Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Dor de cabeça é comum em crianças e adolescentes. Na grande maioria das vezes, é enxaqueca, dor tensional ou acompanha uma virose, e não indica doença grave. O pediatra faz o diagnóstico conversando e examinando (pressão arterial, olhos e exame neurológico); exames de imagem só são necessários quando há sinais de alerta. Na crise, dê o analgésico logo no começo, na dose certa para o peso, e deixe a criança descansar em lugar escuro e silencioso. Não use analgésico em mais de 2 a 3 dias por semana. Vá ao pronto-socorro se a dor for súbita e muito forte, vier com febre e pescoço duro, sonolência, confusão, convulsão, fraqueza, visão dupla, andar cambaleante, vômitos em jato repetidos ou após pancada na cabeça.
1.O que é
- Enxaqueca: crises de dor moderada a forte, que duram de algumas horas até 3 dias (na criança, costumam ser mais curtas). Na criança, a dor muitas vezes é dos dois lados, na testa ou nas têmporas, latejante ou em pressão, e piora com atividade. Vem com enjoo, vômitos, incômodo com luz e barulho (a criança procura o quarto escuro). Costuma haver casos na família.
- Aura: em algumas crianças, antes da dor aparecem sintomas passageiros (de 5 a 60 minutos), como pontos brilhantes na visão, formigamento ou dificuldade para falar.
- Dor tensional: dor em aperto, dos dois lados, leve a moderada, que não piora com esforço e não dá vômitos.
- Dor por outra causa: as mais comuns são viroses com febre e sinusite. Mais raramente: pancada na cabeça, pressão alta, meningite, tumor, problemas em quem tem válvula no cérebro (derivação), intoxicação por monóxido de carbono (vários moradores com dor de cabeça, aquecedor a gás).
- Dor por excesso de analgésico: tomar analgésico muitos dias por mês pode manter a dor de cabeça.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Dor de cabeça que vai e volta, com dias sem dor entre as crises (padrão típico da enxaqueca).
- Palidez, enjoo, vômitos, vontade de ficar deitado no escuro; muitas vezes a crise termina com o sono.
- No pequeno que não sabe explicar: choro, irritação, parar de brincar, segurar a cabeça.
- Em algumas crianças, a enxaqueca aparece como episódios de vômitos repetidos, dor de barriga ou tontura.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Dor igual às crises de sempre, já avaliada pelo pediatra, ou dor durante uma virose; criança alerta, falando e andando normalmente; melhora com o analgésico e o descanso | Analgésico no começo da dor, repouso no escuro, água; anote no diário. Retorno programado com o pediatra |
| 🟡 Procure o pediatra | Dor que não passa com o analgésico em casa ou vômitos que impedem o remédio (sem desidratação); crises frequentes (4 ou mais por mês) ou que fazem faltar à escola; analgésico em muitos dias do mês; dor que acorda a criança ou aparece ao acordar, com vômitos pela manhã; dor que piora com tosse ou esforço; dor sempre atrás da cabeça e do mesmo lado; mudança no padrão da dor; criança com menos de 6 anos com dor de cabeça que se repete | Consulta em 24–48 h; no mesmo dia se a dor não cede e há vômitos. O pediatra examina, decide se precisa de exame de imagem e, nas crises frequentes, encaminha ao neuropediatra |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Dor súbita e explosiva, "a pior da vida"; febre com pescoço duro, manchas roxas na pele ou criança muito abatida; sonolência, confusão ou convulsão; fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, dificuldade para falar, visão dupla, andar cambaleante; vômitos em jato repetidos com piora; dor após pancada na cabeça; criança com válvula (derivação) com dor e vômitos; imunidade baixa; vários moradores com dor de cabeça (aquecedor a gás); crise de enxaqueca que dura mais de 3 dias ou com vômitos sem parar; aura diferente, longa ou com fraqueza | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver convulsão, sonolência intensa, confusão ou fraqueza |
Crianças que merecem mais atenção
- Crianças com menos de 6 anos (têm mais dificuldade de descrever a dor, e causas secundárias são mais frequentes).
- Quem tem válvula no cérebro, neurofibromatose, câncer, imunidade baixa, doença falciforme, problema de coagulação ou cardiopatia.
- Adolescentes em uso de anticoncepcional, corticoide, tetraciclinas ou isotretinoína, ou com obesidade (risco de aumento da pressão dentro da cabeça).
- Crianças sob estresse: violência, bullying, sobrecarga escolar.
4.Como cuidar em casa
Na crise
- Dê o analgésico logo no começo da dor, na dose certa para o peso — esperar piorar reduz o efeito.
- Repouso em quarto escuro e silencioso, sem telas; dormir costuma encerrar a crise.
- Ofereça água e, se houver fome, um lanche leve.
Para ter menos crises
- Diário da dor: anote dia, horário, duração, o que a criança estava fazendo, o que comeu, o que tomou e se melhorou. Leve na consulta.
- Sono regular, com horário para deitar e acordar.
- Refeições nos horários, sem pular o café da manhã; beber água durante o dia.
- Atividade física regular.
- Telas: respeite o tempo recomendado para a idade e desligue 1 a 2 horas antes de dormir.
- Evite cafeína e energéticos (refrigerante de cola, chá-mate, café).
