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Asma na criança — crise e controle

Como agir na crise, por que o tratamento de controle é diário e quando ir ao pronto-socorro

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

Na asma, os brônquios ficam inflamados e sensíveis e, em algumas situações, se fecham: aparecem chiado, tosse (sobretudo à noite ou com exercício), falta de ar e aperto no peito. Viroses, poeira, ácaros, fumaça, exercício e mudanças de tempo são gatilhos comuns. Na crise, o remédio de primeira linha é a bombinha de alívio (salbutamol) com espaçador, conforme o plano de ação escrito do pediatra; crises moderadas podem precisar de corticoide pela boca por poucos dias. No dia a dia, nenhuma criança com asma deve ficar só com a bombinha de alívio: o corticoide inalatório trata a inflamação e evita crises. Vá ao pronto-socorro se a criança só conseguir falar palavras soltas, ficar agitada, sonolenta ou confusa, com lábios roxos, ou se não melhorar após a primeira hora de bombinha.

1.O que é

  • Asma: doença em que os brônquios ficam inflamados e reagem demais a gatilhos, com sintomas que vêm e vão, mudam de intensidade e melhoram com o tratamento.
  • Quando começa: em qualquer idade. O diagnóstico fica mais seguro a partir dos 5–6 anos, quando é possível medir a função dos pulmões (espirometria e outros testes). Abaixo de 5 anos, veja o guia de chiado de repetição.
  • Duas partes do tratamento:
    • Alívio: abre os brônquios na hora da crise.
    • Controle: trata a inflamação, todos os dias, para que as crises não aconteçam.
  • É comum junto com rinite alérgica e dermatite atópica, e em famílias com essas doenças.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

  • Chiado no peito, tosse seca, falta de ar, aperto no peito.
  • Tosse que acorda à noite, ou que aparece com exercício, riso ou choro.
  • Cansaço mais rápido que o dos colegas nas brincadeiras.

Sinais de que a asma não está controlada (nas últimas 4 semanas): sintomas durante o dia mais de duas vezes por semana, acordar à noite por causa da asma, usar a bombinha de alívio mais de duas vezes por semana, deixar de brincar ou fazer esporte por causa da respiração. Se isso acontece, leve ao pediatra para rever o tratamento.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Fala frases completas; respiração normal ou pouco mais rápida; não usa os músculos do pescoço para respirar; oxímetro (se tiver) acima de 94%; pico de fluxo (se usar) acima de 50% do melhor valor Bombinha de alívio com espaçador conforme o plano de ação; manter o remédio de controle. Se a bombinha de alívio estiver sendo usada mais de duas vezes por semana, procure o pediatra para rever o controle
🟡 Procure o pediatra Fala frases, mas prefere ficar sentada; não está agitada; respiração mais rápida; oxímetro entre 92% e 94%; pico de fluxo acima de 50%; melhora com a bombinha na primeira hora Inicie a bombinha como no plano (doses repetidas na primeira hora) e procure atendimento no mesmo dia. Após uma crise moderada, reavaliação em 24–48 h
🔴 Pronto-socorro agora Fala só palavras soltas; senta curvada para a frente; agitada; mais de 30 respirações por minuto; usa os músculos do pescoço e afunda as costelas; oxímetro abaixo de 92%; pico de fluxo de 50% ou menos; sem melhora após a primeira hora de bombinha, ou precisando dela antes de 2 horas. Risco de vida: sonolência, confusão, lábios roxos, peito "silencioso" Pronto-socorro agora, usando a bombinha no caminho. SAMU 192 se houver sonolência, confusão, lábios roxos ou peito silencioso

Crianças que merecem mais atenção (risco de crise grave)

  • Já foi internada, intubada ou esteve em UTI por asma; teve crise grave no último ano.
  • Usa muito a bombinha de alívio sem corticoide inalatório, ou não usa o remédio de controle direito.
  • Técnica errada da bombinha, ou não tem plano de ação escrito.
  • Alergia alimentar confirmada, obesidade, fumaça de cigarro em casa.
  • Dificuldades sociais ou de acesso ao serviço de saúde.

4.Como cuidar em casa

  • Tenha o plano de ação escrito e deixe uma cópia na escola. Ele diz: o remédio de controle (nome, dose, horário), como reconhecer a piora, o que fazer na crise e quando ir ao pronto-socorro.
  • Use sempre o espaçador: agite a bombinha, encaixe no espaçador, aperte um jato por vez e respire devagar 5 a 6 vezes (ou puxe o ar fundo e prenda por 10 segundos, se a criança conseguir). Repita até completar os jatos do plano.
  • Enxágue a boca depois do corticoide inalatório.
  • Reduza os gatilhos: casa sem fumaça de cigarro, menos mofo e ácaros (arejar, limpar com pano úmido); tratar a rinite alérgica.
  • Atividade física é bem-vinda. Se a asma aparece com exercício, o pediatra pode orientar usar a bombinha antes.
  • Escola: com a asma controlada, a criança participa de tudo. Depois de uma crise, volta quando estiver respirando bem e sem febre.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

Bombinha de alívio (salbutamol) com espaçador: abre os brônquios em minutos. Na crise, use a quantidade e o intervalo do plano de ação (na primeira hora, podem ser doses repetidas a curtos intervalos). Se precisar dela com frequência, o controle não está bom.

Corticoide pela boca: para crises moderadas a graves, por 3 a 5 dias, com receita. Não precisa diminuir aos poucos. Cursos repetidos não substituem o tratamento de controle e somam efeitos indesejados.

