúde (Nota Técnica nº 165/2025).
- Bebê com menos de 1 mês: a tabela do Ministério da Saúde inclui a eritromicina, mas a SBP e a SBIm a desaconselham nessa idade (risco de estreitamento na saída do estômago). Este guia segue a SBP: azitromicina.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Coqueluche desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 — tratamento, quimioprofilaxia e prevenção da coqueluche, 2025.
- SBIm e SBP. Coqueluche — atualização. Nota Técnica, 2025.
- Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., 2023.
- CDC. Clinical care of pertussis.
- Associação Espanhola de Pediatria. Tos ferina — Protocolos de Infectología.