- Converse sobre escola, amizades, bullying e preocupações — estresse e ansiedade desencadeiam crises.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para a dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa. Na crise de enxaqueca, o pediatra costuma orientar a dose do limite mais alto da faixa:
- Ibuprofeno (primeira escolha na enxaqueca): 5–10 mg/kg por dose (na enxaqueca, 10 mg/kg), a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose (na enxaqueca, 15 mg/kg), a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, em criança que come pouco ou somado a antigripais com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg. A regra de "1 gota por quilo" dá dose maior que a recomendada.
- Não alterne analgésicos para "somar efeito".
Não exagere no analgésico: use em no máximo 2 a 3 dias por semana (no máximo 14 dias por mês). O uso frequente causa mais dor de cabeça. Se isso já está acontecendo, converse com o pediatra — não suspenda outros remédios por conta própria.
Com receita médica:
- Triptanos (remédios específicos para a crise de enxaqueca, em comprimido ou spray nasal), para alguns adolescentes e crianças maiores, conforme a bula; também têm limite de dias por mês.
- Remédio para enjoo e vômitos (ondansetrona), quando o médico indicar.
- Remédios preventivos, tomados todos os dias, quando as crises são frequentes ou atrapalham a vida; são indicados pelo neuropediatra ou pelo pediatra, e a família precisa entender efeitos e cuidados de cada um.
O que não usar: codeína e outros opioides; ácido acetilsalicílico (AAS) antes dos 16 anos; associações com cafeína, ergotamina ou relaxantes musculares; remédios de adultos.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Dor súbita, explosiva, "a pior da vida".
- Febre com pescoço duro, manchas roxas na pele ou criança muito abatida.
- Sonolência, confusão, convulsão.
- Fraqueza, formigamento ou dificuldade para falar que não passam; visão dupla; andar cambaleante.
- Vômitos em jato repetidos, com a dor piorando.
- Dor depois de pancada na cabeça, com vômitos, sonolência ou desmaio.
- Criança com válvula (derivação) com dor de cabeça e vômitos.
- Vários moradores com dor de cabeça ao mesmo tempo (saia de casa e areje o ambiente).
Como levar
- Se estiver acordada e engolindo bem, dê o analgésico antes de sair.
- Se estiver sonolenta ou vomitando, não dê nada pela boca e transporte-a deitada de lado.
- Convulsão, confusão, fraqueza ou sonolência intensa: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta, o diário da dor e os remédios em uso, com os horários das doses.
7.Como prevenir
- Os hábitos de "Para ter menos crises" (sono, refeições, água, atividade física, telas, cafeína) e cuidado com o peso.
- Não usar analgésico em excesso.
- Capacete na bicicleta e no skate e cadeirinha no carro; aquecedores a gás revisados e ambientes ventilados.
8.Dúvidas e mitos comuns
Toda criança com dor de cabeça precisa de tomografia? Não. Com exame normal e sem sinais de alerta, o exame de imagem não ajuda e expõe à radiação. O pediatra indica quando necessário.
Dor de cabeça é problema de vista? Raramente. O exame de vista pode ser feito, mas óculos quase nunca resolvem a enxaqueca.
Enxaqueca tem cura? Não tem "cura", mas tem controle: hábitos, tratamento certo da crise e, se preciso, remédio preventivo. Muitas crianças melhoram com o tempo.
Posso dar analgésico todo dia para prevenir? Não. Isso causa mais dor de cabeça. Prevenção se faz com hábitos e, quando indicado, com remédios próprios.
- A maioria das dores de cabeça na infância é benigna; o exame do pediatra é o que diferencia.
- Na crise: analgésico logo no começo, na dose certa, e repouso no escuro.
- Analgésico em no máximo 2 a 3 dias por semana.
- Diário da dor, sono regular, refeições, água e menos telas à noite.
- Dor súbita e fortíssima, febre com pescoço duro, sonolência, fraqueza ou vômitos em jato: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Convulsão febril e primeira crise
- Batida na cabeça (traumatismo craniano leve) e concussão
- Distúrbios do sono na infância
- Tela, Educação e Responsabilidade
Versão para profissionais: Cefaleia e enxaqueca (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- O diagnóstico é feito pela conversa e pelo exame neurológico.
- Tomografia ou ressonância só com sinais de alerta.
- Na crise, o ibuprofeno é a primeira escolha.
- Codeína e outros opioides não devem ser usados.
Onde há diferenças:
- Qual referência seguir: a SBP e o Ministério da Saúde não têm documento oficial recente sobre dor de cabeça na criança. Este guia segue a diretriz das sociedades americanas de neurologia e de cefaleia (AAN/AHS, 2019) no tratamento e o NICE e a AEP nos sinais de alerta.
- Triptanos (remédios específicos da enxaqueca): as idades permitidas mudam de país para país. Este guia segue a bula brasileira e a receita do médico.
- Dipirona: é muito usada no Brasil, mas não aparece nas diretrizes americana e britânica. Este guia a mantém como opção, na dose padrão do site.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Cefaleia e enxaqueca desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- American Academy of Neurology / American Headache Society. Acute treatment of migraine in children and adolescents; Pharmacologic treatment for pediatric migraine prevention, 2019.
- NICE. Headaches in over 12s: diagnosis and management (CG150).
- Associação Espanhola de Pediatria. Cefalea en el niño y el adolescente, 2022.
- Residência Pediátrica (revista da SBP). Apresentação clínica das cefaleias primárias na infância e adolescência, 2018 (artigo; não é documento oficial da SBP).