Tratamento de controle (corticoide inalatório): é o centro do tratamento da asma. Conforme a gravidade, o pediatra indica:

  • corticoide inalatório sempre que usar a bombinha de alívio; ou
  • corticoide inalatório todos os dias, em dose baixa; ou
  • combinações de corticoide com broncodilatador de longa ação, às vezes na mesma bombinha para controle e alívio.

O tratamento é revisto em 1 a 3 meses após cada mudança e reduzido depois de 3 meses de bom controle. Não pare por conta própria, mesmo sem sintomas.

Para a febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:

  • Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
  • Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); uso seguido por mais de 48–72 h pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
  • Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
  • Não alterne antitérmicos.

O que não usar: tratar a asma só com a bombinha de alívio; xaropes broncodilatadores, xaropes para tosse, mucolíticos e antialérgicos na crise; antibiótico sem sinal de infecção por bactéria; corticoide pela boca por conta própria; inaladores de pó durante a crise (a criança não consegue puxar ar com força).

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • A bombinha não alivia após a primeira hora, ou o alívio dura menos de 2–3 horas.
  • Não consegue falar frases, senta curvada para a frente, costelas e pescoço afundando.
  • Lábios roxos, oxímetro abaixo de 92% ou pico de fluxo abaixo de 50% do melhor valor.
  • Agitação, sonolência ou confusão.
  • Já teve crise quase fatal, UTI ou internação recente e está em crise.

Como levar

  • Deixe a criança sentada, na posição que preferir.
  • Continue a bombinha com espaçador no caminho, conforme o plano.
  • Se o pediatra deixou corticoide pela boca no plano e ela ainda não tomou, siga a orientação escrita.
  • Sonolência, confusão, lábios roxos ou peito silencioso: ligue para o SAMU 192.
  • Leve a bombinha, o espaçador, o plano de ação e anote os horários das doses.

7.Como prevenir

  • Remédio de controle todos os dias, quando indicado, e técnica revisada em toda consulta.
  • Vacinas em dia: gripe todo ano e COVID-19 conforme o calendário.
  • Casa sem fumaça (inclusive de cigarro eletrônico), com menos mofo e ácaros.
  • Tratar a rinite alérgica e manter peso saudável.
  • Consultas regulares e encaminhamento ao pneumologista ou alergista pediátrico quando a asma não fica controlada, as crises são graves ou há dúvida no diagnóstico.

8.Dúvidas e mitos comuns

Bombinha vicia ou "fraca o coração"? Não. O salbutamol pode acelerar o coração e causar tremor por pouco tempo, o que é esperado. A bombinha com espaçador é a forma mais segura e eficaz de dar o remédio.

Corticoide inalatório é perigoso? Ele é usado na menor dose que mantém a asma controlada, e o pediatra acompanha o crescimento e possíveis efeitos. Perigoso é deixar a asma sem controle, com crises repetidas e cursos de corticoide pela boca.

Inalação (nebulização) é melhor que bombinha? Não. A bombinha com espaçador é tão eficaz quanto a nebulização, inclusive na crise.

Criança com asma pode fazer esporte? Pode e deve. Com a asma controlada, ela participa de tudo. Se a falta de ar aparece com exercício, o pediatra orienta como prevenir.

Lembre-se
  1. Bombinha de alívio é para a crise; o remédio de controle é diário, mesmo sem sintomas.
  2. Use sempre o espaçador, um jato por vez, e enxágue a boca após o corticoide inalatório.
  3. Tenha o plano de ação escrito em casa e na escola.
  4. Depois de uma crise moderada, reavaliação em 24–48 h.
  5. Fala só palavras, lábios roxos, sonolência ou sem melhora na primeira hora: pronto-socorro.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
  • Chiado no peito de repetição (sibilância recorrente)
  • Rinite alérgica
  • Tosse que não passa (tosse persistente e crônica)
  • Pneumonia na criança
  • Vacinação

Versão para profissionais: Asma na criança — crise e controle (Patologias do consultório).

O que dizem as referências

Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.

Onde concordam:

  • Na crise, bombinha de alívio com espaçador.
  • Corticoide pela boca por poucos dias nas crises moderadas e graves.
  • O corticoide inalatório é o centro do tratamento de controle.
  • Plano de ação escrito e revisão da técnica da bombinha.

Onde há diferenças:

  • Primeiro passo do controle: a iniciativa GINA, adotada pela SBP, aceita o corticoide inalatório sempre que a criança usa a bombinha de alívio; o NICE começa com corticoide inalatório diário e passa cedo para a bombinha combinada de controle e alívio. Este guia segue a SBP e a GINA; o pediatra escolhe entre as opções.
  • Corticoide na crise: a SBP (2025) usa prednisolona por 3 a 5 dias; o Johns Hopkins e a sociedade espanhola de urgências pediátricas preferem dexametasona em dose única. Este guia segue a SBP, com a dexametasona como alternativa.

Fontes conferidas em outubro de 2026.

10.Fontes

Baseado no documento profissional Asma na criança — crise e controle desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • Global Initiative for Asthma (GINA). Summary Guide for Asthma Management and Prevention, 2025.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Uso de corticosteroides sistêmicos em doenças alérgicas em pediatria, 2025.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria e ASBAI. Guia prático de abordagem da criança e do adolescente com asma grave, 2020.
  • NICE, BTS e SIGN. Asthma — diagnosis, monitoring and chronic asthma management (NG245), 2024.
  • Sociedade Espanhola de Urgências Pediátricas (SEUP). Crisis asmática en Urgencias, 2024.